Você lisossomo, eu amor vencido.
4 É o nosso fim ou nosso início, An?
Notas iniciais
Foi difícil escolher apenas uma música para este capítulo, então eu acabei por selecionar duas:
01. Linger - The Cranberries.
02. I Can't Make You Love Me - Bon Iver.
Aproveitem a leitura ♥♥.
– ANA CLARA, EU JURO QUE SE VOCÊ NÃO APARECER NA PORTARIA AGORA, EU TE ARRASTO NEM QUE SEJA DE CALCINHA E SUTIÃ!
–OBRIGADA, QUEM SABE ASSIM EU NÃO TERMINE A NOITE COM ALGUM EMPRESÁRIO VICIADO EM UÍESQUE – retrucou com a cabeça posta para fora da janela. O Maverick azul estava estacionado a frente ao prédio de arquitetura argentina. Tinha um aspecto arcaico, típica construção encontrada em Buenos Aires ao fim do século XX, com poucos andares e a fachada branca, porém suja devida ação de fenômenos naturais. Josué, o porteiro, trocava flertes com a inquilina nova do 7B, uma senhora meia-idade de cabelos louros e olhos cinzentos. Antônio acendera o Dunhill e entre uma tragada e outra, pressionava a mão furiosa contra a buzina. Fitava sua imagem no retrovisor do carro, desviava o olhar para a rua, voltava novamente sua atenção no espelho, penteando com os dedos os fios desalinhados. E esse ciclo se repetira nos próximos 25 minutos. Estava no terceiro cigarro, quando Ana surgiu titubeando na escadaria, tropeçando nos próprios calcanhares. Antônio sacudiu a cabeça, rindo para si mesmo – desastrada — pensou. As pernas estavam à vista, ou ao menos metade do que seriam aquelas pernas finas. Usava uma saia godê azul-marinho, bem acima da linha do joelho em conjunto com uma blusa listrada em cores opostas: preto e branco. Os pés sempre encobertos pelo mesmo sapato, aquele calçado quando Antônio a vira pela primeira vez em passos espremidos em San Matins, uma cafeteria renomada: sapatilha Santa Lolla vermelha. Comprada sob o pretexto de Nabokov e sua pequena Lolita. Os cachos cobriam as partes despidas pela blusa e carregava nos braços um casaco de caxemira. Ana não usava maquiagens, às vezes aderia aos lábios uma pigmentação rubi, dizia que a natureza não devia sofrer com os luxos desnecessários descendentes do homem antropocêntrico, o que irritava Antônio, não por refutar a maquiagem, mas sim pela postura drasticamente ecológica e politizada que atribuía à garota certa arrogância. A mesma postura que essas meninas compartilham em grupos a favor dos direitos humanos, esquerdistas defensoras do Nelson Mandela e totalmente revestidas de feminismo. Para An, essas coisas não faziam diferença, nem o menor sentido. Não importava quem descobriu a Partícula de Deus, quem lutou pela minoria, quais foram as causas da Guerra da Coreia, a teoria de Hawking ou qual é a tendência da vez na moda. Tudo encontraria seu fim através de uma mediania insignificante, e quando isso acontecer, seria como se nada tivesse existido. Tudo se trata de desgaste mental e morte psíquica. Antônio não queria fazer parte da atmosfera fatídica que é o mundo. Existia por existir e quando dava mascarava suas ausências de metas com doses baratas de alguma bebida, nos oito reais gastos em seu maço, e no sorriso de Ana. Sentia-se vazio, mas Ana lhe proporcionava perspectiva. Ao menos existir com ela, era leve. A sua íris estagnou na silhueta da menina à medida que esta se aproximava do Maverick. Estava linda – droga, Nana – e olhar para ela doía. Os lábios rasgaram um sorriso amargo, com aroma de nicotina.– 30 minutos atrasada – disse sem fitar os olhos amendoados que repousaram no assento ao lado do seu.– “Olá, Ana”, oi pra você também An – pegou dos dedos do rapaz a caneta cancerígena que quase atingira o filtro, jogando na lixeira próxima ao vidro aberto – você devia parar de fumar essa merda.– E você devia ser mais pontual – olhou-a de canto.– Meu gato atirou o relógio pela janela – rebateu entre o riso baixo. Ajeitou o tecido da saia – qual é, por que o mau humor? Levou um pé, foi?– Coloca o cinto – girou a chave, dando partida no motor. O carro afogou na primeira, afogou na segunda e na terceira Ana sugeriu tomar o controle. – Vai, “senhor machista só eu e somente eu toco no volante”, qual o problema?– Se insistir mais eu te coloco no porta-malas – fez uma nova tentativa e, com dificuldade, o carro ligou. Ana cruzou os braços, distraída com duas crianças de mais ou menos 9 e 12 anos que passavam. O menor gritava “mas fui eu quem achou!” e o mais velho tentava furtar das mãos encardidas um medalhão enferrujado.