Você
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Você acorda com os gritos de Beni e com o gosto de sangue na boca. Não era nada sério, mas o sabor metálico remanescente da noite anterior unido à fina dor fez com que você lembrasse imediatamente do que havia provocado aquele corte no seu lábio, por mais que você não fizesse ideia do motivo propriamente dito. Você sinceramente achava que estava indo tudo bem, que haviam tido uma noite agradável. Claro que o breve encontro com Aoba deixou tudo bem desconfortável, mas você não imaginou que isso poderia resultar em lágrimas, um beijo e uma mordida por parte do mais novo.
Justo quando você havia conseguido juntar coragem para dizer como estava se sentindo com relação a ele... Noiz parecia tão irritado que você não conseguiu nem indagá-lo sobre suas motivações. Você apenas ficou parado observando como ele se afastava de você. Passado o susto, você tentou contatá-lo pelo coil, mas obviamente ele não atendeu. Pedir para que Aoba ou Mizuki fizessem o mesmo apenas levantaria suspeitas com as quais você não estava disposto a lidar. Após alguns segundos, você teve ideia de ir à casa dele, mas as luzes apagadas e a falta de resposta fizeram com que você voltasse cabisbaixo até a sua própria residência.
Ainda pensando nisso tudo – e você havia pensado até demais, demorando horas e horas para conseguir dormir – você se levanta e boceja a fim de afastar os efeitos da noite mal dormida. Vai até o banheiro escovar os dentes e aproveita para verificar a marca no seu lábio. Dificilmente acreditariam que aquilo fora obra de um soco, mas essa era a única desculpa que lhe ocorria para as perguntas que certamente viriam quando você fosse atender suas clientes. Beni faz questão de reiterar que aquilo, de fato, parecia uma mordida, o que apenas piora o seu mau-humor matutino.
Você termina o que precisa fazer e segue só de cueca em direção à cozinha, necessitando urgentemente de um café bem forte para pôr as ideias no lugar. Você abre a porta do quarto, dá alguns passos e quase não acredita no que vê: Noiz está confortavelmente sentado no seu sofá, mexendo no coil e praticamente ignorando a sua presença. Beni, que estava no seu ombro, adianta-se e voa na direção dele, dando rasantes agressivos que seriam certamente intimidadores se não fosse por seu tamanho diminuto.
– Seu pirralho irritante! – Ele gritava. – Quem te deu autorização para entrar? Vá embora!
– Deixa ele, Beni. – Você pediu calmamente, mas a ave obviamente não lhe seu ouvidos.
– Eu vou chamar o Akushima para prender você!
– Beni... – Você insiste.
– Eu não vou com a sua cara, pirralho! Eu estou de olho em você, seu delinquente juvenil!
– Cala boca, Beni. – Você manda mais uma vez, e ele finalmente obedece, voltando para seu ombro, mas mantendo a expressão de poucos amigos. Você se pergunta por que havia escolhido uma personalidade tão forte para o seu allmate, enquanto agradece aos céus o fato de ele estar desligado durante todos seus ‘incidentes’ com Noiz e não saber de nada ainda. Tendo isso em mente, você o põe em modo de descanso a fim de evitar que ele escute algo desagradável ou vergonhoso. Você o deposita com cuidado sobre a mesinha de centro da sala e se senta na poltrona que ficava próxima ao sofá. Você analisa calmamente, suspira e finalmente lhe dirige a palavra.
– Como você entrou aqui?
– Eu fiz uma cópia da chave eletrônica quando grampeei seu coil. – Ele responde casualmente, como se não tivesse acabado de admitir ter cometido um crime.
– Pensei que você tinha parado com isso. – Você suspira se sentindo um pouco cansado do comportamento dele.
– Eu precisava vir, desculpe. – Ele disse baixo, parecendo genuinamente arrependido. Ele havia pedido desculpas, inclusive. Você nunca havia escutado Noiz se desculpando antes, com ninguém.
– Precisava? Por quê?
– Eu queria me desculpar por ter te mordido, e por não ter te atendido. E... – Ele desvia o olhar para os próprios pés, claramente desconfortável. É estranho ver Noiz nesse estado. – É isso, então, desculpe.
– Tudo bem, a gente vivia se batendo. Uma pancada a mais não é nada, mas... – Você tenta animá-lo, mas hesita logo depois. – Mas eu preciso saber por que você fez isso.
– Você não faz nem ideia do motivo?
– Não. – Você responde, e nesse momento ele te encara seriamente. Os olhos verdes parecem tão afiados quanto de costume, quase perigosos na verdade. Mas não estão mais frios como eram antigamente. Na verdade, eles brilham e tremem, e aquilo os deixa ainda mais belos, embora tristes.
– Você blefa mal demais. – Ele comenta com um suspiro, e você tenta se posicionar de forma mais confortável na poltrona.
– Por que eu disse que gostava de você?
– Você disse que ‘achava’ que gostava de mim. – Ele corrigiu, e você entendeu finalmente o que havia feito de errado.
– Foi por causa do ‘acho’?! Mas você precisa entender que...
