Capítulo 10 — Capítulo 10

Flávia observa embevecida seu Bistrô...ela e Murilo conseguiram alcançar um grande feito, tornar aquele espaço um dos mais badalados da cidade. Despretensiosamente e pra surpresa de todos, o espaço caiu no gosto da clientela e é sempre muito procurado. Hoje mais que nos outros dias está completamente lotado. Incrível como uma publicidade bem feita o posicionou entre um dos lugares mais frequentados do Rio de Janeiro. Recorda-se orgulhosa que por muito pouco não perdeu a oportunidade de comprar aquele local, se não fosse por Giselle e sua providencial intervenção, ela teria adquirido um outro espaço no centro da cidade, sem pesquisar ou considerar outras possibilidades. Estava a ponto de fechar negócio e à primeira vista tudo estava certo, preço, localização, Murilo quase teve uma síncope quando Flávia decidiu não assinar os papéis, afinal ele estava mais inclinado a essa opção...um Bistrô em pleno centro, numa rua repleta de outros empreendimentos do mesmo gênero. Mas Giselle com seu tino para os negócios os fez mudar de ideia. Flávia suspira...ahhh Giselle onde você está!...Quanta falta me faz...diz a si mesma. Preciso falar com Marina...minha amiga não pode continuar assim desaparecida, sem dar sinal de vida...sinto muito a ausência dela!...Logo sua atenção volta-se ao trabalho e um grande sorriso aparece, mais uma vez aquela onda de orgulho a invade, não há dúvidas que essa foi a decisão mais acertada...o Bistrô é um sucesso! ...Ohh meu deus!...O que seria dela sem os Vieira...Flávia é tirada de seus pensamentos ao escutar uma voz muito conhecida...
– Planeta terra chamando Flávia!
– Marina!...Que bom ver você!...Flávia dá um abraço em sua amiga e logo se dirige à mulher que a acompanha... — Clara...que prazer!
– Olá!...Clara a cumprimenta.
– Ops!...Casa cheia...será que consegue fazer algo por nós?... Pergunta Marina.
– Hummm não sei...me deixa pensar em alguma coisa...talvez possa...volto já!...Flávia se afasta deixando Marina e Clara numa área próxima ao bar.
– Bom Clara...que tal bebermos algo?...
– Não sei...não é muito cedo?...
– Ahh mulher...só uma sangria não fará mal...vamos!... Marina pega a mão de Clara e ambas ocupam uma das poltronas do bar. Enquanto Marina faz o pedido a morena decide ir ao banheiro.
– Marina...
– Sim?
– Vou ao banheiro.
– Ok!...Diz despreocupadamente ao mesmo tempo em que fala para o bartender o tipo de sangria que deseja.
– Mmmm pelo que vejo esse romance está indo de vento em popa...diz Flávia ao chegar junto da produtora.
– Não sei do que você está falando...retruca Marina um pouco assustada...morreria de vergonha se Clara escutasse sua amiga falando daquela maneira...não quer nem imaginar o que poderia acontecer.
– Como não sabe...Meirelles a quem você quer enganar...como se eu não a conhecesse como a palma de minha mão. Sei muito bem...o que há entre vocês não é somente amizade...então me conta logo tudo vamos!
– Eu juro Flávia...entre mim e Clara não há nada!
– Mariiina...(Flávia em tom de advertência)...
– Sério...estou falando a verdade!
– Você acha que sou boba!...Como não tem nada!...Só andam juntas... parecem siamesas!...E a troca de olhares...às vezes tenho a impressão que você vai devorá-la só com os olhos...e o que dizer dela...ahh simmm porque com a Clara não é muito diferente!...É uma admiração...um encantamento mútuos.
– Que?...Um alarme de curiosidade dispara na cabeça de Marina...mas do que você está falando Flávia...como assim?...
– Isso mesmo que você ouviu...vocês se comportam como duas adolescentes apaixonadas. O que me preocupa em tudo isso é que minha amiga está se envolvendo com uma mulher casada...
– Flávia...por deus...melhor mudarmos de assunto...e aí como estão as coisas entre você e Murilo?...