– Desmancha esse bico. Você tá até que bonitinha. – E você tomou banho – fez um gesto engraçadinho com o nariz, como que cheirando o ar. Analisou o rapaz com olhos críticos. O desgraçado era lindo, pensava, logo afastando as ideias as quais poluíam sua mente. Vestia uma camiseta preta mal abotoada, coberta por um blazer slim cinza; a calça destroyed quebrava o visual sofisticado. A lateral de seu rosto profundamente marcada pelo maxilar, Antônio havia feito a barba — deve estar querendo impressionar alguma riquinha mascarada por rímel caro -, concluiu. O charme acentuado era aquele atribuído a George, personagem interpretado por Rupert Everett em O Casamento Do Meu Melhor Amigo, exceto pelo exíguo detalhe de que ele não era homossexual e ela, bem, não era a Julia Roberts. Os verdes possuíam um brilho fosco e agora a encaravam de canto. – Que tanto olha? – Você fez a barba – Retrucou trépida, sem intervalos de tempo, num timbre engasgado. Roçava os joelhos pontudos um no outro.–Ah, uma hora eu teria que me desfazer da aparência de proletário-estudante-de-filosofia, ou retornar a ativa, você quem escolhe o termo – voltou sua atenção para o volante, retirando os verdes dos castanhos.
– Preferia você com barba – revidou baixinho enquanto esticava a mão até o rádio. Usava um anel no indicador. The Cranberries na estação oito.“If you, if you could return,Don’t let it burn, don’t let it fade, I’m sure I’m not being rude, but...” Sua língua atingia o céu da boca, seguindo a letra da música assim como seus ombros – como eu amo essa música, e a Dolores, ela é tão quente no palco. Eu dormiria com ela – riu. – Vai demorar muito, An? – soprou os fios pendidos na tez.– Tempo o suficiente pra você me incluir na sua fantasia lesbo-sexual – acendeu um Dunhill. Ana entortou o nariz, ignorando-o, provocando um riso por parte dele – já chegamos, Nana.“... But it’s just your attitude,It’s tearing me apart, it’s ruining everything.” *******– VICTOR! O grito histérico partiu do gramado salpicado por centáureas violetas e narcisos amarelos. Tinha estatura mediana, seios pequenos e o dourado dançava nas costas esguias à medida que a menina mancava. O corte utilizado era idêntico ao de Nicole Kidman em Practical Magic, os fios da franja rente aos olhos despenteados pelo suor. Corria atrás de um rapaz calvo com um pé descalço, o que aparentemente causava um divertimento por parte deste ao julgar pelas risadas. Logo atrás, surgia um grupo de três, duas garotas altas e magras na mesma proporção, acompanhadas de um jovem roliço que devia estar nos seus 22 anos, apesar da aparência acrescentar um ano para cada dois quilos acima do ideal. Falavam alto e gesticulavam. A morena gritava “PEGUE ELE ANDREA” e a outra ria desmedidamente. – VICTOR, VOLTE AQUI, VICTOR , VICTOR – urrava feito louca. Todos novos, bem sucedidos e felizes. Uma felicidade aflorada como uma stripper em seu palco, expondo-se em movimentos ousados e petulantes, acentuados pelo álcool. A testa de Victor tremulava e a mão direita tinha preso aos dedos a correia de um Chiristian Dior em tons variados de café. A dublê de Nicole puxou-o pelo terno e em questão de segundos os dois estavam contrariando as leis da física as quais afirmam que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. A menina sumia diante dos quase dois metros e o único sinal de sua existência era a voz esganiçada que rompia sua garganta pequena e as palmas provenientes do trio alguns passos atrasados. O grupo que aparentava ter fugido de um musical da Broadway cruzava com Antônio e Ana. A morena sorriu para An fazendo um gesto insinuante e Victor o cumprimentou. Ana virou-se para fitar os jovens, porém estes já haviam desaparecido na esquina.– Dormiu com ela? – Antônio caminhava calmamente com as mãos costuradas nos bolsos da calça.– Depende.– Depende sim, unicamente do fato de você não conseguir manter seu pênis dentro das calças por muito tempo. – Depende do significado que você atribui a “dormir” – voltou-se e Ana o interrogou com o olhar.