Vodka E Bier
11 Imbróglio
Notas iniciais
Minha respiração se deteve por segundos o suficiente até eu respirar profundamente, como se estivera me afogando. Tomei coragem e repeti:
– Vatti, Mutti, eu tenho um namorado rus... — Num movimento rápido, minha mãe largou a torrada e a faca e tapou os ouvidos do meu irmão mais novo. — ...so...
– Mutti, o Ludwig já sabe disso... — falei num tom desanimado.
– É verdade – respondeu meu irmão, estóico, mastigando seus cereais.
Minha mãe não falou nada, largou o meu irmão e abaixou o rosto em direção às suas belas unhas, cravadas na madeira da mesa da cozinha.
Foi o meu pai quem quebrou o silêncio, com o passar de folhas do jornal.
– Pois muito bem – ele disse -, quando é que vamos, finalmente, conhecer o rapaz?
Confesso que fiquei surpreso com o ,,finalmente”.
– Err... — eu fiz – Não sei. Eu queria apresenta-lo a vocês o quanto antes.
– Então o que está esperando! — exclamou o meu pai de forma surpreendentemente amistosa.
– Bom, o Ivan- esse é o nome dele- trabalha num hospital em Moscou, então ele precisa tirar fér...
– Ach! É um médico?! — fez meu pai.
– Ja ja. Na verdade, ele estagia nesse hospital.
– E ele é um bom futuro médico, pelo que ouvir falar, Vatti, Mutti, ele até foi fazer estágio voluntário na Sibéria! — ajudou-me meu irmão.
Olhei para Ludwig cheio de gratidão. Ach como eu amo o meu irmãozinho!
– Oh, verdade? — perguntou minha mãe, pela primeira vez.
– Aham — eu fiz.
Ludwig e eu sabíamos que uma coisa que enternecia o coração de nossa mãe eram trabalhos voluntários. Ela sempre falava com orgulho que, quando jovem, havia sido voluntária num programa da Cruz Vermelha para ajuda aos refugiados de Ruanda e que tinha conhecido Vatti lá; portanto, o fato de o Ivan ser voluntário numa região escondida de Meu Deus, lá na gélida Sibéria, fez minha mãe esboçar um sorriso.
Com algum tempo, ficamos os quatro falando sobre o Ivan, com meus pais bastante interessados. Senti-me à vontade de até ligar para ele!
Qual foi a surpresa quando Ivan atendeu o telefone e eu expliquei o que tinha acontecido!
Acho que a cabeça dele girou com tanta informação, mas o fato é que eu me senti muito bem naquele dia, pois agora eu já não namorava o Ivan na clandestinidade. Meu irmão e cúmplice tinha desempenhado um papel fundamental naquele bom desfecho, e isso eu fiquei devendo a ele.
Minha própria mãe convidou o Ivan a ficar em nossa casa, segundo ela:
– Gostei da voz dele.
Eu fiquei bem feliz.
À medida que eu falava com o Ivan, maior ficava minha expectativa em ele vir a Berlim e mais eu inculcava nele essa expectativa. Fazia planos de levá-lo para conhecer minha família, minha cidade, meus amigos, minha cultura, minha cafeteria favorita, enfim: tudo o que me fazia ser eu.
Ivan ria com tudo isso e se resumia a escrever um ,,da, da, vamos sim”.
A ansiedade é uma sensação curiosa, pois ela amplia situações dentro da cabeça da pessoa. Às vezes é bom, mas às vezes é ruim e, para a minha mente ora ociosa, a ansiedade que eu sentia estava mais para ruim do que para boa e tudo o que eu pensava era que talvez o Ivan estivesse me enrolando e não viria.
Decidido a não dar asas à imaginação, aproveitei minhas férias para ler livros, sair com meus amigos e dar uns rolés pela cidade com Brudi.
Mais tarde naquele mesmo dia, recebi uma mensagem do Ivan me pedindo para entrar no MSN, o que fiz sem maiores esforços.
,,Oi”, escrevi.
,,Olá”, ele escreveu.
,,Gilbert, achei um albergue bem pertinho da sua casa. Já fiz as reservas e tudo.”
Assim que li a frase, senti o coração pulsar forte na caixa torácica.
,,E consegui passagens para o dia 10 de janeiro, ida, e 21 de janeiro, volta. Já comprei.”
