Voo | O Chamado
32 XXX Um ser de outro mundo

Voltei minha atenção ao senhor após lembrar da observação que fiz com meu pai de um ninho de passarinho.
Virei para ele e respondi lentamente;
- sim, eu conheço o processo de um pássaro até alçar o primeiro voo.
Ele sorriu de canto e prosseguiu,
- porque achamos que conosco é diferente? Nos desesperamos, queremos respostas, ficamos com raiva, chateados, exigimos soluções, temos dificuldade de aceitar os processos da vida, esquecemos que a vida é feita de ciclos. Um dia é verão, meses depois é inverno, após o inverno e o outono e após o outono a primavera, e todas as estação são essenciais para o equilíbrio do planeta terra. Na nossa vida, da mesma forma temos dias nublados, ruins, tristes, conturbados, em outros temos dias felizes, radiantes, e realizados; em alguns momentos temos dias estranhos, a qual não entendemos, parece incompleto, parado ou sem sentido; e alguns dias são de preparo, ação e desenvolvimento, porém nenhum é insignificante, todos são importantes para o crescimento. Não podemos ser descrentes, e acreditar que dias melhores não viram, não é por que está nublado e tendo uma tempestade que o sol não irá voltar a brilhar; nem as estações funcionam desta forma, se fosse assim nosso planeta estava fadado ao fim. Não concorda?
Fiquei um tempo parado sem saber o que responder. Aquele senhor estava ali, o dia inteiro me azucrinando, eu tentando desviar dele sem exato, o dia inteiro apenas lhe aturando. Mas parece que repentinamente ele havia atraído minha atenção, como se falasse comigo, falasse a minha alma.
Titubeei por uns minutos e respondi:
- Mas, você concorda que algumas pessoas vivem mais dificuldade que outras, mais dias nublados, e que às vezes a vida se torna muito dura?
Ele sorriu de canto novamente. Aquele ato de alguma forma me irritava, parecia caçoar toda vez que se referia a mim.
Agachou brincando com um cascalho que estava no chão e prosseguiu:
- Não é por que em um ano a tempestade durou mais tempo ou foi mais agressivo que ela não irá passar Darwin. Assim também é a vida. Acreditar que a vida será construída de problemas sempre ou achar que está amaldiçoado por que está vivendo algumas sucessões de fatos ruins recorrentes é nutrir uma visão céptica, pessimista e errática, e isso pode te destruir. E como lutar constantemente contra si, todos os dias acordar para te diminuir, te atrasar e rebaixar-se perante a vida. A tempestade só leva embora aquilo que precisa ser carregado, só mata o que precisa morrer, é quando ela passa o campo sabe que está preparado para produzir novamente; as flores se abrem, os frutos nascem, os pastos ficam verdinhos novamente.
Paralisei ao notar a presença de meu nome na conversa, em nenhum momento durante o dia eu citei ou pronunciei meu nome. Poderiam dizer que estava paranoico, aliás estava em um milharal, e alguém poderia ter dito meu nome, mas não, ele nunca esteve lá, tenho uma boa memória, e hoje especialmente estava procurando ficar sozinho, ou seja só estive eu e aquele senhor, e mais ninguém, os outros, a qual trabalhavam em nossa fileira estavam muito distantes, e também não eram pessoas a qual conhecia.
Enquanto eu pensava paralisado, ele soltava a pedra fazendo a mesma bater ao chão, lugar onde estava anteriormente, em seguida colocava sua mão no bolso e tirava, trazendo algo para fora.
Sorria para mim novamente, balançava a cabeça como se achasse engraçado, e antes que eu terminasse de pensar e fizesse alguma pergunta ele começava a falar novamente:
- Está vendo esta pedra em minha mão?
Algo amarelo com um vago brilho pálido reluzia em sua mão.
- Isto, é uma pequena pedra de ouro. Neste momento ela é quase sem valor. Esta pedra começou a ser tratada, por isso vale um pouquinho mais do que se estivesse a pedra bruta, encontrada ao ser garimpada. Essa pequenina pedra pode vir a ser muito valiosa, se for tratada e lapidada, e esse processo não é simples, só quem tem conhecimento para manuseá-la pode transformá-la e elevá-la ao seu máximo valor. Temos também o exemplo do barro, a qual você compreende muito bem. Você sabe que há um processo para a argila se transformar em vaso, ela deve ser selecionada, tratada, e após estes passos e colocada sobre a roda, então o oleiro, a pessoa habilitada para realizar este trabalho começa a trabalhar no barro, flexionando, pressionando, modelando o barro pacientemente. Após dar forma naquilo que antes era sem forma, vem um curto período de secagem, este trabalho então será exposto ao fogo, para ser purificado, igualmente o ouro, ambos em seu estado bruto e praticamente sem valor aos olhos da maioria das pessoas, contudo após passar no fogo, sua real essência e valor é revelada, o fogo não deforma mas reluz o que realmente são. O processo de modelagem do barro é bem mais fino, mas você o conhece, da mesma forma o ouro é lapidado sobre um disco que corta, lixa e molda seu estado atual e primário, neste material também é essencial a presença da água para deixar o material maleável e passível de ser lapidado. Temos o uso do forno em alta temperatura no vaso, para purificar e cristalizar o que já tem forma; no ouro, para purificar e deixá-lo maleável para ser moldado e manuseado da forma que o ourives decidir. Ser moldado, lapidado e lixado é um processo que causa dor, mas que é muito necessário. Trazendo para nós, também passamos por esse processo, para nosso crescimento, aperfeiçoamento e mudança. Não tem como sermos seres melhores se não formos lapidados; ou repetiremos os mesmos erros, sempre caindo nos mesmos lugares; essa é uma dor necessária a qual não exige de nós entendimento, mas entrega; é preciso coragem para viver, e mais ainda para crescer e se permitir mudar.
O quão disposto você está a se entregar Darwin? Ou você acha que o mesmo não acontece comigo e com você? Você se considera perfeito? Pensa que o Autor não necessita nos lapidar? Até as piores tempestades passam. A pergunta é, o que você fará quando ela passar, quem você será no fim de tudo, a tempestade só nos vence quando ela nos abate ou nos faz desistir de seguir em frente.
Após aquele senhor narrar tudo isso me fazendo emudecer atônito por alguns detalhes, como a presença de meu nome e a certeza de que conhecia o processo de fabricação do vaso; ele veio ao meu encontro estendendo a mão com o punho cerrado, eu levei minha mão até a sua, ele soltou a pequena pedra de ouro ainda em seu estado bruto, apenas um pouco lapidada em minha mão, deu um último sorriso de canto, como se soubesse perfeitamente desde o início tudo o que fazia e brincasse comigo, como uma criança brinca com o barro no quintal de casa, como se me conhecesse a muito tempo, e simplesmente desapareceu de meus olhos.
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