Você Não Quer Acreditar

1 Estranha sensação


Acordou de olhos assustados, suando frio e com os músculos rígidos. Estava em um lugar escuro, sombrio. O guarda-roupa e o criado mudo revelaram que se tratava de um quarto.

— Ei? Você está bem? — perguntou uma voz ao seu lado.

— Estou... Foi só um pesadelo — não se lembrava do sonho, mas certamente fora terrível.

Tentou dormir de novo, com alguma dificuldade. Ao abrir os olhos novamente, já estava claro. ”Este... não é o meu quarto.” Foi esse o pensamento que invadiu sua mente neste instante. Apesar de saber que morava naquela casa há quase 2 meses e que o quarto não mudara praticamente em nada desde a mudança, sentia que estava muito diferente do que de costume. E não apenas o quarto. Toda a casa estava estranha. Ela foi em direção ao espelho certificar-se de que não havia perdido a memoria. Não. Reconhecera seu rosto. Era o mesmo de sempre.

— Ei! Já acordou? Lembra que está atrasada, não lembra? — avisou uma voz masculina no andar de baixo.

— Já estou indo, não precisa me esperar se não quiser, seu chato!

“Deve ser só uma sensação boba, não vou me deixar atrasar por causa disso”— disse a si mesma e se arrumou o mais rápido que pode. Desceu as escadas e foi em direção à cozinha onde encontrou um Thiago distraído comendo torradas e assistindo desenho animado.

— Por que não me acordou mais cedo? —falou Ellen enquanto lhe dava um tapa na parte de trás da cabeça, fazendo-o balançar como um joão teimoso.

— Por que você não acordou mais cedo? — respondeu calmamente, sem alterar nenhum músculo da face.

— Nem ao menos serve pra ser despertador — falou ao sentar-se a seu lado. Aquele rosto jovial ainda lembrava o menino que ela conheceu alguns anos atrás. Naquela época nem se falavam muito, talvez pelo fato de Ellen estar sempre ocupada brincando com Cecilia, a irmã mais velha dele. Os anos se passaram e agora eles estão juntos.

— Não estamos velhos demais para assistir desenho? — ela perguntou enquanto servia-se de cereal.

— Nunca se é velho demais pra esse tipo de coisa — respondeu ele, sorrindo.

Depois do café da manhã, cada um seguiu o seu caminho. Assim como a casa, ela também não reconheceu a rua. As casas, as portas, os telhados, nada lhe era familiar. Por instinto, foi em linha reta até chegar onde talvez fosse seu local de trabalho. Lá foi bem recebida ,cumprimentou a todos e por eles foi cumprimentada. No entanto o trabalho em si pareceu bobo, sem sentido, como se estivesse brincando de faz de conta. Ao seu lado alguém cantarolava uma melodia conhecida que ressoava e pulsava em seu crânio, que agora começara a latejar como se britadeiras invisíveis tentassem fazer buracos em suas têmporas. Queria parar com aquela dor de dente na cabeça. Sentia-se tonta, enjoada à medida que os assobios continuavam.

— Você pode parar um pouco, por favor? — disse com delicadeza, olhando para o rosto do homem desconhecido, mas estranhamente familiar, que fez silêncio e a encarou com um olhar estranho.

A dor de cabeça estava bem mais fraca agora, embora ainda persistisse, insistente e incômoda junto com a melodia em sua memoria.

Revirando uns papeis, achou uma foto velha e amassada de duas crianças sorrindo. Ellen riu-se ao lembrar de tempos passados, que nem pareciam tão distantes... quanto tempo faz mesmo?

Aquele dia, igual a muitos outros ...


— Ei! Pega mais leite! Tá acabando aqui!

—Tá! Já vou!

Duas meninas brincavam em um quintal. Faziam bolos de terra com panelinhas e colheres de plástico. Chamavam água de leite e torneira de vaquinha. Eram dias felizes onde não se tinha muitas preocupações, assim como crianças deveriam ser. Apesar da tristeza ainda não explorada, apesar da mente um tanto poluída pela televisão, elas eram felizes brincando na lama.

— Este está pronto — diz Ellen ao mesmo tempo em que empurra o bolinho para o lado.

— Deixa eu confeitar — responde Cecilia, alvoroçada.

Doces lembranças de um belo dia.


São quase 19:00hrs e tudo ocorreu bem. Na volta, paredes e telhados pareciam bem mais familiares. Na rua havia varias pessoas. Eram bocas que riam e fofocavam, moleques andando de bicicleta, cachorros correndo, gatos se escondendo e , mas adiante, um homem vendendo churrasquinhos de carne duvidosa. Todo esse agito perturbava sua essência calma, mas por outro lado lhe dava segurança. Poucas pessoas na rua, significa mais chances de sofrer um assalto e isso era o que ela menos queria. A rua era agitava assim a qualquer hora do dia. Esse foi um dos motivos por ter escolhido aquele local como lar.

A porta de casa foi ficando cada vez mais próxima ate que, enfim, pode atravessa-la, tirar os sapatos e se jogar no sofá. Thiago dedilhava alguns acordes em seu violão, os olhos distantes pareciam não notar a presença de Ellen. Ela quis falar, mas faltou-lhe voz. Quis levantar, mas faltou-lhe força. Seus olhos pesavam enquanto ela se perguntava desde quando estava com sono. Antes que percebesse, adormeceu.


Notas finais
Peço por favor que me comuniquem qualquer erro de gramatica/concordância/ortografia/digitação/lógica/enredo/o diabo.