Dez de janeiro seria daqui a duas semanas. Eu mal me contive.
,,VOCÊ VEM!”
No dia seguinte, comuniquei aos meus pais o que havia acontecido na noite anterior quando falei com Ivan. Meu pai me perguntou aonde ele ficaria e eu disse que ele ficaria num albergue.
Para falar a verdade, eu queria que ele ficasse na minha casa, que era grande e tinha um quarto para hóspedes, mas achei melhor não forçar a barra. Eu já tinha bastante sorte por ter pais compreensivos quanto à minha opção sexual, quaisquer outros poderiam não aceitar – ou, ao menos, parecerem aceitar – tão bem isso, como os pais do meu amigo Gregor, por exemplo; portanto, até eles terem contato com a pessoa, melhor não abusar da sorte.
Os dias pareceram escorrer rápidos e, quando menos percebi, já era dia 31 de dezembro e nos preparávamos para o Neues Jahr, mas eu estava era contando os minutos para o dia 10 e quanto mais contava, mais insuportavelmente excitado ficava!
Neste ritmo, entre uma e outra conversa com o Ivan e entre uma e outra noitada com os amigos, consegui devorar seis livros grossos, uma vez que mal podia dormir à noite.
No dia 9 de janeiro, então, não preguei o olho. 23:00 horas, Ivan chegaria às terras alemãs em menos de 12 horas!
Se dormi ou não, honestamente, não sei; pois se dormi, não tive sonho algum, e se não dormi, não lembro do que fiquei fazendo. Portanto, creio que dormi, kesesesese.
Como o aeroporto ficava mais ou menos perto de minha casa, preocupei-me em sair umas 10h. Meu pai, que estava de recesso da Procuradoria, e meu irmão foram comigo. Meu coração batia rápido e senti as mãos frias. Não era como se nunca tivesse visto o Ivan. Eu vi – e SE VI!-, mas o fato é que ele estava vindo para meus domínios, iria conhecer a minha família e isso me deixou um tanto empoderado.
Ao chegarmos ao aeroporto, procurei algum monitor com o itinerários dos vôos daquele dia. Um me informou que o vôo MK4509 procedente de Moscou havia confirmado a chegada e estava sendo esperado para as 11:26, portão Nord Ausgang, desembarque norte. Um atraso de poucos minutos, mas ainda assim, um atraso.
Aguardei impaciente, olhando de minuto em minuto o enorme relógio digital, e seus números vermelhos e preguiçosos, que ficava próximo ao portão de desembarque. Mais uma olhadela no monitor e as letras miúdas e amarelas me informaram que o avião havia aterrizado, gelandet. Agora era só esperar pelo desembarque dos passageiros, e esperar que fizessem a imigração, e esperar que coletassem suas malas, e esperar que ele não demorasse muito para fazer tudo aquilo porque uma coisa que me dá raiva é esperar quando estou ansioso!
De qualquer forma, esperei, e esperei muito, mas quando a porta automática abriu e pude vislumbrar um certo coturno preto saindo por ela, senti que toda aquela espera foi maravilhosa e definitivamente awesome.
O caminho de volta teve aquele aquele ,,ar” tenso inicial, ficamos meio encabulados, tanto pelo tempo que passamos separados fisicamente como pelo fato de meus familiares estarem por perto.
Ivan foi bem cordial e amistoso e falou conosco somente em alemão. O sotaque dele era forte, mas isso dava um charme a mais, fora que contou ,,pontos” com meu pai.
O gelo foi definitivamente quebrado quando chegamos a casa e minha mãe tinha preparado uma almoço delicioso. Fiquei feliz e comovido de ver como minha família estava me apoiando e percebi o quanto eles me amavam pela forma como trataram o meu namorado.
Ao fim da tarde, depois que minha mãe preparou um café com biscoitos que só ela faz, o momento mais legal daquele dia: meus pais convidaram Ivan para ficar lá em casa e ele aceitou.
,,Acho que minha vida finalmente entrou nos trilhos”, pensei enquanto segurava fortemente a mão do Ivan por debaixo da mesa.
XXXXX
Os dois primeiros dias que acordei e encontrei Ivan na minha casa foi estranhos. Mas estranho de uma forma boa.
Ele ria da minha cara de sono e eu ria do cabelo arrepiado dele. Notei que ele estava se sentindo encabulado e não sabia como agir.
