Você Mudou
10 Capítulo IX
Me arrumo normalmente tentando fingir uma força que não tenho, como de costume saio em busca de um café forte. Os alunos pelos corredores andando apressados, totalmente envolvidos com o ritmo da segunda-feira, e eu ali, como um borrão desfocado, caminhando automaticamente em busca da coragem que preciso.
O sinal toca dando fim às aulas e percebo que nem sequer tirei a tampa da caneta que esta na minha mão.
Terça, quarta, quinta-feira e a caneta ainda esta com a tampa, me pergunto se somente minha presença, mesmo indiferente, servirá para adquirir as notas das aulas.
De frente para o computador, há duas horas parada na mesma linha, estou tentando escrever um e-mail, não tenho a intenção de manda-lo para ninguém, mas sinto que preciso expressar minha tristeza de alguma forma.
Distraída quase não ouço a tempo meu telefone tocando, quando vejo quem esta ligando desejo não ter ouvido. Mesmo sem a foto na tela, reconheço o numero que tenho gravado na memoria há anos. Paralisada na duvida se atendo ou não, a ligação cai, e uma pontada de decepção e remorso me atinge.
Outra vez o telefone toca, outra vez é ele.
—Alô? –quase não ouço minha própria voz.
—Malu?
—Cris.
—Preciso falar com você, pode vir aqui fora? To no carro, eu não quis entrar ai, você sabe... por causa do tumulto.
—Desculpe Cris, mas não posso sair agora. Quem sabe outra hora. –aperto meus olhos com força para engolir o nó da garganta.
—Não pode ou não quer? –ele ainda consegue ler minha mente.
—N-Não posso. –gaguejo.
—Se você prefere assim, não vai ter jeito, to indo ai.
—O que? Não... –ele desliga.
Ele esta vindo aqui, aqui no meu quarto? Olho tudo em volta e esta uma bagunça, acho que não arrumo nada desde a semana passada, imagina só... essa bagunça no quarto nem sequer chega perto da bagunça que existe dentro de mim. O que será que ele quer?
Os gritos histéricos pelo corredor acusam sua chegada, e pelo timbre fino e irritante sei que são de Jessica. Sorrio ao imaginar a cara dela quando viu seu ídolo aqui, será que acha que ele veio vê-la? Meu sorriso desaparece quando lembro que é a mim que ele quer ver.
—Malu? –ouço-o me chamar atrás da porta, como ele sabe onde é meu quarto?
Abro antes que Jessica arranque suas roupas.
—Oi! –cumprimenta sorrindo.
—O que veio fazer aqui? –meu tom soa grosseiro mesmo sem ter essa intenção.
—Posso entrar?
—Desculpe, claro entre.
—Que bagunça! –diz enquanto repara meu manicômio particular.
—Veio fazer uma vistoria? –arqueio uma sobrancelha.
—Vim te pedir pra voltar pra mim. –responde direto. Quase caio sentada com sua afirmação.
Sem saber o que dizer diante da sua franqueza pensei em fingir um desmaio, mas ia ser bizarro ate mesmo para mim.
—Cris... –respiro fundo. –isso nunca daria certo, você sabe que não daria.
—Vem comigo Malu, só vem. Tranque sua faculdade e vem viver comigo, me acompanhe nos shows por um tempo e se ver que não quer mesmo isso você volta, mas tenta? –ele me encara esperando uma resposta.
Se eu conhecesse a sensação de ter um déjà vu, diria que estou tendo um...
“Cris eu não consigo levar essa vida de viajante sem destino, meu sonho sempre foi ser medica e você sabe bem disso. –insisto outra vez.
—Malu, se você não conseguir me acompanhar, esse namoro não vai durar, minha carreira depende dessas viagens, entenda por favor.
—Tudo bem amor, vou tentar mais um pouco, mas no próximo ano vamos ter que pensar num jeito, porque vou começar a faculdade. –desisto de ingressar na faculdade sabendo que perderei outro semestre...”
—Malu? –pergunta confuso.
—Cris já tentamos isso antes e você sabe como terminou, você deixaria de ser cantor pra ficar comigo? –tento ser persuasiva.
—É diferente.
—Diferente por quê? –pergunto desacreditada.
—Por que ser cantor faz parte de mim, da minha vida, é meu sonho desde garoto. –diz como se fizesse todo sentido.
—Ser medica, também é meu sonho de vida Cris, mas não é só isso. Formar uma família, viajar apenas uma ou duas vezes no ano de férias, ter uma casa sem fotógrafos acampados ao redor, e principalmente, ter uma vida simples e “comum”, também fazem parte desse sonho. –digo desanimada.
—Mesmo que eu desistisse de ser medica, e todo o resto? De quantos sonhos mais eu teria que abrir mão para poder ficar com você Cris?
—Estar comigo não vale isso? –pergunta triste.
—Você vale tudo Cris, mas um dia eu sei que me arrependeria de ter mudado tanto, ate mesmo você iria sentir falta da pessoa que um dia fui.
—Ta sendo egoísta. –dispara.
—Egoísta Cristiano, por que? Por que não quero desistir daquilo que sonhei uma vida toda pra ficar com você? Desiste você dessa carreira e vem viver uma vida anônima comigo? –não da pra acreditar nisso.
—Não vou desistir da carreira que lutei por tantos anos só pra agradar um capricho seu.
—Ta vendo? Isso nunca daria certo, Cris. Apesar do amor, nos falta harmonia nos planos para o futuro, estamos em lados opostos como esquerda e direita, somente se um de nós cedesse poderíamos ficar juntos, mas as consequências disso deixaria um rastro de infelicidade por toda vida.
Eu sempre soube que um dia nosso amor e nossos sonhos bateriam de frente, mas adiei, o máximo que pude eu adiei. Mesmo assim, mesmo depois de tanto tempo, não sei como lidar com a dor que terei que enfrentar.
—Malu, você tem certeza disso? –pergunta nervoso.
—Eu não tenho certeza de que não vou me arrepender, é bem provável que sim, mas acredito que seria um erro abandonar tudo e partir com você sabendo o quanto isso é importante pra mim. –digo de cabeça baixa.
—Você só esta errando em não dar uma chance para nós dois.
Desisto de tentar convence-lo, ele não entenderá nunca. Então não falo nada.
—Se é assim, quero que saiba que também desisto de você, não te procurarei nunca mais, Malu. Vou sofrer eu sei disso, mas EU VOU TE ESQUECER MARIA LUIZA. –disse enquanto batia a porta atrás de si, me deixando aqui imóvel, oca.
Passei a eternidade ali, em pé, olhando para a porta fechada na minha frente, com um grito preso na garganta. Nem sequer fui capaz de deixar meu corpo sem vida cair no chão, nem sequer consegui chorar.
A noite mostrando sua beleza pela janela e eu me recusando a dormir aqui dentro, sei que se eu me entregar sonharei com ele.
Não posso, não posso...não posso!
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