– Estávamos em uma cabine telefônica e o máximo que eu consegui atingir foi a primeira base enquanto ela discutia com alguém que eu deduzi ser o noivo.Não se deu ao trabalho de encarar a expressão de reprovação no rosto que o olhava, sabia que estaria ali e An detestava a acidez daquelas pupilas escuras. Limitou-se a pegá-la pela mão – o Rafa tá esperando lá dentro, vem. ****– TONIIII! – A porta abriu-se e entre as laterais de madeira uma figura morena de rosto adornado por fios pretos surgiu – entrem, pensei que se divertiriam sem mim – desviou os botões rasos e evasivos para Ana, sorrindo maliciosamente. As digitais de ambos ainda estavam conectadas quando os dois se entreolharam, desvencilhando-as por conseguinte. Rafael tinha 26 anos e era dono de um pub conhecido nas regiões centrais da cidade. Seu pai, um italiano arisco que demonstrava profundo afeto ao lucro e uma postura fria em relação à família, dividia a liderança com a o pai de An em uma empresa multinacional destinada a produção de ar-condicionado e refrigeradores em geral. A linha vital dos dois já estavam traçadas, deveriam seguir os passos de seus progenitores dando continuidade aos negócios da família, mas não era exatamente o que Antônio queria para ele, optando por jornalismo na tentativa infrutífera de preencher uma lacuna que nem ele sabia como eliminar. Estava no último ano e Rafa largara a faculdade de administração no primeiro semestre. As ligações que Antônio mantinha com a família eram demasiadamente frágeis, sempre sujeitas a instabilidades e brigas. Não possuía um bom relacionamento com o pai e este nunca o apoiara em suas decisões. A intermediária entre os dois e responsável por amenizar as constantes tensões era sua mãe, e embora nutrisse um forte carinho pela mesma, o orgulho em seu peito era maior. Antônio fixou os verdes no ambiente, estudando minuciosamente cada diminuto detalhe e as silhuetas em vestes caras que ali se encontravam. Seu amigo já estava tentando fundir a massa corpórea de alguma convidada à parede em trocas violentas de carícias.– Eu vou pegar uma cerveja, você vai ficar bem?– Merda, An, acha que eu tenho 12 anos?– Certo – sorriu atravessado – eu já volto – Ela sabia o que aquela resposta significava, e não podia depender dele sempre em situações assim para interagir ou lidar com aquele tipo de gente que não era o seu tipo de gente. Ana não podia mergulhar os sentidos em entorpecentes num domingo sem a preocupação de se atrasar para as responsabilidades fatídicas de segundas normais, como eles faziam. Respirou fundo e se afundou no cardume presente na sala principal, o ar sofrendo perturbação sonora por alguma eletrônica a qual ela não conseguia identificar. Seguia rapidamente, com as mãos defendendo os ouvidos e os olhos atentos em fitar os pés. Perdera Antônio de seu campo de visão para alguma barbie plastificada e também não se importava mais. Ela dava conta! Não podia ser pior que o sarau da quarta série. Mais cinco passos. Quatro. Três. Okay, estes calcanhares revestidos por couro não estavam no roteiro de seu trajeto porta-sofá. Ana ergueu os olhos lentamente. Merda. Blazer preto e o pescoço que estava enlaçado em um cachecol xadrez logo olhava a responsável pelo crime hediondo por cima dos ombros.– Preste atenção por ond... Hmmm – os cantos estreitaram-se ainda mais, imprimindo-lhe na face um sorriso periférico. – Desculpe – encarava-o com uma indiferença evidente.O ruivo mergulhava o negro de seus olhos nos castanhos de Ana com certa curiosidade na menina que se encontrava em sua frente. Crispou os lábios rosados.–Deixe eu lhe servir uma bebida – sugeriu.– Eu acho que sei onde fica o bar – escolheu moderadamente as palavras ponderando o timbre em cada uma delas, não desejava ser agressiva.– A questão é se você vai conseguir chegar viva até lá. Havia duas opções: seguir com aquele desconhecido, porém muito atraente, e dar abertura talvez para uma diálogo interessante, ou na pior das hipóteses, ter de aturar um monólogo previsível, embasado em cantadas falidas enquanto suas nádegas são apalpadas. Pensou que não tinha nada a perder e resolveu baixar a retaguarda, dando a si uma chance. Evidentemente o rapaz que a assistia não se mostrou surpreso, pelo contrário, restringiu seus atos em um cenho franzido e uma rispidez contornada nos traços de seu rosto alvo, conduzindo Ana pelo punho até o extremo do cômodo.
Notas finais
Desculpem demorar para postar, eu cheguei de viagem ontem a noite, férias e tudo o mais hahahaha. Até o próximo capítulo :)
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