– Nem me fale...estamos passando por um momento difícil...
– Mas porque?...
– Murilo não se conforma com o fato de que depois daquele acidente ele não poderá mais submeter o corpo dele àquele tipo de estresse...definitivamente não aceita essa situação...ahhh amiga todo dia é a mesma discussão.
– Mas o que passa pela cabeça dele?
– Sinceramente não sei...antes que uma das duas consiga dizer alguma outra coisa são surpreendidas por uma Clara visivelmente alterada que passa por elas como um foguete.
– O que...Marina tenta falar mas fica em silêncio quando um homem segue Clara na mesma rapidez que a morena.
– Acho que você deveria ir lá ver o que está acontecendo...diz Flávia...Marina de imediato entra em ação e sai atrás deles. Já fora do restaurante Fernando consegue alcançar Clara e a puxa pelo braço...
– Desgraçado!...Como pôde!...Dez anos!...Dez malditos anos da minha vida vida!...Como foi capaz de jogar tudo isso fora!...Por deus!...Começa a golpeá-lo dando socos no peito do marido...
– Clara!...Amor!...Tenta abraçá-la forçadamente puxando-a contra si...- Clara precisamos conversar...me escuta!...Sei que cometi um erro... (é interrompido por uma forte bofetada da morena).
– Cala a boca e me solta!...Me solta seu cafajeste!...Clara tenta desvencilhar-se mas Fernando é mais forte que ela.
– Calma mulher!...Calma!...Não solto até que você me escute...não vou deixá-la ir!...
– Por acaso não escutou o que ela disse?...Solte-a!...Marina grita fazendo com que Fernando volte a atenção pra ela...
– Quem é você?...Pergunta confuso com a intromissão daquela desconhecida.
– Isso não importa...deixe-a em paz!...Insiste Marina.
– Melhor você cuidar da sua vida...afinal quem essa mulher Clara?... Fernando pergunta irritado olhando pra esposa e ao mesmo tempo baixando um pouco a guarda...o bastante pra que a morena consiga afastar-se dele.
– Clara dirige o olhar pra Camila que acaba se unindo a eles...- Veja!...Vieram buscar você...ironiza...
– Clara.!...Agora é Camila quem fala...eu...
– Fica calada vadia!...Não quero ouvir sua voz...muito menos explicações...não me interessa o que tenham pra falar...nada...absolutamente nada vai mudar o que presenciei, só posso dizer que vocês se merecem, são dois desgraçados...malditos!...Clara grita enquanto se afasta uns passos de Fernando.
– Clara amor...me perdoa...juro que não voltará a acontecer...eu...eu não sei o que deu em mim...desesperado leva as mãos à cabeça...isso é porque você não pode me dar filhos!... Aquela declaração foi o estopim para uma explosão de raiva e Clara sem saber de onde tirou força acerta outra violenta bofetada no marido traidor...
– Como se atreve!...Como!...Clara cospe as palavras...Fernando observa como a dor de Clara se transforma em ódio. Ela olha para aquele homem como se fosse um desconhecido...incrível!...Dez anos de sua vida ao lado dele e não restou nada!...Aquela verdade começa a golpeá-la e as lágrimas caem compulsivamente. Marina que está atrás dela aproxima-se e a abraça passando o braço por sobre seus ombros...
– Vamos!...Não tem que ficar mais tempo exposta a isso... diz Marina enquanto a tira dali.
– Clara aonde você vai?...Pergunta Fernando que tenta puxá-la pelo braço mas ela faz um movimento brusco conseguindo livrar-se dele.
– Me deixa...não importa aonde eu vá!...Me esqueça!...Grita pra ele magoada.
– Marina...me tira daqui...por favor me tira daqui!...Clara está alterada e já não pode mais conter aquelas dolorosas lágrimas.
– Clara!..... Clara!... Fernando grita enquanto as vê sair dali. Marina ajuda Clara a entrar no carro e Fernando possesso decide ir atrás delas... aproxima-se e começa a bater no vidro...
– Clara saia desse carro...Claraaaaa!
– Marina me tira daqui por favor...Clara está desesperada....Marina acelera e sai em disparada...
