CAP 8

Clara chega em casa passa um pouco da meia noite, olha o relógio da sala e fica surpresa, pensa...deus como o tempo passou voando, também não é pra menos admite para si mesma...quem na companhia daquela encantadora mulher não desfrutaria do máximo possível. Clara sente-se tão relaxada, tão à vontade ao lado dela. Marina tem esse poder de deixá-la assim...leve e embora não entenda o porquê daquilo acontecer, prefere mesmo não saber as razões. Inegavelmente desde que a produtora entrou em sua vida, transformando-se em sua mais nova amiga, tudo com ela é assim...agradável, essas horas que passaram ali juntas foram inesquecíveis, lembra da reação de Marina...o olhar que desnuda, surpreendeu-se com aquela magia. Sim...pode-se dizer que foi um momento mágico e embora Marina a tenha convidado e insistido para que ficasse no quarto de hóspedes já que era muito tarde para retornar para casa, mesmo que fosse prazeroso continuar usufruindo daquele ambiente tranquilo e agradável, Clara manteve-se firme e foi embora. Marina aceitou essa decisão só com a condição de que ela usasse um serviço de táxi confiável e ligue quando chegar na casa...já que tinha bebido. Quando Clara chega em casa antes de entrar ... pega em sua bolsa seu celular e ligou para Marina ....

quem respondeu quase imediatamente ...
– Olá.
– Olá
– Veio bem .. tudo em ordem?
– Se .... obrigado ... ambos com um sorriso bobo
– Obrigado pela noite excelente ...
– Obrigado ... pelo prazer da sua companhia .... silêncio se apodera deles .. como dois adolescentes que não sabem como dizer adeus no primeiro encontro
– Bem ... bye .. eu tenho que ir
– Tchau.

Clara perdida em seus pensamentos dirige-se ao quarto devagar e em silêncio para não acordar Fernando, com todo cuidado abre a porta e tem uma grande surpresa ao encontrar a cama vazia, franze o cenho e pergunta-se onde poderia estar seu marido a uma hora daquela. Distraída com aquele pensamento vai direto ao banheiro fazer sua higiene pessoal, depois de terminar tudo observa mais uma vez o relógio sobre a mesa e percebe que já é quase 1h da madrugada. Pega o celular e liga imediatamente para Fernando, suspira pois a chamada vai direto pra caixa postal. Isso acaba com o prazer que havia desfrutado até há pouco naquela noite, a preocupação toma conta da mente de Clara.
– Deus onde estará Fernando que até agora não chegou, pega o celular novamente dessa vez liga para o escritório e ninguém evidentemente atende. Clara sente aquele desconforto no coração.
– Onde...onde você está Fernando...diz num suspiro, angustiada anda de um lado a outro solitária naquele quarto .

NO APARTAMENTO DE FLÁVIA E MURILO...
Flávia observa o esposo dormir ao seu lado e sorri, como sempre Murilo está abraçado a ela que gosta de sentir como o corpo do marido se encaixa ao dela, mas hoje...essa noite é diferente, há um assunto que não consegue tirar da cabeça, não deixa de pensar em Giselle, suspira e devagar sai daquele abraço protetor, distraída deixa o quarto e caminha até a varanda de seu apartamento. Ainda a intriga lembrar daquela tristeza tão profunda que viu nos olhos de sua melhor amiga, vê-los desprovidos do brilho que ela sempre conseguiu enxergar. Ela e Marina durante todo esse tempo que se conhecem, tiveram toda a atenção de Gi, bom pra ser honesta ela um pouco mais que Marina e ver a amiga assim desarmada pelo amor de uma mulher misteriosa a deixa curiosa. Fica até um pouco enciumada já que Marina sabe desse segredo e ela não. Um dia quase acreditou que descobriria a identidade da pessoa que Giselle protege tanto, aconteceu durante uma conversa entre as duas amigas, elas ignoraram a presença dela mas foi em vão, não conseguiu ouvir nada e o nome permaneceu oculto, essa mulher indubitavelmente ocupa um lugar muito particular no coração da sua melhor amiga.

