CLARA!... Aquele grito ecoa no quarto da produtora, o som de sua respiração agitada reflete a intensidade daquele orgasmo, seu corpo está apoiado no colchão sem forças, seus olhos estão fechados, ainda sente as ondas de prazer invadindo-a, a sensação de alívio é quase palpável...Deus!...Como seu corpo precisava daquela liberação de energia, a respiração começa a normalizar-se, pra logo em seguida acelerar-se novamente quando toma consciência do nome que foi pronunciado em meio aquele êxtase. Marina abre os olhos, suas pupilas estão dilatadas, não só pela força do orgasmo mas porque uma sombra atormentada tira o brilho daquele momento pós gozo. Ela leva uma das mãos ao rosto, fecha novamente os olhos, o coração se mantém palpitando a todo vapor, enquanto tenta negar a si mesma o que ainda ressoa entre as paredes daquele quarto.
– Não pode ser...estou ferrada....sussurra enquanto senta-se na cama apoiando os cotovelos sobre os joelhos escondendo o rosto entre as mãos... — Isso não pode estar acontecendo, seu coração que estava desacelerando o ritmo agita-se mais uma vez e começa a bater apressado, olha o celular que está sobre a mesinha de cabeceira, precisa falar com alguém, não consegue guardar isso só pra si, seu peito está queimando, pega o aparelho e procura entre seus contatos um número e tecla...uma...duas...três...quatro...chamadas...até que uma voz sonolenta atende...
– Espero que tenha um bom motivo pra estar me ligando a uma hora dessa...Marina libera o ar que até então não havia percebido estava ainda preso em seus pulmões.
– Estou apaixonada!...Solta sem nenhuma cerimônia.
– Não me diga que você me acordou pra dizer isso!...- Ahhh já não era sem tempo!...Que desperte pra vida então!...E quem é a vítima?...Giselle pergunta com aquela voz de quem ainda não está totalmente acordada...um silêncio toma conta dos dois lados da linha e com um fio de voz chega a resposta...
– É...é...Clara!
– Hã...Clara...depois de assimilar a informação... QUE! CLARA! MARINA MEIRELLES VOCÊ ESTÁ ME DIZENDO QUE...
– Sim... responde a produtora quase de forma inaudível...ela mesma.
– CLARA FERNANDES?... MERDA! COMO aconteceu isso Marina?
– Ahhhh se eu tivesse a resposta...um suspiro pesado atravessa a linha.
– Pra ser sincera imaginei que isso aconteceria.
– Mas...como?
– Ahhh amiga...aqueles olhares, toda aquela atenção...até para um cego estava visível, era só uma questão de tempo...Gi encolhe os ombros enquanto fala.
– Ahhh...juro a você que não sei como isso foi acontecer, na voz da produtora fica evidente a surpresa por descobrir seus sentimentos por Clara.
– Bom...só posso dizer uma coisa...
– O que?
– Seja bem-vinda ao meu inferno!
A noite dá passagem ao dia...como acontece toda terça-feira Clara chega ao Centro Comunitário levando o café de Marina, entra na pequena sala e sente o sorriso se desfazer ao dar de cara com aquela mocinha odiosa...a assistente da produtora.
– Olá!
– Olá!...Responde Karina de uma maneira irritada ficando claro o seu descontentamento em estar naquele maldito lugar. Não lhe agradam as pessoas que estão ali, nem aquele ambiente, nem saber nada sobre os problemas deles, mas o que gosta menos é dessa estúpida morena sempre coladinha em Marina, rodeando-a, fazendo-se de mosca morta, como quem não quer nada...ahhh que raiva!...Quanto mais rápido sair dali melhor!
– Se está procurando Marina ela não chegou ainda...diz rispidamente.
– Sabe a que horas vai chegar?...Pergunta Clara deixando que em sua voz se perceba um pouco de decepção.
– Não...não sei...mas duvido que venha hoje, me ligou dizendo que não estava se sentindo muito bem, aquelas palavras disparam um alarme na cabeça de Clara...Marina indisposta?...sente uma angústia no seu coração....O que terá acontecido...
