Por que não voltamos um pouco a historia? Há coisas que talvez valiam a pena explicar.

Pois bem, voltemos ao começo, mais especificamente 15 anos atrás.

O sol brilhava alegremente em um céu azul-claro. Folhas bem verdes e poucas nuvens repolhudas completavam a paisagem. Uma bela manhã de domingo. Ellen brincava sozinha em seu quarto como sempre. Suas bonecas haviam acabado de chegar ao planeta Morg quando dois olhos grandes e curiosos surgiram atrás da parede, chamando sua atenção. De onde vinha essa criança? Não conhecia muito bem os vizinhos, mas sabia que não havia nenhuma criança da sua idade naquela rua.

— Posso brincar também? — disse a visitante se aproximando e já a caminho de pegar um brinquedo.

— Ahn... er ... huhum! — respondeu desajeitava, em sinal positivo.

Cecilia tomava conta da brincadeira, que mudou radicalmente desde que chegou. Escolheu a boneca mais bonita e a fez a mais forte e poderosa das feiticeiras. Apesar de se sentir boba, Ellen estava muito feliz. Era uma delicia brincar com alguém. Na escola não conseguia fazer amigos que durassem mais de um dia. Era bobinha e chorona. Sua timidez não deixava que falasse facilmente com pessoas pouco conhecidas, além disso as meninas de sua sala não estavam muito interessadas em brincar. Pintavam-se, falavam de meninos e outras futilidades. Nossa menina não partilhava dessas atitudes precoces. Os meninos se enturmavam entre si e se afastavam das garotas. Porém havia um dia em que todos brincavam: quinta-feira da educação física. Bolas eram distribuídas e jogos eram inventados. Sem amigos e com pouca resistência , nossa pobre Ellen não fazia muito além de correr de um lado para o outro tal qual barata tonta, suando e arfando, esperando que alguém, por caridade, lhe passasse a bola.

— Filha! Vamos voltar! Quem mandou você ir ai pra cima? — uma voz feminina desconhecida chamava do andar de baixo.

— Tá certo mãe! —respondeu a menina e, virando para a outra, perguntou: — Qual seu nome? O meu é Cecilia.

— Ellen.

— Que nome esquisito! Ei! Eu vou morar numa casa perto daqui! Quer ver?

— Não sei minha mãe vai deixar ...

— Vai sim! Vem! — e puxou-a pelo braço.

Sua mãe não deixou que fosse, alegando que estava na hora do almoço. Cecilia foi repreendida pela dona da voz desconhecida, muito provavelmente sua mãe, pela falta de educação e entusiasmo excessivo. Na casa de Ellen, o almoço ficou pronto uma hora depois.

Nos dias seguintes, ela foi ficando cada vez mais próxima de sua nova vizinha. Constantemente ela aparecia para brincar em sua casa, dominar a brincadeira, pegar os melhores brinquedos e fazer Ellen de boba. Não eram raras as vezes em que a fez chorar. Ela poderia deixar de brincar, deixar de recebê-la em casa, ser grosseira, mas e então, com quem iria brincar? Ela era sua única amiga além dos imaginários. Assim, continuava abanando o rabo em troca de afeto.

O tempo passou, elas cresceram um pouco. Ellen já se sentia mais segura e Cecilia menos mimada, as brigas e choros se tornaram mais escassas e as brincadeiras mais gostosas. Elas eram feiticeiras, astronautas, padeiras, espiãs, mães ocupadas que largavam seus filhos em creches, bebês que faziam tudo sozinhos, e por ai vai. Às vezes sua mãe deixava que passasse as tardes na casa de Cecilia. Nesses dias, Thiago brincava com as duas. Era bem esperto para um menino de 6 anos, dois a menos que sua irmã. Ele deixava as brincadeiras mais divertidas e, apesar de implicar bastante com Ellen, ela o considerava um grande amigo.

E assim se passaram dois anos. Ellen estava arrumando os brinquedos quando ouviu seus pais conversando.

— E é por isso que eles vão se mudar — comentou o pai.

— A família do lado... quem diria. Eu acho muito bom. Não gosto daquela gente e aqueles moleques são uma má influencia pra nossa filhinha.

— eu gostava do marido. É um homem respeitoso.

— É um preguiçoso, isso sim! Quem sustentava a casa era a mulher quase sozinha. Por isso não teve tempo de educar aquelas crianças! Você não vê a mais velha? É uma metida! Nem sei por que deixo nossa Ellen brincar com ela.