– Isso não vai ficar assim!... Grita Fernando.

Algumas horas antes...
Fernando entra na sala de Camila que está concentrada olhando a tela do computador, sorri de forma lasciva e silenciosamente aproxima-se dela até ficarem bem juntos agarrando-a por trás, leva suas mãos aos seios da amante... — Que mulher deliciosa!...(fala pra si mesmo)...o sorriso se faz mais largo,Diabos! como se sente atraído por aquela mulher.... Camila Ao ser surpreendida por aquele assédio facilita as investidas de Fernando dando total acesso ao seu corpo.
– Fernando por deus!...Tenta separar-se pois teme serem flagrados naquela situação comprometedora.
– Shhhh fica tranquila... a porta está trancada e ninguém me viu entrar.
Num movimento rápido a coloca de pé, levanta a saia dela e a empurra contra a mesa, abre o zíper tira seu membro já em ereção e a penetra de forma rápida e cheia de desejo...transam ali mesmo. Fernando e Camila gozam quase que imediatamente, ela se deixa cair sobre a mesa e ele por cima dela, ambos respiram agitadamente e extenuados pelo esforço.
– Mulher cada dia você fica mais gostooosa!...Não consigo resistir...diz ainda excitado recebendo uma risada de satisfação da amante.
– Bem...agora preciso ir ao banheiro...vamos sair daqui!
– Sim vamos...que tal se nos encontrarmos no meu escritório em 15 minutos?.
– Perfeito! Ela concorda.

15 minutos depois...
Camila entra toda insinuante no escritório de Fernando que ao vê-la não esconde a empolgação recordando a transa ocorrida há pouco tempo ali tão próximo e essa sensação de perigo o instiga ainda mais.
– Então diga o que deseja?...Pergunta querendo parecer profissional mas não escondendo a ambiguidade nas palavras.
– Quero levá-la pra conhecer um restaurante que é um sucesso...está muito badalado.
– Mmmmm...parece interessante...quando então?...
– Hoje!...Assim que terminar tudo o que tem pra fazer podemos ir.

NO CENTRO DE ASSISTÊNCIA...
Marina está com Karina e Jefférson discutindo detalhes do projeto, sente-se satisfeita apesar de estarem indo mais lento do que o esperado, principalmente devido aos últimos acontecimentos na vida de Clara. Por fim os resultados estão aparecendo, o documentário tomando forma, as coisas estão fluindo...o que é mais importante.
– Conseguimos avançar e já estamos concluindo a etapa dos depoimentos...só falta encontrarmos outro lugar pra locação...diz Jefférson.
– Sim você tem razão...acho que com isso podemos terminar por aqui e retornarmos aos Estúdios...acrescenta Karina que está muito ansiosa pra deixar aquele maldito lugar, toda vez que pensa em como aquela mosca morta está cada dia mais integrada à vida de Marina seu sangue ferve, precisa tirar sua chefe o mais rápido possível do lado de Clara, assim como necessita estar num espaço mais neutro...mais dela...onde possa colocar seus planos em prática e conquistar a produtora.

Nesse mesmo momento Clara está com Helena revisando documentos, realizando tarefas próprias do Centro Comunitário.
– Sim...me parece adequado que essa atividade seja adiada...o ideal é que ela aconteça depois que os trabalhos de construção da nova ala estejam concluídos...sugere Clara.
– Com certeza...lembra que falamos com o engenheiro e combinamos que o projeto incluiria um auditório?
– Claro...poderemos esperar até que esteja tudo prontinho... concorda Clara...ambas seguem analisando atentamente os documentos até que o celular de Clara emite um alerta do whatsapp...
– Marina: :-)
–Clara: :-)
–Marina: Olá!
– Clara: Olá!
– Marina: O que está fazendo?
– Clara: Analisando uns orçamentos com Helena.
– Marina: Ahhhh!!! :-(
– Clara: Ohh o que foi?...Porque essa carinha?
– Marina: Já são 13h e não almoçamos ainda...estava pensando...
– Clara: Humm...o que tem em mente?