– Ok!...Obrigada!....Sem dizer mais nada sai dali enquanto a preocupação toma conta dela e vai direto pra sua sala encontrando-se com Helena.
– Helena!...Cumprimenta a amiga.
– Clara que bom que você chegou, temos que revisar o orçamento, precisaremos fazer uns ajustes, Helena fica em silêncio vendo que a amiga está recolhendo suas coisas.
– Sinto muito querida você pode fazer isso sozinha?
– Mas há decisões que precisa tomar...cheques pra assinar...
– Não tenho cabeça pra isso agora...tenho que dar uma saída.
– Mas o que aconteceu?... Helena fica intrigada ao ver a preocupação evidente no rosto de Clara, sem dar maiores explicações sai deixando uma Helena parada no meio da sala.
RESIDÊNCIA DE MARINA...
Meia hora depois Clara estaciona o carro em frente a casa de Marina, corre até a porta e começa a tocar a campainha insistentemente transparecendo quase desespero. Passam alguns segundos que parecem horas, a demora aumenta ainda mais a angústia, enquanto espera impacientemente seu coração dispara, sua mente faz diversas conjecturas...e se aconteceu alguma coisa de ruim com sua branquela... ESPERA! SUA BRANQUELA?...Em meio aquela indagação finalmente a porta se abre e aparece uma Marina despenteada e com olheiras. Clara não se contém e se lança sobre a amiga, começa a tocá-la em todas as partes, como fazem as mães quando um de seus filhos cai, assegurando-se que ele não está machucado, pra constatar se não tem febre, todo esse conjunto de ações pega Marina desprevenida, ao receber aquele impacto dá uns passos pra trás perdendo o equilíbrio e caindo sobre o sofá que está próximo arrastando Clara com ela. As duas mulheres encaram-se, a distância entre elas é mínima, por uns segundos suas respirações misturam-se e aceleram. Clara contempla Marina que fecha os olhos somente deixando-se levar, sentindo como aquele corpo amolda-se completamente ao seu. Lentamente vai percebendo cada detalhe daquele encaixe perfeito, o peso total sobre ela, os seios se comprimindo contra os dela, seus quadris em sintonia, suas pernas entrelaçadas, isso tudo deixa Marina sem reação e estremece, por sua vez Clara não está alheia àquela proximidade, também se dá conta do efeito em sua amiga e reage da mesma forma sentindo toda a extensão daquele corpo, não se esquiva... entrega-se lentamente àquele momento e de maneira involuntária põe as mãos sobre os seios de Marina. Clara pestaneja e saliva, dirige o olhar até onde estão suas mãos e praticamente levanta-se de súbito ficando completamente vermelha...ahhh droga!...- Oh deus!...Desculpa!
Marina está alheia às palavras de Clara, seu cérebro deixou de funcionar, sentir a respiração daquela mulher tão próxima, o peso daquele corpo sobre o seu, perceber o quanto eles se encaixam como se fossem peças de um mesmo quebra-cabeças a deixa sem forças e ao ver Clara afastando-se tem uma estranha sensação de abandono que a faz ficar atônita naquele sofá, é evidente a conexão com aquela bela morena. Marina olha nos olhos de Clara pois todos aqueles sentimentos voltam a apoderar-se dela, é impressionante estar sendo tomada por essas emoções novamente com uma mulher diferente de Gio, fica um pouco perplexa...talvez triste e ao mesmo tempo feliz...emocionada...atraída por todas aquelas novas mas também sensações tão conhecidas...um suspiro escapa entre seus lábios.
– Marina está tudo bem?...Clara pergunta tirando-a de seus pensamentos.
– Sim...sim...é...estou bem...Marina começa a levantar-se.
