Você Não Está Sozinho
6 Um Medo Maciço e Roliço
Kotoba
Respiro fundo, já cansei de gritar e ninguém me ouvir. Estou com medo do que me espera no futuro, preso dentro de uma sala úmida e sem nada, espero o julgamento final. É tão injusto, mas sempre soube que eu não era nenhum herói. Não quero desistir, porém a esperança vai se esvanecendo pouco a pouco.
Eu queria salvar IA, ela é tão adorável, talvez seu corpo já esteja sem vida alguma agora. Quase choro ao pensar isso. Não quero ser pessimista, IA está viva, com certeza está. Mas vai saber pelo quê ela está passando? Só de imaginar aquela garota triste e solitária sendo ferida pelos terroristas me desespera. Será que a estão torturando? Ou pior? Será que estão abusando dela?
Me mexo freneticamente tentando me libertar da cadeira na qual estou preso.
Preciso salvá-la desses monstros cruéis e maníacos, não posso permitir que a maltratem. Ela é tão frágil...
Alguém entra na sala. Um garoto loiro de olhos verdes com um sorriso sádico no rosto. Me remexo na cadeira tentando falar, mas o pano em minha boa impede.
–Kotoba... – ele começa a me rodear – “Amigo”...
Solto gemidos querendo falar e ele tira o pano de minha boca.
–O que você fez com IA?! – pergunto rispidamente.
–Até agora nada – não gosto de sua expressão – O que interessa é o que vou fazer com você.
–O que você quer? Quem é você? Por que sequestrou IA? – indago receoso.
–Meu nome é Itou – responde ele – E acho que “IA” é a garota perfeita para ser uma de nós.
–IA jamais será uma terrorista! – digo.
–Acha mesmo? Ela já aceitou, está amando a ideia – fala Itou – Disse que somos muito legais, como uma família.
–Mentiroso! Ela nunca aceitaria ficar com vocês e matar as pessoas! – discordo.
–Você não a conhece mesmo – ele ri – Miyako é uma garota solitária e fria, detestada por todos, ela odeia este lugar e essas pessoas.
–Se ela aceitou ser terrorista deve ter sido porque você a ameaçou – suponho – O que você disse pra ela? E o que quis dizer com “até agora nada”? Por acaso pretende fazer algo com ela?!
–E se eu pretender? – questiona.
–Se você fizer alguma coisa com IA...
–O que você vai fazer? Chorar? – debocha Itou – Sua vida está em minhas mãos, melhor tomar cuidado.
Ele sai da sala com um sorriso malicioso. Só consigo pensar uma coisa: preciso salvar IA antes que ele faça alguma coisa pra ela. O que farei agora? Como escaparei daqui?
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IA
Seguro desajeitadamente a pistola tentando mirar e acertar o alvo direito.
–Você consegue, é fácil. Logo pegará o jeito – assegura Itou depois de minha sexta tentativa fracassada.
Todos aqui já estão desconfiados, Itou tem um certo cuidado especial comigo. Mas até agora têm me tratado super bem.
À noite eu tinha pensado muito em Kotoba, sua voz novamente me chamava misteriosamente, mas o medo de Itou não me deixaria vê-lo. “Você promete não me deixar sozinho também?” tinha pedido Kotoba, eu não prometi, mas me sinto muito culpada.
–Miyako você está muito desconcentrada – comenta Itou quando erro mais uma vez – Senão já teria acertado. No que está pensando?
–Ah... Bem... – penso numa resposta que não seja a verdade, ele não ficaria feliz – O que você quis dizer ontem? Como sabe que meu apelido é IA?
–Eu sei muita coisa – fala ele com aquele sorriso assustador.
–Você está escondendo algo – percebo – O que é?
–A única coisa que estou escondendo é este acampamento – mente Itou.
–Você esconde algo mais, eu sinto – o encaro.
–Você sente coisas demais – disfarça ele – Eu poderia te fazer sentir algo bem melhor...
–Cale-se! – ordeno – Nunca sentirei nada além de medo perto de você!
Itou me olha confuso como se finalmente tivesse percebido que está me metendo medo, fica tristonho.
–Me desculpe, eu não pensei nisso – tenta se redimir – Eu vou tentar... Sei lá... Não quero que sinta medo de mim.
–Então pare de me a ameaçar e a meu amigo! Deixe-me vê-lo – peço.
–Não – nega ele – Não posso.
–Por que não? – tento entender.
–Porque não – Itou não me olha nos olhos.
–Ele não fará nada, só quero vê-lo uma última vez – falo.
–Esse não é o problema – ele parece nervoso.
–E qual o problema então? – indago impaciente.
–Cale-se – ele me puxa pra perto bruscamente.