A criança não pode acreditar em seus ouvidos. Iria perder sua única amiga! Agora que estava tudo tão bem! Por quê? Sentia os olhos marejados, uma angústia no peito como se uma mão invisível apertasse seu coração. Lágrimas molhavam seu rosto enquanto boas lembranças voavam em sua mente: tardes inteiras de brincadeiras sem pé nem cabeça, sem meio nem fim, palavras soltas, risadas jogadas, doces comidos... tudo isso quebrado, destruído, interrompido. Tudo iria embora, para sempre.

Ela pegou seu ursinho, o rosto encharcado. Sentou-se na cama, abraçou as próprias pernas e o urso. Ligou a televisão e esperou seu cérebro derreter.

Não houve uma ultima tarde de sábado. Um último bolo de lama, uma ultima risada, nem mesmo uma palavra de adeus. Cecilia se foi em uma tarde vermelha de cores mortas e vento congelante. Ellen acompanhou o carro com o olhar até ele desaparecer, levando embora toda a sua alegria. Ficou na janela, sozinha, por um bom tempo.

Um dia, ao voltar da escola, encontrou sobre a mesa um envelope arroxeado. Uma carta que, para sua surpresa era endereçada a ela. Virou a carta afim de descobrir quem havia enviado. Seu coração deu pulos e seus olhos brilharam quando leu o nome da remetente: Cecilia.

E assim, de carta em carta, mensagem a mensagem, cinco anos se passaram. Tudo havia mudado: o jeito, o andar, as roupas, o cabelo, o olhar. Já não brincava mais. A timidez, medo e choro deram lugar ao silencio e desprezo quase arrogante. Tinha amigas agora. Pessoas com quem rir, fofocar, conversar e falar sobre música. Mas quando tentavam entrar em seu coração, ela fugia. Cansou de ver amizades morrendo por falta de contato. Observava quieta enquanto todos iam embora. Ela também ia embora. Nunca ficara mais de dois anos em uma mesma escola. Arrumava sempre uma desculpa, reclamava dos professores, do ensino, qualquer coisa. Sua mãe entendia e procurarava outro colégio. Era sempre um novo lugar, um novo mundo. Conhecia as pessoas, formava grupos. Passava um tempo e enjoava delas, de suas besteiras. Ninguém a entendia, não se abria o bastante para tornar isso possível.

Talvez, o que mais estava diferente, era algo novo e mágico chamado música. Letras e melodias que expressavam sua dor, angústia, tristeza, raiva, indiferença e ressaca mental. Ia de extremo a extremo, de vozes guturais e cantos monstruosos ao jeitinho brasileiro de cantar manso, como que sussurrando, soltando diretas e indiretas em nossa língua pátria.

Estava exatamente ouvindo música e fitando o vácuo, esperando seu ônibus na parada, quando alguém a acordou de seu transe.

— Ei, Eli! Você vai pro parque com a gente no sábado? — perguntou a integrante tagarela da mais nova panelinha de Ellen.

— Não dá. Tenho compromisso.

— Poxa... você nunca vai pros nossos encontros — disse fazendo bico.

— Desculpe — fingiu lamento — É que eu não posso desmarcar. Está combinado a séculos.

— É o seu peguete?

— É — mentiu.

— Então tudo bem! Boa sorte, viu? Tchau! — despediu-se dando sinal para o ônibus.

— Tchau! — acenou Ellen.

Aquele dia parecia infinito, mais infinito ainda que a semana, que se arrastara na velocidade de uma lesma paralítica. Desde que soubera que Cecilia e sua família haviam finalmente voltado a cidade e que iam se ver novamente depois de tanto tempo, os relógios fizeram o favor de diminuir a marcha e até o sol andava mais lentamente. Em silêncio repetia a mensagem recebida fim de semana passado: “Eeeh!! Pois é, ai então a gente já terminou de arrumar as coisas e a mãe disse que eu já posso sair! Vamos pro shopping no sábado? Vô levar meu irmão pra tu ver como ele tá diferente! “

De volta ao mundo real, ela percebeu que quase perdera o ônibus. Entrou no coletivo, que balançava como se fosse desmontar. Mais de uma vez a cena daquele carro enorme desmoronando pedaço por pedaço passou em sua cabeça propícia em pensar desastres. Felizmente essa imagem jamais se concretizou.