– Desculpa ter vindo sem avisar...mas...é que Karina me disse que você estava indisposta... e...eu...eu vim ver se precisava de alguma coisa...de imediato uma onda de nervosismo apodera-se de Clara, Marina a observa atentamente e agora que seus olhos foram despojados do véu que os encobria, pode apreciar coisas que antes estavam ali mas não eram tão evidentes pra ela...ou se eram as ignorava. Seu olhar desliza pelo adorável corpo diante dela e em sua mente surgem imagens das duas na cama, devorando-se uma a outra, fazendo com que Marina respire fundo e balance a cabeça tentanto dissipar aquelas atrevidas mas também deliciosas cenas.
– Você...está bem mesmo...se machucou?...Pergunta Clara um pouco preocupada.
– Não...fique tranquila... estou bem....se olham e subitamente o som de um apito preenche a casa, o alarme contra incêndios está ativado. Marina e Clara finalmente saem daquele transe e correm pra cozinha, encontrando um bacon que a produtora estava preparando todo queimado, a fumaça acionou o dispositivo. Marina pega um pano e começa a sacudí-lo pra dissipar a fumaça depois do alarme ser desativado.
– Me perdoa!...Coloquei a perder seu café da manhã...diz Clara penalizada.
– Que é isso...sem problemas...retruca Marina não dando importância ao ocorrido.
– Me deixa compensar de alguma forma...humm vou preparar um outro pra você, imediatamente se põe em ação mas Marina a impede.
– De jeito nenhum...aqui você é visita senta que eu preparo algo pra comermos.
– Claro que não!...Você sempre me convida...gostaria de retribuir fazendo algo.
– Que tal se preparamos juntas...propõe Marina.
– Essa é uma boa ideia!
– O que quer fazer?
– Pois então....meus ovos mexidos especiais.
– Do que precisa?
– Mmm preciso de ovos...as duas sorriem pela obviedade daquilo...pimenta, alho, cebola, pimentão, tomate, queijo, presunto, pimenta Cayena.
– Tenho tudo isso.
– Ahhh...também azeite de oliva...e um avental.
– Ok!...Marina vai até a despensa e o pega.
– Saindo um avental!...O joga pra Clara...enquanto ela o coloca Marina vai à geladeira e tira a maioria dos ingredientes que a morena pediu.
– Pronto!...E agora o que faço?
– Você vai picar um quarto de cada coisa, deixa que me encarrego do alho, ralar o queijo e cortar o presunto. As duas trabalham em conjunto, compartilham um agradável silêncio intercalado de sorrisos tímidos. Clara se diverte com as lágrimas de Marina cortando uns pedacinhos de cebola, ajuda a picar parte dos pimentões e tomates. Quando tudo está pronto, o alho moído em uma frigideira grande, Clara despeja os ingredientes, quando estão a ponto de ficar crocantes põe o presunto, bate os ovos, junta o alho e o queijo ralado pra colocá-los enfim na frigideira e por último a pimenta Caeyna a gosto. Imediatamente a cozinha se enche com aquele delicioso aroma de todos os ingredientes interagindo. Marina recorre à cafeteira elétrica pra preparar um café, também procura em sua despensa um pão francês ao pesto o qual esquenta com um pouco de azeite de oliva, em menos de 10 minutos tudo está pronto, a mesa posta e a comida servida, as duas salivando com aquela delícia diante delas.
– Por deus Clara que maravilha é essa...diz Marina enquanto prova os ovos.
– Ahh santo deus!...Jamais imaginaria que um pão francês ao pesto com omelete se tornaria um manjar dos deuses...as duas caem na risada.
– Devemos fazer isso mais vezes.
– Acho que sim...concorda Clara.
– Ahh senhorita...já vou logo convidando a provar o famoso Macarrão a la Marina!
– Mmm... já estou com água na boca...- E Diogo?...Pergunta Clara depois de terminarem o café da manhã e de lavarem a louça.
– Saiu com a avó...ao ver que Clara ficou sem entender Marina se explica...a mãe de Giovanna.
– Ohhh...que bom...disse um pouco desanimada, esperava ver aquele danadinho.
