A estalagem era bem vagabunda. Por mais que os proprietários se esforçassem para dar ao ambiente uma cara um pouco mais acolhedora, os frequentadores daquele lugar eram os mais baixos possíveis. Ladrões, Orcs fedorentos, foragidos, caçadores de recompensas e toda sorte de degredados frequentavam aquele lugar. Na parte de baixo da estalagem funcionava uma taverna. Próximo a porta ficava o balcão, onde o dono da estalagem e sua esposa se revezavam em servir canecas de cerveja e comida para os famintos frequentadores do lugar. O salão era grande, e repleto de mesas, sempre ocupadas. No lado oposto ao balcão, ficava a escada que levava ao segundo andar. Na parte de cima ficavam os quartos, sempre com lotação máxima. A vila funcionava como um entreposto, o tráfego de mercadorias e pessoas da região era intenso.

Era ainda muito cedo da manhã e o lugar já estava lotado. Alguns frequentadores haviam acabado de chegar, mas a grande maiorias dos ocupantes das mesas estava ali desde a noite passada, todos bastante entorpecidos de cerveja barata. O lugar fedia a suor de Orc, cebola frita e pão mofado.

No fundo do bar, na parte mais escura do lugar, sentado sozinho, estava um cavaleiro. Ele também estava ali desde a noite passada, mas ele não passara a noite bebendo. Um dos quartos da estalagem foi alugado por ele, mas ele pouco dormiu essa noite. O Cavaleiro adorava aquele lugar, especialmente naquela hora da manhã. Ele sabia o que muita cerveja ruim, degredados com carência de sono e um ambiente daquele produziam. Ele passava a noite esperando por aquele momento. Logo o espetáculo iria acontecer, ele esperava ansioso.

O cavaleiro vestia uma armadura preta, sem elmo. Por baixo da armadura uma cota de malha evitava que o metal pesado machucasse sua pele. Na verdade não era muito necessário, o cavaleiro tinha o corpo forte, sua musculatura era trabalhada, sua pele era grossa, calejada por horas de treinamento. Sobre a mesa estava sua arma, um escudo dourado, pontiagudo. Nele havia um brasão redondo com uma cabeça de fênix. A manopla direita de sua armadura era bem maior que a esquerda, parecia ser muito mais resistente, e ela tinha uma espécie de soqueira.

O cavaleiro ouviu gritos e xingamentos no meio do salão. Dois orcs e um humano, vestido com uma capa com um capuz, jogavam cartas. “que tipo de idiota joga cartas com um ladrão?” pensou o cavaleiro. Mas pra ele isso pouco importava, o momento havia chegado. Quando um dos Orcs viu que o humano escondia cartas nas mangas, a confusão foi imediata. Os Orcs avançaram com seus tacapes para cima do humano, esse andou de costa e caiu sobre a mesa de um grupo de anões, derrubando suas canecas de hidromel. Os anões já estavam bêbados e não entenderam o que acontecia. Eles acharam que os Orcs estavam atacando e reagiram sacando seus machados. A confusão foi geral, o caos estava instalado, era o que o cavaleiro esperava.

Quando ele vivia em casa, antes de entrar naquele trem fantasma, sua maior alegria era mostrar o quanto era rico. Seu prazer era mostrar aos outros como sua família tinha dinheiro e posses. Ele nunca perdia uma oportunidade de esbanjar. Quando completou 16 anos, seu pai lhe deu um carro novo de presente, ninguém da sua turma tinha carro, muito menos um conversível vermelho. Ele fazia questão de mostrar a todos o quanto era sortudo de ter nascido naquela família. Mas ali naquele reino ele era pobre, não tinha nada além do seu escudo. Não tinha posses nem dinheiro para ostentar. Mas ele descobriu, depois de um tempo, um novo prazer na vida. Brigar. Ele frequentava esse tipo de lugar pra arrumar confusão e brigar. Quanto mais idiota fosse o motivo das brigas mais prazer ele sentia. O cavaleiro tinha plena noção de que aquilo era uma substituição para o seu prazer de ser rico. Mas ele não ligava para isso. Quando a adrenalina do momento caia na corrente sanguínea ele esquecia do mundo em que vivia, esquecia da saudade de casa que tanto lhe perturbava o sono, esquecia da falta que o seu pai fazia. Por um breve momento ele esquecia o ódio que sentia daquele reino.