Chegando em casa, automaticamente olhou para a cadeira da varanda, onde seu pai costumava ficar. “Vai fazer 1 ano desde que ele foi embora” pensou Ellen, sem sombra de saudade, mas com certa melancolia. Seu pai nunca havia sido presente, apesar de não trabalhar tanto e passar até bastante tempo em casa, se comparar com os pais de outras meninas que conhecia. Quando criança, ela tentava com todas as suas forças chamar sua atenção. Lembrava um cachorrinho. Fazia desenhos, inventava machucados, conversas. Em troca recebia palavras frias e às vezes gritos e xingamentos. Ele nunca respeitou sua infância. Falava sobre coisas feias e dizia os palavrões mais sujos, não importando se se ela estava ali ou não. Como nunca havia visto outro comportamento e sua mãe nunca o repreendia, ela achava aquilo tudo natural, até por que não entendia metade do que era dito. Se tratava sua mulher e filha com rudeza, era bem diferente com as outras pessoas. Com qualquer um era amável e gentil, bem simpático. Paquerava mulheres, brincava com crianças, batia papo com os homens. Sempre que podia falava com orgulho do filho de seu outro casamento. Jamais falava de Ellen.

E então, um dia, sem discursões ou brigas, ele simplesmente foi embora. Para ela disseram que foi viajar por talvez uma semana ou duas. Quando percebeu, sua mãe estava divorciada e ganhando pensão. Seria um erro dizer que não sentia falta. Por mais ausente que fosse, ainda era um pai. Poderia conversar e acompanha-la para não ter que andar sozinha por essas ruas perigosas. Mas desde que partiu, eles nunca mais se viram.

Mas nada disso realmente a preocupava no momento. Nesse instante, a única coisa que cabia dentro de si era a ansiedade de ver de novo aqueles olhos curiosos.

Era sábado, sábado finalmente, e após alguns telefonemas de confirmação, poucos desencontros e uma paradinha para o lanche, finalmente estavam juntas cara a cara. Foi como se nunca houvessem se separado. Conversaram, riram ,foram ver ursinhos, brinquedos, livros e filhotes. Comentaram novidades, contaram piadas internas, foram ver hamsters e riram mais um pouco. Foi um dia memorável em todos os sentidos. Um dia de novas sensações.

— Ah! Olha! Achei ele! Aquele chato. Ele não quis esperar você. — Cecilia apontou para um garoto ao longe, acompanhado por um grupo de pessoas.

—Deixa ele! Ele queria ver os amigos dele também — respondeu Ellen pouco interessada.

— Veja! Ele está vindo — avisou a outra, acenando.

Sentiu seu queixo cair ao reparar no menino que chegava perto. Um rosto tão harmonioso e jovial que faziam magníficas qualquer careta que fizesse. Olhos de tédio semicerrados e expressão de desprezo. Tudo isso combinava perfeitamente com esse tipo de beleza relaxada que só garotos conseguem ter. Foi inevitável lembrar das mensagens de Cecilia que mencionavam seu irmão. Elas sempre diziam o quanto os dois haviam se tornado parecidos. Ambos gostavam de boa música, livros e eram reservados. “Vocês fariam um casal tão bonitinho” Dizia Cecilia. “Que é isso, sua louca? Me empurrando pro seu irmão? Isso sem contar que ele é 3 anos mais novo que eu! Leite Ninho anda caro, sabia?” Respondia rindo. Agora pensava que podia muito bem gastar todo o seu dinheiro em latas e latas de leite. Quem diria que aquele meninozinho estranho viria a se tornar tão charmoso?

— E aí, Ele! Meu maninho ficou diferente, não ficou?

— Uau! Ellen! Você virou outra pessoa!— falou, revelando uma voz bonita, porem um tanto estranha, talvez pelo fato de que começava agora a atravessar a puberdade.

— Eu? Você ficou muito diferente! Quase não reconheci. — respondeu o coração aos pulos, um frio estranho na barriga.

— E aí Ciça? É essa a amiga de vocês?— falou um dos amigos de Thiago.

Do grupo que acompanhava o irmão de Cecilia, Ellen reconheceu somente uma pessoa: Julia, uma menina que estudava em sua escola. Quilos de maquiagem no rosto, vestidinho rosa de marca, pérolas falsas no pescoço, bolsinha de couro sintética combinando com sapatos de salto que pareciam objetos de tortura para os pés. Todo esse vermelho e rosa lembrava algo feito com morangos. Um bonito morango de plástico.