Não importa quantas mulheres Giselle tenha, se mantém solteira, sempre termina, com todos os relacionamentos... inclusive quando esteve noiva de Bia (Beatriz), aquela moça doce, sorri quando lembra que Marina sempre brincava dizendo que ela era sua gêmea perdida e realmente há de concordar que Bia era muito parecida com ela.

Mas a relação terminou quando Vanessa cruzou o caminho de Gi que fez a besteira de envolver-se pra depois ser deixada pela canalha que apaixonou-se por Marina. Flávia olha para o relógio sobre a mesa, são 2h mas o sono se nega a chegar e à sua cabeça volta a mesma pergunta que por anos instiga sua curiosidade, quem será essa mulher, porque Giselle não consegue tirá-la da sua mente e coração!..Talvez se ela pressionasse um pouco mais Marina obtivesse essa informação e uma vez sabendo iria confrontar essa mulher, perguntar-lhe porque ignorou o amor da sua amiga durante todo esse tempo a fazendo sofrer desmedidamente. O que as impede de viver uma relação, será que não é um sentimento correspondido...ahhh sua amiga precisa tanto disso, se há alguém que merece ser amado é Giselle, apesar de ser uma destruidora de corações sabe que no fundo é uma pessoa solitária.
– Amor!...A voz de Murilo tira Flávia de suas reflexões...
– Sim?
– Vem pra cá....sinto sua falta...diz Murilo com uma voz manhosa, ela sorri enquanto retorna aos braços do homem que ama.
– Sim amor...mentalmente promete a si mesma que irá falar com Giselle logo que amanheça.

EM UM LUXUOSO APARTAMENTO...

Giselle assim como Flávia não consegue dormir, a luz da lua ilumina aquela bela mulher. Da janela pode observar a cidade que dorme, quem diria que fosse possível apreciar a quietude e calma, durante o dia o lugar converte-se em um misto de ruído e atividade. Um suspiro escapa de seus lábios, depois de sair da casa de Marina foi a um bar, como de costume tentou por em prática a sua infalível estratégia de sedução, mas dessa vez não conseguiu, em sua cabeça estava presente mais do que nunca a imagem de Flávia.

Aconteceu que no meio da pista de dança deixou a garota com quem estava e foi embora sem olhar para trás. Chorou e tentou impedir que as lágrimas viessem de forma mais intensa, com os olhos fechados pergunta-se...
– Até quando vou sofrer por esse amor... até quando esse sentimento vai destroçar meu coração...até quando?...Sua voz trêmula preenche o vazio daquele quarto, é tão intensa a dor, o desespero é quase palpável, porque eu não consigo esquecer você FLÁVIA!...Depois de tanto tempo esse sentimento ainda permanece aqui...levando a mão ao coração e já não sei mais o que fazer. Giselle cai de joelhos rogando esquecer aquele amor impossível, fazia muito tempo que não tinha uma recaída...assim chamava esse estado de desejo por Flávia, então toma uma decisão...

RESIDÊNCIA DE CLARA ...

É madrugada quando Fernando retorna pra casa, entra no quarto cuidadosamente fazendo o menor barulho possível, pode ver Clara dormindo profundamente, melhor assim não quer problemas nem discussões. Vai tomar banho, depois coloca o pijama e com cautela deita-se ao lado da esposa.

No dia seguinte Fernando e Clara estão na cozinha, ela como uma esposa dedicada prepara o café da manhã do marido.
– A que horas você chegou?...Pergunta aparentando desinteresse.
– Às 5:30...responde Fernando enquanto lê o jornal de forma distraída.
– E o que houve?
– Um dos sistemas falhou e já imagina tive que ficar até que a equipe de trabalho resolvesse o problema.
– Liguei para o seu celular e só dava na caixa postal.
– Estava descarregado e esqueci o carregador no carro...mente descaradamente.
– Fernando quantas vezes já disse que você tem que estar atento à bateria do seu celular...me preocupo muito.
– Ahhh amor... calma...desculpa simplesmente me esqueci...finge um tom de arrependimento que chega a convencer um detector de mentiras.
– Está certo...mas que isso não volte a se repetir.
– Sim amor...não vai mais acontecer.