– Mas não fique assim que aquele traquina virá logo depois do meio-dia...- Conheço Joane...ela nunca resiste muito tempo ao meu filho...ele tem muita energia, que tal fazermos algum programa enquanto isso, quer dizer se você não tiver nenhuma pendência pra resolver.
– Mmmm...não...não tenho...o que você tem em mente?
– Não sei...Marina encolhe os ombros, logo seus olhos se iluminam e um sorriso chega aos seus lábios...espera um momento...procura o celular e digita um número...
– Alô...Joane...oi!...Como estão as coisas?...Fica escutando...- Ahhh pois me parece perfeito... muito bem, por mim está ótimo, sabe que estou disponível assim que precisar eu vou buscá-lo ok!...Desliga e presenteia Clara com aquele sorriso de menina safada pra logo dizer-lhe em tom brincalhão...- Sabe o que na verdade gostaria de fazer?...
– Não!...Não tenho a menor ideia...
– Nesse tempo que estou aqui no Rio acho que conheço a cidade muito superficialmente, gostaria de vê-la através dos olhos de uma carioca, você acha que isso é possível?...Pergunta Marina sedutoramente...o que não passa despercebido por Clara.
– Acho que você está falando com a pessoa certa...então vamos!...
– Sim...vamos!
As duas entram no carro de Clara que conduz com o firme propósito de mostrar à sua amiga as maravilhas da belíssima cidade em que vive. Ela dirige até uma rua onde deixa o veículo e iniciam o roteiro. Clara prioriza levá-la a todos os lugares que normalmente não estão incluídos nos roteiros turísticos, prefere mostrar-lhe o Rio cotidiano, aquele que se conhece caminhando ao lado de uma carioca que ama sua cidade e que quer exibí-la como ela a vê. O passeio torna-se muito divertido, Clara apresenta à Marina os lugares mágicos que os turistas comuns não têm acesso, a leva a degustar comida local para que a londrina conheça o prazer da culinária dali, os mercados, espaços ao ar livre onde artistas expõem sua arte. Marina aprende, conhece, desfruta do Rio de Janeiro através de uma perspectiva diferente daquela que costumeiramente os visitantes têm. Enquanto Clara explica-lhe tudo a produtora fica encantada e a morena admirando as expressões refletidas em seu rosto, Clara sente-se desarmada diante daquele largo e lindo sorriso. O dia inteiro foi assim, pleno de emoções prazerosas pra Marina e de realização pra anfitriã, responsável por proporcionar tanta satisfação à mulher que tem sido tão maravilhosa com ela desde que entrou em sua vida. Ao final do dia concluem aquele passeio singular e retornam à casa de Marina exaustas e com os pés doloridos, quando entram a produtora diz...
– Uma cerveja?
– Por favor!...Passam pra cozinha e Marina pega duas garrafas, como estão sedentas dão grandes goles sorvendo praticamente quase todo o conteúdo, a duas suspiram...precisavam daquele líquido frio pra refrescar seus corpos quentes, sorriem como duas adolescentes por conta da voracidade com que consumiram as cervejas, dirigem-se à área externa da casa e deixam-se cair sobre as espreguiçadeiras que estão próximas à piscina.
– Santo deus Clara!...Estou morta mulher!...Você me levou a tantos lugares, acho que não ficou um só recanto que não tenha conhecido!...Marina não resiste e tira os sapatos, Clara a imita e vão conversando entre um gole e outro.
– Claro!...A senhorita não queria conhecer minha cidade...só atendi ao seu pedido.
– Nossa Clarinha...adorei!... Amo o Rio!...E olha que já viajei muito por esse mundo afora, realmente essa cidade é maravilhosa...diz olhando fixamente pra morena, desejando com todo o coração poder dizer o mesmo sobre ela, assim como fez durante todo dia enaltecendo aquele lugar deslumbrante, no mais profundo de sua alma aqueles elogios eram dirigidos a Clara...mas não pode.
