Uma bola de fogo do tamanho de uma laranja atingiu em cheio a placa de madeira no formato de um Orc, a representação do monstro só se mexeu levemente. Uma segunda bola de fogo, do tamanho de uma melancia seguiu a mesma trajetória da primeira, dessa vez o boneco do orc se desfez em pedaços, provocando um barulho tremendo.

O mago estava vestido com uma túnica verde escura, bem grossa. Ela não era lisa, havia uma série de bordados sutis que davam a roupa um leve aspecto de escamas de dragão. As escamas eram claramente visíveis só quando os raios de sol incidiam diretamente nelas, no resto do tempo elas ficavam obscuras, em um jogo de sumir e aparecer conforme o movimento do vento.

Naquela manhã o mago tinha feito vários bonecos representando uma variedade de monstros do reino. Com magia, ele tinha colocado em cada boneco a densidade verdadeira dos monstros representados. O seu treinamento consistia em produzir bolas de fogo com o tamanho adequado para abater cada monstro específico.

Não era o treinamento que ele mais gostava. Produzir bolas de fogo era uma das magias mais difíceis. Era um tipo de mágica que ele fazia sem recorrer ao seu chapéu mágico. Ele aprendera em um livro de magias como extrair energia do solo e concentra-la na palma da mão, depois disso fica fácil canalizar a energia e transforma-la em uma bola incandescente.

Durante muito tempo o mago dependia só do seu chapéu mágico para produzir magia. O problema é que ele nunca recebera treinamento de magos e as suas magias sempre foram um desastre. Mas um tempo atrás ele passou uma temporada com um dragão ancião, que lhe ensinou muito sobre a magia e os seus mistérios ocultos.

O mago estava vivendo em uma floresta encantada. Sozinho ele ocupava uma cabana no alto de uma grande árvore. Por mais que ele fosse um pouco covarde, ele acreditava que a floresta o protegeria dos perigos do reino. Ele escolhera a floresta por acaso, sempre que se separava dos amigos, ele buscava refúgio em um lugar diferente, dessa vez calhou de ser aquele bosque. Ele encontrava diferentes criaturas o tempo todo na floresta. Um dia ele chegou a ver um grupo de pequenas fadas brilhantes, elas tinham a habilidade de se esconder nas sombras, mas para a sorte do mago, nesse dia elas estavam brincando. Era possível ouvir a risada das fadas por toda a floresta, o som das suas vozes era tranquilizado, ao ouvir o mago sentiu uma paz incrível. Há muito tempo ele não sentia uma coisa tão boa, a sensação o fez lembrar de casa, dos dias de festa em família, dos abraços de sua mãe. Quando as fadas passaram e o silêncio reinou novamente na floresta o mago voltou à realidade, uma súbita tristeza tomou conta do seu coração, e o mago chorou.

O mago podia sentir a força mágica que dominava a floresta. Talvez por isso ele tenha se sentido tão confortável naquele lugar, afinal, ele também era um ser da magia. Em muitos dias o bosque parecia uma entidade com vida, era possível sentir a energia fluir entre as árvores, os pequenos animais e até dele mesmo. Em outros dias a floresta parecia como qualquer outra, com sons de pássaros, animais se escondendo em suas tocas, e insetos voando entre as flores. Era nesses períodos de solidão que o mago treinava os poucos feitiços que ele sabia realizar. A metodologia de treinamento dele consistia em tentativa e erro, ele criava palavras e rimas e tentava tirar do seu chapéu algo de útil. O feitiço que melhor funcionou com essa técnica foi tirar do chapéu seis pombas mágicas, as aves eram treinadas para encontrar em qualquer parte do reino ele e seus amigos. Com a ajuda das aves o grupo poderia se reunir muito mais rápido, desde então os pequenos pássaros passaram a fazer parte da jornada de todos eles.