– Marina: Não sei...talvez ir ao Bistrô... :-P
– Clara: Mmmm aquela comida...os olhos de Clara brilham vislumbrando a possibilidade de almoçar no seu lugar favorito na companhia de Marina...mas logo lembra de suas obrigações e diz... — Sei que você quer me provocar mas não poderei ir...tenho muito trabalho ainda.
– Marina: Ahhh... :- (
– Clara: Ohh por favor não coloque essa carinha...
– Marina: ... :- /

Clara deixa seu celular sobre a mesa e segue trabalhando, enquanto despacha com Helena não consegue evitar o olhar para olhar o aparelho quanto em quanto, esperando algum tipo de resposta de Marina. Helena que estava atenta não perdeu nada daquela troca de mensagens, sabe que só poderia ser Marina comunicando-se com Clara através do whatsapp. Coisa frequente entre elas. Apesar do esforço em demonstrar discrição, a morena não consegue concentrar-se no trabalho e constantemente olha de soslaio para o celular, dessa forma Helena termina por exasperar-se até porque se continuarem naquele caminho não chegarão a lugar nenhum e dando-se por vencida diz a amiga...
– Anda...vá encontrar-se de uma vez com ela!...Diz Helena farta de Clara e Marina sempre terem alguma programação juntas.
– Que?...(sem entender).
– Não se faça de boba!...Vá com ela!...Sei que está morrendo de vontade de sair com Marina!
– Obrigada!...Clara diz entusiasmada e com um grande sorriso no rosto...parecendo uma aluna quando a aula termina mais cedo que o esperado.
– De verdade?...Helena!...Você não precisa mais de mim?
– Não!...Vá logo!....Do que adianta estar aqui de corpo e a cabeça em outro lugar!...Assim desatenta você não ajuda em nada mulher!...Helena continua falando enquanto observa sua amiga juntando as coisas e pegando a bolsa... — Ultimamente você só quer saber de estar com aquela branquela!...Já não tem mais tempo pra compartilhar nada comigo...Helena dá de ombros... (desde que Marina chegou na vida de Clara ela tem sido desprezada)...- Já não saimos mais juntas...nem falamos!....agora tudo é Marina isso...Marina aquilo...Clara sorri divertida escutando as queixas da amiga.
– Ahh que amiga mais possessiva eu fui arranjar...diz Clara dando um beijo no rosto de Helena... — Deixa de reclamar tanto ciumentinha!...E se dirige até a porta de saída.
– Clara!... Helena tem o rostro fechado.... ela suspira antes de falar.
– Sim?...
– Você está consciente de que está brincando com fogo?...O sorriso de Clara se desfaz imediatamente pois não entende do que a amiga está falando.
– Como assim Helena?... Agora Clara retorna e senta-se de frente pra amiga... — Você sabe muito bem a que me refiro, não se faça de idiota pois sabemos que não é.
– Não...não sei...mas agradeceria se me esclarecesse.
– Clara...você sabe que Marina é lésbica, nunca passou por sua cabeça que ela possa estar alimentando sentimentos por você além de uma amizade!...Aquelas palavras pegaram Clara desprevenida, Helena sempre implicou com a orientação sexual de Marina, não é a primeira vez que toca nesse assunto...as duas ficam encarando-se e Clara sente seu coração disparar...
– Continuo sem entender...
– Está bem!...Helena suspira cansada...está na cara e você parece não querer enxergar!...Diz exaltada...como ousa dizer que não sabe do que estou falando. Clara olha pra sua amiga...Helena tem razão, faz tempo que pensa nisso...algumas vezes suspeita que Marina sinta algo a mais por ela, por outro lado só consegue ver nas atitudes da produtora verdadeiras demonstrações de amizade...uma estreita amizade. Também não vê nada de errado que os cuidados, os gestos de companheirismo que Marina tem com ela estejam num patamar além da amizade...a morena mantem-se calada e Helena aproveita pra instigá-la ainda mais...
– A questão aqui não é o que ela sente...que tenha outras intenções além da amizade, mas como isso afeta você. Clara encara a amiga, não sabe o que dizer e nem como reagir...está completamente confusa. Helena definitivamente a tirou da sua zona de conforto...Clara balança a cabeça tentando dissipar aqueles pensamentos...não está pronta pra tirar conclusões.
