Vodka E Bier

12 A Universidade


Notas iniciais
,,I could live a little in a wider line When the change is gone, when the urge is gone To lose control When here we come"

Eu sofro de ansiedade.

Sofro de ansiedade desde novo, desde adolescente, desde criança...

Devo ter sofrido de ansiedade desde sempre, porque não possuo lembrança alguma em que não tenha tido algum ataque de ansiedade, por menor ou mais prosaica que fosse a situação.

Natural que estivesse ansioso com o primeiro dia de aula. Eu não sabia o que esperar, não obstante, não era uma sensação ruim, pelo contrário. A expectativa, malgrado incerta, era alta. Conjecturei mil possibilidades na cabeça e toda essa ânsia, essa felicidade prévia afastou toda e qualquer possibilidade de uma noite saudável, com direito a 8 horas de sono.

Fui até a janela do meu quarto e a abri, quem sabe a brisa fria não me ajudasse a dormir melhor?

A noite estava particularmente tranquila e no céu, muitas estrelas cintilavam como incontáveis diamantes e a lua, um belo quarto crescente. Aqui e ali, ao alto, muito alto, cirrus e nimbus disputavam qual seria o véu mais apropriado para a lua, mas nenhum deles logrou êxito por muito tempo.

Divaguei se Ivan estaria olhando para o céu naquele momento, provavelmente não. Mas talvez sim.

Inspirei profundamente o aroma das 23:30h e ao invés de me relaxar, excitou-me mais, pois eu gostava de noites frias, principalmente para sair com meus amigos a beber vinho barato, sentar em roda e tocar violão, cantando músicas Frankenstein (quando você começa a cantar uma música mas, devido ao álcool, emenda com outra e outra, e outra,...). Era bom.

Joguei-me na cama fria, o contato dos lençóis contra minha pele morna fez os pelinhos de minha nuca se eriçarem.

,,Nessas horas, nada mal o Ivan estar por aqui”, pensei.

Decidi que iria dormir, se me metesse por debaixo do edredom, em poucos minutos estaria confortável e aquecido novamente.

Eu e essa nova mania de só dormir de boxers e meias brancas felpudas...

Deitei-me deveria ser umas 23:40; impossível não pensar no Ivan quando senti minha pele contra os lençóis. Remexi para um lado, remexi para outro, procurei a todo custo aquela posição excepcional que me faria dormir, mas não a encontrei.

Foi quando me lembrei, então, de minha velha companheira, a Scarlett, minha Fender vermelha com escudo branco que tanta companhia havia me feito!

Aquela Fender que ganhei de meine Eltern pelos meu aniversário de 15 anos.

Peguei da Scarlett, tirei-a da case, deslizei os dedos em suas seis cordas prateadas e ela vibrou linda, metálica, sensual, misteriosa, mesmo sem estar ligada.

Decidi que iria dedilhar algum solo ou um estudo de Hannon; coisa leve, só para relaxar.

Liguei o Cube na tomada, regulei o volume, reduzi o ,,brightness” e pluguei o cabo da Scarlett nele. Tenho consciência de que deveria conectar o cabo da Scarlett no Cube antes de ligá-lo na tomada, mas é que eu gosto do som que a eletricidade faz quando a ponta metálica do cabo se conecta à entrada do Cube e a corrente elétrica flui pelo cabo da guitarra. Esse som é amplificado pelo Cube e posso sentir aquela vibração deliciosa, que quem toca guitarra conhece.

Um estalido discreto, um ajustar o volume para o mais baixo possível, um percorrer o polegar pelas cordas, com delicadeza, sem pressa, como se escorregasse o dedo pela pele da pessoa que você ama.

,,Ach! Aber es ist ganz geil!”, pensei comigo mesmo.

Em seguida, peguei minha pick favorita, uma do Hard Rock Café København que havia ganhado do Gregor e comecei a dedilhar pelas cordas e foi como se o mundo voltasse a fazer sentido.

Cantei baixinho, impressionado como minha voz soava desafinada, já que fazia muito tempo que havia largado as aulas de canto.

,,Um Joy Divison só para começar”, falei para uma plateia inexistente.

Comecei com ,,She's Lost Control” e depois emendei com ,,Love will Tear us Apart”. Essa música sempre me fazia lembrar de Ivan.

Entreti-me naquela atividade musical madrugada adentro.