O medo fica maior, meu coração bate rápido demais. Por algum motivo Itou está quase chorando, sente-se culpado por algo desconhecido ainda.
–Desculpa... eu... – ele aproxima o rosto do meu e dou-lhe um tapa impulsivo antes que me beije.
–Por favor, pare de tentar me beijar – suplico falando baixo.
Seu olhar triste não ousa chegar até mim e fica fitando o chão.
–Não vou deixar que você encontre Kotoba – decide Itou.
Percebo uma coisa e suspeito que a verdade seja pior do que imaginei.
–Como você sabe que ele se chama Kotoba? Eu nunca te contei – desconfio.
–Ah, você estava na casa dele quando te pegamos, certo? – ele se enrola com as palavras.
–Você não ousaria sequestrá-lo, não é? – pergunto receosa – Você o pegou?
–Ah... Eh... E tto...
–É por isso que não me deixa vê-lo?! – me indigno – Você o fez de refém?!
–Você não pode libertá-lo – Itou segura meu braço fortemente.
–Você vai me prender?! – questiono incrédula.
–Se for preciso – diz ele.
–Mas eu não ia fugir, só quero ver Kotoba! – minto – Não farei nada.
–Só vê-lo? – indaga Itou desconfiado.
–E conversar – completo – Mas, por favor, não o machuque.
–Depende de você.
–O que você quer? – pergunto.
–Ficará comigo – ordena – Pra sempre.
–Tudo bem – abro o sorriso mais falso que alguém já fez, é claro que não ficarei com ele.
–Posso beijá-la agora? – pede Itou.
Eu não queria, mas se eu não deixar ele desconfiará e não vai me deixar ver Kotoba. Então aceito, não pode ser tão ruim assim.
Itou me beija, meu coração inquieto faz meu corpo se esquentar. Eu nunca fui beijada, não um beijo tão... Sei lá, apaixonante. Ele gosta mesmo de mim e chego a sentir pena disso. Jamais ficarei com ele.
Itou me envolve com seus braços fortes, estamos perto demais e isso me dá medo, mas devo suportar. Pelo Kotoba, pela nossa vida.
Ele me segura mais firme, como se não quisesse soltar nunca mais. Sua mão por meu corpo me dá tanto medo que acabo o empurrando e me afastando, estou tremendo. As pessoas em volta nos fitam curiosas e estupefatas, mas no fundo já sabiam das intenções de seu líder comigo.
–Ah, se você quiser podemos ir pra longe deles – murmura Itou.
–Não. Agora quero ver Kotoba – decido.
Apesar de relutar me leva até onde Kotoba está preso, uma sala precária, com apenas uma porta. Kotoba tenta desesperadamente se libertar da cadeira quando entro lá, ele também tenta gritar, mas o pano em sua boca o impede.
–Kotoba! – tiro o pano de sua boca.
–IA! Você está bem?! Ele te fez algo?! Te machucou?! Abusou de você?! – questiona ele apavorado.
–Não, não aconteceu nada – discordo – Todos aqui me trataram super bem.
–Mas eles são terroristas! Te sequestraram! Você quer ficar com eles?! – Kotoba quase chora.
–Eles... não me odeiam – digo tentando disfarçar que estou mentindo.
–Mas você não pode ser uma deles! Vai matar?! Torturar as pessoas?! Assim mesmo que te odiarão!
–Acalme-se, acalme-se – chego mais perto e cochicho no ouvido dele – Vou tirar a gente daqui.
–Miyako – chama Itou.
Um tremor me percorre pelo receio de ele ter me ouvido, mas o que diz é:
–Eu até o libertaria, mas com uma condição – meus olhos brilham com a esperança de que Kotoba pode ser solto – Eu não quero te forçar a nada, mas eu queria... dormir com você.
–NÃO! – Kotoba se sobressalta – Não IA, não! Não faça isso!
–Cale a boca! – ordena Itou a Kotoba – Você não pode decidir por ela!
Não consigo nem respirar direito, meu coração está batendo tão forte que o sinto nos dedos. Não posso dormir com Itou, não posso, de forma alguma. Quero fugir daqui, quero ir embora antes que eu acabe aceitando e ele faça tudo na frente de Kotoba. Estou com medo, quero chorar e gritar.
Abraço Kotoba impulsivamente deixando-os confusos e o desamarro, ele se levanta rapidamente e jogo a cadeira em Itou. Saímos correndo apavorados, ansiando para escapar daquele louco antes que qualquer coisa aconteça.
–Você não pode fugir de mim Miyako! – ouço Itou gritar – Eu vou encontrá-los! E você será minha!
Tudo parece girar tornando o mundo uma caixa cilíndrica, meu grande medo cresce e diminui a todo o momento em minha tontura surreal.
Um medo maciço e roliço.
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