Você lisossomo, eu amor vencido.

3 Ei, Nana, as garrafas estão vazias, mas e quanto a mim?


Notas iniciais
trilha sonora adequada: kodaline - high hopes. Aproveitem ♥

– Eu não sei como você consegue pôr esse troço na boca.

Antônio, sem descruzar os braços do peitoral olhou de esguio para garota, curvando os lábios e retirando com o indicador e o anular o filtro do mesmo. Esta, sentada sobre as próprias pernas o encarou com olhos famintos – sabe – assopra suavemente, soltando a fumaça por entre os dentes — pra se tragar um cigarro não é necessário um curso superior.

– Até porquê o índice de inteligência de quem o faz deve estar no negativo.

O rapaz pressionou a ponta do tabaco contra a madeira da cama, depositando a bítuca na cabeceira da mesma. Virou-se pra Ana, que o assistia imóvel, envolvendo-a em seus braços. O nariz a poucos centímetros do dela – hipoteticamente falando – a mão que antes estava na parte superior das costas desceu rumo a coxa e a voz adquiriu um timbre ameno, baixo, quase num sussurro – se eu tentar lhe beijar, você me afastará?

– Nada que eu não tenha feito antes – fitou a boca cortada de Antônio pelo frio, a sua porém se encontrava aberta em um sorriso de vitória.

– A tua sorte que eu acho teu queixo uma gracinha, senão já teria investido na balconista que trabalha pro Rafa – bufou, enquanto se afastava. Ajeitou-se em sua postura anterior, esperando que uma pontada de ciúmes, por menor que seja, surgisse.

– Ela tem peitos bem bonitos.

– Tão doce que dulcificaria todas as filiais da Starbucks..

Ana soltou uma gargalhada leve, pressionando a barriga com os dois antebraços. Antônio a observou por alguns minutos, percorrendo os cristais verdes no contorno de seu rosto. As bochechas de Ana duplicavam de tamanho quando ela ria. Emitia barulhos engraçados entre as notas agudas, o que não tirava o crédito maior de sua beleza, mas sim realçava. Os olhos diminuíam, formando ao canto destes marcas de expressões sutis.

– Hoje é a festa de despedida do Rafa, você quer ir?

– Não sei, não.

A linha retilínea formada pelos fios finos da sobrancelha se curvaram, o que atribuiu a seu rosto uma expressão confusa. Os dedos brincavam uns com os outros, entregando a inquietação da menina. Não queria mostrar insegurança. Não queria que ele a visse como uma dessas garotas que passam os fins de semana na casa dos pais ouvindo todo prognóstico prontamente elaborado de como ela “precisa arranjar um namorado bem sucedido a fim de evitar a solidão que essas solteironas de 35 anos compartilham em grupos de leitura” – obviamente diziam isso com a Tia Dalva em mente, mas preferiam ocultar, Dalva sempre foi um assunto sensível para o pai de Ana Clara — enquanto ajuda a mãe servir a tortilha especialmente preparada para o agrado daqueles parentes que vieram do sul do país, em alguma região perto do Porto, por exemplo. A madrugada cairá sobre a noite e ao invés de dormir, trocará horas saudáveis de sono pelo trabalho sobre a biografia de John Steinbeck, filho de seu tempo, o qual precisa entregar para o professor carrancudo da faculdade, amargurado pelo casamento infeliz. Não que Ana não seja uma dessas garotas, na realidade ela é. Só teme o fato de que ele perceba isso cedo demais para dar o fora de algo que nem começou e que tem chances remotas de começar. Antônio não é um babaca qualquer como esses outros caras em bares noturnos, inflando ego. Talvez ele até seja, mas não com Ana. E ela definitivamente não quer estragar isso colocando brigas e sexo de reconciliação no meio, bem como teme chegar ao fim da vida como seu professor de literatura estrangeira. Ela só precisa de uma reação inteligente, porque agora Antônio a fita e ela sente a fisgada no olhar do rapaz que anseia por uma justificativa plausível pela resposta dada. Não poderia dizer o que de fato pensava, pois, se antes já lhe era concedida a alcunha de neurótica, Ana receberia dessa vez a patente de caso-raro-de-distúrbios-emocionais com um aviso em negrito de “não se aproxime”.