– Sabe de uma coisa...não sei porque estamos conversando sobre isso...Marina e eu somos amigas!...Sou hétero entende?...Só porque Marina é lésbica não quer dizer que tenha algum interesse em mim...ELA É MINHA AMIGA!...Só que isso dito por Clara ressoa mais como uma tentativa de convencer a si mesma. Que pra Helena
– Se é o que você diz...(em um tom irônico).
Clara não fala nada...agora o que importa é ir encontrar Marina, não sabe como explicar aquela necessidade, apenas tem consciência que perto daquela mulher sente-se tão bem...completa...poderia até considerar egoísmo da sua parte...mas nesse momento difícil que está atravessando não está disposta a perder aquela mulher. Apressa o passo até chegar à sala de Marina.
– Marina!...Não a encontra...somente Jefférson.
– Acaba de sair...se correr um pouquinho ainda consegue alcançá-la.
– Oh!...Obrigada...dirige-se rapidamente até o estacionamento e efetivamente encontra Marina a ponto de entrar em seu carro acompanhada de Karina...detalhe esse que não agrada a morena.
– Marina!...Aumenta o passo e chega próxima ao carro da produtora.
– Clara!...Diz um pouco surpresa...- Não esperava vê-la...Clara observa aquele sorriso...o brilho naqueles olhos e isso a remete às palavras de Helena...e se Marina...não!...Não pode ser!...Não...melhor não pensar nisso...olha pra amiga e sorri enquanto lhe diz...
– E então...se o convite ainda estiver de pé eu aceito!
– Vamos então!...Diz Marina...sem pensar duas vezes Clara entra no carro de Marina que olha pra colega de trabalho e fala despreocupadamente...- Karina depois discutiremos mais sobre esse assunto ok?
– Ahhh pensei que iríamos almoçar juntas...pra concluir nossa conversa...
– Não acho necessário, não é um assunto tão importante assim pra você sacrificar seu horário de almoço...nos falamos depois!...Dito isso entra no carro e parte na direção do Bistrô de Flávia. Karina enquanto vê o veículo afastar-se deixa sair um grito de frustração...
– Maldita mulher! Murmura com raiva
Durante o trajeto Clara não para de olhar pra mulher ao seu lado e se pergunta...será possível que Marina sinta alguma coisa por ela além de uma pura amizade?...E se for isso mesmo...o que vai fazer a respeito?...Por outro lado Clara evita analisar seus próprios sentimentos em relação a amiga, mas de uma coisa ela tem certeza...Marina é uma mulher apaixonante e que pode despertar interesse até na mais heterossexual das mulheres...fica receosa porque sabe que não está imune a esses encantos, de alguma maneira isso é assustador pra ela.

No Bistrô....
Uma acalorada discussão acontece em uma das salas onde funciona o escritório de Flávia.
– Flávia entenda!...Estou farto dessa sua vigilância! Murilo está com raiva
– Será que você não consegue me ouvir...me preocupo e faço isso para o seu bem!...Amor lembra o que os médicos disseram? Diz preocupada
– Por mim...quero que eles vão pro caralho!...Guarde bem o que vou dizer...amo a velocidade e nem você nem ninguém vai tirar isso de mim. Diz decidido
– Embora isso signifique a sua morte?...Desesperada Flávia é tomada pelas lágrimas...diante daquele argumento Murilo se cala e vai embora.

Fernando e Camila chegam ao Bistrô e ficam impressionados, vão ao bar esperar o atendimento...todas as mesas estão ocupadas.
– Ahh...não falei...isso aqui é um sucesso!...Fernando explica ao maître que eles têm reserva, logo que a confirma são conduzidos à mesa. Imediatamente aparece um garçom que entrega a carta de vinhos e Fernando faz o pedido.
– Se me permite dizer senhor... fez uma excelente escolha!....Rapidamente o rapaz traz uma garrafa e duas taças, Fernando degusta o vinho aprovando-o e o garçom os serve. Fernando pega uma taça e a estende à Camila propondo um brinde, ela sorri e corresponde ao gesto.
