A casa parecia vazia. Era uma casa simples, com alicerces de pedra e as paredes de madeira. O pé direito era alto, uma grande viga de madeira atravessava toda a sala. Na parede do lado oposto da porta de entrada da sala ficava uma lareira pequena, ideal para aquecer o lugar nos dias de inverno. Mas agora era verão, o calor era intenso vindo dos três sóis do reino, não era preciso acender uma lareira, e não seria preciso pelo menos pelos próximos 4 meses. Os móveis que faziam parte da decoração eram poucos e velhos, não passavam de um sofá de madeira, duas poltronas também de madeira e um tapete de pelos de urso pardo. Na parede, acima da lareira havia um arco grande de madeira sem corda. Na cozinha havia um velho fogão a lenha, uma mesa pequena e dois bancos de madeira. Na parede, próximo ao fogão havia uma prateleira com poucos utensílios domésticos, algumas colheres, canecas e pratos. No lado oposto a cozinha ficava o único quarto da casa, era um nicho pequeno, com uma cama de casal e uma pequena cômoda. A única janela era pequena, suficiente para passar poucos raios de sol. A casa tinha uma pequena varanda, e na parte de trás um quintal era usado para uma pequena horta e um humilde galinheiro, que estava vazio. A casa fazia parte de uma vila, mas ficava bem afastada no núcleo urbano. Ficava próximo de um grande bosque.

A porta da frente se abriu e por ela entrou um homem de cabelos longos e loiros, a musculatura de seu corpo era definida, principalmente a parte das costas, resultado de muito tempo de treinamento com arco e flecha, os traços definidos do seu corpo ficavam bem marcada sob suas roupas justas. Ele usava uma roupa de caçador que se resumia a uma calça cinza e uma camisa com capuz preta, tudo muito sujo de mato e lama, um par de botas de couro de alce, macias e confortáveis, ideais para caçar. Na mão direita ele trazia um arco curto e nas costas um alforje com 8 flechas de madeira. Na mão esquerda um saco de tecido com um peru selvagem e um roedor de porte médio, abatidos naquela manhã.

—Sheila, você está em casa? – Perguntou o arqueiro ainda na porta da casa. O silêncio foi sua resposta.

O arqueiro foi até a cozinha e largou o saco com o resultado de sua caçada, em cima da mesa. Ele não estava com disposição para limpar os animais agora. A área onde ficava a casa era muito pobre em animais selvagens, caçar era sempre complicado e cansativo. Criar animais para o consumo era impraticável, já que eles ficavam pouco tempo nos lugares, sempre fugindo e se escondendo. O arqueiro passou pela sala em direção a porta que dava para o quintal da casa, no caminho ele deu uma rápida olhada no arco longo sem cordas em cima da lareira. A arma emanou um brilho amarelado, reagindo ao olhar do jovem.

Lá fora o céu da manhã estava bonito. Poucas nuvens pintavam de branco o azul intenso do céu. Ele encostou-se ao batente da porta e começou a reparar nos detalhes do quintal, a pequena horta, o galinheiro abandonado, a cerca de madeira. Aquela visão começou a despertar no arqueiro lembranças de casa. Ele odiava quando aquilo acontecia, para o arqueiro aquele reino, aquela prisão – como ele se referia ao lugar nos momentos de maior ódio – nunca deveriam despertar lembranças de casa, porque o seu lar era um sonho, e aquele lugar no máximo poderia ser um pesadelo. Ele sentiu as lágrimas se acumularem nos olhos. Para evitar que elas transbordassem o arqueiro procurou algo na paisagem que fizesse ele esquecer aquelas lembranças.

Quando ele e Sheila chegaram a essa casa, mais ou menos 2 meses antes, a casa estava abandonada. Eles se esforçaram para reformar o máximo que podiam. Ambos já estavam acostumados àquela rotina. A vida deles se resumia a ocupar casas abandonadas, cavernas escondidas, e toda sorte de lugar que poderia servir como abrigo temporário. Muitas vezes eles não se preocupavam em fazer reparos nos imóveis que ocupavam, mas em alguns eles se empenhavam em transformar em um lar, mesmo que temporário. O arqueiro acreditava que aquilo era só sintoma da saudade de casa, a necessidade de criar um lar. Naquela casa eles se esforçaram bastante nas reformas, tinham até construídos móveis para a sala e um colchão de palha. A cama já estava no cômodo antes deles invadirem o imóvel, mas estava em péssimo estado, foi preciso horas de dedicação com o martelo e pregos para deixa-la segura. Eles não se preocuparam muito com o quintal, apenas araram uma pequena área para plantar verduras. Eles tinham uma porção mágica de crescimento de plantas, presente do seu amigo mago. Além disso, eles construíram uma casa de pássaros, onde ficavam seis pombos cinza, mas que agora só tinha dois.

O arqueiro se assustou com a falta dos outros 4 pássaros. Ele sabia o que aquilo significava. O arqueiro ficou nervoso e preocupado. Voltou-se para dentro da casa e gritou mais uma vez por Sheila, mais uma vez o silêncio foi a resposta. Ele correu até o quarto, abriu um pequeno baú que estava próximo da cama e tirou de lá uma roupa de arqueiro completa. A vestimenta era lisa, verde escura com padrões geométricos em marrom na bainha e na gola em V da camisa. A calça era verde também, mas sem os padrões em marrom. O tecido era bem grosso, resistente a flechas, desde que não fossem disparadas de muito próximo ou que não estivessem encantadas. Depois de ter vestido a sua roupa o jovem foi até a sala e retirou o arco sem corda da parede acima da lareira. A arma brilhou quando o arqueiro tocou nela.