NOS ESTÚDIOS VIEIRA...

Marina está assistindo no trailler às preliminares de uma das minisséries realizadas nos Estúdios e que está em fase de edição. Encontra-se tão concentrada que nem percebe a porta ser aberta, quase morre de susto quando escuta uma voz bem próxima ao seu ouvido...é Karina...
– Hummm adoro o seu perfume.
– Santo deus!...Marina quase cai da cadeira, levanta-se o mais rápido que pode afastando-se daquele assédio.
– O que é isso?...Karina sorri...diverte-se com a reação de Marina, a estimula muito deixar a chefe assim...sem jeito, tirá-la da sua zona de conforto, inspira profundamente o cheiro que emana daquela mulher a deixa louca.
– Essa fragrância é... (finge que está pensando) Omnia?
– Sim...sim é essa mesma.
– Sabe... esse cheiro me enlouquece...diz enquanto morde os lábios, antes que Marina possa falar algo a respeito a porta volta a abrir-se dando passagem a Vanessa. Karina sente-se invadida por uma onda de raiva...não é possível, cada vez que tenta criar um clima com Marina alguma coisa acontece.
– Marina!...Vanessa para ao perceber a tensão entre as duas, conhece muito Marina e sabe tudo sobre seus estados de ânimo e nesse momento Marina definitivamente está tensa. Vanessa dirige o olhar pra Karina, a loira logo dá-se conta de que era dessa desgraçada que falavam Giselle e Marina no outro dia.
– Interrompo alguma coisa?
– Não...não interrompe nada...diz Marina rapidamente, o que você quer?...Pergunta num tom ríspido,Vanessa hesita um pouco aquilo a feriu, não pode deixar de perceber que a delicadeza, o carinho com que a cunhada a tratava desapareceram e isso a deixa bastante magoada.
– Preciso discutir uns assuntos com você...Vanessa olha com raiva pra Karina que não se faz de rogada e devolve o olhar na mesma intensidade, talvez até mais...vendo que está sobrando ali resolve sair.
– Então do que se trata?...Continua no mesmo tom hostil.
– Preciso falar sobre aquele documentário que será exibido na festa de relançamento dos Estúdios...
– Sim sou toda ouvidos...diga!

Um automóvel conduzido de forma bem ousada no trânsito da manhã dirige-se aos Estúdios Vieira chamando a atenção dos transeuntes, deixando bem claro que quem está ao volante daquele esportivo é um exímio motorista, todo o trajeto foi assim até que com um freada brusca ele para em frente ao seu destino...
– Flávia amor... está tudo bem? murilo olha sua esposa que é tão branca como uma folha de papel pergunta preocupado
– Não tenho nada pra falar com você agora, mas me deixa terminar o que vim fazer aqui e teremos uma conversa séria!... Ela diz com sua respiração agitada pelo medo. Ela não goza da veliocidade. Murilo sorri sabe que se há algo que irrita Flávia é quando ele tem esse tipo de atitude irresponsável no trânsito, dirigir perigosamente, enfim...isso é algo que ele não consegue evitar, adora sentir a adrenalina correr por todo corpo.
– Como queira amor...sem dizer mais nada Flávia sai batendo a porta do carro.

Com o passo decidido Flávia vai direto à sala que Giselle ocupa, ali encontra-se com Marcos seu assistente...
– Olá...ela está?...Pergunta apontando para a porta do local onde Gi despacha.
– Não.
– Então vou esperá-la...enquanto isso falarei com Marina.
– Acho que vai demorar mais do que você imagina.
– Como assim?
– Ela saiu dizendo que ficaria ausente por uns dias e não me deu mais nenhuma outra informação, nem disse quando retornaria. Flávia assente distraída e decide ir aonde está Marina, se não pode falar com Giselle então vai tentar conversar com a amiga, uma dessas duas bandidas lhe dará respostas. Ela conhece muito bem Giselle, sabe que quando se sente pressionada a solução é fugir e suspeita que essa misteriosa viagem tenha a ver com o que houve na casa de Marina.
– Marina!
– Que!...a produtora responde de forma agressiva mas ao perceber que é Flávia se acalma.
– Que foi isso mulher?
– Ahhh Flávia...me desculpa pensei que fosse a Vanessa.
– O que houve?...O que foi que ela fez pra deixar você assim?...Pergunta Flávia surpresa com a reação da amiga, pois é a primeira vez que vê Marina visivelmente irritada com aquela vadia.
– Ahh meu deus!...Suspira Marina...precisa sair dali e desopilar, olha o relógio...você está de carro?
– Não...quando for embora pegarei um táxi.
– Eu levo você...preciso espairecer...dar uma volta.