Devo ter tocado por horas e adormecido por cima da guitarra, pois no outro dia, quando acordei com o alarme histérico do despertador, estava com finas marcas verticais impressas na bochecha esquerda.

Dormi pobremente naquela noite (ou madrugada). Acho que se dormi 3 horas foi muito. Resultado: acordei um zumbi na manhã seguinte.

Assim como um autômato, fiz o asseio matutino. Nem notei quando Ludwig passou apressado por mim e correu para o banheiro, batendo a porta na minha cara.

Eu estava com tanto sono, que nem forças para brigar tive, então, mudei de direção e fui usar o banheiro de nossos pais.

Saí pelado e pingando do banheiro, pois não havia levado toalha e usei a toalha de rosto de Mutti. Na verdade, eu nem sei porque decidi tomar banho lá!

,,Mutti vai me matar. Vou botar a culpa no Ludwig.”, pensei.

Entrei no meu quarto e peguei as primeiras roupas que vi e minhas mãos alcançaram: boxers do Pintinho Colérico, calça jeans, blusa preta, meu moletom vermelho favorito e borrifadas vigorosas do meu perfume favorito, porque se tem uma coisa pela qual sou obcecado é estar sempre limpo e cheirosinho. Kesesesese.

Por sorte, havia arrumado a mochila para a Facu no dia anterior, caso contrário, eu não ia levar nada, só uns €10,00 que estavam jogados sobre o teclado no meu computador.

O celular vibrou. Uma mensagem de Ivan desejava-me boa aula.

Respondi com um ,,obrigado”, um sorriso e uma teclas aleatórias que apertei tentando acertar o dedo no botão de envio.

,,Eu NUNCA MAIS NA VIDA vou dormir tarde!”, jurei a mim mesmo, feito um bêbado inveterado numa manhã de ressaca.

Desci as escadas me sustentando no corrimão para não tropeçar.

– Café... Café... — gemi baixo entrando na cozinha.

– Bom dia, meu amor – cumprimentou-me minha mãe quando me viu prostrado à soleira da porta da cozinha.

O cheiro de café novo e pão fresquinho inundava a casa inteira.

– Bom dia, Mutti – respondi sequelado

– Filho, você foi dormir tarde novamente — aquele tom de reprovação...

– Nein. Acho que não dormi.

– Por quê?

– Porque ele passou a noite arranhando naquela guitarra, Mutti – disse Ludwig entrando na cozinha com olheiras piores do que as minhas -. Nem a gata no cio do vizinho faz um barulho PIOR do que esse de Bruder com essa guitarra!

Meu irmão se aproximou de nossa mãe.

Guten Morgen, Mutti – ele disse.

– Guten Morgen, liebchen –ela respondeu.

De fato, passei um tempo tocando guitarra na noite anterior. Eu não conseguia dormir, minha mente estava agitada com pensamentos sobre a faculdade, sobre Ivan, sobre o montão de gente nova que iria conhecer,...

Não dava para dormir.

– Epa! ,,Arranhando” nada. Eu toco bem pra cara... — Nossa mãe me lançou um olhar matador – mba...

– Arranhando sim. Mal consegui pregar um olho! Parecia que você estava fazendo de propósito, posicionando a caixa de som bem onde fica minha cama, seu miserável!

Comecei a rir maldosamente, tanto que fez metade do sono passar.

– Gilbert, eu desejo tanto que já no seu primeiro dia de aula haja greve nos transportes públicos. Desejo TANTO! — ele disse amargurado.

Minha mãe revirou os olhos nas órbitas.

– Ok, vocês dois, amabilidades matutinas à parte, comam rapidinho, pois já está quase na hora.

Tomei meu café enquanto Ludwig comia a torrada dele, ficamos quietos.

Vatti chegou pouco antes de terminarmos de comer. Ele estava enrolado num roupão cinza com finas e esparsas listras azuis-marinho e um chinelão parecido com o que Ivan havia trazido quando veio pra cá. A cara de sono do meu pai era lustig.

Bom dia Schatz, meninos – ele disse e bocejou -, que cheiro bom que está nessa cozinha!

– Bom dia, querido – respondeu minha mãe e beijou-lhe a bochecha.

– Bom dia, Vatti – dissemos em uníssono, Lud e eu.

– Todo mundo pronto para sair e só eu aqui – fez meu pai, ele parecia um garoto de 6 anos -, às vezes, ficar de licença médica é um saco!