Minha mãe disse para ele se sentir à vontade para acordar a hora que quisesse e comer o que quisesse, porque ,,Gilbert não come nada pela manhã, mas isso não significa que você deva seguir essa dieta maluca dele, querido. Coma quando sentir fome”, disse a minha mãe.
No terceiro dia, acordei cedo, muito cedo, fui ao banheiro, escovei os dentes e lavei o rosto. Eu queria surpreender o Ivan naquele quarto de hóspedes. Surpreender daquela maneira ao gosto de Kaliningrad, mas sem pasta de dentes e sem brincadeiras de moleque.
Pé ante pé, cruzei o corredor até o quarto onde ele estava, girei a maçaneta, a porta não estava trancada. Fui devagar até a cama, cheio de expectativas, mas quando cheguei lá, ele não estava!
Olhei no banheiro, olhei pelos cantos, olhei até no meu quarto, mas nada de Ivan. Desci as escadas e fui à cozinha. Lá, encontrei um aroma maravilhoso de café fresco e cheirinho de pão novo recém comprado da padaria, mas nada de Ivan nem meus pais. Foi quando notei a porta que dava para o jardim aberta, fui até lá para fechá-la, quando me deparei com a cena mais insólita!
Meus pais e Ivan fazendo poses interessantíssimas de yoga do lado de fora de casa!
Achei aquilo o máximo, super engraçado. Corri para pegar o celular e tirar fotos.
– Ah, já acordou, querido? — disse minha mãe quando ouviu o ,,click” espalhafatoso da câmera do celular.
– Mutti, nunca achei que fosse viver para ver isso!
Depois de mais uma ,,Saudação ao Sol” e ,,mãos em angemuddra” e ,,Namastê”, nos juntamos à mesa os quatro para tomar o desjejum.
Ivan explicou que praticava yoga havia alguns anos e todos os dias, como um ritual, ele acordava cedinho e praticava alguns asenas. Naturalmente, meus pais devem ter achado aquilo peculiar de início, mas agora haviam aderido às esquisitices de bicho-grilo do meu namorado. Achei coerente. E infinitamente insólito!
Algum tempo depois, meus pais pediram licença e se retiraram, pois precisavam se arrumar para irem ao fórum.
Quando ficamos finalmente a sós, puxei o Ivan pela gola da camisa e o beijei.
– Bom dia – eu disse meio contrariado.
Ele percebeu.
– Bom dia, Krolik... Aconteceu algo? Você parece meio... Contrariado?
– Pois é, Bär... Acordei cedo hoje e fui ao seu quarto na intenção de recordarmos Kaliningrad, mas para a minha surpresa, você NÃO estava lá...
Ele olhou para mim e hesitou. Percebi que suas bochechas muito alvas ganhavam um leve matiz róseo, que evoluiu para um vermelho intenso à medida que memórias dançavam no interior de seu córtex cerebral.
Ficamos em um silêncio confortável por um momento, até que ele disse:
– Bom, nada que não possa ser resolvido.
Olhamo-nos cheios de cumplicidade e eu quase esqueci de que havia meu irmão na cozinha e ele nos olhava com um ar de ,,eu não precisava dessa imagem mental às 7:30 da manhã”.
Mais tarde naquele mesmo dia, saí com Ivan para resolver umas broncas da matrícula de minha nova Universidade.
Eu havia passado em Direito e estava ansioso. Ivan foi comigo. Programa chato esse de passar o dia inteiro atrás de documentos, esperar em filas, aguardar pela burocracia padrão e ter que suportar olhares curiosos de gente metida sempre que eu abraçava o Ivan ou segurava sua mão. Mas ao final, tudo deu certo e eu podia me considerar um universitário.
Gregor, meu melhor amigo, ligou e me chamou para sair, quando soube que Ivan estava comigo, ele ficou ainda mais animado e disse:
– Mais um motivo! Quero muito conhecer esse russo que faz o meu amigo parecer uma adolescente de 15 anos. Fora que precisamos comemorar agora que somos, oficialmente, universitários!
Perguntei ao Ivan se ele estava a fim de sair com meus amigos, como ele disse que sim, confirmei com Gregor.
Gregor disse também que, curiosamente, Tóris havia ligado e ele aproveitou e estendeu o convite para o lituano.
