Voo | O Chamado

12 X Uma nova perspectiva


O dia amanhecia e eu já estava acordado, antes do sol despontar no horizonte já me encontrava virando na cama de um lado para o outro. Inúmeras questões me acompanhavam, após uma noite de sono tudo se tornava mais claro e ao mesmo tempo mais estranho e diferente. Meu pai parecia conhecer aquele lugar. Ele cresceu ali? Por que tinha saído dali e optado viver isolado em nossa antiga casa? Lembro-me de ter lhe ouvido falar, "...Vamos para a vila onde vivem meus pais e irmãos.", sua voz parecia ecoar novamente.

— Pais?

Quer dizer que minha avó e meu avô moram aqui, assim como meus tios e tias? Isso era muito bom, sempre quis conhecê-los.

Tudo isso me deixava tão empolgado que não conseguia aquietar-me. Logo levantei e fiquei mais um pouco a admirar minha casa nova. Abri uma fresta da porta, algumas pessoas andavam pela rua, abri devagar até contemplar todo o cenário.

O céu azul com poucas nuvens, as árvores verdinhas no meio da vila, as pessoas que me olhavam curiosas. Um senhor do lado esbravejava com umas crianças:

— Seus moleques terríiiiiiveis! Todo dia isso, já falei para não pisar na frente de minha casa!

Fiquei um tempo olhando a cena. Os meninos riam e faziam graça com o senhor. Em um instante falei:

— Vão procurar o que fazer, deixem o senhor em paz!

Os meninos me olharam surpresos, fiz com a mão para se retirarem, então o senhor se virou para mim e resmungou:

— Vai cuidar da sua vida, não pedi para me ajudar. Esses moleques, são assim, no dia que pegar eles.... a ...... mas eles .....me pagam.........

Ele entrou em sua casa resmungando e falando coisas que eu nem entendia. "Que senhor mal educado, tanto quanto os meninos." Resolvi adentrar a minha casa, pai talvez se incomodasse de me ver na porta, era um ambiente novo.

Não me aguentei. Assim que pai acordou fui tirar algumas dúvidas. Pai estava na cozinha, colocava a água na rabinha para coar o café.

— Bom dia pai!

Fiz o ritual de costume. — Bença pai! Era uma tradição familiar.

— O dia está bonito e a rua movimentada.

Pai se virou levemente para mim.

— Já foi lá fora?

— Fui até a porta e entrei novamente, acordei bem cedo com algumas questões.

Ele logo resmungou:

— Uhm Darwin! O que quer perguntar?

Sorri levemente abaixando a cabeça meio constrangido.

— Nada pai, só estava pensando em algo que o senhor falou.

— O que eu disse que te levou a pensar?

Ele agora se virava e olhava para mim pondo o bule na mesa. Eu desviava o olhar:

— Lembrei que o senhor disse que aqui estava sua família e por isso veríamos para cá.

Estendeu-se um silêncio desconcertante, por um minuto pensei que pai fosse fingir que não tinha dito nada, que iria desconversar, porém depois de um tempo me respondeu.

— Sim Darwin, no momento certo falarei sobre isso.

Meu pai não estava muito empolgado em falar de sua família; o que teria acontecido? Não quis insistir no assunto. Dizem que quem fala demais ouve o que não quer; esperaria o momento certo.

De tardezinha pai nos levou para andar na vila. As árvores em seu centro eram lindas, na frente da praça tinha a mercearia, do lado a loja de ferramentas, do outro lado da rua a delegacia, do seu lado direito a biblioteca e de esquina ficava a igreja da vila. Pai ia narrando tudo que conhecemos e o que não conhecíamos.

Olavio questionou:

— Igreja, o que fazem lá?

Pai brevemente respondeu.

E o lugar onde as pessoas se reúnem, cumprindo seus rituais, para se conectar com o autor do universo, os cristãos chamam de Deus e acreditam que ele cuida e zela de todas as coisas.

Fiquei intrigado, pois também acreditava que alguém zelava por nós, observando a natureza tinha chegado a conclusão que existia um autor e criador de todas as coisas. Passei olhando atento ao interior da, igreja, tentando bisbilhotar, mas não consegui ver nada.

Paramos em frente a uma casa, era um casarão enorme, suas madeiras estavam meias velhas porém bem conservadas. Meu pai bateu na porta, aguardamos um tempo até que uma senhorita abriu a porta, ela sorriu gentilmente para meu pai, provavelmente o conhecia. Após alguns segundos ela se virou para nós falando:

— São eles?

