Você
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Você engole em seco e desvia o olhar, envergonhado demais para sustentar a face diante das íris carmesins que o encaram aflitas. O seu coração está batendo de uma maneira tão absurda que você consegue escutá-lo, aparentemente, querendo fugir do seu tórax. Você não o culpa. Você também quer fugir. Quer fugir do seu corpo, do campo de visão de Koujaku, da casa dele, da memória dele... Qualquer fuga estaria valendo nesse momento.
Você tenta continuar falando, mas a sua garganta parece fechada, de modo que nem mesmo o ar consegue mais deixa-la. Sim, você está com falta de ar e está se sentindo tonto e apavorado, e você adoraria desmaiar apenas para poder se safar momentaneamente daquela situação. E enquanto você debate internamente sobre aquela possibilidade, ele provavelmente nota a sua incapacidade de falar e o pressiona.
– Do que exatamente você está falando? – O timbre dele está totalmente diferente do que era antes. Está perigoso, quase bestial. Você nota como a respiração dele parece pesada. Aquilo o intimida, como se um perigo desconhecido o espreitasse. E agora você meio que sabia que perigo era aquele.
Pela primeira vez na vida você sente medo de Koujaku.
A essa altura você obviamente já se arrependeu de ter revelado aquilo para ele. Você nem sabia de fato por que havia feito tamanha bobagem. Certo que a culpa por ter pesquisado o passado dele e descoberto seu maior segredo estava incomodando demais e fazendo com que você se sentisse vil, e sujo, e tolo, e covarde, e... Enfim, por mais que você achasse que poderia morrer por causa daquela agonia, você não morreria de fato. Você poderia ter mandando o seu parvo senso de honestidade se aquietar e apenas seguir adiante fingindo que não sabia de nada, aproveitando os bons momentos com o velhote até que ele resolvesse por conta própria te falar, aí você poderia fingir surpresa e consolá-lo, e dizer que estava tudo bem e que nada havia mudado entre vocês.
Mas você não tinha certeza se isso aconteceria algum dia. Você não sabia se Koujaku resolveria algum dia ser sincero com você. Você nem achava que merecia a sinceridade dele. E por isso você havia invadido a casa e o passado dele, apenas para se sentir mais próximo a ele, já que você imaginou que o que quer que ele estivesse escondendo, seria algo que ele só contaria apara Aoba.
Agora você não achava mais isso, e a certeza de que nem Aoba sabia daquilo apenas acentuava a sua culpa.
– Eu pesquisei a sua vida... Faz tempo, na verdade, assim que nos conhecemos. Eu faço isso com todo mundo. Para mim é praxe, porque no meu ramo de trabalho eu preciso saber com quem estou lidando. – Você começa, tentando reagrupar todo bom-senso que você não utilizou ao longo da sua vida a fim de escolher as palavras certas. – E bem, eu logo encontrei incongruências em seus registros de acesso com relação a datas e nomes, além de longos espaços em branco. Eu entendi que alguém havia criado um passado virtual para você. Isso me deixou mais curioso e eu cavei um pouco mais fundo, foi quando eu descobri que você era de um clã Yakuza. – Nesse ponto você ergue o rosto para verificar como o mais velho estava reagindo. Ele apresentava a expressão dura, aparentemente impassível, mas os olhos dele tremiam, e ele parecia lutar para manter algum ritmo na respiração já pesada. – Mas como eu não gostava de você na época, eu não me importei muito. Eu achei que só aquilo explicava o motivo de você ter mudado de nome, ou de evitar mostrar as tatuagens, mas... – Nesse ponto você se cala, respirando fundo na tentativa de angariar coragem para prosseguir.
– O que mais você sabe? – A voz incisiva e cortante te provoca um sobressalto, afastando a pouca calma que você havia conseguido juntar.