– Me alegra que minha cidade tenha conquistado você...não sabe porque mas quando aquelas palavras deslizam entre os lábios da bela morena seu coração acelera, sabe que não tem razão pra isso, no entanto é inevitável sentir-se como se o que foi dito tivesse referindo-se a própria Clara e não ao local, por um momento tudo deixa de existir, só elas duas em meio àquela paz noturna e ao perfume que exalam as flores do pequeno jardim preenchendo o ar de uma fragância fresca... Marina baixa o olhar rompendo aquela conexão.
– Quer uma cerveja?...Ela ergue a garrafa mostrando que está vazia.
– Sim adoraria...
– Então vou pegar...volto logo!
Clara enquanto espera se recosta na espreguiçadeira olhando para as estrelas, fecha os olhos e sorri ao recordar aquele dia desfrutado juntas...divertindo-se, recria tudo em sua mente...aquelas expressões quando Marina observava algum objeto que a agradava ou como ficava maravilhada com os lugares por onde caminhavam, ou como fechava os olhos ao provar alguma comida típica do Rio... realmente ela aproveitou bastante pois Clara esforçou-se pra levá-la a locais verdadeiramente cariocas, evitou aqueles elegantes ou os que são sempre destinos dos turistas. Elas foram onde pessoas comuns da cidade costumam ir e quando a levou pra conhecer a arte de rua Clara ficou realizada com a reação de Marina. No final de tudo além da produtora a própria morena adorou a experiência pois ela mesma enxergou o lugar onde mora com outros olhos.
– CLARA...a voz de Marina a tira de seus pensamentos.
– Diga!...
– Não está com fome?
– Humm sim estou...o que propõe?
– Ligar e pedir comida...não estou com disposição pra cozinhar.
– Nem eu tão tampouco...o que sugere?
– Comida chinesa...
– Ahhh gosto muito...concorda Clara.
– Então segura...entrega duas cervejas pra morena, vou encomendar e acompanho já você, o que prefere?
– O que você pede sempre...mas que seja a teriyaki e sésamo.
– Perfeito!...Volto num minuto.
Um tempo depois estão as duas sentadas à mesa naquele agradável espaço, deliciando seus pratos prediletos da culinária chinesa.
– Sério Clara...estou apaixonada pelo Rio!
– Fico feliz!
Como sempre acontece quando estão juntas os sorrisos enfeitam seus lábios.
– Como você está?...Como está conseguindo lidar com essa nova realidade?...Clara não tem como fingir que não entende a que Marina se refere, depois de tudo tem sido ela quem se mantém ao seu lado, durante todo esse processo esteve sempre presente incentivando-a, dando-lhe força...Marina é incrível!...Nem sequer Fernando lhe apoiou tanto, aliás ele não foi nem um pouco companheiro.
– Levando... você sabe que não é nada fácil, ver que da noite para o dia todos os seus sonhos se desfizeram...um suspiro escapa da sua boca, Marina segura a mão de Clara confortando-a.
– E seu marido?...O que diz de tudo isso?... Nesse momento Clara olha para o céu... pestaneja, não quer chorar...aquela pergunta é a gota d'água que faz transbordar o copo. Marina percebe que aquilo afetou sua amiga, não conhece o marido dela mas se pergunta que tipo de homem é esse que tem o coração de uma mulher como Clara e que não está dando o apoio e a compreensão devidos nessa fase tão difícil pela qual ela está passando.
– Sabe que pode contar comigo sempre!...Marina aperta a mão da morena que em resposta só consegue corresponder, de imediato sente um nó na garganta que a impede de falar alguma coisa, o som da campainha rompe aquele breve silêncio. Sem dizer mais nada Marina levanta-se e tranquilamente vai atender à porta rezando pra que em vez de Vanessa seja Joane quem tenha trazido Diogo pra casa, pois realmente não está a fim de encontrar aquela mulher, embora no final das contas não saiba quem é a pior das duas. Abre a porta e depara-se com a matriarca Marinelli.
– Joane!...Cumprimenta Marina enquanto abre os braços pra receber o filho que se lança sobre ela assim que a vê.
– Marina!...
– Meu amor... como está?...Segurando Diogo.
