Você Não Está Sozinho

3 Dói... Mas Isto é Uma Bobagem


Notas iniciais
Mais um cap triste e deprê, mas também é um pouco fofinho :3 Espero que gostem

IA

A vida continua neste beco sem-saída, não posso fugir dos sorrisos de deboche e das zombarias. Agora que meu coração deixou sua fortaleza cair estou vulnerável a qualquer palavra cortante dirigida a mim. Meu coração está quebrado, mas ninguém se importa. Eu não deveria ficar me lamentando, então o que vou fazer? Pra onde irei agora? Não há como fugir.

“Miyako...” ouço aquela voz misteriosa me chamando.

Será que essa pessoa pode me ajudar? Onde ela está? Quero poder encontrar.

Ando sem rumo em mais um dia cinzento, as perguntas intermináveis começam a se projetar inevitavelmente. O que eu quero para amanhã? Não há escolha, tudo será igual. Onde estão as respostas verdadeiras? Quem sou eu afinal? Talvez eu não exista.

Começa a chover, até o céu está chorando. Isso não muda meu estado deprimente de espírito, na verdade, me faz querer gritar por socorro, mas ninguém ouvirá. Por que ninguém ouve?

Corro na direção onde acho que vem a voz me chamando, não quero ver aqueles monstros que me odeiam novamente, se há alguém aqui que pode me ajudar então é o portador dessa voz. Preciso encontrá-lo. Talvez essa seja a pessoa que pode consertar meu coração que começou a se encher de ódio deste lugar horrível.

A voz se torna mais alta e acabo soltando um grito de socorro que provavelmente não será ouvido por ninguém além do garoto que está agachado cabisbaixo ali no canto.

–Socorro.

Ele me olha com os olhos molhados não só pela chuva, são lágrimas.

–S-socorro – peço temendo que ele me odeie como todos.

–Quem é você? O que houve? – pergunta ele.

Sua voz é tão amável, não é carregada de desprezo como estou acostumada a ouvir.

–Eu sou... Você não sabe? – indago sem saber o que dizer. Se ele não sabe como poderia ser a tal voz?

–Como eu poderia saber? Nunca falei com você – fala ele.

–IA – pronuncio tão baixo que é quase inaudível.

–Como Inteligência Artificial? – ele ri – Sou Kotoba.

–Palavras – murmuro o significado do nome dele deslumbrada, Kotoba não está me tratando mal.

–Ah... Eh...Você é muito bonita – comenta ele sem jeito.

–Está mentindo! – discordo rispidamente.

–Desculpa, falei algo errado? – Kotoba fica confuso – E por que estava pedindo ajuda?

–Ah, eu... Bem... – meu interior está parecendo o de um robô quebrado, meu coração pulsa cada vez mais rápido. O que eu digo? – Eu estava sozinha.

–Por isso estava pedindo ajuda? – ele me olha com pena.

–Isso não é triste! – nego – Não sinta pena de mim!

–E você está feliz assim? – questiona Kotoba.

Estou mentindo pra mim mesma, claro que isso é triste e não estou feliz.

Começo a chorar repentinamente, não posso engolir as lágrimas ou elas sufocarão meu coração, assim começo a entrar em colapso chorando como se tudo estivesse acabado. Todos esses anos sendo asfiquixiada por lágrimas acumuladas que não derramei por orgulho agora explodem num mar de sofrimento e solidão.

–Ah, não chore, acalme-se.

Não creio no que Kotoba está fazendo, ele está mesmo tentando me reconfortar.

–Você não está sozinha, eu estou aqui.

Arregalo os olhos com o abraço repentino que ele me dá.

Não tenho palavras pra descrever a sensação de ser abraçada, um abraço verdadeiro. Nem acredito nisso. Quem é ele? Ninguém jamais me abraçaria ou tentaria me reconfortar assim. Quem é esse garoto?

–Não chore, você não está sozinha, ninguém está sozinho – diz Kotoba.

–Você não entende, todos me odeiam! Como poderia entender? Nunca esteve sozinho! – suponho.

–Estive sim, IA – afirma ele – Mais do que você imagina.

–Por que está me abraçando? Você deveria me odiar – falo.

–Por que eu te odiaria? Você está chorando e nunca fez nada pra que eu te odiasse.

Não entendo como ele consegue ser tão amável com um parasita como eu. E o que ele quis dizer antes? Também estava sozinho?

–Quem é você Kotoba? – pergunto.

–Um sonhador ordinário infantil e solitário – responde ele com um sorriso doce.

Isso é real ou apenas uma mentira? Parece um sonho do qual irei acordar daqui a pouco, quero continuar neste abraço aconchegante e adorável pra sempre. É tão bom, parece que ele tampou as antigas feridas de meu coração. É como se ele gostasse de mim... Afasto-me alerta, com medo de que seja uma armadilha, meu coração está disparado.