– Não foi pelo ‘acho’. – Ele te interrompe e suspira novamente, ajeitando-se melhor sofá também. – Muito embora eu provavelmente fosse ficar muito mais feliz caso você tivesse me dito isso sem o ‘acho’ no meio, ou, ao menos, sem ter acabado de ficar claramente abalado pela presença do Aoba.
– Então você sentiu ciúmes por causa do Aoba? – Você finalmente solta a única coisa que havia lhe ocorrido durante todas as horas insones que você havia passado pensando sobre o ocorrido. Externar essa teoria fez com que você se sentisse um tanto arrogante e prepotente, pois partia do pressuposto de que Noiz gostava de você o suficiente para se sentir enciumado. Você chegou a sentir medo de ofendê-lo com aquela hipótese, e que ele, em troca disso, o atacasse com escárnio. Mas o sorriso triste e envergonhado que ele soltou em seguida confirmou tudo, e você sentiu seu peito se acelerar enquanto sua boca se abria com a surpresa.
Noiz sentia ciúmes de você.
Isso devia significar quer Noiz gostava de você.
Noiz não apenas precisava de sexo, de carinho ou de palavras amigas.
Noiz gostava de você. E possivelmente da mesma forma que você havia se descoberto gostando dele.
– Mas eu não entendo... – Você confessa após se recuperar do súbito rompante de alegria. – Você sabe que não houve nem nunca haverá nada entre ele e eu. O Clear estava até lá, do lado dele e...
– Eu sei, eu sei. – Ele te interrompe, aparentemente cansado daquele tema. – Por isso que eu vim pedir desculpas. Eu agi errado. Eu não fui racional. Eu fiz merda, pra variar.
– Certo... Mas o que exatamente te incomodou? Foi porque eu não quis dizer para ele que a gente estava, err... – Você trava momentaneamente, tentando achar uma palavra adequada para descrever sua relação com Noiz.
Não havia.
– Eu sei que a gente não está junto, que a gente não é nada um do outro... Mas ainda assim eu fiquei nervoso, ainda mais porque eu tenho uma boa ideia do que o Aoba significa para você. – Ele responde ainda baixo, e você apenas balança levemente a cabeça em uma negativa, fazendo menção de falar alguma coisa, mas ele se adianta e diz mais. – Se fosse com o Mizuki ou qualquer amigo seu, eu ficaria na minha, mas eu sei que você ainda ama o Aoba.
– Sim, eu amo o Aoba. – Você é obrigado concordar, por mais que lhe doa ver a expressão magoada do mais novo. – Mas não é exatamente dessa forma que você está pensando. Quer dizer, eu não tenho certeza, e talvez antes fosse, porque eu fiquei realmente mal quando o Aoba estava sofrendo com a falta do Clear. Eu queria poder fazer algo por ele, mas não consegui... E quando o Clear voltou, o Aoba se recuperou imediatamente, mas ainda assim eu não consegui ficar totalmente feliz por ele, pois eu sentia que o estava perdendo. Provavelmente eu estava mesmo apaixonado pelo Aoba, mas... Depois de um tempo, eu fui entendo que o mais importante era que ele realmente estivesse bem, e que só o Clear poderia fazer isso por ele, e que eu tinha que ficar feliz pelos dois. – Você faz uma pausa, respirando bem fundo, aproveitando para tentar decifrar aquilo que você estava vendo nas íris esverdeadas diante de você. – Não foi fácil. Não foi nada fácil, e eu pensei que nunca fosse superar. Só ontem, quando eles nos encontraram, e eles estavam de mãos dadas, e o Clear parecia tão animado, e o Aoba tem estado tão bem ultimamente... Tudo que pude fazer foi pensar no quanto eles são perfeitos um para o outro, e como eles têm sorte de terem encontrado alguém que lhes faça tão bem. Eu realmente consegui ficar feliz por eles, e eu desejei encontrar essa pessoa para mim também. E eu acho que... Talvez essa pessoa possa ser você.
Nesse momento ele soltou um riso amargo marcado por uma nota de escárnio.
– Eu sei, e você sabe que eu nunca vou ser para você o que o Aoba foi, velhote.
– Mas você quer ser o que o Aoba foi para mim? – Ele abre os olhos diante da sua pergunta, surpreso. Ele parece ponderar bem a questão antes de se atrever a respondê-la.
– Não. Eu não quero o papel do Aoba, eu não quero se um substituto dele. Eu quero o meu papel, sacou? Mas eu sei que a gente não... – Ele se detém nesse instante. – Foi tolice minha, então...
– Para você, o que a gente está tendo é apenas casual? – Você indaga, e nesse momento ele te olha mais seriamente, como se curioso.
– Para você não é?
– Bem... – Você se arrepende de ter feito aquela pergunta, pois agora era você que não sabia o que responder. – Bem, acho que sim... Mas poderia não ser... Não? Como eu disse antes, a gente poderia tentar ter algo mais, se você estiver interessado.
