Você Mudou
9 Capítulo VIII
Eu desvio o olhar para tentar ofuscar o ciúme, não quero que ele perceba. Droga, quem é essa Bruna? E por que esta desesperada atrás dele? Sinto uma súbita vontade de sair correndo dali para poder pensar, mas sei que seria a pior atitude.
—Desculpe você não precisa me dizer. –digo quase sem voz.
—É uma amiga. –ele responde mesmo assim. AMIGA?! Ah, conta outra.
—Já disse Cris, não precisa me dizer nada, você não me deve explicações. –o encaro com intensidade.
—Agora me diga você, quem é Guilherme? –pergunta baixinho.
—Um amigo. –digo dando de ombros.
-Um amigo que fica como louco atrás da amiga? –diz serio.
—Pois é, foi surpresa pra mim também. –digo encarando Alice, desejando mata-la apenas com o olhar.
—E ai, vocês vão ao lago com a gente pular na tirolesa? –Lucas nos interrompe.
—Não vou poder cara, tenho que partir pra um show em Brasília daqui a pouco. –Cristiano se desculpa.
Sinto-me terrivelmente triste por saber que o nosso momento esta se esvaindo como uma dessas fantasias que temos quando crianças, que mesmo lindas não são reais.
Como um dia de natal que tão tarde chega, e tão rápido acaba, ele acabou.
Em silencio termino meu café, fazendo preces internas pedindo que ele não perceba a tristeza estampada nos meus olhos.
—Preciso falar com você. –sussurra em meu ouvido quando se levanta.
—Claro. –tento soar indiferente enquanto o sigo atravessando o jardim.
Adentrando o meu quarto, ele fecha a porta atrás de si e me encara.
—Vem comigo?
—Pra onde? –pergunto sem entender.
—Pra Brasília, no show de hoje. –explica com cautela.
—Não posso. –não posso mais fingir que essa loucura terá continuidade.
—Porque não?
—Cris, nós temos que parar de mentir para os outros e principalmente pra nós mesmos, não estamos juntos, se não deu certo antes é impossível que de agora, você não percebe? –minha sinceridade nos machuca.
—Malu eu não acredito que tudo que vivemos ontem tenha sido pouco pra você, não acredito que você não sinta o mesmo que eu sinto. –sua voz estremece.
Nesse momento eu quis dizer-lhe que os momentos mais perfeitos que tive na vida vivi com ele, e que a noite de ontem foi a mais honesta prova que o amo e amarei para sempre, mas ignoro minha vontade e coloco minha razão a frente dela.
—Não foi pouco Cris, foi tudo... Tudo o que eu sonhei viver nesses últimos dois anos, tudo o que eu precisava para querer continuar viva. Mas isso não basta. –suspiro procurando por ar e por inspiração para dizer a ele o que nem eu acredito. –Nossas vidas estão em cursos diferentes, Cris. Eu jamais te pediria para desistir do seu sonho, assim como eu não desistiria do meu. Me diz, como poderia dar certo?
Ele fecha os olhos e suspira pesadamente percebendo a triste realidade que temos em nossas vidas. Por mais que exista amor, não há maneiras de equilibrar ele e nossos sonhos, eles sempre vão convergir, o destino não aceita que fiquemos juntos.
—Tem razão, você sempre foi a razão da minha vida. –murmura.
—E você sempre foi a emoção da minha. –completo a frase que sempre dissemos um ao outro.
Inesperadamente ele me empurra contra a parede e me beija, o sabor inconfundível de menta ultrapassa minha boca e vai direto ao coração, o sabor que amo e amarei para sempre esta se despedindo de mim, e nada podemos fazer pois ambos sabemos que logo esse final iria chegar, é inevitável.
Uma lagrima escorre pelo meu rosto, a lagrima que guardei só para ele, a lagrima que escondi para esse momento, a despedida e o para sempre.
—Eu te amo. –diz com a testa colada na minha.
—Eu te amo. –admito ardendo por dentro.
—Tenho que ir. –se distancia de mim. –Você me acompanha ate lá fora?
A essa altura minhas lagrimas se despejam, entre soluços e suspiros eu balanço a cabeça negando.
—Não vou conseguir, me perdoa. –eu não aguentaria vê-lo partir da minha vida outra vez, eu morreria se fosse.
Ele me da um sorriso triste, e sei que me entendeu.
—Sou seu Malu, seu para sempre. –beija minha testa, de relance vi sua lagrima dedicada a mim escorrer pelo rosto, então ele saiu.
Não suportando mais o peso do meu corpo eu caio no chão, toda minha dor saindo pelos olhos. A dor daquele dia que terminamos, não tinha cessado, tinha aumentado silenciosamente escondida dentro de mim e só esperava o momento certo para me matar, e agora estou morrendo sem poder evitar, não posso pedir ajuda. Ninguém pode me salvar.
Preciso chorar. Horas, dias, meses, anos... Nenhum tempo será suficiente para me esgotar dessa dor.
—Oi. –Alice entra no meu quarto para ver como eu estou, só então percebo que já anoiteceu.
—Precisamos ir. –diz com cautela.
—Tudo bem. –respondo quase sem voz.
Ela se senta ao meu lado no chão, e com toda solidariedade de uma verdadeira amiga não me diz nada.
—Acabou Alice. –expulso as palavras que me sufocavam.
—Sinto muito Malu, muito mesmo. –diz com sinceridade.
—Você precisa ser forte, não pode ficar assim sofrendo por ai. –tenta me dar animo inutilmente.
De olhos fechados eu respiro vagarosamente tentando controlar a vontade de voltar ao mar de lagrimas.
—Sabe... Quando você termina um relacionamento por causa de uma briga, você se agarra a magoa, a raiva e com isso consegue superar a dor. –busco por mais ar para continuar. –Mas quando você termina um relacionamento sem brigas ou ressentimentos, quando você põe um fim em tudo de comum acordo com ele, ambos chorando, ambos igualmente desesperados por outro final, mesmo sabendo que vão seguir por diferentes caminhos, a única certeza que vocês têm é que nunca mais se esquecerão... Como superar isso? Me diz Alice, como vou esquece-lo se sei que não sou capaz?
Alice sabiamente não responde, talvez por que saiba que não existe uma resposta.
—Malu, Alice? Meninas, o carro chegou. –minha mãe bate a porta.
Uma hora depois estamos dentro da faculdade, esta tarde. Sem dizer nenhuma palavra me despeço de Alice num aceno de cabeça e entro no meu quarto.
Como se entendesse a minha dor, o céu escurece e instantes depois começa a chover, o domingo adormece mas eu não, passo todas as horas da noite observando a chuva fina caindo do lado de fora.
E então é dia.
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