Você Não Está Sozinho
4 Não Deixe Escapar!
Notas iniciais
Kotoba
Chuto uma pedra longe cerrando os dentes e os punhos, meu coração bate forte e lágrimas enchem meus olhos sem querer. Não sei exatamente que emoção incômoda é essa que estou sentindo, algo entre raiva e tristeza, uma angústia horrível fez algumas palavras ficarem presas em minha garganta.
Aquelas lágrimas de sofrimento que aquela garota derramou, ela não consegue sorrir, ninguém deveria conseguir sorrir aqui. Por que então ela falou como todos? Ela me chamou de criança e idiota. Por que ela fez isso? Por que ela me deixa assim? Quero ajudá-la, mas estou com medo. IA bem poderia ser mais um monstro em minha vida, mas ela parecia tão amável.
O que eu faço? Posso fugir com o orgulho e o medo guardado no bolso, mas quero tanto sentir aquele abraço de novo...
Choro, me odiando por ter dito aquelas palavras dolorosas pra ela antes. IA não é má, ela está sozinha, está doente. Sim, IA precisa de ajuda.
Mas o que eu posso fazer? Sou só um sonhador ordinário e infantil, há muito cheguei à conclusão de que nunca serei um herói a não ser nos meus sonhos.
“Não quer mudar isso?” ouço minha consciência perguntar.
–Tem razão – concordo determinado.
Não posso deixar IA sozinha, estarei sendo um monstro como todos, ela precisa de ajuda. É minha chance de deixar de ser apenas um sonhador ordinário e me tornar um verdadeiro herói.
Corro pelas ruas molhadas contornando a multidão de expressões surpresas aglomeradas, eles não importam, há alguém precisando de minha ajuda em algum lugar. Já parou de chover, o sol surge das nuvens, uma visão incomum nesta cidade nublada. Então meu coração dispara ao ver um roto indiferente no meio de dezenas, sei que nesse olhar frio se esconde um coração doente perdido na solidão.
Não posso deixar que isso continue assim, que emoção infantil, mas é tão brilhante.
–IA! – chamo com um sorriso no rosto, meus sentimentos são indescritíveis, há uma chama crescente de esperança iluminando meu futuro.
A confusão no rosto de IA é transparente, mas não posso evitar um abraço acalorado.
–O quê? – indaga ela estupefata com o ato.
–Me desculpe, me desculpe IA! – começo a me desculpar choroso, isso deveria ser infantil e ridículo, mas é bonito e heróico – Eu não devia ter dito aquilo! Não te odeio, você é linda IA, não poderia odiá-la nunca!
–O quê? Eu... – ela continua chocada.
A abraço mais forte, IA tenta se reprimir, mas não pode escapar do meu abraço. Não deixarei escapar.
–Estou aqui pra te ajudar – falo – Não vou te deixar. Falei aquilo no calor da emoção, me perdoe. Quero te ajudar, você precisa...sorrir um pouco. O mundo está horrível, mas podemos pintá-lo com cores mais bonitas.
–Ah... Eh... Por quê? – IA não consegue engolir o choro.
Continuo a abraçando, é tão adorável que minha esperança se torna uma explosão de emoções. Estou feliz e sinto algo estranho e nostálgico, um sentimento de alegria que não quero largar.
IA não agüenta e acaba me abraçando também.
–Eu é que devo me desculpar – diz – Seu sonho não é idiota, é lindo, tão lindo que me sinto um monstro horrível perto de você!
–Você não é um monstro – nego – Você é linda, sua alma é linda, mas seu coração é feito de dor. Não tem culpa de nada, você teve medo, eu entendo. Mas agora estou aqui pra consertar seu coração quebrado e solitário.
–Você é tão brilhante Kotoba! Como pode ser tão radiante assim? – questiona ela – Parece até o herói que eu sonhei pra me salvar.
–Você também é brilhante. Tão brilhante quanto uma estrela – digo – Vou te contar uma coisa: as pessoas só te odeiam porque têm inveja de sua incrível luz. O que acha de iluminar o mundo com esse brilho? Se precisar de ajuda ou estiver triste estarei sempre aqui.
–Como um herói – comenta IA quase sorrindo.
Aquela estranha alegria nostálgica aumenta me deixando num torpor gostoso e fico quente por algum motivo, estou desejando que essa sensação continue em volta de mim, quero algo que ainda não sei o que é. Não posso deixar que a emoção e IA vão embora, pela primeira vez sinto que o futuro certamente será melhor, agora não tenho somente a esperança. E enfim sou um herói.