Ele arregala os olhos adoravelmente e logo então esconde o rosto com uma das mãos, parecendo confuso e contente ao mesmo tempo. Você acha essa cena linda, e diante dela você tem certeza de que não quer ter algo meramente casual com Noiz. Ele limpa a garganta e tente te encarar, mas aparentemente não consegue e desvia o olhar para o lado oposto ao de ainda há pouco.
– Você... Teve oportunidade de saber como são as coisas comigo... Na cama, eu digo. Eu sei que é frustrante ficar com alguém como eu, e... – Ele segue falando aquelas coisas entrecortadas, como se procurasse pelas palavras certas até você interrompê-lo.
– Não é frustrante ficar com você, Noiz. Pode não ser exatamente convencional, mas não é frustrante. Além disso, sexo não é tudo que importa numa relação.
– Eu não sou exatamente a melhor das companhias.
– Você está bem melhor do que antes. Quer dizer, eu acho que a gente pode realmente se dar bem... Ontem à noite... Foi divertido, não? – Ele apenas acena que sim com a cabeça, ainda sem olha para você. – Pois é, como eu disse, se você estiver interessado, a gente pode tenta e ver se dá certo.
– Eu... Estou interessado. – Ele responde quase inaudível, mas você sorri do mesmo jeito, prostrando-se um pouco para frente a fim de que a sua mão pudesse alcançar a dele. Você entrelaça os seus dedos ao dele e aperta até o ponto que você sabia que ele poderia sentir. Ele olha para as suas mãos, aparentemente acanhado demais para dizer qualquer coisa. Você cogita seriamente a ideia de pedi-lo em namoro, mas isso parece antiquado e vergonhoso demais, por isso você prefere partir para questões práticas.
– Mas se a gente for tentar fazer isso dar certo, você não vai poder ter ciúmes do Aoba, afinal ele é meu melhor amigo.
– Eu sei, eu sei... Como eu disse, foi algo realmente irracional da minha parte, não vai mais se repetir, eu garanto. Até porque, querendo ou não, é graças ao Aoba que a gente se conheceu, e eu meio que entendo a sua frustração. Afinal passei por algo parecido quando Clear voltou. Mas foi provavelmente pelo fato de ele não ter escolhido nenhum de nós que...
– Espera, espera! – Nesse momento você o interrompe. – Como assim? Você gostava do Aoba também? – Você pergunta surpreso, e ele te olha como se te julgasse a pessoa mais idiota sobre a face da Terra.
– Você é realmente lerdo com essas coisas, não?
– Sério? – Você ignora as palavras pouco dóceis, ainda querendo confirmação.
– Não é a toa que você demorou anos para notar que gostava dele. – Ele comenta, e você se sente realmente envergonhado por nunca ter se dado conta antes. – Mas bem, pensa pelo lado positivo: entre todos os corações desiludidos pelo Aoba, você ficou comigo, e não com o Mink. Já pensou aquele brutamonte te comendo de quatro, velhote?
– ... – Você abre a boca, mas som nenhum consegue ser pronunciado. Ao constatar sua ignorância mais uma vez, o mais novo revira os olhos.
– Tá, só falta você dizer que não sabia que o Mizuki também queria o Aoba.
– Como assim?! Não, espera! O Mizuki não é gay, ele tem até uma namorada agora!
– Ah, claro, isso prova muita coisa, é só olhar seu próprio exemplo.
– Ah, mas isso é diferente! Eu não sou gay, eu só...
–... Come cu de macho por esporte, né?
– Você sabe que eu odeio quando você fala desse jeito.
– Que jeito?
– Vulgar.
– Certo, desculpe. Você come ânus de macho por esporte. – Ele se corrige em meio a um sorriso mais do que cínico.
– Não é essa a questão. – Você suspira. – Você faz parecer que eu só estou contigo para te comer.
– Não, você também quer ser comido.
– Noiz!
– Desculpe... – O sorriso dele se desfez, e ele parece melancólico mais uma vez. Ele parece frágil e triste, e você sente uma súbita necessidade de abraça-lo e dizer que está tudo bem.
E é o que você faz, sentando-se ao lado dele e envolvendo os ombros dele com seu braço direito.
– Está tudo bem. – Você diz docemente, tentando confortá-lo, passando a mão pelas costas dele. Você estava prestes a beijá-lo, mas ele se esquiva e contém a sua aproximação com o antebraço. Você o solta e observa como ele se move no sofá a fim de ganhar distância. Aquela atitude te preocupa, muito.
– Não está... – Ele comenta após um suspiro que te deixa ainda mais aflito com o que poderia estar acontecendo.
– Foi algo que eu fiz...? – Você pergunta confuso, forçando a mente em busca de algo que você tivesse feito além dos tópicos já discutidos.
– Não! Quer dizer, de algum modo sim, mas... Mas é mais uma coisa... Que eu preciso te dizer...
– Explica de uma vez, pirralho. – Você o apressa, nervoso demais para aguentar as voltas que ele estava dando.
– Eu sei... De coisas que aconteceram no seu passado. – Ele revela numa voz baixa, parecendo consternado ao dizer aquilo.
Não tão consternado quanto você ficou.
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