Voo | O Chamado
11 IX Conhecendo o novo lar
Estávamos a horas andando mato a dentro, nos encontrávamos exaustos, o silêncio era nossa companheira em toda a trajetória.
Após um tempo o senhor em seu cavalo começou a sussurrar algumas letras.
Ele agora quebrava o longo e profundo silêncio que muitas das vezes são carregadas de profundas emoções e vastos pensamentos, e por não haver palavras que resuma ou manifeste com exatidão acaba resultando em silêncio...
"Quando nos calamos e por que as palavras acabaram ou deixaram de ter relevância em expressar o que sentimos. Nosso sentimento é bem mais vasto que os números de palavras existentes. Sim, em média 370 mil palavras não são suficientes para expressar o oceano que habita em cada ser e seu mundo particular"
Ele cantava alguma coisa, tinha uma voz boa, leve. Seu canto foi refrigério para a minha alma, a música sempre soou familiar para mim, pois era a melhor forma de expressão, fosse na alegria ou tristeza. Minha mãe tinha a facilidade de iniciar letras que exemplificavam nosso dia, quase sempre ao ir no rio ou no fim da tarde cantávamos alguma canção. Ozannia logo pegou o refrão e começou a sussurrar baixinho, lhe cutuquei e disse:
— Cante, cante alto, quero te ouvir.
O senhor gritou nos assustando. Fazendo nós dar um salto na carroça.
— Cante, cante andorinha! Quem canta seus males espanta, cantar lava a alma!
Em um coral entoávamos o mesmo refrão.
Aaaaah Não adianta me tirar de lá
Mesmo que saia dali, ali é meu lugar
Meu coração foi plantado lá, aaaah
Aaaah Nas terras de amores meu coração sempre estará
Onde estiver minha raiz eu também não saio de lá
Onde estiver minha raiz eu também não saio de lá
Onde cresceu as plantas debaixo de meu pé, meu coração também estará.
....
Não sei se ele criou a letra ou não, mas ela era perfeita para o momento, me senti abraçado. A música agora parecia fazer parte de mim mais que antes, ela falava e tocava mesmo quando ninguém ou nada o podia fazer.
Todos já estávamos agoniados, Deivy não parava quieto, ficava perguntando se estava chegando. Já estávamos a horas na estrada, o sol começava timidamente a se pôr, se esconder atrás da colina, o dia já acabava dando espaço para a noite. O senhor também se encontrava calado, seus ombros caídos indicavam seu possível cansaço.
Eu só queria ver, que lugar era esse, estava ansioso para chegar nesse "novo lar".
Minutos depois ouço pai falar:
— Olhe meninos!
Ele apontava para o horizonte que estava avermelhado.
De longe podíamos ver várias casas.
Perguntei me virando e inclinando para meu pai:
— Lá é a nossa casa? Mas, para que, aquele amontoado de casa?
Pai se virou levemente para mim, deu um leve sorriso e respondeu:
— Sim! Nosso lar está lá. Quando chegar, você irá entender.
Nunca tinha visto tantas casas juntas.
Aos poucos fomos nos aproximando. A lua aparecia e nós chegávamos em nossa morada, ela parecia anunciar nossa chegada.
Eu estava ansioso, meu coração disparava, se pudesse acelerar o tempo eu faria, só para chegar logo lá.
O fato é que ansioso ou não as coisas acontecem como devem ser, e como estava indo para lá de qualquer modo chegaria; e cheguei.
Passamos pelo aro de madeira, fiz esforço para enxergar o que estava escrito na madeira velha e desbotada:
— Bem-vindos a, a Bagé!
Parece que Bagé agora era o meu novo lar, minha e de minha família. Lamparinas penduradas na frente de cada casa iluminavam a entrada. A estrada é larga e em seu centro há árvores, não sei descrever ao certo, estava escuro, mas parecia ser um lugar aconchegante. Achei interessante o fato de ter várias casas em um só lugar. Vi de longe um menino correr atravessando a estrada, observei que ali moravam várias pessoas, e agora eu também fazia parte daquele lugar.
Após uns minutos cavalgando, parei em frente a uma casa. Pai falou parando a carroça:
— E aqui.