No momento em que o arqueiro retirou a arma da parede ele ouviu um barulho atrás dele. Por instinto ele se virou rapidamente e armou uma flecha de energia. A conexão entre o arqueiro e arma era incrível, o simples gesto de passar os dedos próximo da arma e tencionar uma corda imaginária já acionava a arma e uma flecha pulsante de energia surgia, junto com uma corda tão brilhante quanto. A arma poderia disparar diferentes tipos de flecha, bastava o arqueiro imaginar um objetivo para o disparo e o arco produzia a flecha. O arqueiro vasculhou com os olhos a sala, mas ela estava vazia, nenhuma ameaça aparente. Como por encanto a mesa da sala se mexeu sozinha.

—Sheila, é você? Perguntou o arqueiro baixando a arma e desfazendo a flecha de energia.

—Sim Hank, sou eu – Uma voz feminina respondeu vindo do nada.

— O que aconteceu? Onde você estava? Perguntou o jovem

Sheila materializou-se no centro da sala assim que retirou o capuz de sua capa mágica da cabeça. A bela moça ruiva estava vestida com um vestido curto e leve, a roupa chegava até o meio de suas pernas, ela usava também um par de botas de couro de alce, semelhantes a que o arqueiro utilizava para caçar. As botas eram especiais, tinham a capacidade de silenciar os passos de quem usava, por isso o arqueiro não ouviu Sheila se aproximar. A moça ainda preservava resquícios de sardas no rosto, o que lhe dava um ar ingênuo e quase infantil. Ela tinha o corpo magro e esguio, o que lhe conferia flexibilidade e agilidade. A sua arma mágica era a capa com capuz que lhe permitia ficar invisível.

—Eu fui até a cidade confirmar as minhas suspeitas. Sheila respondeu se aproximando para beijar Hank.

—Que suspeitas? Quando você soltou as aves? Alguma já voltou? – Hank perguntou nervoso.

—Calma Hank, ainda temos tempo. Ontem a tarde quando você saiu pra caçar – ambos olharam para o saco em cima da mesa da cozinha – fui fazer uma ronda na cidade. Fui até o mercado com o pretexto de comprar especiarias. Olhei os rostos procurando alguém suspeito, fiquei a maioria das vezes oculta nas sombras – era uma habilidade que Sheila havia desenvolvido nos últimos anos – Na porta de uma taverna eu vi um grupo de homens conversando, usei a capa para ficar invisível e me aproximei para ouvir a conversa. Quando me aproximei um dos homens estava terminando de falar, só consegui ouvir um fragmento da frase dele “os pupilos do Mestre dos Magos”

Os olhos do Hank se arregalaram com a frase. Depois de tantos anos eles ainda nos chamam por esse nome pensou o arqueiro. Ele indicou com a cabeça para que Sheila continuasse.

— Eu nem esperei pra saber o que ele queria, voltei correndo pra cá e enviei as quatro aves em busca dos outros. Eles já devem estar a caminho. Como você não voltava da caçada, eu passei a noite escondida no galinheiro, invisível. Hoje pela manhã voltei na vila para confirmar. O homem ainda estava lá, perguntando por nós. Ele nos conhece muito bem Hank, perguntou sobre nossas armas e habilidades.

— Era um dos homens do Vingador? Perguntou o arqueiro.

— Não sei Hank, não consegui confirmar isso. O estranho é que ele é um humano, você sabe que o vingador domina as outras criaturas do reino, mas os humanos raramente.

— Eu sei. Mas pode ser até o próprio vingador disfarçado. Ele é o rei da mentira. — Disse o arqueiro com ódio nos olhos.

— Eu não sei e nem quero tirar a prova. – Disse a jovem de cabelos ruivos — O melhor é fazer o que fazemos sempre, vamos nos reunir e ir pra outro lugar. Lá, cada um segue um caminho para se esconder, separados é mais difícil de nos identificarem. Eu perguntei na feira, existe uma cidade um pouco maior há uns dois ou três dias de caminhada. Podemos ter melhores informações sobre o vingador e seus homens lá.

—Eu estou cansado de fugir Sheila. – Disse o arqueiro com o ar triste – Quando estávamos com o Mestre dos Magos nós só andávamos e andávamos, mas pelo menos tínhamos a chance de voltar pra casa. Agora nem essa possibilidade nós temos.

—Não diga isso Hank, você sabe que o Presto estuda dia e noite tentando descobrir um modo de voltar pra casa, e que nós já estivemos muitas vezes bem próximo de conseguir isso, mesmo sem a ajuda do Mestre dos Magos. Nossa única chance é preservar nossas armas e seus poderes, se o Vingador conseguir rouba-las de nós aí sim não teremos nenhuma chance de voltar pra casa, nem de nos mantermos vivos.

—Eu sei Sheila, sei muito bem disso. Mas é frustrante não poder fazer o que eu mais sei, que é lutar por algo. Passar a vida fugindo nunca esteve nos meus planos.

—Pense assim Hank, não estamos fugindo, estamos apenas adiando o inevitável confronto com esse mundo. Agora me ajude a guardar nossas coisas e a apagar nossos rastros, não temos muito tempo.

Ambos saíram em direção ao quarto do casal.