Eu não disse que esse seria um dia de novas sensações? Pois então, Ellen conheceu uma coisa totalmente nova. Uma raiva sem motivo do jeito como Julia se oferecia para Thiago, agarrando seu braço, beijando seu rosto, insistindo em permanecer ao seu lado mesmo quando não é conveniente. Era o monstrinho verde do ciúme que nascera em seu peito e lá ficou a inventar planos maléficos.

Sábado acabou, domingo passou, veio segunda. Ter de ir á escola, olhar as mesmas caras preguiçosas e burras dos alunos, as mesmas caras de tédio e cansaço dos professores, a mesma lengalenga de que segundo é um dia horrível... tudo isso lhe dava preguiça. Não prestou a menor atenção a nenhuma aula. Seus olhos difusos fitavam o nada com tal intensidade que pareciam querer atravessar o espaço e ver o que realmente estava ali.

No intervalo deixou suas colegas conversando futilidades e resolveu ler. Quando estava inteiramente envolvida no texto, uma voz doce e artificial pronunciou seu nome.

— Olá, querida! — disse Julia com seus lábios entupidos de gloss.

Ellen deu um suspiro aborrecido, levantou a cabeça o mais lentamente possível, tal qual faria um ventilador. Mostrou sobrancelhas juntas e olhos semicerrados irritados.

— Quem diria, hein? Até você que vive com o nariz enfiado em livros, no final das contas é só uma garota.

Ellen apresentou uma expressão de dúvida, procurando entender do que a menina falava.

— Eu vi como você olhou para ele. Eu vi seus olhinhos brilhando, seu nervosismo — fingiu meiguice, em tom de deboche.

Ela respondeu com um olhar de desprezo, olhos espremidos e sobrancelhas arqueadas. Baixou a cabeça e voltou a ler.

Ela percebeu, naquele dia, suas mãos suando, seu coração batendo forte, o frio incômodo na barriga. Pensou que fosse apenas surpresa, ou algo assim. Ela sempre evitava os extremos. Nunca achava que era amor, que algo doía muito ou que era muito triste. Nunca achava que seu pai fazia muita falta ou que ela era muito importante para alguém. E assim, nunca sabia se o que sentia era muito fraco ou se as pessoas exageravam demais.

Ao longo da semana, Ellen foi ficando mais e mais íntima de Thiago e, sem querer, começou a se acostumar com sua presença. Esperava ansiosa a hora de voltar para casa e encontrar ele e Cecilia na parada de ônibus. Boa parte do entusiasmo era por Cecilia , claro.

O nervosismo inicial que sentia por ele perdeu um tanto suas forças. Já conseguia enxergar, com clareza, 2 ou 3 defeitos em seu rosto, uma ou duas manias, uma chatice aqui ou acolá. Porém, um frio intenso e um tremor tomavam conta de seu corpo se ele chegasse mais perto. Normal.

Talvez ela não soubesse o que estava acontecendo. Seria amor? Mas era tão diferente dos filmes e livros... ele não tomava conta de seus pensamentos, não a fazia ficar sem ar ou sonhando acordada. Ela queria estar perto, mas não o tempo todo. E, além do mais, fazia tão pouco tempo! Talvez mais uma semana ou duas, um mês. Aí sim teria certeza. Mas não deu tempo. No fim de semana seguinte ela iria descobrir, tarde demais, o que sentia.

Era o aniversário de Thiago e a família resolveu fazer uma festa. Todos os seus amigos estavam la, inclusive Julia, em seu microvestido de prostituta, que se oferecia a Thiago sem nenhum pudor ou respeito próprio. Isso, junto com a bagunça de pessoas, irritava Ellen. Ela preferia ficar no cantinho da sala falando com Cecilia, que falava com todos. Foi dalí que ela viu quando Thiago e Julia se beijaram em meio a aplausos e gritos. Parou de respirar por alguns segundos. Sentiu como se uma lâmina perfurasse seu coração e depois fosse retirada rapidamente, deixando uma enorme ferida que sangrava e sangrava. A primeira de muitas outras.

Cecilia ficou perplexa, foi tirar satisfação. Ellen deu uma desculpa qualquer para ir embora. Precisava ficar sozinha, somente ela e sua dor. Thiago, sempre palhaço, agora era todo de sorrisos bobos.

Em seu quarto, Ellen chorava agarrada ao seu ursinho, sofrendo sua primeira dor de amor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.