Com certeza a caça não era a melhor habilidade que o mago possuía. Basicamente ele se alimentava de cogumelos e frutas que ele conseguia coletar na floresta. Em uma dessas caminhadas para coletar alimentos o mago teve uma das mais incríveis experiências desde que chegou ao reino pelo trem fantasma do parque de diversões. Ele tinha acabado de encontrar uma área repleta de trufas selvagens brancas, no momento que se abaixou pra coletar ele ouviu um barulho de luta, imediatamente ele correu pra se esconder atrás de uma árvore. Seguro e protegido pelo tronco da árvore ele começou a procurar a origem do barulho. Há mais ou menos 100 metros de onde ele estava se desenrolava uma batalha incrível, Um dragão ancião e três lobos brancos gigantes estavam se enfrentando. O mago foi se aproximando lentamente até o campo de batalha. O dragão estava encurralado. De imediato o mago não percebeu, mas o dragão estava muito machucado no flanco direito, por isso ele não conseguia contra-atacar as investidas dos lobos. Mais tarde o dragão explicou ao mago que momentos antes ele estava em combate com um dragão de sete cabeças que tentava roubar uma de suas gemas de energia. O mago, ele próprio não sabe o porquê, se desesperou ao ver o dragão ancião ser atacado e correndo o risco de morrer. Ele já tinha ouvido falar de dragões anciões, geralmente essa espécie era pacífica e amiga das outras criaturas, eles eram antigos, muitos já tinham mais de 400 anos de vida. Era um privilégio ver um dragão como esse, seu tamanho era de um cavalo grande, sua coloração era escura, tons de escamas entre o preto e verde, muito brilhosas. Mesmo gravemente ferido o dragão era páreo para um lobo gigante, mas três contra um era uma desvantagem que o dragão não suportava. O mago pegou seu chapéu e tentou tirar alguma arma que pudesse acabar com os lobos, mas ele estava muito nervoso, a única coisa que ele conseguiu tirar do chapéu foi uma buzina histérica. O aparelho começou a apitar chamando a atenção dos lobos, os lobos se distraíram por uma fração de segundos, foi o tempo necessário para o dragão conseguir revidar aos ataques dos lobos. O dragão atacou o lobo da esquerda com um golpe certeiro de sua garra, o golpe abriu um ferimento gigantesco no lobo, a ferida infeccionou instantaneamente. O lobo começou a gritar de dor e se afastou do dragão. Com a calda espinhosa o dragão atingiu o lobo da esquerda, o animal foi arremessado com o golpe, voou por cima da cabeça do mago e foi atingir em cheio uma árvore centenária. O lobo que restou hesitou entre fugir e atacar o dragão, a hesitação custou a vida dele, o dragão percebeu o medo do lobo e o atacou saltando com as garras expostas sobre o animal. Estava terminado, o saldo da luta foi um dragão ferido e cansado, três lobos brancos gigantes mortos, e um mago franzino apavorado segurando uma buzina que não parava de apitar.

O dragão foi se aproximando lentamente do mago, parou bem próximo e disse:

—Obrigado pela ajuda humano, mas por favor acabe com esse barulho, é insuportável.

—Eu.. é... eu... é... – foi a única coisa que o mago conseguiu dizer

O Dragão aproximou a cabeça ainda mais do mago e disse uma palavra mágica que o mago nunca tinha ouvido, na mesma hora a buzina se transformou em cinzas.

—Estou lhe devendo um favor humano – a voz do dragão soava como um trovão – e eu sou conhecido por pagar os favores. Você pode pedir qualquer coisa, se estiver ao meu alcance eu realizarei.

—Eu quero voltar pra casa – o mago disse com a voz embargada de medo.

—E onde fica a sua casa humano?

Em outro mundo eu e meus amigos entramos em trem fantasma e viemos parar aqui o mestre dos magos no deu armas e poderes mas o Vingador está o tempo todo tentado roubar nossas armas para enfrentar o Tiamathi— O mago falava sem parar, sem dar tempo nem de respirar.

—Silêncio humano! Gritou o dragão. Eu não tenho poderes para mandar nada nem ninguém para diferentes mundos. Mesmo se eu soubesse um feitiço que fizesse isso, toda minha energia vital seria drenada tentando. Você vai ter que pedir outra coisa.