Achei aquilo meio estranho e perguntei o por quê de Gregor ter feito aquilo, mas meu amigo dinamarquês disse que achou que Tóris, talvez, estivesse querendo resgatar as amizades, por isso ele, o havia chamado o Tóris para sair, ao que o lituano aceitou de bom grado.
Voltamos para casa ao cair da noite.
– E aquela sua ideia de ,,relembrar Kaliningrad”, ela ainda está de pé? — perguntou-me Ivan.
Ele, já completamente arrumado para sair, entrou no meu quarto enquanto eu ainda estava escolhendo uma camisa.
Ivan passou os braços ao redor de mim, puxando-me para si, em seguida, mergulhou o rosto nos meus cabelos.
– Você tem um cheiro tão bom. Cerejas pretas. Nunca me esqueço – ele disse com aquele sotaque bonito.
Senti um frêmito que me percorreu a espinha e me deixou as pernas fracas. Se ele não tivesse me soltado e dito para eu me apressar, juro que teria desistido de tudo e o jogado na cama.
Escolhi qualquer blusa verde, àquela altura, minha mente rodopiava e senti um profundo remorso de ter prometido ao Gregor que iria sair com o pessoal, porque tudo o que eu estava desejando naquele momento era dar incontrolável e selvagemente para o Ivan. Verzeihung o palavreado chulo.
Saímos.
A noite foi divertida. Gregor havia marcado com os colegas de classe num bar dançante alternativo chamado ,,Bifrost”, igual ao nome da Ponte que liga Asgard ao resto dos mundos, segundo a mitologia nórdica. Bebi um drink chamado ,,Acht Beinen” que me deixou meio zonzo, mas ainda assim, deu paraconversar com o pessoal. Gregor e Ivan pareceram se dar bem, muito embora Ivan morresse de ciúmes de Gregor.
Depois de algum tempo, bebi umas coisas lá de que não lembro e ainda filei das bebidas de Ivan, que pareceu preocupado comigo.
– Que nada, Bär! Eu tenho um destilador no lugar do fígado. Tô ótimo! — eu disse visivelmente ,,no brilho”.
Ele olhou para mim e balançou levemente a cabeça.
– Bär! — gritei – Tá tocando ,,How Soon it's now”, de The Smiths!! ACH eu gosto dessa música! Dança comigo?!
Ivan olhou assustado para mim.
– N-não, Krolik.
– Ah, vamos, vamos! — incitei, puxando-o pelo braço – Bitte, Bär, biiiiiiiittteeeeeeee.
Insisti até ele ceder.
Ficamos num cantinho mal iluminado ao lado da pista. O bar estava cheio porque era sexta-feira e muitas pessoas gostavam dessa música.
Passei os braços por cima da cabeça de Ivan, apoiando-me em seus ombros, como ele era alto, precisei me esticar todo. Ele, por sua vez, estreitou os braços ao redor de mim e ficamos mais abraçados do que dançando ou sei lá o que estávamos fazendo.
– Eu queria uma desculpa para arrancar você daquela mesa – eu disse -, você pareceu confortável com os meus amigos...
Ele sorriu e me beijou. Depois, colou os lábios na minha orelha direita e sussurrou:
– Ciúmes, Krolik?
Encostei a testa no pescoço dele e sorri baixo. Ficamos assim durante um tempo.
– Claro que sim. Você é MEU, Ivan.
Fiquei na ponta dos pés e o beijei com lascívia.
– Quero ir para casa, Bär, eu tenho necessidade de você.
Vi quando ele abriu um sorriso safado e, mesmo com as luzes muito fracas do ambiente, vi que seus olhos se iluminaram feito dois vaga-lumes, cheios de intenções.
– Eu também, Krolik. — ele disse e fez uma pausa.
– Quero coelho ao molho de cereja.
Eu sorri maliciosamente. Estreitamos nosso abraço e pude sentir meu corpo respondendo ao dele. Meu corpo respondia a qualquer toque seu, e quando sua língua encostou em meu pescoço e seus dentes se fecharam em minha pele, senti que poderia derreter ali mesmo, naquele bar.
Senti-me gemer de leve e então ele me empurrava, agora contra uma parede. Estava bastante escuro naquela parte lateral à pista de dança, onde estávamos. Eu conseguia visualizar Ivan com certa dificuldade, mas não achei nada ruim. Ele passava os dedos por debaixo da minha camisa, brincando comigo. Depois, deslizou as mão por dentro das minhas calças.