Ela era bem bonita, seus cabelos ondulados e brilhosos eram enormes, seu rosto meio arredondado, seus olhos claros, respectivamente baixa, mulata, estava com um vestido longo vermelho com desenhos dourados.

Veio ao nosso encontro nos abraçando, acho que era nossa parente.

Quando ela apertou a bochecha de Ozannia falando — Que menina linda! Receei a reação de Ozannia, olhei atento querendo rir, mas retive quando me lembrei que podia fazer o mesmo comigo. Assim que lhe soltou a bochecha minha irmã passou sua mão direita no rosto massageando com ar de revolta.

Ela veio no meu rumo e agora não tinha como e nem para onde fugir, me abraçou falando — Que menino liiiindo! Bagunçou meu cabelo e deu de costas. Aquela moça era meio doida.

Adentramos aquela casarona, a sala era enorme, cadeiras, bancos, poltronas, uma lareira, fotos na parede, uma prateleira de fora a fora, um tapete enorme no centro, uma mesinha compondo o cenário, a direita uma escada circular que dava para os cômodos de cima. Sentei no banco meio constrangido tentando ver as fotos da parede, talvez reconhecesse meu pai, quando brevemente Ozannia que se sentava ao meu lado interrompia meu pensamento:

— Minha bochecha ainda dói, que mulher doida.

Olhei rindo levemente para ela.

— Está rindo por que ela não fez o mesmo com você.

Dei uma olhada no ambiente e comentei baixinho com minha irmã:

— Olha essa casa, quem mora aqui deve ser alguém importante.

— Com certeza, olha o tamanho deste lugar, já reparou nas louças do móvel no canto.

— Não tinha reparado, estou tentando ver as fotos.

Alguém atravessou a porta da cozinha para a sala, o que interrompeu minha observação minuciosa na sala, para ver quem era que se aproximava. Eram dois senhores vindo de encontro conosco. Pai logo se levantou do sofá, cumprimentou calorosamente a senhora com suas mechas de cabelos brancos, olhos pequenos quase que sumidos, e seu corpo esbelto de quem ainda esbanjava saúde; já o senhor pai cumprimentou mais distante, mal pegou em sua mão. Olhou para nós e falou apressadamente:

— Comprimente seus avós, não sejam mal educados.

Abraçamos e cumprimentamos ambos que estavam com um sorriso esplendoroso no rosto.

Ficamos um tempo ali, eu e meus irmãos não abrimos a boca para falar nada, só observávamos e sorriamos. No geral falaram sobre nosso retorno. Pai não quis falar sobre a morte da mãe, esse foi o primeiro clima ruim de muitos que se instalou na sala, depois nosso avô falou sobre a saída de meu pai de lá e que ele não deveria ter ido. E o clima ficou estranho de vez quando meu avô falou de minha mãe, sugerindo que ele tinha alertado que os dois não poderiam ficar juntos. Bem, tudo terminou com meu pai se levantando e falando:

— Vem meninos, vamos embora... Estão vendo bem, por isso morávamos em nossa fazenda, longe de todos, longe de gente como seu avô.

Nossa! Tentava entender o que acontecia ali, provavelmente um passado bem complicado com nenhum entendimento ou acordo.

"É difícil ouvir quando duas pessoas gritam, sem abaixar a guarda. O ato de ouvir é uma escolha gentil e sutil seguida da humildade e da cordialidade, escutar também pode ser um fenômeno advindo do ato de amar"

Meu avô tentou impedir que presenciássemos aquele momento, mas nosso lar era assim, todos participávamos, a verdade tinha que ser exposta. E claro que meu pai constantemente evitava tocar em algumas coisas, principalmente relacionadas ao passado, mas tentávamos ser o mais claro possível.

Ver o rosto de minha avó ao sairmos partiu meu coração, era difícil para ela!

Ela suplicava:

— Parem com isso, essa rixa de anos, será que vocês não mudam? Vocês mal chegaram Rob, eu e meus netos não temos nada a ver com isso, seus carne de pescoço!

Aquilo era realmente muito desagradável, esperei ter uma tarde tranquila, perguntar coisas para minha avó, tomar seu chá, ver de perto as fotos.

Mas os abismos afastam, isolam, bloqueiam, dificultam... e um abismo chama o outro.