–O que vai fazer agora? – pergunto.
–Não sei, isso é tão confuso que ainda não acredito – diz IA.
–Quer ir pra minha casa? – indago, pois lá poderemos conversar melhor.
Ela engole em seco e não me olha nos olhos, as bochechas vermelhas me deixam corado também. Meu coração está inquieto demais, os pensamentos se embaralham e chegam a uma fantasia tão boba que chega a me fazer rir. Será que ela gosta de mim?
–Vamos – decide IA ainda sem me olhar nos olhos.
Andamos sem trocar palavras, milhões de pensamentos rondam minha mente. Será que ela poderia gostar de um garoto como eu? Será que eu gosto dela? Esse sentimento de alegria indescritível poderia ser amor?
Chegamos à minha casa, passamos despercebidos por minha mãe sentada no sofá olhando o noticiário. Eu quase nunca falo com ela, minha mãe sabe o que está acontecendo à sua volta, mas não reage. Ela está assim desde que meu pai morreu, como se estivesse num outro mundo e eu passei a ser um fantasma nesta casa.
Subimos às escadas e entramos no meu quarto, fecho a porta apesar de saber que ninguém se importará com o que estiver acontecendo aqui dentro. O quarto pode estar pegando fogo ou eu posso estar torturando IA que ninguém verá. Claro que eu nunca faria algo tão terrível.
–P-por que m-me trouxe aqui? – questiona IA gaguejando, parece aflita.
–Pra conversar. O que mais? – tento esconder minha vergonha, ela provavelmente pensou que eu tinha intenções inconvenientes... Coisa de adolescente.
Mas sou só uma criança, certo? Vamos pensar assim.
–Sente-se – sorrio pra disfarçar o nervosismo.
Sentamos na cama desorganizada. Me amaldiçoo por não tê-la arrumado depois que acordei.
Foi o que eu disse: uma criança ordinária.
–Fale sobre você: o que está sentindo este coração quebradiço? – penso que pareço um psicólogo falando.
–Estou sozinha.
–Estava – corrijo – Estou aqui agora.
Seguro sua mão, aquela sensação fica mais forte como um gatilho. IA ofega nervosamente e afasta a mão, com medo.
–Meus pais nunca estavam nem aí pra mim – conta ela.
–Sei como se sente – penso em minha mãe.
–Quando eles me percebiam era só pra me criticar e dizer como sou um peso inútil em sua vida – continua – Sempre estive sozinha, até posso entender, comecei a afastar as pessoas friamente depois de me enganar tantas vezes. Porém queria que alguém ficasse perto de mim e. me amasse.
Um impulso me leva a puxá-la pelo braço pra perto de mim, não sei porquê fiz isso, só sei que não posso deixá-la escapar. Parece até que estou com medo de que num piscar de olhos IA desapareça.
–O que foi? – pergunta ela ofegando enquanto me olha de olhos arregalados de medo.
–Ah, desculpe – peço.
IA está tão próxima a mim, mas ainda parece que vai evaporar em meus braços, não posso deixar escapar.
–IA... – murmuro entorpecido por seus olhos brilhantes – Você é tão brilhante.
–Não, não sou – nega ela.
–É sim – afirmo – Eu não vou te deixar sozinha, tá? Mas você promete que não vai me deixar sozinho também?
–Mas...
–É triste ser sozinho, sabe disso – me entristeço – Eu também preciso de alguém, também estava sozinho. Prometo de ajudar, consertar esse coração machucado...
Coloco a mão em seu peito levemente, as batidas do coração dela estão tão rápidas quanto as minhas.
–... e prometo ser o herói que você sonhou pra te amar – completo.
IA se levanta da cama em choque.
–A-acho melhor eu ir – gagueja e sai correndo.
–Espere IA! – peço correndo atrás dela, não posso deixar escapar.
Ela atravessa a porta e é surpreendida por um homem mascarado, ele a agarra repentinamente e a joga dentro de um caminhão. Foi tudo tão rápido que não consigo assimilar, algo que não posso descrever, um desespero me faz correr atrás deles. Mas não consigo alcançar.
Meu cérebro parece estar entrando em colapso, grito o nome dela desesperado sem crer no que acabou de acontecer. IA foi levada, minha esperança, minha luz foi levada!
“Vai deixar escapar?” pergunta minha consciência “Você não é um herói?”
Tem razão, sou um herói. Então vou salvá-la.
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