Voo | O Chamado
8 VI Dias tristes
Pai terminou de comer, pediu para o senhorzinho esperar e ficar com Deivy, pois precisava falar conosco.
Uma reunião comigo, Ozannia e Olavio, sinto muito, mas vinha algo ruim por aí. Pai levou um banquinho da sala e eu, e meus irmãos nos sentamos juntos na cama de Olavio que ficava na entrada do quarto, o que nos separava da sala era a parede e uma cortina de pano na cor vermelha que selava a entrada da porta. Nosso pai se sentou de frente conosco. Ficou um tempo de cabeça baixa, deu três suspiros. Aquilo me desesperou, quando vi já tinha expressado:
— Pelo amor pai! Fale logo o que tem que ser falado. Estou à beira do abismo, minha alma está angustiada.
Ozannia ao meu lado começou a chorar e falou pausadamente.
— Mãe, mo, rreu? Foi i-sso que aconteceu?
Como assim? Como Ozannia podia considerar algo do tipo, não!
Voltei os olhos para meu pai, esperando vê em seu rosto uma expressão de negação. Que ela estava se recuperando... ainda não estava boa, mas ficaria.
Fixei os olhos em meu pai...
Como assim?
Como sua feição não mudava?
Ele tinha abaixado a cabeça em silêncio.
Ouvi de longe, bem distante Olavio resmungar, logo ele gritava, seu choro era ouvido à distância.
Eu estava em choque e inconformado, não, não podia ser, uma mulher tão jovem, quem morre e idoso, minha mãe era muito nova. Levantei da cama e fui em direção a sala em estado de choque total, alguém falava atrás, alguém se desesperava, outro tentava acalmar, mas eu não entendia nada nem ninguém. Ao atravessar o pano vermelho e encontrar o rosto de meu irmão Deivy apavorado e assustado estendendo os braços para mim, parece que minha percepção e entendimento surgia naquele exato momento, era como se eu fosse esmagado, dilacerado, se de uma hora para a outra tudo que foi falado no quarto recaísse sobre mim.
Como pode, minha mãe tão nova partir? Por que isso acontecia?
Em um súbito, em total desespero, saí pela porta de nossa casa e corri, corri, mato adentro como se um leão faminto corresse atrás de mim. Corri, corri, corri desesperadamente. Tentando fugir da dor ou exprimi-la para fora de mim, corri sem nem saber por que o fazia.
Quando dei por mim novamente estava perto da tenda de madeira. Sentei debaixo daquela tenda com as pernas contra o peito, e ali eu não chorei, eu uivei, coloquei para fora toda a dor, desespero, indignação e tristeza. Fiquei ali, deitado no chão com o peito contra as pernas. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas foi até que o pai aparecesse em seu cavalo. Ele falava, falava, mas não sei o que era, não consegui ouvir, o mundo ao meu redor parecia ter parado. Voltamos ele e eu nos lombos do cavalo, seu galopar rápido e constante. O vento em meu rosto era tudo que sentia, o vento frio era a única coisa que me lembrava por que estava vivo.
— O ser humano e assim, em momentos de dor se perde, se abandona, esquece que está vivo, e capaz de sentir no mais profundo as densas trevas que um ser humano pode passar e tocar. Quem nunca passou por densas trevas e às vezes teve a impressão que seria engolido? Sente as coisas no mais profundo... O mesmo ser que experimenta o céu, tem a impressão de quase tocar o inferno. Tem coisas na vida a qual não tem como ser compreendida, que parece o fim, ou afeta a ponto de questionar se haverá recuperação.
"E assim que se descobre o quanto amamos e o quanto nos envolvemos a ponto de nos entrelaçarmos um com o outro, de forma que quando perdemos a pessoa amada parece que também perdemos um pedaço de nós. As pessoas nos afetam, adentram nosso mundo interior e não nos damos conta que virá também parte dele, parte de nossa dedicação, sonhos, trabalhos e objetivos. É quase impossível nos relacionarmos e não sermos profundamente marcados, pelo amor, carinho, ternura e envolvimento diário. O amor pelo outro afeta a ponto de torna parte de nós, e quando arrancado sentimos fortemente, a perda, o vazio, a falta. O amor é o único sentimento forte o bastante a ponto de ser avassalador, devastador, as vezes pode parecer irracional e incompreensível, pode soar bobo e tolo, mas também pode entrar em lugares que nenhum outro sentimento é capaz de entrar, e transformar vidas como nenhum outro pode fazer. O amor é capaz de despertar os sorrisos mais bobos, o perdão mais genuíno, a chance mais sincera, o abraço mais gostoso, os momentos mais inesquecíveis e memoráveis... ele pode invadir um coração, e deixar construções maravilhosas, inusitadas e perfeitas. E diante a perda de um amor, pode fazer te sentir o mais miserável dos homens, o mais pobre e necessitado. É derradeiro, impactante e destruidor..."