Vatti teve um descolamento de retina, algo até bem sério. O médico da Junta o examinou e deu-lhe 15 dia para a completa recuperação e mandou que ele ficasse em repouso absoluto, o que, para Vatti, era um suplício, uma vez que ele era um sujeito muito ativo. Gostava de ajudar dentro de casa e dificilmente ficava sem mexer em alguma coisa.

– Não fique assim, Schatz – disse minha mãe de forma carinhosa -, o mais importante é você ficar completamente curado. Parece-me não teremos muitas coisas para resolver no Ministério hoje, talvez eu consiga chegar um pouco mais cedo para lhe fazer companhia.

Meu pai fez um bico, feito menino pequeno. Engraçado.

– Ach! Então terei que ficar aqui sozinho, ouvindo ópera e tentando arrumar qualquer coisa para fazer...

– Querido – fez minha mãe -, já que você vai ficar em casa...

– Ihhhh, lá vem – cochichou Ludwig para mim.

Só fiz concordar com a cabeça.

– Olha, querido – continuou Mutti -, você liga hoje para o cara da cortina e agenda de ele vir amanhã aqui para olhar os trilhos que estão soltando. Você também aproveita para chamar o rapaz do fogão já que ele está podre e com defeito num dos bocais. Aproveita também para...

Minha mãe deu uma lista de ,,coisinhas” tão grande pro meu pai que seguramente o manteria ocupado pelo resto do dia.

Claro que ele ficou nervoso.

– Ei, Bruder, — disse Ludwig – seu celular está tocando, não vai atender?

– Celular? — Eu ainda estava tão sonolento, que não ouvi e nem percebi o celular no meu bolso- Ah! É mesmo!

Puxei o celular do bolso e apertei no botão verde.

Hallo, guten Morgen, Gilbert Beilschmidt dageralmente, não sou tão formal assim, mas é que não reconheci o número no visor do aparelho e, vai que era da Faculdade?

Buenos días, Gilbert, sou eu, Antônio.

– Ah! Diz, cara, estás pronto?

Sí, sí. Na verdade, eu já estou aqui na estação, você está aonde?

Aquela pergunta foi mais efetiva do que um banho gelado. Olhei para o relógio e constatei que se não saísse NAQUELE minuto, estaria irremediavelmente atrasado.

– À caminho. Tschüss!

Praticamente desliguei o celular na orelha do cara.

– Tô fudido! — gritei, levando as mãos à cabeça.

– Calma, menino, o que foi? — perguntou minha mãe.

– O Antônio já está esperando por mim na estação e eu ainda aqui.

– A culpa foi sua, quem mandou ficar pagando de Cyrano de Bergerac às 3h da madrugada – alfinetou-me Lud.

– Ah, vai à merda, pirralho.

Comecei a discutir com meu irmão, para variar, até que Mutti interrompeu:

– Parem com isso os dois! Gilbert, assuma a responsabilidade pelos seus atos. Foi dormir tarde porque quis. Ludwig, acho que você também está atrasado, não? Schnell, schnell!

Obedecemos, claro.

Em cinco minutos estávamos no carro. Mutti dirigiu como se não houvesse amanhã. Ela resmungou o caminho inteiro até a estação, pois se havia algo que ela abominava era atraso por causa de irresponsabilidade. Passei o caminho todo mudo feito um peixe.

Eventualmente, minha mente divagou enquanto eu olhava pela janela do carro. Estava sentindo falta do Ivan.

Chequei – discretamente — algumas vezes o celular, mas não havia mensagem dele. Para completar, comecei a ficar ansioso por causa da hora e se iria conseguir chegar a tempo. A expectativa se avolumava e crescia dentro de mim como gás metano no ventre de um defunto.

Gott sei Dank!- exclamei ao chegar à estação bem a tempo – Obrigado, Mutti.

Minha mãe lançou um olhar assustador e arrancou o carro. Precisava deixar Lud no colégio.

Entrei na estação e liguei para o Antônio, mas ele não atendeu. Em verdade, nem precisou, ele me viu de longe e acenou vigorosamente, com um sorrisão inumano para uma manhã de segunda-feira.

– Gilbert, aqui! Corra ou vamos perder o Bahn!

,,E essa! Tenho que comprar o tíquete!”

Corri ao guichê e comprei logo o passe para o mês. Passei o cartão pelo leitor da cancela e alcancei a plataforma.

Antônio estava lá.

¡Hola!

