Voo | O Chamado

9 VII Rompendo a casca: mudanças bruscas


Notas iniciais
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Desci a ladeira rumo a minha casa, fiz o caminho mais longo passando pelo rio onde pegamos água todo dia no fim da tarde. As árvores altas e verdes, o som da água seguindo o fluxo da correnteza, os pássaros que cantavam eram ouvidos a distância. A pedra das duas loucas que eu e meu irmão apelidamos, pois eram compridas e lembravam dois rostos, na sua base sua escultura parecia duas bocas enormes que gritavam. Eu e meu irmão já imaginamos muitas cenas ali, riamos com os devaneios um do outro. Posso ver minha mãe agachada na margem do rio lavando nossas roupas, o cabelo longo voando, seu rosto angelical que de vez em quando se virava para nós, sua expressão contente, os braços curtos que se movimentavam para frente e para trás.

Lembro-me de uma música cantada por nós.

Oh onde vai a moça bonita,

oh onde vai com a saia a rodar,

com seus cabelos bonitos e longos,

com seu cesto pronto a corar.

Oh linda moça de gingado de roda,

moça me diz onde irá,

seus olhos me diz linda moça

que seu coração está a rodar.

Ih Roda, roda moça

Ah roda sem parar

Quem sabe nessa roda

Seu coração pare de rodar.

Vejo sua saia rodando em uma sincronia perfeita. Como ela era maravilhosa.

Meu coração se aperta quando lembro que ela não está mais aqui, que se foi, tão cedo.

Meus olhos se enchem de lágrimas e em um instante me lembro da águia voando no céu. — Essa é uma tempestade a qual devo enfrentar.

Chego na porteira de casa, está tão silencioso, adentro devagar. Meu pai já preparava o lanche, na casa o cheiro de torrada e café. O senhor baixo, gordinho de pele clara estava sentado no banquinho, sua calça era marrom escuro com uma corda em cada lado que suspendiam até os ombros, nunca tinha visto aquele modelo de roupa, sua camisa branca; ele tinha barbas grandes e grisalhas, seus olhos eram pequenos, verdes e portava um chapéu marrom na cabeça. Olhou para mim e disse sutilmente:

— Bom dia rapaz! Já cedo estava a caminhar.

Sua voz era rouca. Retribui o bom dia sutilmente e continuei caminhando de encontro ao meu pai.

— Bença pai!

Ele olhou para mim e me abençoou dando um abraço.

Logo meu irmão mais novo acordou e os outros também. Lanchamos em silêncio.

Após lanchar pai se virou para nós e falou algo que nos paralisou.

Foi rude e derradeiro:

— Arrumem tudo, peguem o essencial que iremos partir.

"Oi? Partir, como se ali era nosso lar? Para onde iríamos?"

Meus irmãos esboçaram o mesmo semblante que eu, ainda bem que não era o único surpreso. Olavio logo interpelo.

— Como assim partir?

Pai levantou impaciente e disse:

— Assim partindo.

— Vamos para onde?

Interpelou Ozannia sendo bem expressiva.

— Não me faça perguntas, só peguem suas coisas e estejam prontos.

Pai saiu e foi para o fundo da casa.

Eu e meus irmãos nos entreolhamos desesperados. Como assim? Tudo o que conhecíamos era aquele lugar.

Tivemos resistência em arrumar as malas, pensávamos se era real.

— Pain surtou!

Dizia Olavio no quarto, andando de um lado para o outro.

— Arrumar as malas? Ir para onde? Por que sair daqui?

Virei bruscamente e segurei meu irmão pelos ombros, encostando minha testa na dele.

— Calma, não adianta nos desesperarmos agora! Nosso lar e onde estivermos, se estivermos juntos então tudo ficará bem, estou aqui meu irmão.

Olavio desabou chorando, era tudo tão difícil... nunca vi ele chorar daquela forma, sua dor era real e eu podia sentir.

Entendi porque ouvi uma voz falar em meu interior, "voar por cima da tempestade", naquele momento eu podia ajudar a todos, pois tinha uma compreensão diferente das coisas. Talvez pela primeira vez entendesse meu real propósito, o por que me sentir estranho, diferente, sem espaço.

Fui até o quarto para ver se Ozannia precisava de ajuda, mas ela recusou, sei que precisava de tempo e espaço. Ela é do tipo que quanto mais difícil as coisas, mas forte ela é. Sei que uma hora precisaria desabar, e quando isso acontecesse estaria por perto, ninguém precisa ser forte o tempo todo, todos temos o direito de fraquejar também e está tudo bem.

Todos estávamos paralisados e perplexos. Acho que com a cabeça mais fria e os ânimos tranquilos, pai parou para pensar e nos chamou novamente para a sala, desta vez todos ficamos de pé.

Ele começou balbuciando:

— Sei que essa mudança pegou todos de surpresa, acreditem ou não até eu. Não podemos ficar aqui, uma vez que é somente eu para cuidar de vocês. Vamos para a vila onde moram meus pais e irmãos. Não é fácil uma mudança nesse momento, mas é necessário, não posso mais ficar aqui com vocês.

Ozannia rapidamente falou:

— Já sou grandinha, eu e meus irmãos podemos fazer o serviço que a mãe fazia, não vai ser tão difícil, aliás ficamos aqui sete dias sem vocês dois e conseguimos fazer bem as coisas. Não foi meninos!?

Antes mesmo que concordássemos ou discordássemos, pai interpelou.

—Está decidido Ozannia, aqui não é mais nosso lar.

Pai deferiu o último golpe na expectativa e tentativa de Ozannia. Que abaixou a cabeça decepcionada. Talvez fosse até ela, lhe abraçar e consolar, mas decidi que não, não sei qual seria sua reação. Tem pessoas que dificultam o acesso e a possibilidade de apoio; provavelmente estão quebrados por dentro; não são só coisas que se quebram, porém a proteção para que não seja descoberto o problema dificulta o acesso.

Lembro-me que quando criança aos seis anos de idade, bisbilhotando o quarto de meus pais quebrei um quadro que minha mãe amava. Ele era colorido, cheio de flores e tinha um flamingo lindo à sua esquerda. Eu o admirava quando deixei ele cair da caixa que ficava no quarto, sua arte quebrou, eu me desesperei. E agora? Sabia o valor que o quadro tinha para ela. Resolvi ir até uma árvore que ficava próximo de casa, peguei sua seiva e remendei o quadro, sai dali e fingi que nada aconteceu. O fato é que aquele momento ficou preso em mim, eu sabia o que tinha acontecido, aquele quadro me acompanhava por onde quer que fosse. Comecei a ficar arredio e desconfiado como se a qualquer momento alguém fosse descobrir. Só que alguém já tinha descoberto, e esse alguém era eu, impossível de fugir, enganar e mentir. Foi aí que descobri que não tem como fugir de si, nem de sua própria mente. Depois de alguns dias acabei contando para minha mãe o que tinha acontecido. Lembro-me que quando contei amedrontado ela ficou uns minutos rindo intensamente e falou.

— Filho eu vi quando entrei no quarto, estava esperando você me contar, só isso.

Fiquei tão apreensivo sendo que ela já sabia, passei dias atormentado e preocupado, ensaiando, pensando o que faria, enquanto fugia e escondia de mim mesmo. Meu maior inimigo estava comigo, dormia, comia, banhava, saia, o tempo todo comigo.

Não tem como esconder algo, se não pode esconder de si mesmo.

Notas finais
Acha que a vida de Darwin pode melhorar? Será que tem algo maior reservado para sua vida?