–Por que não vamos para um lugar mais seco? – indaga Kotoba meio corado.

Vendo-o assim, também coro. Será mesmo? Não quero outra decepção, senão não irei suportar.

Vamos para uma lanchonete já que é o lugar mais próximo, penso que isso parece um encontro e meu rosto esquenta ainda mais.

–Parece que nós dois estamos matando aula – Kotoba repara em meu uniforme.

Percebo que o uniforme dele é o mesmo que o dos garotos de minha escola.

–Já te vi na escola um dia – conta ele – Você cantou uma música meio triste no festival do ano passado. Sua voz é linda!

–Eu nunca reparei em você, desculpa – fico sem jeito, ele me viu cantando.

–Não sou alguém que você repararia – Kotoba se entristece – Por que você diz que as pessoas te odeiam?

–Me odeiam porque sou uma invasora – respondo.

–O que você está invadindo? Um mundo de sujeira e hipocrisia. Eles não tem direito de te odiar, eles não sabem nada. Um dia esses pensamentos apodrecidos se virarão contra eles e explodirão duparappapa – diz Kotoba.

–Você fala como se fosse de outro mundo – comento.

–Quem dera. Este é tão sujo! Cheio de lixo e pessoas de almas vazias e corações de pedra! Não aguento ver isso, até mesmo amor não sei mais o que é, foi corrompido pela humanidade.

–Também acho – fico admirada.

Seus olhos brilham com algum tipo de esperança.

–Meu sonho é consertar este mundo, pra que sejamos felizes – Kotoba sorri radiante.

–Você parece uma criança – digo meio sorrindo.

Ele não fica muito feliz com o comentário.

–E qual é o seu sonho? – questiona curioso.

–Ah... Meu sonho...

Pessoas precisam de objetivos, certo? Mas qual é o meu? Meu único desejo era deixar de ser odiada ou fugir deste lugar perturbador. Kotoba é tão objetivo apesar de ser um pouco infantil, ele é admirável e eu sou uma inútil invasora fria e sem sonhos.

–Eu quero que as pessoas parem de me odiar, quero que me amem – acabo dizendo uma coisa egoísta e narcisista.

–Quer que te amem? – ele fica surpreso.

–Não que o mundo inteiro me ame como se eu fosse uma deusa – tento me explicar – Quero que alguém, basta que apenas uma pessoa me ame pra eu me sentir feliz. A minha vida toda fui ignorada ou odiada por qualquer um à minha volta, sempre estive sozinha... Mas não precisa ter pena! Eu estou bem...

Kotoba aperta minha mão estendida na mesa, meu coração fica inquieto novamente e a afasto dele.

–Você é tão brilhante, Kotoba – comento – Tem um coração tão puro! Isso é demais pra mim!

–Como assim? – ele fica confuso.

–Eu sou horrível comparada a você – explico – Odeio tudo e todos até a mim mesma. Enquanto você sonha com um futuro melhor para o mundo, eu alimento o meu ódio egoísta querendo fugir desta prisão. Sou tão suja quanto qualquer ignorante hipócrita daqui!

–Não é não – discorda ele – Você pode ter sido estragada por eles, mas não é como eles! Você não tem culpa de estar sozinha! E agora vou te ajudar a melhorar, a ter esperança e sorrir mesmo quando tudo estiver horrível.

–Você está mentindo! Cale-se! – ordeno – Aposto que é mais uma mentira como sempre! Até parece que alguém teria um sonho tão infantil e idiota assim!

–Pois bem – Kotoba se levanta alterado – Você tem um coração tão sujo e estragado que nem é preciso conhecê-la pra odiá-la!

Ele vai embora sem olhar pra trás, não sei o que fazer. Um desespero toma conta de mim, falei uma coisa tão idiota que só o que posso fazer é me odiar. Pedi a chance de ter alguma felicidade, perdi a chance de viver. Ah, como eu me odeio! Tanto que eu queria desaparecer ali mesmo, ser engolida pelo chão e fugir pra algum lugar seguro.

“Está difícil demais? É doloroso demais?” escutei a voz de minha consciência zombando.

–Não, nem um pouquinho – menti enquanto uma lágrima escorria por minha bochecha desejando que aquela luz voltasse e ele sorrisse pra mim mais uma vez.

Minha alma é tão suja e detestável!

Mas isto é bobagem... Com certeza uma bobagem.

Notas finais
Ah, coitada da IA, olha só o que ela fez! E agora? O que será que Kotoba vai fazer? E ela? como vai ficar? Só sábado agora.