A confusão no bar aumentou. Um Orc com quase dois metros e os olhos injetados de ódio, veio correndo na direção do cavaleiro. Ele pegou o seu escudo de cima da mesa, e segurando com as duas mãos nas bordas ele fez um movimento rápido para cima, e acertou em cheio o queixo do Orc que já estava quase alcançando-o. O Orc, já inconsciente, fez um arco perfeito no ar, e caiu em cima de uma mesa, transformando-a em migalhas. O cavaleiro ficou de pé e encaixou o escudo no seu antebraço esquerdo, deixando a mão direita livre para golpear. Um dos anões do outro lado do bar arremessou o seu machado em direção ao cavaleiro, a arma atravessou todo o salão, passando várias vezes bem próximo das cabeças de outras pessoas. No momento exato o cavaleiro ergueu o escudo para aparar a arma do anão. Quando a lâmina do machado tocou o escudo do cavaleiro, uma luz branca emanou, e a arma do anão espatifou-se em um monte de pequenos pedaços de madeira e metal. Os estilhaços do impacto atingiram em cheio o rosto de um homem que estava próximo ao cavaleiro. Instantaneamente o rosto do homem ficou com vários pontos de sangue, ele virou lentamente em direção ao cavaleiro e ergueu sua espada de duas mãos acima da cabeça. Urrando de ódio ele golpeou o cavaleiro, que ergueu o escudo e se defendeu jogando a espada do oponente para o lado. O golpe foi tão forte que arma desceu até o chão de madeira e ficou com parte da ponta enterrada e presa. O homem ficou puxando a arma com ambas as mãos, quando ele olhou novamente para o cavaleiro foi só pra ver o soco se aproximando. O cavaleiro desviou o golpe da espada e no mesmo movimento aplicou um direto no rosto homem. O rosto do homem fez um som de ossos quebrados quando foi atingido pela manopla do cavaleiro. Ele caiu inconsciente, o cavaleiro não sabia se o homem estava desmaiado ou morto, não dava tempo de pensar nessas coisas.

O cavaleiro olhou em direção ao balcão do bar e viu a esposa do dono com lágrimas nos olhos, tentando defender o lugar com um lança. O seu marido que já estava habituado com aquele tipo de situação estava em cima do balcão com uma massa de corrente atacando todo mundo que se aproximava. Era uma arma que fazia bastante estrago, uma bola de metal, cheia de espinhos pendurada em um pedaço de madeira por uma corrente. O homem pequeno girava a arma e atacava a esmo. A cena pareceu muito engraçada para o cavaleiro. O dono do bar já havia derrubado muitos arruaceiros. Alguns que ele atingia estavam desmaiados próximos ao balcão, com muito sangue escorrendo das cabeças, outros mais sortudos que usavam elmos estavam cambaleando pelo lugar, e eventualmente eram atingidos por espadas ou machados.

Já eram poucos os combatentes de pé naquele campo de batalha. O cavaleiro havia derrubado mais três Orcs com três diretos certeiros. Na sua frente ainda havia quatro anões e dois humanos, todos armados e vestindo armaduras. O cavaleiro colou o escudo bem próximo ao corpo, na altura do ombro, assumiu uma posição de defesa. O escudo começou a brilhar uma luz branca e intensa, o cavaleiro correu em direção aos homens, mantendo o escudo o tempo todo colado ao corpo. Ele foi correndo e se chocando com as pessoas, anões e homens iam voando para o lado à medida que o cavaleiro corria e nocauteava a todos. O cavaleiro correu até o outro lado do bar, próximo a porta de entrada. Ao chegar lá o silêncio se instalou no lugar, não havia mais o som de metal se chocando contra metal, nem gemidos. Ele se virou e viu o salão com vários corpos no chão. Em pé no balcão, com o rosto manchado de sangue, o dono do bar arfava com a massa na mão, o sangue pingava da arma, que balançava suavemente como um pêndulo. A esposa do dono do bar estava em pé ao lado do marido com o olhar amedrontado segurando a lança que estava limpa sem nenhum vestígio de sangue. Os dois viraram a cabeça lentamente em direção ao cavaleiro, que sorria de satisfação.

O cavaleiro estava sem marca alguma do combate, só a sua manopla direita apresentava marcas de sangue. O seu escudo estava brilhante e polido como antes do combate. Os três combatentes restantes ficaram se olhando em silêncio, havia no ambiente um misto de constrangimento e arrependimento. O silêncio no ambiente só foi quebrado pelo barulho do pouso de um pássaro no batente da porta. Era uma espécie de pomba, com as penas cinza claro e um anel de penas brancas no pescoço, em uma de suas patas havia um aro de metal com uma pequena pedra verde. O aviso tinha que vir justo agora que tudo estava ficando tão divertido?

O cavaleiro estendeu o braço e a ave veio pousar. A pomba soltou um leve arrulho, o cavaleiro concordou com a cabeça, como se conversasse com o animal. A ave voou pela janela quebrada, por um anão que foi arremessado pra fora durante a luta, e desapareceu no céu azul da manhã. O cavaleiro meneou com a cabeça para os donos da taberna e saiu pela porta, quando os raios de sol tocaram o escudo brilhante com a cabeça de fênix, a luz se tornou intensa ao redor do cavaleiro, por um breve momento. O dono da taberna e sua esposa ficaram se olhando.

Enquanto caminhava em direção à saída da cidade, o cavaleiro olhou para trás e do segundo andar da estalagem destruída pela luta, três lindas jovens acenavam para ele, com pouquíssima roupa cobrindo seus corpos, e um largo sorriso de satisfação em cada rosto. O cavaleiro piscou com um olho só para as três, e seguiu seu caminho com o mesmo sorriso de satisfação.