– Mamãe...mamãe...a voz entusiasmada do pequeno preeenche aquela sala, é como se Diogo expressasse a falta que sua mãe fez durante aquele dia.
– Que tal campeão!...Beija seus cachos rebeldes.
– Não me convida a entrar?...Joane interrompe o momento entre mãe e filho.
– Ohh sim claro...desculpa.!.. Marina afasta-se um pouco de lado facilitando a passagem de Joane que olha curiosa a casa, é a primeira vez que entra ali, o espaço é decorado com muito bom gosto, pelo menos o que ela pôde ver.
Na área externa Clara olha seu celular que começa a vibrar, surpreende-se ao ver a ligação de Fernando e quando vai atender a bateria descarrega, então decide entrar a procura de um telefone.
– Marina!...Para ao perceber que Marina está acompanhada de uma mulher mais velha.
– ARA!...Diz Diogo arrancando um sorriso de ambas as mulheres...o pequenino reconhece Clara, fato que não passa despercebido por Joane. O garoto começa a espernear nos braços da mãe pra que ela o coloque no chão o que Marina faz, como era de se esperar Diogo vai ao encontro da morena chamando-a e gesticulando com as mãozinhas... ARA! ARA!...Ao vê-lo correr até ela e se agarrar às suas pernas Clara sorri feito boba enquanto se pergunta o que têm esses Meirelles que a deixam dessa forma...rendida, encantada, desprovida de qualquer defesa.
– Diogo!...Diz tomando-o nos braços e recebendo como resposta um sorriso contagiante, essa interação entre Clara e Diogo chama a atenção de Joane e também de Marina. A matriarca deduz pela reação do neto que aquela mulher é visita frequente na casa, isso significa que talvez tenham algo. Marina fica muito feliz vendo a química que existe entre Clara e o filho, tem consciência que o fato da amiga passar um tempo com Diogo de certa forma é um refúgio, ajuda a amenizar um pouco a dolorosa condição que lhe foi imposta...a de não poder engravidar.
– Pelo que vejo você já está a ponto de largar o luto...diz com todo o veneno que pode, ao ouvir as palavras de Joane Marina irrita-se, não quer que sua amiga sinta-se constrangida...mas não tem jeito, Clara e Marina entreolham-se durante uns segundos, o sorriso que estampava o rosto da morena desaparece ao escutar aquela insinuação, imediatamente olha pra Marina e percebe o quão furiosa ela está.
– Joane pra sua informação não acho que lhe diz respeito se eu deixo ou não o luto e embora não lhe deva explicações saiba que não estava pensando nisso...mas já que falou sobre isso não seria uma má ideia abrir meu coração a novos sentimentos!...Olha o relógio...já está tarde acho que é hora de ir!
– Mas...tenho alguns assuntos que queria conversar com você...
– Por favor...vamos deixar pra outro dia...precisamos colocar esse garotinho pra dormir. Joane olha para as duas...sabe que é inútil...assente, dá mais uma olhada no trio e suspira...
– Está bem!...mas ainda me deve essa conversa!...Sem esperar resposta vai embora...Marina fecha a porta respirando fundo...cansada.
– Desculpa!
– Porque?
– Porque ela...Marina fica nervosa...ela insinuou que temos algo...NÃO QUERO que se sinta mal por isso...Clara observa como se refletem as emoções naquele belo rosto e sorri procurando tranquilizar a amiga.
– Não se preocupe...não me incomodo, mas acho que ela não se sente muito à vontade com a ideia.
– Sim... diz Marina um pouco distraída...Joane é homofóbica dentre outras coisas.
– Ohhh... Clara começa a entender a atitude da mulher.
– Bom...melhor irmos dar um banho nesse pequeno o que acha?...Maria pergunta olhando pra Diogo que acompanhou toda a conversa como se entendesse alguma coisa.