Não sei como fui parar na cama, acho que dormi de tanto chorar, nem sei ao certo quando peguei no sono, só sei que o sol raiava novamente, nascia, dessa vez tímido, pálido, sem brilho. Levantei em um salto e fui até a sala, o senhor dormia em uma esteira de palha, atravessei a sala e a cozinha e fui devagar até o quarto de meu pai. Ele estava dormindo e Deivy estava em sua cama, provavelmente chorou muito antes de pegar no sono.
Era real, não foi um pesadelo. Como queria que fosse, que tivesse sido um sonho ruim. Senti meu coração disparar, todos dormiam, só eu estava de pé. Fui até a porta de nossa casa e subi a colina, pela primeira vez minha mente estava vazia, não conseguia pensar em nada, só tinha raiva no meu coração, "por que ela?", ia arrancando os matos e jogando no chão. Senti liberdade e comecei a socar um tronco de árvore colocando para fora toda a minha revolta. Por que? por que? por que?
Sempre acreditei que alguém cuidava de tudo e todos. Mas e agora? Se há alguém que cuida de mim, ele foi descansar, será que dormiu, ou se esqueceu de mim? Meu mundo interior estava em completo caos e desordem.
Deitei na grama, olhando para o céu, azul e extenso, o que tinha acontecido? Tinha feito alguma coisa para que Ele se lembrasse de estender o céu pela manhã mas se esquecesse de mim e de minha mãe que estava acamada?
Olhava fixo quando vi algo voar no céu. Estava tão aflito que pensei ver miragem, talvez uma pegadinha de minha mente. Apertei fortemente os olhos, depois os esfreguei.
De fato... uma águiaaaa por aliiiiiii? pensei.
Nunca tinha presenciado isso antes.
Como era possível?
Levantei rapidamente e presenciei o inexplicável. Ela fazia a volta e vinha em minha direção.
Como assim?
Veio em minha frente, por um minuto pensei que toparia comigo, abaixei bruscamente e presenciei ela retornar novamente, fazendo sua curva triunfal no céu, suas asas estendidas impecavelmente, sua suave inclinação no céu era perfeita, mostrava potência, glória, segurança.
— Como era majestosa!!! pensei
Desta vez ela passava próximo a mim e pousava em um arbusto. Ela ficou ali por um tempo me olhando.
— Nem acredito, bem na minha frente. "Parecia até ser mensageira, enviada por alguém para um fim."
Daria tudo por aquele momento, no entanto fui pego de surpresa.
Uns três minutos depois ela voou majestosamente, bem alto, subindo, subindo, até que sumiu entre algumas nuvens que estavam um pouco carregadas ao norte.
Então eu ouvi uma voz que gritava em meu íntimo, no fundo de meu coração, "voar acima da tempestade". Chorava não sei se de dor ou pelo impacto que o ocorrido naquela manhã me causou. Só sei de uma coisa, aquele momento me marcou profundamente. Não sei ao certo o que aconteceu, não tinha como explicar aquele momento, mas foi algo maravilhoso, inexplicável, que nenhum acaso proporcionaria.
"O fato é que o criador do mundo jamais se esqueceria de sua criação e muito menos de sua criatura. Se não nos esquecemos do presente que tanto queríamos, nem dos sonhos que tanto almejamos, nem da possível conquista dos sonhos a qual constantemente falamos. Como pode um ser supremo que planejou e criou o universo se esquece dele, ou daqueles que habitam nele? É algo grande demais e muito significativo, de muita valia, meticulosidade, perfeição e extremo detalhe para ser abandonado, entulhado, deixado ou esquecido."
Instrumental do capítulo
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