– Ivan, estamos em público — falei para ele entre beijos, rindo, no entanto.
– Você quem começou isso – ele respondeu sorrindo maliciosamente.
Ele agora estava tocando e tocando e tocando. Masturbando-me despudoradamente.
Senti minhas bochechas ficarem escarlates, mas algo dentro de mim não queria que ele parasse. Ah não, não mesmo!
Quando senti que estava perto de mostrar a ele o quanto que havia gostado, ele parou e me deixou ali. Pela metade.
Fiquei frustrado e olhei para ele demandando explicações.
Ele riu.
– Depois, Coelhinho. As luzes estão ficando mais fortes.
De fato, estavam. Ele me ajudou a ajeitar as roupas, que estavam completamente fora do lugar.
Fugimos dali sem nos despedir de ninguém.
Eu só pensava em duas coisas: ir para casa e continuar aquilo que comecei com Ivan.
Pegamos um táxi de volta a casa. O silêncio do carro fazia meus ouvidos zumbirem, acostumados que estavam à música alta do bar.
– Bär? — falei baixo para que o motorista não nos escutasse.
– Da?
– Vamos tentar algo novo hoje.
Notei que ele gostou da ideia.
O táxi parou na porta de casa. Pagamos a corrida e, assim que o taxista engatou a primeira e partiu, Ivan pegou-me pelo braço e me beijou de forma gulosa. A noite estava fria e a lua cheia iluminava o jardim de casa.
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–Nnn, nnn. Hmmm... — Gemi debaixo de Ivan.
– D-dói, Coelhinho?
– N-não. É-é bom — respondi ruborescendo ainda mais se possível fosse.
Ivan pareceu satisfeito.
Ele estava, literalmente, em cima de mim. Meu corpo, de bruços contra o colchão da cadeira espreguiçadeira do jardim, parecia afundar mais a cada movimento que ele fazia dentro de mim.
Por vezes, ele procurava o meu rosto e me beijava as faces, o pescoço, enfim, ele era bem carinhoso.
Curtimos juntos aquela sensação boa de reencontro, eu estava com saudades do contato com o corpo dele e, pelo visto, ele com o meu, uma vez que, logo após me preencher – eu deixei -, ele me puxou para si e ficamos abraçados, ouvindo nossas respirações, sem muitas forças.
Foi a primeira vez que transei no jardim. Foi... Selvagem!
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O sexo com Ivan era bom, e o período que ele passou conosco, fizemos bastante.
Meus pais deveriam desconfiar, creio, mas nada disseram. Geralmente, a gente usava camisinha, embora eu não desconfiasse de que Ivan tivesse alguma doença horrível e eu, bem, eu era virgem antes dele e não tive nenhum outro parceiro depois, mas, em todo caso e mais ainda por ele ser um futuro médico, sexo com proteção. Sempre (que possível).
Cuidamos para não fazer isso em casa, afinal, abusar da sorte seria temerário. Meus pais não gostavam que eu levasse mulher para casa, imagina um cara!
Claro que a situação era diferente, mas de toda sorte, foi melhor peregrinar nos motéis mesmo, kesesese.
Somente entre amigos: ele me deixou acabado!
Contudo, ao contrário do que toda a minha família e amigos pensavam, quando eu e Ivan saíamos não era SÓ para transar, putz, claro que não!
A gente saía muito, íamos ao museu, fiz um city tour com ele, fomos ao teatro um noite, enfim, fizemos muito passeios culturais bem legais, mas a melhor parte era mesmo estar com ele.
Nunca fui de acreditar nessas frescuras de amor, achava que era coisa de velho, mas se aquilo que eu sentia pelo Bär não era amor, mudo meu nome pra Sigfried Beilschmidt!
No penúltimo dia que ele ficou em Berlim, resolvemos ir ao Bier Garten para turistar um pouco, tomar umas Biere, comer umas Würstchen, enfim, ficar de boa.
– Esse 10 dias em Berlim foram os mais felizes da minha vida – ele me disse.
Senti as bochechas ficarem um pouco aquecidas, mas disfarcei.
– Deixa de sentimentalismos! Quando você vier para cá, será assim sempre, du dummer Bär!
Ele sorriu.