Olhei o relógio, havia me atrasado 3 minutos.

– Cheguei a tempo?

– Aham. Digo, o trem da gente já passou, mas em 10 minutos chega o próximo – ele disse com um sorriso inacreditável no rosto.

,,Como assim esse cara não tá puto? Como assim ele AINDA está aqui? Como assim ele ESPEROU por mim?!”, pensei incrédulo.

– Er... Antônio... Por quê você não foi logo? Digo, você vai se atrasar por causa de mim.

– ¡Vale! Eu pensei em ir, mas havíamos combinado de irmos juntos. E não tem problema não. Essa Aula Magna sempre é um blá blá blá chato mesmo — ele disse e deu de ombros.

A atitude de Antônio me deixou com uma impressão indefinida sobre ele. Mas eu gostei.

– Como você sabe que não há problema em perder a aula Magna?

Ele me olhou com uma expressão séria no rosto, como se estivesse escolhendo as palavras certas. Levou uns momentos e disse:

– Sei lá! Mas sempre que alguém usa palavras grandiloquentes para definir algo, esse mesmo algo nunca tem a importância que se julga ter.

Rimos.

,,Acho que vou gostar desse cara”, pensei.

***

A nossa plataforma não estava assim lotada, mas estava bastante cheia. As pessoas se acotovelavam discretamente, como se, assim que o Bahn chegasse, elas empreenderiam uma corrida por suas vidas. Ou, ao menos, foi o que pareceu.

Antônio tagarelava sobre o Cássio, nosso amigo em comum, mas não prestei atenção não. Lembro que a tudo eu respondia com ,,u-hum”, ,,sei” e ,,poxa!”, e pareceu funcionar. Ao cabo dos 10 minutos, o trem chegou.

Bitte beachten Sie beim Aussteigen die Lücke zwischen Zug und Bahnsteigkante – alertou-nos a gravação de voz metálica da mulher do metrô.

Valeu, moça! — brincou Antônio.

Embora o trem estivesse cheio, conseguimos dois lugares para sentar.

Antônio continuou tagarelando, agora sobre nossa festa de formatura da escola.

Algumas estações depois e chegamos à nossa.

– Olha! Até que chegamos rápido – Antônio comentou otimista.

Descemos na Friedrichstraße e pegamos um ônibus que Gott sei dank, deixou-nos praticamente dentro da Universidade.

Assim que atravessei os enormes portões, fiquei feliz de estar ali, pois o prédio era bonitão. Só fui algumas poucas vezes, para assistir a uma peça no teatro da Universidade, mas agora que estudaria Direito ali, a coisa mudava de perspectiva.

O prédio original datava do século 19. Uma construção opulenta, com grossas e firmes colunas em mármore, um portão de entrada separava a rua do pátio frontal, ele era todo em ferro negro trabalhado e um brasão em ferro com lustrosos detalhes em bronze polido no formato de uma régia águia, assemelhada à águia de Frederico da Prússia. O pátio se perdia e se emendava em jardins laterais bem cuidados, cheio de flores e sebes. Próximo de onde eu e Antônio estávamos, pude distinguir bétulas delicadas, faias robustas e um carvalho nodoso ao centro, margeando um pequeno lago artificial. Dentro do lago, uma fonte de bronze esverdeado, ornada com meia dúzia de cupidos pelados que, aparentemente, cuspiam água uns nos outros.

Atravessando o pátio, o primeiro prédio: ele possuía uma escadaria e tinha opção de rampa para deficientes, assim que subimos a escadaria, vimos que a entrada era grandiosa, no estilo gótico. Seu enorme portão de madeira estava aberto para uma sala ampla, com um jardim de interior no centro.

Muitas pessoas se apinhavam aqui e acolá em torno de gigantesco quadro de avisos que, em breve, seria o parceiro inseparável de todo calouro, ou seja, naquele quadro enorme de avisos, havia um mapa dos campi, listas e listas com os nomes de novos alunos e suas respectivas novas salas e também milhares de avisos que variavam de ,,dou aulas de inglês” a ,,Oktober Fest, Berlim”.

Antônio e eu ficamos feito duas batatas no fundo da panela, olhando boquiabertos, sem saber para onde ir. Olhando para a esquerda ou para a direita, dezenas de corredores compridos levavam a inúmeras portas e outras dezenas de corredores, para mais outras dezenas de portas, parecia um labirinto.