– A nós!
– A nós!...Camila ergue sua taça e brindam felizes por compartilhar aquele momento num lugar tão agradável...ela observa tudo ao redor e fica encantada.
– Não resta dúvida...esse lugar é fabuloso!
Fernando sorri extasiado.
– Então está aprovada minha sugestão?
– Aprovadíssima!
– Acho que mereço um prêmio por isso...
– O que você quer ganhar?
– Um beijo...
– Fernando...estamos em público!
– Ahhh vamos será rápido...além disso olha como todos estão concentrados...conversando.
– Não!...
– Vem...por favor...põe aquela cara de criança que pede um caramelo...- Só um...rapidinho...
– Está bem...se inclina e roça seus lábios nos de Fernando que habilmente prolonga o beijo mais do que o normal.
Nesse exato momento Clara sai do banheiro...o sorriso que tinha nos lábios desaparece instantaneamente quando se depara com aquela visão bizarra... Fernando em companhia de uma mulher...aquela que trabalha com ele e estão se beijando...Clara pestaneja uma e outra vez rezando pra que aquilo seja uma miragem...um pesadelo talvez. Seu coração bate acelerado querendo sair do peito...não...ela não está tendo uma alucinação...aquela é a crua realidade, sem se dar conta seus pés a conduzem àquela mesa.
– Fernando!...Aquele nome se desliza por seus lábios, o casal que estava compartilhando um apaixonado beijo fica paralisado. Fernando encontra os olhos de sua esposa enquanto seu cérebro grita que aquilo não pode estar acontecendo...ooh maldição!...É só o que consegue dizer...sua respiração se agita ao mesmo tempo que se pergunta como vai sair daquela enrascada.
– Clara!...O...o...q..que faz aqui?...Pergunta gaguejando e rapidamente se distancia de Camila. Clara ao vê-los sente-se tão nauseada a ponto de vomitar ali mesmo...Fernando aproxima-se com os braços estendidos...
– Clara!
– Não me toque!...
– Mas...
– Não se atreva!...Clara limpa a boca e sem dizer mais nada sai em disparada.
– Clara!...Maldição!...Clara!...Fernando chama desesperado.
– O que vamos fazer agora?...Camila está paralisada...que merda!...Porque tinha que fazer aquilo...beijo em público francamente!
– Sinceramente não sei...diz Fernando...mas como iria imaginar encontrar Clara aqui...demos uma mancada. Sem pensar muito também sai às pressas atrás da esposa alcançando-a no estacionamento, onde a discussão de fato acontece. As coisas pioram muito quando ele comete o erro de mencionar o fato de Clara não poder ter filhos. Depois disso só pôde vê-la saindo na companhia daquela mulher, ao lembrar da estranha Fernando franze o cenho...de onde diabos ela saiu!...Conhece muito bem as amigas de Clara e aquela definitivamente ele nunca viu.
– Vamos!...Fernando chama Camila sem ver se ela o segue e vai para o carro.

Marina conduz seu carro não sabendo muito o que fazer, realmente não entendeu direito o que aconteceu, mas ao que parece Clara e o marido tiveram uma briga muito séria.
– Clara...Clara...repete o nome da amiga vendo-a dispersa...com o olhar perdido. Marina sente o coração apertar pela reação da morena...ou melhor pela sua falta de reação...aquela visível apatia. Ela para o carro à beira mar e Clara sem pensar duas vezes sai do veículo e começa a correr pra água. Marina pestaneja...se entristece ao perceber Clara tão abalada, a vê disparar na direção do mar e parar na metade do caminho, talvez pela dificuldade de correr com sapatos na areia, apoia as mãos nos joelhos para em seguida continuar e soltar um grito lancinante. Embora não consiga ouvi-la sente o coração partir-se vendo a desolação em que Clara se encontra. Marina lentamente começa a caminhar na direção da morena e depois apressa-se ao perceber sua amiga entrar no mar. Normalmente não tem banhistas naquela área visto que há muitas ondas e é bastante perigoso pra quem não for um exímio nadador.