– Eu... De uns tempos para cá, eu passei a me interessar mais em você... Muito... E... – Você está gaguejando. Merda, você está gaguejando e se perdendo nas palavras, e ele parece tão impaciente e raivoso que você só consegue gaguejar ainda mais. – Bem, eu também me sentia frustrado porque você nunca quis se abrir para mim. Digo, você sabia tanto de mim e eu não sabia quase nada de você, e.... Foi então que eu tive a ideia de invadir a sua rede pessoal. Eu estranhei que ela era muito bem protegida para alguém que não navegava de forma ativa, então eu decidi vir aqui fisicamente e vasculhar seu banco de dados e...
– E... O que você achou...? – A voz dele que falha agora. Mais uma vez você olha para os olhos dele, e eles estão prestes a transbordar de ira e sofrimento. Você nunca se sentiu tão indigno antes. Você não tinha direito de ter feito aquilo com Koujaku.
– O que aconteceu com a sua família e o clã do qual você fazia parte. – Nesse ponto ele deixa escapar um soluço anasalado, e você se adianta, passando a falar rapidamente. – Eu vi também as suas tentativas de achar o tatuador que trabalhava para eles, e que havia feito esse desenho nas suas costas! A principio achei que ele que havia matado a sua família, e que você queria vingança contra ele, mas logo eu achei a conexão ente ele e o Toue, e o tipo de experiência que ele fazia antes e... As suas tatuagens, e o jeito que você falou da sua mãe... Tudo fez sentido então.
Nesse momento ele se levanta e se vira de costas para você.
– Vá embora. – A voz grave e levemente falha te deixam preocupado.
Você se levanta também e dá um passo na direção dele.
– Velhote, eu sinto muito... Eu não deveria ter...
– Cale a boca e vá embora. – Ele te corta ainda mais ríspido do que antes. Você engole em seco e insiste.
– Koujaku, eu... – Você tenta mais uma vez se explicar enquanto alcança o ombro dele com sua mão esquerda, mas antes que você possa continuar a falar ele agarra o seu braço e o vira tão rapidamente que você demora bons segundos até compreender que ele estava torcendo o seu braço por trás das suas costas, ameaçando quebra-lo. Talvez tivesse até quebrado já, você não tinha certeza e nem se importava na verdade. A única coisa que importava agora era a voz raivosa ressoando rente a sua orelha.
– Você não tem o direito de falar comigo! Você não tem o direito de falar o meu nome! Você não tem o direito de estar aqui.
– Eu sei... – Você responde, sua voz trêmula fazendo com que você se preguntasse se aquele medo seria resultado de algum extinto de autopreservação desconhecido até então a você, ou a simples frustração de ter feito merda justo quando as coisas pareciam estar ficando bem. – Eu não devia ter me metido na sua vida, mas eu precisava dizer que não foi sua culpa!
– Não me venha com essa merda de ‘eu sei’! – E grita largando o seu braço e o empurrando para longe dele. – Não me venha com essa merda de que não foi minha culpa! Eu sei o que eu fiz, Noiz! Você não sabe porra nenhuma!
– Você não é um monstro, Koujaku! – Você ainda tenta, e mais uma vez ele se impulsiona contra você, dessa vez a mão direita dele indo ao seu pescoço, apertando ao ponto de sufoca-lo enquanto os olhos vermelhos pareciam ferver em meio a ódio e lágrimas.
– Você realmente precisa ir embora, Noiz. – Ele grunhe por entre os dentes, ameaçador, soltando o seu pescoço logo em seguida.
Você tosse e leva as mãos instintivamente ao local apertado. Havia sido tão forte que você pode sentir nitidamente. Você não imaginava que um ser humano poderia ter tanta força, mas para você estava claro que Koujaku poderia ter te matado naquele exato instante se quisesse. Talvez ele tivesse se dado conta disso também, e por isso ele agora parecia fazer um grande esforço em controlar a respiração e as emoções.
Ele parecia... Amedrontado?
Sim. Você ponderou se ele não estaria com medo de fazer com você o mesmo que ele inconscientemente fizera com a própria mãe. Obviamente, você era indigno também desse colocar no mesmo patamar da mãe dele.