Foi quando Antônio disse:

– Acho que aquele deve ser o Auditório principal.

Ele apontara para uma porta em madeira escura, imensa, com dossel, além do jardim interior. Ela ficava numa ala meio escura, porém estava ricamente adornada com panos de veludo carmesins.

Era brega, mas fazer o quê?

,,Eu não lembrava que essa entrada era assim, tão... Enorme”, pensei comigo.

Um desavisado que entrasse a fazer uma visita à nossa Universidade, jamais diria que ela não pertencesse 100% ao século 19, mas em verdade, ela pertencia ao século 20!

Digo, parte dela era século 19, mas parte não, e isto com razão por que, por causa da guerra e do bombardeio dos Aliados, 90% da estrutura fora completamente obliterada.

Como nós, alemães (prussianos!), somos disciplinados e precavidos, reconstruímos tudo nos moldes da original; e isso também é válido para o resto de Berlim, para o resto de Berlim-Brandenburgo, para o resto da Alemanha inteira!

Oma e Opa sempre nos contavam histórias da guerra e como foi difícil perder sua casa, sua família, seus amigos,... Mas que o povo alemão tinha garra! Reconstruíram a nação com as próprias mãos e isso, meu amigo, é inequívoco.

Fiquei absorto em pensamentos até que Antônio me acotovelou:

– Ei, Guil, olha lá, é o Francis! FRANCIIIIISSS!

,,Guil?”, pensei, ,,Que interessante, somos íntimos agora”.

Francis também era um colega da escola, mas eu não era muito próximo a ele — e, até onde eu sabia, nem o Antônio – porque éramos de salas diferentes.

– E aê, des mecs – disse ele -, ça va?

Francis era francês e eu sabia tanto sobre a vida dele, quanto sobre a de Antônio.

– Você passou em quê? — perguntou o espanhol.

– Em Direito, e vocês?

– Passamos em Direito também! – o espanhol respondeu por mim.

– Hum, pas mal, pas mal – fez o francês -. Mas vocês sabem que praticamente perderam a aula Magna, não é? Tipo, ela começou no auditório principal, mas duvido muito que os deixem entrar, e olha que eles falam absolutamente tout sobre a sistemática da facu e tal.

– Estamos conscientes – eu disse e, no fundo, senti uma ponta de remorso.

– E pelo visto, você também chegou atrasado, mi amigo – rebateu o espanhol.

Ouais et nondisse, despreocupado, o francês.

Olhamos intrigados, Antônio e eu.

Je suis arrivé a tempo, mas me atrasei para a aula de propósito. Premierement parce que je não estou a fim de levar trote, sou bonito demais para isso — ele disse jocoso e deu uma piscadela-. Et deuxiemement, je ne m'importe pas de perder a Aula Magna. Nunca confie em NADA que tenha um nome grandiloquente: nunca é o que passa l'impressión de ser.

Eu e Antônio nos entreolhamos abismados.

– Cassete! — exclamei.

Pardon?- fez o francês.

– É que o Antônio falou EXATAMENTE sobre isso! Isso de palavras grandiloquêntes não terem respaldo algum.

Oh, oui?

– Sí, sí. Falei exatamente isso para o Guil.

O francês sorriu educadamente.

– E que diabos de trote é esse? — perguntei.

– Disseram que este ano, os veteranos vão fazer a gente pedir dinheiro no sinal. TODOS os calouros terão de participar.

– Parece divertido – disse Antônio com sinceridade.

– Sério isso?! — fizemos eu e o francês em uníssono.

Sí, sí. Nunca pedi dinheiro no sinal.

Mentalmente, levei minha mão à testa.

,,Deixo um avoado – Tóris-, para encontrar-me com outro!”

– Fusososososo – começou a rir, estranhamente, Antônio -. Fala sério, deve ser engraçado de se VER.

– De se ver sim, mas de participar, definitivamente... — eu parei no meio da frase.

– Olhem! — exclamou Francis, apontando para a porta do auditório.

Tudo aconteceu muito rápido. Mal tive tempo para racionar sobre o ,,Olhem!” de Francis, quando o salão imenso lotou. As portas do auditório de escancararam e várias pessoas saíram de lá.

Um barulho ensurdecedor, parecia final de Campeonato de Futebol.

O povo gritava, falava alto, se chocavam uns contra os outros. Fui empurrado dezenas de vezes e pisaram no meu pé até eu perder a conta, parecia show do Metallica.