– Vamos, vai ser legal. – diminui o timbre e sua voz de cálido atingiu um tom mais morno, mexia nas pontas dos cachos compridos e despenteados com uma sutiliza no toque, inseguro pelo que sentia e muito provavelmente pela possível reação dela. Ele nunca fora carinhoso e sempre que agia assim, Ana questionava. Mas dessa vez, ele só quis tocar pelo único fato de que tocá-la naquele momento pareceu adequado.

– Se você diz por legal um bando de burgueses narcísicos pré-embriagados por licor importado que tem como ápice do divertimento discussões calorosas sobre a bolsa de valores de New York, ou sei lá, a nova linha de moda praticamente imposta por Giorgi Armani, que porra, qual é o problema desses caras italianos? Eu opto por mofar no sofá enquanto assisto aquele programa estúpido sobre rotina dos famosos.

– Qual é Nana, veja isso como um ato de caridade sexual pra um amigo querido. Você sabe, decotes de marca, falsas loiras carentes, um Antônio necessitado... A não ser que você esteja disposta a suprir minhas ausências de carinho – sorriu cinicamente.

– Cale a boca An – revirou os olhos, levando atrás da orelha uma mecha de cabelo – isso seria nojento – balbuciou por fim, olhando distraidamente a luz ardente do meio–dia que adentrava a janela do quarto. A chuva havia cessado a um bom tempo atrás e Ana só percebera agora. Não podia encará-lo.

– Você não parecia tão relutante quando me beijou no banheiro do posto, duas horas da manhã.

– EU ESTAVA BÊBADA! –afirmou com veemência, atirando no rapaz as poucas almofadas que existiam sobre a cama – você me prometeu que deixaria esse assunto de lado. Não aconteceria se não fosse por você – sua tez possuía um tom rubro.

– Eu não lhe forcei a nada.

– A culpa é sua, não consegue ver uma garota indefesa e melancólica pelo término do relacionamento que já vai querendo enfiar a língua na garganta dela como... Como... Olha, você não precisa ir embora?

– Só se você prometer ir comigo na festa do Rafa – insistiu.

– Você nem devia ter passado a noite aqui – levantou, ajeitando o único tecido que cobria seu corpo: uma camiseta do David Bowie surrada.

– Eu esqueci as chaves e meu colega de quarto não é a pessoa mais antissocial que existe. Você vai?

– Eu tenho escolha? – disse enquanto recolhia do chão as garrafas de cerveja irlandesa vazias.

– Ótimo! Passo aqui pra te pegar às oito – saltou do colchão, vestindo o jeans manchado por tinta de aparatamento-recém-pintado e o moletom desbotado que outrora fora preto – eu te amo Nana, você é a melhor – caminhou em direção a esta, e, segurando a menina pela lateral de seu rosto, depositou um beijo na bochecha.

– Tá, tá, você sabe onde fica a saída – espalmou-o no peito, desvencilhando-se de seu corpo. Cruzou o balcão no qual separava o quarto da cozinha. Havia uma pia lapidada por mármore branco, largou as garrafas ali em cima e respirou fundo, olhando melancólica para An.

– Não vá se atrasar.

Sentira os passos se afastando da porta no piso amadeirado. Antônio deixara o local e estava nas escadas. Agora só restava Ana, dois cômodos e meio que estariam em total silêncio, se não fosse pelo chuveiro pingando devido o problema no encanamento e uma bituca de cigarro que nem dela, era. Sentiu de súbito um desespero, não sabia exatamente qual a causa. Cerrou os olhos, impedindo as lágrimas que já tinham umedecido sua retina. “Calma, Ana” repetia pra si mesma.