– Oh não!..Não!..Não!...CLARAAAAAAAA. Marina corre tão rápido que em segundos já está dentro d'água...
– Mariiiina!...Clara a chama lutando contra as ondas e de imediato se dá conta da loucura que iria fazer, tenta nadar até Marina mas a força do mar a faz afundar. A produtora percebendo o desespero da amiga mergulha e consegue alcançá-la resgatando-a daquela situação de extremo perigo. Ambas saem tossindo...acabaram engolindo muita água, se deixam cair na areia respirando agitadas pelo esforço realizado. No mesmo momento Marina sente uma intensa raiva invadir seu corpo.
– Que droga Clara!...O que estava pensando em fazer...que merda foi aquela?...O tom ríspido de Marina preenche aquele silêncio que havia se instalado.
– Em morrer!...Quis morrer...diz sussurrando.
– Mas porque mulher?...A produtora irritada ajoelha-se junto à morena que ultimamente tem tirado seu sono.
– Você...ainda me pergunta porque?...Não consegue enxergar?...Veja o que eu sou...veja bem o que eu sou!...Sou um fracasso!...Nem sequer consigo ter um filho...algo tão simples e fácil...você consegue entender isso?...Meu casamento é uma mentira!...Meu marido um embuste!...As lágrimas caem copiosamente...Marina fecha os olhos sentindo toda a dor daquela mulher, compreende que não é a hora oportuna pra repreensão...Clara deve estar atravessando um inferno nesse momento e mais uma vez sendo o seu apoio, seu porto seguro, a envolve num abraço e lhe diz...
– Vamos pra casa...vem temos que nos secar ou pegaremos um resfriado. As duas se põem de pé e cambaleantes se encaminham até o carro...Marina agradece por ele ter assentos de couro considerando que ambas estão completamente encharcadas, dá a partida e vão direto pra casa. Ao chegarem Marina leva Clara ao quarto de hóspedes, vai em busca de uma roupa pra ela se trocar e a deixa à vontade. Quando retorna entra sem bater e ali está sua deusa dourada totalmente nua em todo seu esplendor. A respiração falha diante daquela visão, Clara rapidamente pega a toalha e cobre o corpo.
– Ohh...des...desculpa...gagueja ao mesmo tempo que fica ruborizada... trouxe isso pra você vestir...deixa o pijama sobre a cama e sai apressada dali como se estivesse sendo perseguida por mil demônios. No seu quarto Marina se encosta na porta e pensa...santo deus que corpo é aquele...que mulher!...Aquela imagem está entranhada em sua mente...suspira culpada... Clara está com coração partido... e ela! Fica pensando.... finalmente Marina resolve tomar um banho rápido, precisa... relaxar... se troca e vai direto ao quarto de hóspedes, dessa vez bate à porta...espera mas Clara não abre, encosta a cabeça e pensa que do outro lado está a mulher que tira sua respiração só com um sorriso...a mulher que a deixa totalmente desarmada...- Vou pegar o Diogo!...Exclama...não recebe nenhuma resposta, por sua vez Clara também está apoiada na porta e ainda nua com a roupa que Marina lhe emprestou pressionada contra seu peito enquanto deixa que as lágrimas levem aquele dor.

Mais tarde Clara ainda continua reclusa naquele quarto. Marina coloca Diogo pra dormir e senta-se em frente a piscina, observa o quarto de longe...bom pelo menos a luz está acesa...sinal de que está viva, fecha os olhos...realmente foi um dia exaustivo, repassa os acontecimentos e se pergunta como uma mulher maravilhosa como Clara está casada com aquele idiota!...Deus com uma mulher assim como ele pode ter tempo pra ter outra mulher na sua vida... Move cabeça..... Subitamente percebe que não está mais só...
– Como se sente? Marina sussurra
– Como um trapo humano...responde Clara...Marina abre os olhos e vê a morena que está ali junto dela...apesar de mostrar-se com os olhos completamente inchados ainda continua linda.
– Mas estou bem na medida do possível...diz tentando amenizar a preocupação refletida no rosto da amiga...
– Quer comer alguma coisa?
– Não...Estou sem fome...
– Deveria comer algo...passou o dia sem se alimentar...