O mago ficou em silêncio, o medo sumiu do seu corpo, ele se deu conta que o dragão não poderia manda-lo pra casa, mas poderia ajudar a achar um caminho pra lá.

—Eu quero aprender a usar magia como você.

—Hahahahahahaha – a gargalhada do dragão ancião ecoou na floresta, vários pássaros voaram das árvores, e pequenos animais correram assustados. – Humano, você nunca usará magia como eu, a não ser que você consiga viver 400 anos, estude todos os dias, e se transforme em um dragão.

—Então me ensine o máximo que eu possa aprender. – disse o Mago, já sem nenhum medo do dragão, e assumindo uma posição de desafio.

—Está certo, eu estou lhe devendo, sem a sua valiosa ajuda, talvez eu não conseguisse vencer os lobos. Temos um acordo, eu vou ensinar aquilo que eu puder sobre magia, depois você segue o seu caminho, e tenta voltar pra casa.

O mago passou um mês com o Dragão, até que uma pomba cinza com penas brancas no pescoço, e um anel na pata direita, apareceu. Mas foi um mês intensivo de treinamento. O mago descobriu que o seu chapéu era a principal fonte de sua magia, e que muito poder ainda estava oculto nele, mas dependia do próprio mago revelar esse poder. O dragão ancião também ensinou-o a como utilizar a força dos elementos da natureza para produzir energia, e lançar magias. O mago também aprendeu a controlar suas emoções, isso ajudava a produzir magias realmente úteis com o seu chapéu, ainda era difícil para o mago, na maioria das vezes ele só conseguia tirar inutilidades do seu chapéu, mas ele já tinha evoluído muito.

Agora, toda oportunidade que o mago tinha, ele colocava em prática os ensinamentos do Dragão Ancião. E era exatamente o que ele estava fazendo naquela manhã, desenvolvendo a técnica de controle de bolas de fogo. Há um mês ele estava vivendo no sopé de uma grande montanha, protegido por magias e armadilhas que ele mesmo aplicou ao redor de uma caverna. Ele passava as noite na caverna, estudando à luz de uma lanterna mágica, uma esfera de energia luminosa que ficava flutuando no centro da caverna. Era uma magia aprendida com o Dragão Ancião. Durante o dia o mago aplicava o seu conhecimento desenvolvendo técnicas de luta com magia.

Um dos bonecos de treinamento era um Krull gigante. O modelo de madeira criado pelo mago tinha mais de 3 metros, a altura média dos Krulls, mas o mago já ouvira relatos de que alguns Krulls mais velhos poderiam ser mais altos e mais fortes. Ele estendeu a mão, com a palma virada para cima, e começou a se concentrar. Ele podia sentir a energia fluir da terra para o seu corpo, e aos poucos ir se concentrando na palma da sua mão. Uma pequena esfera de fogo surgiu onde ele sentia a força se concentrar, a alguns centímetros da sua mão. A pequena esfera foi crescendo, até atingir o tamanho de uma bola de basquete. O mago ajustou as pernas para receber o empuxo que o lançamento da magia produzia, mirou bem na cabeça do Krull de madeira, e no momento exato em que ele ia lançar a bola, uma pomba cinza com um anel na pata direita, pousou no boneco.

O mago desfez a magia, a bola de fogo evaporou no ar, e uma leve onda de choque se espalhou pela área. A pomba voou do boneco e foi pousar no braço do mago.

—Oi minha amiguinha – disse o mago enquanto fazia carinho com o dedo na cabeça da ave.

A pomba arrulhou de satisfação em resposta ao afago do mago.

—O Hank te mandou? Parece que essa temporada se escondendo do Vingador foi bem curta, hein amiguinha? Espere-me na naquela árvore – disse o mago fazendo sinal com a cabeça na direção de uma grande árvore – eu vou só arrumar minhas coisas e já vamos partir. Estou com saudades dos nossos amigos.