– Bano!...Ara!...Mamãe!...As duas se encaram e uma alegria toma conta delas pelas palavras daquele moleque traquina, sem pensar Marina aproxima-se dos dois e dá um abraço coletivo, é a segunda vez naquele dia que elas entram em contato fisico mais íntimo e embora Marina anteriormente já os tenha abraçado daquela forma, Clara não pode deixar de perceber que esse é um pouco diferente dos demais. Marina solta rapidamente os dois ao sentir o perfume daquela mulher preencher suas narinas...ai ai ai Marina Meirelles você está com problemas sérios...diz a si mesma.
– Bem...vamos dar um banho nesse pequeno...repete como se com essas palavras pudesse desfazer o feitiço que aquela morena exerce sobre ela quando a tem próxima...nos acompanha ou está muito tarde pra você?...Pergunta com a secreta esperança que ela aceite o convite, desejando permanecer mais tempo usufruindo da companhia da morena...é quando Clara finalmente lembra que precisa ligar para o marido.
– Antes tenho que falar com Fernando...pode me emprestar seu telefone?...Marina responde mas a decepção é evidente...está ai...estende os braços para o filho que a abraça envolvendo o pescoço da mãe carinhosamente... – Estaremos no quarto de Diogo, sem esperar resposta Marina dirige-se ao quarto do pequeno, não tem muitas esperanças de que Clara compartilhe daquele momento tão especial. Na sala Clara liga pra Fernando, a chamada vai direto pra caixa de mensagem mas ela não deixa recado algum, desliga e coloca o telefone no aparelho franzindo o cenho...Fernando agora praticamente vive naquela empresa, o que será que está acontecendo, trabalhando muito...ahhh...intrigada caminha até o quarto de Diogo e antes de entrar já escuta as risadas de mãe e filho que ficam mais audíveis à medida que se aproxima. Ao se deparar com a cena simplesmente sorri encantada, na verdade aqueles dois sabem como se divertir, ao entrar encontra Marina sentada junto a banheira de Diogo que espalha água pra todo lado. A produtora está encharcada até os ossos e sem conseguir evitar, Clara desliza o olhar detalhadamente por todo aquele corpo branco que está se desenhando sob o tecido molhado, toda a silhueta se define deixando pouco à imaginação, especialmente os seios debaixo da blusa, podendo apreciar claramente os mamilos rijos. Clara sente um inexplicável tremor...saliva surpresa com aquela reação inusitada do seu corpo. Marina por sua vez não fica indiferente àquele olhar, estremece ao perceber aquele par de olhos cor de mel escurecer ao fixar-se em seus seios que ficam muito mais intumescidos, a respiração se agita...as duas encaram-se intensamente e aquela conexão só se rompe quando Diogo joga água mais uma vez molhando completamente Marina...
– Diogo!...Procura parecer severa mas o garoto não se deixa intimidar pela repreensão e lhe brinda com um enorme sorriso que termina por seduzi-la...
– Acho que alguém precisa trocar de roupa, se você quiser fico com Diogo...propõe a morena.
– Tenho uma ideia melhor...vamos terminar logo o banho desse garotinho ou você também ficará encharcada. Marina tira Diogo da banheira que começa a chorar em protesto.
– Shhh...pequenino...Clara fala suavemente chamando a atenção dele, pega a toalha que está pendurada próxima a ela, Marina deixa a morena cuidando de seu filho e vai trocar-se. Enquanto isso Clara fica no quarto preparando Diogo pra dormir, anteriormente quando esteve na companhia daqueles dois viu onde ficava tudo e já está familiarizada com o ambiente.
– Vejo que já se entenderam bem...diz Marina uma meia hora depois de retornar ao quarto e encontrar Clara embalando Diogo na cadeira de balanço.
– Shhhhhh...ela pede silêncio...- Está dormindo...diz somente movendo lábios...Marina sorri vendo aquela imagem e ao mesmo tempo sente o coração doer...a vida é estranha, como é possível que uma mulher como Clara seja privada do sonho de engravidar, a produtora tem absoluta certeza que a morena seria uma mãe exemplar, ela está apoiada na parede só observando...Clara levanta-se e leva o menino até o berço, fica olhando-o e acariciando aquele pequeno corpo, mais uma vez as lágrimas se fazem presentes. Marina ao perceber a mudança de humor da amiga, silenciosamente aproxima-se dela e a abraça por trás apoiando o queixo no seu ombro...