Deixar Ivan naquele aeroporto e ver seu avião decolar de volta pro fim do mundo partiu meu coração. Fiquei tristonho e melancólico. Meus pais e irmão, que foram comigo, deram-me apoio, ou seja, deram-me café. Mal comecei a sentir o vazio da partida do meu namorado, minha mãe chegou com um cappucino que ela comprou na cafeteria do aeroporto.
Consolou-me um pouco.
Naquele mesmo dia 21 de janeiro, ainda, Ivan me mandou uma mensagem dizendo que havia chegado e que estava com saudades. Disse também que ligaria no outro dia, já que ele estava morto de cansaço e era tarde. Mandou lembranças à minha família e pediu mais uma centena de vezes para agradecer a acolhida hospitaleira.
,,Por favor, diga aos seus pais que quando quiserem vir à Rússia, minha casa está à disposição.”, ele escreveu.
Achei que ele foi sincero, mas havia um pequeno detalhe, EU não conhecia os pais dele ainda e nossa relação, muito provavelmente, deveria estar na clandestinidade. Que pena.
Conforme disse, Ivan ligou no dia seguinte e falou com meus pais em seguida, falou comigo. Ficamos de bobeira um bom tempo e eu senti falta dele, se deu calor, seu cheiro, seu toque.
Os dias se passaram e, embora nos falássemos todos os dias, aquela sensação de ,,tá faltando algo” permaneceu. De minha parte não, mas sentir isso conversando com ele.
Não demorou muito e tivemos uma briga, mas uma briga séria.
Terminamos.
Não chorei. Tanto.
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Achei estranho quando o telefone tocou lá em baixo e minha mãe chamou o meu nome. Eu não recebia ligações no telefone residencial desde que Ivan terminou comigo pela enésima vez, há duas semanas.
– Filho, Antônio Fernandez Carriedo, coleguinha seu do colégio – ela gritou.
,,Coleguinha? Putz, mãe! Coleguinha?!”, pensei e ri. Imagina a cara do cara no outro lado da linha!
Antônio foi um colega de sala no colegial, conheci através de um amigo em comum. Ele era espanhol e havia entrado no colégio no ano passado, junto com outros garotos judeus espanhóis. Ele era um cara legal, mas não tínhamos contato. Era mais um ,,oi-oi, tchau-tchau”, coisa assim. Eu... não tinha opinião formada sobre ele.
,,Que estranho, o que esse cara quer comigo?”
– Hallo? Gilbert na linha.
– ¡Hola!, Gilbert, buenos días. Es António acá — ele respondeu.
– Opa, Antônio, e aê, tudo certo?
– Sí, sí, gracias. Buen, Gilbert... Você passou para a Católica, não foi?
– Aham, foi. Como você sab...
– É que eu passei também e quando olhei meu nome no jornal, aproveitei para procurar se alguém que conheço passou também, então, vi usted. E também, vi que estudaremos em la misma ¡aula!
– Eita, que legal! — exclamei com pouco entusiasmo.
– Sí, sí. Entonces, peguei nosso álbum do 3º ano, aquele álbum azul, feioso, com os telefones do povo da sala, e liguei para você. Espero não ter sido muito... Intruso.
– Ach! Não, que nada.
– Amanhã é nosso primeiro dia, certo?
– Sim.
,,Verdade”, pensei comigo mesmo ,,amanhã já é meu primeiro dia de aula como um universitário!”.
– Então, será que você, talvez, não queria se encontrar comigo para chegarmos juntos?
,,Eita! Nunca imaginei que o Antônio fosse assim tímido”, pensei e tive vontade de rir.
– Claro, parceiro. Aonde você quer se encontrar? No U-Bahn, no metrô?
– Oh! Poderia ser.
– Qual estação? Na U6, Alt-Tegel tá bom pra você?
– ¡Vale! Excelente.
– Então estamos combinados.
– Genau. Bis Morgen.
– Bis Morgen.
A gente desligou os telefones.
– Era amigo seu, filho? — perguntou-me minha mãe curiosa.
– Mais ou menos, Mutti. Mas sim, era um colega de classe. Ele passou na mesma Universidade que eu e parece que seremos da mesma classe novamente! Kesesese. Marcamos de nos encontrar para irmos juntos amanhã.
– Ach! Que legal, filho. É bom que você já chega com uma companhia. Se quiser, deixo os dois na porta da Escola amanhã.