Abusado, dei porrada em geral, queria nem saber se era homem, mulher, veterano ou calouro, saí descendo o braço.

Uh là-là – fez Francis -, estou me sentindo como Simba em O Rei Leão.

Não obstante o barulho alto, pude ouvir o francês e confesso, eu ri.

– Vamos sair daqui – disse Antônio.

O espanhol me puxou pelo casaco e fomos para as escadarias.

– Cadê o Fancis? — perguntei.

Antônio deu de ombro.

Sacre-coeur, quanta gente! — ouvi-o exclamar.

Francis se encontrou conosco.

Ficamos os três juntos, apenas observando a balbúrdia.

– Esse que é o tro... — fez Antônio.

Mas ele não pôde terminar a frase porque, vinda de algum lugar, uma bexiga cheia de tinta acertou explodiu no peito do espanhol, espalhando tinta verde por toda a sua roupa, boca, olhos, cabelo... Ele estivera com o dedo indicador em riste, e em riste, o dedo indicador ficou; agora, coberto com tinta verde.

Eu e Francis explodimos em gargalhadas. Eu ri tanto que me dobrei para frente. Se tinha algo de que eu ria, era da desgraça alheia.

O francês riu tanto que se escorou em mim, mas nossa graça foi logo quebrada, quando uma bexiga cheia de tinta azul estourou na cara de Francis e outra, com tinta vermelha explodiu bem na minha bunda. Foi péssimo.

Agora foi a vez de o espanhol rir, mas ele não riu por muito tempo, pois levamos nova saraivada de ,,bexigas assassinas”. Os veteranos, literalmente, pintaram o sete com nossas caras.

Em poucos minutos, nossas roupas haviam se transformado numa tela confusa de Pollock e, embora tivesse achado engraçado o Antônio ter se lascado, agora eu estava puto porque teria que voltar pra casa de busão e metrô naquele estado.

Antônio, ao contrário, só fazia rir, tinha tinta até nos dentes dele.

Os cabelos loiros de Francis agora eram azuis, e ele fazia headbang e salpicava de tinta quem quer que passasse limpo pela sua frente.

Não preciso nem comentar que aquele dia de ,,aula” foi todo assim, só que os veteranos ainda nos fizeram pedir dinheiro no sinal, mesmo sujos de tinta. O dinheiro arrecadado acabou sendo entregue à nossa recém-eleita representante de classe e se destinaria à nossa festa de formatura.

Depois do vexame de pedir dinheiro no sinal, ficamos sabendo qual seria nossa sala, embora não fosse haver mais aula naquele dia. O pessoal emendou direto e todo mundo foi ao bar, comemorar o início do período.

Achei legal que Francis estava na mesma sala que eu e Antônio, afinal, eu acho que, se lambuzar de tinta e pedir dinheiro ao povo fez nascer um ,,laço” de amizade entre os colegas da sala, mas, principalmente entre nós três,

No bar, sentamos à mesa com outros colegas. A menina recém-eleita representante de classe parecia bem à vontade e interagia com todo mundo, ela se chamava Laura Thys, mas todos já a estavam chamando de Lauratil, uma mistura do nome dela, Laura Thys, com Loratil, nome de um remédio contra alergias. Aparentemente, a Laura tinha gritado para não jogarem tinta nela, pois ela tinha alergia. Obviamente, ninguém ligou e agora, Lauratil tinha tinta até nos cílios.

Quando saímos do bar, já deveriam ser uma 21h. Confesso que eu estava meio alto, mas tudo bem.

Francis pegou o ônibus comigo e Antônio, mas a estação de metrô dele era outra, despedimo-nos e segui pela U6 com Antônio. Viemos o caminho de volta todo falando merda e eu, que geralmente não converso muito com ,,desconhecidos”, me peguei abrindo o coração com o espanhol e, em pouco tempo, tornamo-nos Guiru e Nino.

,,Rápido demais até pro meu atual estado etílico”, pensei comigo mesmo, mas se quer saber, dane-se!

O espanhol parecia legalzinho.

Ficamos surpresos, Antônio e eu, que ele morava até perto de onde eu moro e, no fim, voltamos pra casa juntos, rindo de besteiras que tinham acontecido durante o dia.

– Fusososososo, até que a Lauratil é gatinha, não?

– Eu pegava fáááácil – respondi bêbo.

– Eu também!

– Ela é gostosa. Mas também tinha uma ruiva do decotão, super gata — falei.