– Não chore...não suporto ver você assim...sussurra Marina, Clara respira profundamente tentando controlar aquelas lágrimas que insistem em cair.
– Não posso evitar...em resposta Marina a aperta mais forte contra seu corpo e Clara deixa-se mimar apoiando a cabeça no ombro de Marina que a beija na testa. É inexplicável como o contato com a amiga a deixa menos angustiada, é como se ela a complementasse de uma forma que teme admitir até pra si mesma. Já Marina sente toda sua pele arrepiar e seu coração bater acelerado pela proximidade de Clara e aquele perfume....ahhh... a deixa louca. Depois de um tempo assim Clara sai dos braços de Marina e a olha fixamente.
– Tenho que ir... diz nervosa pois ela mesma não consegue ficar indiferente àqueles cuidados e a um contato tão intenso. Embora seja tarde dessa vez Marina não insiste pra que Clara fique, na verdade precisa que ela saia daquele espaço, não se sente segura...teme não conter seus desejos, sabe que no momento que tentar alguma coisa nesse sentido com sua amiga a perderá e se há algo que Marina não está disposta a abrir mão é da amizade de Clara...da proximidade com uma mulher maravilhosa que entrou em sua vida e fez despertar nela sentimentos que estavam adormecidos...latentes. Marina acompanha Clara até o carro...normalmente se despedem com um abraço e um beijo, mas dessa vez ela não faz menção sequer de aproximar-se da morena, não se sente capaz de controlar a vontade de beijá-la...Clara talvez por instinto ou pelo mesmo temor de Marina tampouco chega mais perto da produtora e apenas diz um tímido tchau. Ela então entra e liga o carro, está a ponto de sair quando escuta seu nome...
– CLARA!
– Sim?...
– Obrigada pelo dia de hoje...as duas finalmente sorriem.
– Eu que agradeço...responde Clara e sem mais delongas vai embora...Marina depois de uns segundos olhando as luzes traseiras do veículo desaparecerem do seu campo visual entra em casa, fecha os olhos e suspirando se encosta na porta.
– Oh meu deus!!!
RESIDÊNCIA DE CLARA...
Enquanto Clara dirige distraidamente os pensamentos vão tomando conta de sua mente, lembra da paz e do conforto que encontrou naqueles braços, ela não é boba e nem cega sabe que há algo diferente entre elas, todas aquelas sensações...é tomada por uma inquietação espiritual, sendo sincera consigo mesma a proximidade com Marina a deixa sem chão...nunca sentiu isso com ninguém nem mesmo com Fernando. Depois de tudo...isso a está perturbando, encontra-se tão absorta em suas divagações que conduz meio que no piloto automático. Estaciona o carro e é nesse ar de ensimesmamento que chega em casa. Não dá muita atenção ao fato de que Fernando ainda não se encontra ali, faz sua higiene pessoal pensando naquele abraço, veste seu pijama e prepara-se pra dormir com a mente em ebulição. Depois de um tempo Fernando entra no quarto na ponta dos pés achando que a esposa está dormindo, não percebe que Clara observa todos e cada um dos seus movimentos, vê que logo após fazer sua higiene Fernando esforça-se em não provocar o menor barulho possível pra supostamente não despertá-la, deita-se sem sequer tentar alguma aproximação da sua mulher que respira aliviada, visto que de onde está pode sentir o cheiro de álcool. Fernando fica de costas pra ela que não deixa de ficar triste porque pela primeira vez em 10 anos de casamento ela tem plena consciência que de certa forma eles se transformaram em dois estranhos, ao mesmo tempo em que isso parece não ter mais tanta importância. E é assim...com as lembranças daquele dia inesquecível, as emoções vividas e a imagem de Marina que Clara adormece.
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