– Universidade, Mutti. Aber nein, danke, obrigado de toda forma, mas é melhor irmos sozinhos mesmo. A estação fica mais ou menos perto.
– Então está bem, filho. Em todo caso, já são 23:20h, melhor você ir dormir.
– Aham, já vou. Quer ajuda para varrer a cozinha, lavar a louça, por o lixo pra fora...?
– Sim, sim, obrigada. Você poderia jogar o lixo fora pra mim?
– Aham.
Levei o lixo e quando voltei, minha mãe disse:
– Você e o Ivan terminaram, não foi?
– ...? Como que a senhora...
– Sou sua mãe, conheço você melhor do que você imagina. Você me ajudando ao invés de estar no tec-tec-tec no computador com o Ivan!
Eu ri.
– Pois é.
– Voltam quando?
Minha mãe e seu otimismo...
– Sei não, mãe – eu disse e senti uma facada no peito.
– Ihhh... — ela fez – Bom, filho, eu não vou ficar me metendo nos seus assuntos, mas sou sua mãe e me preocupo com você. Saiba que no que você precisar, pode contar comigo e com meu apoio, richtig?
Ela me abraçou e eu a abracei de volta.
Tem certas coisas que a gente não sabe como explicar porque nem sabe o que está sentindo, e exatamente nesse tipo de situação, um abraço de mãe parece aquecer o mundo! Neste momento, chorei no peito da minha mãe.
,,QUANDO será que a gente vai voltar?”, pensei.
Fui dormir com o coração pesaroso.
Quando subi as escadas rumo ao meu quarto e passei pelo de Ludwig, visualizei o quarto de hóspedes.
Um turbilhão de memórias boas intercaladas com más se enovelaram em minha mente e tudo aquilo gritava: IVAN.
Entrei em meu quarto e peguei o celular, na esperança de haver alguma migalha de mensagem dele, mas não havia.
A frustração inundou meu peito. Liguei o computador decidido a mandar um e-mail desaforado para Ivan, digo, O e-mail desaforado!
Comecei a escrever e tratei de dizer-lhe o quanto ele era um imbecil, que ele só fazia merda, que era um russo ignorante, um urso comunista, um Bär fedido à vodka barata, um Saukerl, patife, mentiroso. Que eu detestava o cabelo dele, que ele era narigudo feito um macaco-narigudo, e que ele tinha pernas tortas feito um papagaio e que a bunda dele parecia a de um hipopótamo!
Também escrevi que eu odiava o cheiro de BODE comunista dele, e odiava a forma como torcia as mãos quando estava nervoso, parecia uma mosca em cima da Marmelade!
Escrevi tantas coisas bobas, tantas comparações exdrúxulas! E quanto mais escrevia, mais as lágrimas despencavam dos olhos e se chocavam contra minhas calças.
Lavei o peito, sequei a alma; chorei até não ter mais lágrimas, e quando finalmente terminei, subi a página até o começo para reler o que havia escrito. E ri.
– Isso é Ivan ou é uma quimera, Gilbert? — perguntei para mim mesmo.
Resolvi apagar tudo aquilo. Foi idiota demais, mas pelo menos, relaxou-me.
Foi aí que ouvi o celular vibrar em cima de minha bancada de madeira.
,,Uma mensagem do Ivan!”- constatei.
Apertei o botão do celular para abrir a mensagem, e ela dizia:
– Eu sou um babaca, mas eu amo você. Demais. Perdoa esse urso que só faz merda.
Sorri involuntariamente.
,,Esse urso idiota só faz merda...”
Peguei o celular e respondi:
– Urso bobo.
Alguns instante depois, nova mensagem:
– ,,:(“
Respondi:
– ,,>'(“
Ele mandou:
– Posso ligar para você?
Respondi mal-humorado:
– Melhor não. Tenho aula amanhã cedo.
Ele escreveu:
– É mesmo! Desculpe. Boa aula. Lindos sonhos para você, Gil.
Senti como se uma mão invisível esmagasse meu coração, o nome disso: remorso.
Alguns momentos depois, uma nova mensagem dele dizia:
– Eu sei que você está com raiva de mim e com razão, mas eu não poderia deixar de dizer que eu amo você. Muito.
Demorei um tempo e respondi:
– Eu também amo você, seu urso bundudo!
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