– Qual? A veterana de medicina? — perguntou Antônio.

– Oi? — perguntei.

– Era uma ruiva do peitão?

– A do decote? Sim, sim. Como você sabe que ela era veterana de Medicina?

Antônio não disse nada, apenas sorriu com ar malicioso.

– Ahhhhhnnnn... Ligeirinho todo!

– É o sangue latino, mi amigo.

Rimos.

– Acho que estou perdendo o jeito – comentei ainda rindo.

– Uê, por quê?

– Porque eu sou comprometido.

– Ah, sério? E sua namorada é da escola ou é já da facu?

– É da facu, mas não é namoradA, é namoradO.

Eu me arrependi de ter dito aquilo.

,,Nada a ver, Gilbert!!”, pensei, ,,Maldito álcool!”

– E ele faz o quê? — perguntou o espanhol com naturalidade.

Levei uns momentos para registrar aquilo. Antônio não pareceu se abalar em nada.

– Ele... — comecei, ainda confuso – Ele estuda Medicina.

¡Vale! Que sensacionbal! E onde ele estuda?

– Ele estuda na Universidade de Moscou, ele é russo e é voluntário em vários hospitais infantis – completei sorrindo, feito o bobo apaixonado que eu era.

– Que legal, Guiru – ele sorriu sincero -. E você estão juntos há tempo?

– Mais ou menos, já já faz um ano.

– Uau! Mas vocês já se encontraram?

– A-ham.

Percebi que Nino iria fazer outra pergunta e cortei logo.

– E você, Nino, tem namorada?

– Não e sim – ele disse sorrindo.

Wie, bitte?

É que a gente ,,fica” sempre, mas sem compromissos, sabes?

– Ah! Saquei. Mas você gosta dela, cara?

– Gostar, gosto, mas eu não estou 100% certo se gosto ao ponto de querer ficar apenas com ela.

Ficamos andando um pedacinho em silêncio. O efeito do álcool passava gradativamente com a frieza da rua.

– Bem, Nino, minha entrada é agora, você ainda continua? Quer que eu vá com você?

No, no, gracias, precisa não, Guiru.

– Nino, você... Quer ir junto amanhã?

Por supuesto!! — ele disse com um sorrisão – Amanhã passo por aqui às 6:15, ok?

– Perfeito.

Hasta mañana, Guiru.

– Bis Morgen, Nino.

Despedimo-nos e cada qual seguiu pela sua rua a caminho de casa.

Assim que passei pela porta, minha família veio me cumprimentar, mas a primeira coisa que perguntaram foi:

– Que diabos é essa tinta toda?!

,,Longa conversa sobre meu primeiro dia de ,,aula”, sobre os novos colegas e novos amigos em potencial”, previ.

– Trote dos veteranos nos calouros.

Minha mãe suspirou.

– Vou entregar essa roupa horrorosa para eles lavarem...

Interagi um pouco com meus pais e irmão e fui tomar um banho.

Passei uns bons 50 minutos debaixo d'água para lavar completamente aquela tinta toda, depois, jantamos e aproveitei um tempinho entre 23:00 e 00:00 para falar com Ivan. Contei tudo a ele, desde o atrasado por causa da madrugada musical até minha conversa com o Nino e o quanto ele não pareceu se alterar quando falei que tinha um namoradO.

Omiti a parte de nossa conversa sobre as gostosas da faculdade, Ivan poderia ficar bolado com isso.

Não mais, o dia foi muito melhor do que eu sequer imaginei que pudesse ser e fui dormir satisfeito.

O segundo dia de aula, talvez, fosse mais ,,formal”.

Notas finais
Legendas: meine Eltern - meus pais Ach! Aber es ist ganz geil! - ah! Mas isso é muito legal! Guten Morgen, liebchen - bom dia, querido Schatz - tesouro (ao pé da letra) Schnell, schnell! - rápido, rápido!! Bitte beachten Sie beim Aussteigen die Lücke zwischen Zug und Bahnsteigkante - Por favor, atenção ao espaço entre o trem e a borda da plataforma. Gott sei dank - Graças a Deus. des mecs, ça va? - caras, tudo bem? pas mal - não é ruim. Ouais et non - sim e não Je suis arrivé - cheguei Premierement parce que je - primeiramente porque eu Et deuxiemement, je ne m'importe pas - em segundo lugar, eu não me importo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.