– Você fez isso comigo... – Você comenta após alguns segundos, sorrindo triste quando finalmente para de tossir. – Você disse que eu não era um monstro...
– Nossas histórias nem se comparam, Noiz! Você derrubou o seu irmão! Eu... – A voz dele se perde em meio a um soluço angustiado, e você se desespera. Você o abraça, tão forte quanto pode.
Ele resiste a princípio, manda você soltá-lo, mas tudo que você faz é apertá-lo com mais e mais força entre seus braços, assim como ele já havia feito com você. Você precisava que ele soubesse que você estava lá para ele, e que você continuaria lá.
– Você é tão melhor que eu, velho! Tão melhor! Você é muito melhor que eu porque eu sei você realmente amava a sua mãe! Você ainda a ama! – Você diz em meio a soluços. Sim, você está chorando também.
– Eu. Matei. A. Minha. Mãe. – Ele fala pausadamente, ainda repleto de ira enquanto finalmente se livra do seu abraço, por mais que você esforçasse para mantê-lo. Aquela fala te deixa profundamente perturbado, mas ainda assim você não desiste.
– Você não matou a sua mãe! Não era você! Eu tenho certeza que não era você!
– Eu fiquei banhado com o sangue dela. Eu fiz isso com as minhas próprias mãos. Que parte disso é tão difícil para você entender?
– Você amava a sua mãe! Você abriria mão de tudo para protege-la, eu sei! Você era um ótimo filho!
– Eu não quero escutar isso de você. – Ele comenta com uma entonação quase sinistra na última palavra. Você não sabe bem o que ele quis dizer com aquilo, e procurando a resposta nos olhos dele, tudo que você encontra é algum sentimento que você não faz ideia de qualquer seja, se pena ou desprezo. Você apenas sabe que não é bom. Nesse momento ele suspira, aparentemente mais calmo, mas genuinamente farto de você. – Apenas vá embora antes que eu... – Ele se contém nesse momento e você arregala os olhos.
– Antes que você o quê? Que você me bata? Que me mate? Você acha mesmo que eu vou me importar? Você pode me bater, pode me matar, pode fazer o que quiser para descontar o que eu fiz! Você só não pode ignorar isso! Não pode ignorar que eu continuo gostando e você, e que eu não me importo com qualquer merda que tenha acontecido no seu passado!
– De que adiantaria te bater? Te matar? Eu estaria te fazendo um favor, não? Você não ia sentir nada, assim como você nunca iria entender mesmo que eu me abrisse com você algum dia. O que você entende sobre amar uma mãe, afinal? – Aquela pergunta áspera e amarga te deixa sem reação. Você abre a boca e tenta falar algo, mas não consegue. Uma dor profunda na garganta o impede, e você sabe que não era por conta do quase estrangulamento há pouco sofrido.
Aquelas palavras doeram.
Doeram mais do que qualquer briga, qualquer partida de Rhyme, qualquer insulto.
Neste ponto, você entende que nada mais pode ser feito. Que você não pode fazer nada por Koujaku. Você não pode fazer nada por você dois. Porque você não é digno de fazer qualquer coisa. Você não entende nada sobre amar uma mãe, e você não entende nada sobre ser amado por ela, e logo você não entende nada sobre Koujaku. Não há nada que você possa fazer, e por mais que doa admitir, você precisa se recolher à sua insignificância. Você podia até não ser um monstro, como Koujaku havia lhe dito, mas você também não era nada.
Seus lábios mais uma vez se curvam em um sorriso triste enquanto seus olhos pendem ao chão. Você dá as costas e inicia o primeiro passo em direção à porta. Sua perna nunca lhe parecera tão pesada antes. Era como se estivessem penduradas nela todas as suas frustrações passadas, todas as desilusões, todas as mágoas. Mas você consegue dar mais um passo, e mais um, arrastando consigo as suas esperanças e ilusões destroçadas. Você abre a porta com alguma dificuldade e passa por ela, suspirando audivelmente.
– Eu só queria que você soubesse que você não é um monstro... – Você diz antes de fechar a porta. – Mesmo.
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