– Não...sério não estou com vontade...
– Mas não pode ficar assim sem comer nada. Marina se levanta vai até a cozinha e rapidamente prepara uns petiscos e pega duas cervejas.
– Uau!...Quanta competência hein!...diz a morena...
– Não foi nada que exigisse muito trabalho...Clara se serve dando umas mordidinhas.
– Me perdoa...por...você...não consegue continuar. Marina não sabe o que dizer, nem em seus piores pesadelos...nem nos momentos mais críticos pensou em cometer uma loucura daquela.
– Clara...
– Sim?...
– Não queria ter que dizer isso mas ele não merece suas lágrimas...nem seu sofrimento...aliás não merece nada...só o seu desprezo!...Marina sente então um peso sobre ela...Clara se joga contra o corpo da produtora...
– Me abraça por favor...pede entre lágrimas e continua...- Meu mundo se desmoronou!...Marina obedece e a envolve em seus braços, ela se deixa cair na cadeira levando Clara com ela, fecha os olhos agradecendo por tê-la ali aninhada no seu abraço embora seja nessas circunstâncias.
– Chora...deixa sair toda a dor...ficam nessa posição durante muito tempo até que o frio da madrugada as obriga a se recolherem. Marina leva Clara para o quarto de hóspedes, a coloca na cama e acaricia seu rosto. Clara quase adormecida lhe diz num sussurro...
– Não me deixa só...por favor...Marina respira fundo e fecha os olhos...essa mulher está levando-a ao limite mas entende que Clara precisa dela.
– Está certo...vou ficar aqui com você...Clara então se acomoda deixando um espaço pra Marina que se deita imediatamente, a morena se refugia em seus braços, Marina fica ali acariciando os cabelos da amiga até que as duas caem vencidas pelo sono.

No dia seguinte Marina acorda e sorri com a morena agarrada ao seu corpo...é hora de levantar-se, com certeza Diogo já despertou, lentamente começa a sair da cama tomando todo o cuidado pra não acordar Clara. Quando consegue fica observando-a por uns instantes para logo em seguida ir encontrar seu filho. Tal e como esperava Diogo está parado no berço esperando sua mãe.
– Bom dia meu amor!
– iiiiaaaa mamãe...Marina sorri porque a cada dia que passa aquele moleque está abandonando sua linguagem de bebê e tentando balbuciar novas palavras. Termina por tomar banho junto com Diogo...prepara o filho pra levá-lo à creche, se arruma também e sai. No trajeto de volta pra casa decide parar em uma panificadora pra comprar café e uns croissants. Ao chegar tudo está em silêncio, então vai pra cozinha pega uma bandeja e a prepara pra levar ao quarto hóspedes.
– Bom dia!...Já encontra Clara acordada...
– Bom dia!
– Está melhor?...A morena assente embora seu rosto demonstre ainda tristeza.
– Trouxe algo pra você... coloca a bandeja junto de Clara que sorri ao ver o seu café preferido só que dessa vez acompanhado de croissants e uns pedaços de queijo.
– Não tenho fome...
– Ahhh...mas você vai comer...
– Marinaaaa...reclama Clara...
– Não!...Não aceito queixas...vai comer sim!...Clara reconhece a derrota...a produtora está irredutível, assim termina por sentar-se e começa a beliscar a comida.
– E Diogo?
– Na creche.
– Ahhh... gostaria de tê-lo visto.
– Clara...
– Sim?...
– Agora o que vai fazer?
– Ahhh...não sei...não quero pensar nisso agora...nesse exato momento o celular de Clara começa a tocar, as duas olham pra bolsa como se ali tivesse uma bomba a ponto de explodir.
– E então...vai atender?
– Não!...Não quero falar com ele...Marina concorda, entende que por aquele momento não pode pressionar sua amiga...tudo ainda está muito recente. Estarei por aqui...se precisar de alguma coisa é só me chamar. Fica de pé e quando vai saindo ouve seu nome...
– Marina...diz Clara antes que ela deixe o quarto.
– Sim?
– Obrigada!
– Não tem o que agradecer...sempre vou estar aqui pra você.