Uma hora depois Flávia e Maria estão em uma das mesas na área do bistrô que tem a impressionante vista da cidade.
– O que houve?... Me diga.
– Vanessa...Marina ri incrédula...agora saiu com essa de que me ama.
– Ahhh não acredito!!!...Com que intenção ela se dignou a confessar.
– Você sabia também?
– Claro que sim...aqui a única cega é você amiga!
– Mas...deus como sou estúpida!
– Não se sinta assim...eu realmente só soube porque Giselle precisava conversar com alguém e evidentemente não seria com você que ela iria desabafar, assim sendo...Flávia encolhe os ombros.
– Ainda estou perplexa.
– Eu imagino e o que vai fazer?
– Que pergunta é essa...como que... que vou fazer, quero a Vanessa longe de mim e do meu filho!
– Sabe que isso pode trazer problemas entre você e a Joane.
– Sim...eu sei...mas o que posso fazer, não quero a Vanessa por perto...rondando-me, não suporto mais a presença dela.
– Não é pra menos...Marina porque vocês nunca quiseram me dizer quem é ela?
– Ela quem?...Hummm...é só o que responde a produtora pois aquele assunto a incomoda.
– Porque você está perguntando isso?
– Porque quero saber quem é essa mulher que atormenta o coração da Giselle.
– Não posso dizer quem é.
– Porque não?...Porque nunca revelaram a identidade dela...porque vocês omitem tanto essa informação?........

Clara está em sua sala digitando alguma coisa no computador quando o telefone toca, sem tirar os olhos da tela atende a chamada de forma distraída...
– Sim?
– Clara!...
– Amor...diga!...Nos lábios de Clara aparece um sorriso.
– Estou ligando pra dizer que hoje estarei viajando pra Boston, tenho assuntos a resolver lá.
– Mas como...assim de repente?...Ao escutar sobre a viagem do marido pega sua agenda.
– Infelizmente é uma emergência, estão precisando de mim e irei hoje à noite.
– Mas Fernando hoje temos que ir ao médico para mostrar os exames.
– Desculpa amor...eu gostaria muito de ir mas não poderei, sabe como são essas coisas, vamos fazer o seguinte...você vai, com certeza Dr. Morais vai só nos receitar algum tipo de vitaminas, agilize tudo com ele até que eu chegue…diz isso procurando utilizar um tom despreocupado.
– Mas Fernando...preciso que você esteja comigo, não quero ir sozinha pra essa consulta!
– Amor você tem que ir...sinto muito mas não posso fazer nada, em Boston precisam de mim e é meu trabalho, infelizmente não posso ficar.
– Eu também preciso de você...sou sua esposa, porque não manda um de seus funcionários?
– Sim...você é minha esposa e sabe muito bem como ajo quando há alguma emergência com nossos clientes, no nosso caso sei que não é nada que requeira cuidado. Clara há assuntos que têm prioridade e esse é um exemplo, sinto muito mas isso é mais importante que uma consulta de rotina ao ginecologista. Porque não chama uma de suas amigas pra acompanhá-la já que não consegue fazer isso sozinha?...Sem esperar resposta desliga o telefone, Clara observa o aparelho incrédula com o que acaba de escutar sente-se impotente...como Fernando foi capaz de dizer aquilo, a comportar-se daquela forma fria com ela, fica paralisada enquanto seu cérebro procura processar o que foi dito.
– Clara...preciso que...Helena interrompe e vê sua amiga com o olhar perdido e o telefone nas mãos...Clara aconteceu alguma coisa...você está bem?... Helena fica preocupada por encontrá-la naquele estado...sem dizer uma palavra, sem esboçar nenhuma reação...olha pra Helena como se fosse uma estranha, é como se seu cérebro estivesse com as principais funções bloqueadas...parece em transe.
– Clara!...Helena insiste...agora seu tom de voz reflete ainda mais preocupação...o que houve?...Clara entreabre os olhos e a encara por uns segundos, põe o telefone sobre a mesa e levanta-se, sem dizer nada sai da sala.
– O que está acontecendo?...Pergunta Helena enquanto a segue.
– Helena...preciso de um tempo...ficar só...não tenho cabeça pra pensar em nada agora...cancele todos os meus compromissos!
– Então porque não conversamos?
– Porque preciso falar com Fernando!...Por isso!...Exclama irritada deixando uma Helena perplexa, ela não pode deixar Clara sair daquele jeito, nunca em sua vida a viu tão alterada, sabe-se lá o que fez aquele cafajeste que ela tem como marido. Helena deixa os documentos sobre a mesa e corre atrás dela.