As madeiras escuras faziam o novo ambiente soar familiar. Em sua frente tinha um alpendre e uma escada em sua entrada; era vaidoso se comparado a nossa última morada. As madeiras estavam bem conservadas, pareciam novas. Dei um suspiro e desci da carroça, Ozannia pediu para que pegasse Deivy, dei a volta e fiquei com ele em meus braços. Observei Ozannia olhar admirada para a casa, sua feição era de espanto. Olavio logo saltou da carroça e foi andando em direção à nossa morada. Tinha um senhor alto, magro, de cabelos grisalhos e barba grande parado em frente a casa, assim que descemos veio andando em nossa direção.
— Bem vindos!
falou calorosamente apertando a mão de meu pai.
— Devem estar cansados da viagem, e um caminho longo.
Ele parecia ser legal, seu rosto passava a leve impressão de tranquilidade e sutileza.
Deivy começou a pedir para descer, coloquei ele no chão e fiquei observando o senhor. Enquanto descia Deivy ele falou seu nome, acho que era Ceilorneu. Virei para Ozannia e perguntei se esse era seu nome. Ela olhou para mim com uma cara de negação, depois deu um leve sorriso e falou bem baixinho:
— Onde ouviu isso? E Teynieu.
Vi que ela segurou o segundo riso pois sairia alto.
Teynieu continuou:
— Já queria estar em casa uma hora dessa, mas precisava mostrar a casa para você. Vamos, você vai gostar de conhecer sua nova morada.
Enquanto falava suas últimas palavras, ele abriu a porta.
"Uau! O espaço era maravilhoso."
Na entrada quatro cadeiras de madeira que ficavam à esquerda, na sua frente um banco de madeira bem polido, no centro uma mesinha em um tom mais claro; atrás das cadeiras de madeira tinha uma prateleira em toda a parede com utensílios e livros, no canto da prateleira de madeira tinha uma objeto cilíndrico de ferro, e debaixo dele um caixote de madeira. Cheguei sutilmente até meu pai e perguntei que objeto era aquele, ele me respondeu que era uma vitrola. Não quis perguntar mais nada, pois o moço falava com meu pai mostrando cada canto da casa. Apesar de não saber o que era uma vitrola, outra hora perguntaria, quando fosse mais conveniente. Na parede direita da sala tinha um quadro com uma paisagem linda, a qual me fazia lembrar de minha mãe, ela ia amar aquele lugar. De frente a porta de entrada da casa tinha um pequeno corredor a qual dava acesso à cozinha; que continha em seu centro uma mesa enorme com banquinhos, sua madeira era grossa e rústica. No canto esquerdo da cozinha olhando a partir da porta de entrada tinha um fogão a lenha, só que este tinha quatro furos onde eram colocados as panelas; de frente com a porta da cozinha tinha uma janela enorme; cinco prateleiras fixas na parede cada uma contendo cinco repartições, e três estantes, uma encostada na parede de frente com a porta, outra na parede a direita e a última na parede da porta. Da porta da cozinha virando a direita o corredor continuava, em sua parede tinha mais um quadro com paisagem e no seu meio uma estante, à direita tinha duas portas e a esquerda duas portas, era onde ficava os quartos, que eram padrões, de frente com a porta uma cama de madeira, à esquerda uma caixa de madeira grande com desenhos em sua extremidade, do lado da cama uma mesinha e do lado esquerdo da porta uma estante. Estava tão empolgado que só depois que observei que no fim do corredor tinha uma porta que dava acesso a um pequeno espaço que continha uma latrina e uma tina, objetos a qual pai disse que era para higiene pessoal.
Após mostrar o ambiente, o senhor foi embora, pai o levou até a porta, conversavam sobre alguma coisa, eu estava maravilhado observando cada detalhe da casa.
— Que lugar formidável!
Ozannia e Olavio estavam a analisar cada detalhe também, Deivy ousava mexer em algumas coisas a qual não podia.
Começamos a nos acomodar, pela primeira vez tinha um quarto só para mim, estranhei o fato de dormir sozinho, mas fiquei em meu quarto pois estava cansado demais para sair de minha cama e ir para o quarto de meu irmão. Estávamos todos exaustos da caminhada, deitamos e logo pegamos no sono, estes dias não tinham sido clementes com nenhum de nós, não tinha novidade nem preocupação que nos tirasse o sono.
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