ENQUANTO ISSO NO ESCRITÓRIO DE FERNANDO...


Fernando suspira pesadamente e coloca o telefone na mesa de forma brusca.
– O que foi?...Pergunta Camila que vai entrando naquela sala sofisticada.
– Algumas vezes me pergunto que raios eu vi naquela mulher estúpida!
– O que aconteceu?
– Aquela idiota!...Eu lhe digo que tenho que ir a Boston por causa de uma emergência, que isso faz parte do meu trabalho e ela quer que eu a acompanhe numa consulta estúpida ao ginecologista. Agora só pensa em ter filhos...Fernando está muito irritado.
– Calma...
– Calma!...Só você pode me acalmar...não imagina o inferno que foi quando falei da viagem e você ainda me pede calma!...E por falar nisso você já preparou tudo?...Temos que ir hoje mesmo...aliás por mim iria agora!...Camila o observa surpresa pois não sabia que o acompanharia...
– Eu...ir com você?
– Claro...por acaso estava pensando em desperdiçar esses dias longe de mim...diz num tom sedutor e beijando os lábios da mulher, não posso me dar ao luxo de não aproveitá-los bastante...quero você comigo nessa viagem!...Que assim seja!...Dá a volta e segura Camila por trás apalpando sua bunda...vamos preparar tudo que sairemos o mais rápido possível.

NO CSSA...
– Clara!...Me diga o que está acontecendo...Helena a alcança no jardim que ela tanto gosta.
– Ahhh meu deus!!!...Como queria matar aquele homem!
– De quem você está falando mulher!
– Fernando!...Quem mais poderia ser!...Clara encara sua amiga e ao ver aquele olhar em Helena lhe diz imediatamente...não se atreva a falar nada!
– Falar o que... inocentemente responde Helena, mas ambas sabem que ela está morrendo de vontade de dizer aquela frase inevitável...EU AVISEI!...Mas Helena prefere calar-se ao ver a angústia e impotência refletidas no rosto de sua amiga, respira fundo enquanto esconde para si toda a raiva que está a ponto de explodir com se fossem fogos de artifícios.
– Não pretendo dizer nada...só quero saber o que aconteceu...porque você está assim!
– Merda!...Exclama Helena depois de ouvir um breve relato da conversa entre Clara e Fernando, coloca o braço sobre o ombro da amiga tentando inutilmente dar-lhe um pouco de conforto, de apoio, embora saiba que ela tem que se conscientizar que precisa tirar aquela porcaria de marido da sua vida ou as coisas nunca mudarão.
– Espera então pra ir a essa consulta quando ele voltar e pronto...não vejo problema nisso...
– O problema Helena é que sempre sou eu quem tem que ceder...a reação de Helena é arquear as sobrancelhas e uma vez mais segura a língua pra não soltar o que deseja realmente dizer e mentalmente comemora ENFIM CLARA ESTÁ VENDO O QUE É ÓBVIO PRA TODOS!
– Então?...
– Então nada!...Vou a consulta com o Dr. Morais sozinha mesmo.
– Ok...quer que eu vá com você?
– Não...está tudo bem!
– A que horas irá?
– No final da tarde...tenho muitas pendências...quero despachar tudo ou pelo menos quase tudo.

NO CONSULTÓRIO MÉDICO...


Clara aguarda na sala de espera do consultório do Dr. Morais, depois do que parecem eternas horas por fim a porta se abre e aparece um sorridente casal. Clara os vê sair e sente uma tristeza profunda em seu coração porque Fernando não está ali com ela.
– Clara!...A jovem secretária do Dr. Morais chama seu nome, só que Clara está tão absorta em seus pensamentos que a moça tem que chamá-la novamente...Clara!
– Sua vez!...
– Ohh desculpa...diz um pouco nervosa, rapidamente levanta-se e caminha até o consultório, ao entrar sente aquela pontada de medo que ataca todas as pessoas que esperam diagnósticos médicos...aquela insegurança de não saber se está tudo bem ou se há algo a mais. O Dr. Morais está ao telefone e parece ter uma emergência pelo o que conseguiu perceber.
– Sim...perfeito...ainda faltam alguns centímetros...por favor mantenha-se assim e me avisem se em meia hora não alcançar a dilatação necessária, teremos que fazer uma cesárea, o médico escuta o que é dito do outro lado da linha e logo desliga.
– Clara...que bom ver você...se há algo que ela admira no Dr. Morais é a amabilidade com ele trata cada um de seus pacientes fazendo com que sintam à vontade, como se estivessem diante de um amigo e não só de um profissional, conhece muito bem cada um deles, tem memória fotográfica guarda detalhes de cada caso.
– Olá Dr. Morais!
– Onde está Fernando?
– Não pôde vir...o trabalho...sabe como é...
– Claro que sim...sei bem o que é isso...essa vida não é fácil...suspira resignado, mas fazer o que não é?...Só um minuto!...Clara senta-se em frente à mesa do médico enquanto ele vai até o arquivo, abre uma das gavetas e tira o prontuário da paciente. Clara coloca sobre a mesa um grande envelope onde estão todos os exames feitos por ela e Fernando. Dr. Morais começa a tirar um por um e analisá-los...
– Os exames de sangue estão bons...a taxa de colesterol tá boa...não tem anemia...a análise sanguínea está em ordem...mmmm vamos ver...muito boa a contagem de esperma, está nos níveis normais...até um pouco mais alta que o normal eu diria, o que é uma excelente notícia.
– Que bom!....Com certeza Fernando vai ficar muito feliz com isso.
– Com certeza

– E eu como estou?...Clara não pode evitar externar o nervosismo que se reflete na sua voz.
– Ahhh fique tranquila...pelo o que vejo está mais ou menos bem...tem o ciclo menstrual regular...ovula a cada 14 dias...vamos agora às amostras...a voz do médico vai se apagando ao ver os resultados. Clara percebe a mudança visível no médico, a atmosfera no consultório muda completamente, de repente o ar parece ficar rarefeito, Clara não consegue tirar os olhos da fisionomia tensa do Dr. Morais.
– O...O... QUE FOI?...O medo toma conta de Clara...
– Clara!...Como sempre acontece nesses casos o médico sente um grande pesar em seu coração, nada mais sagrado para uma mulher que ter filhos, como dar-lhe essa notícia e ao mesmo tempo ver todos os sonhos se desmoronando, todos aqueles planos destruídos. Apesar do tempo que tem no exercício da profissão sempre fica sensibilizado quando precisa comunicar a uma mulher o caso de infertilidade irreversível, com um suspiro profundo prepara-se pra falar com sua paciente.
– Dr. Morais...o que houve?...Clara volta a perguntar...ele coloca mentalmente aquela armadura de impassibilidade do médico quando tem que dar a notícia sobre um diagnóstico desfavorável.
– Clara...baseado nos resultados desses exames você padece de uma degeneração genética.
– Como assim Doutor?...Clara não entende do que ele está falando, Dr. Morais continua sua explicação...
– Como estava dizendo esse problema só acontece em 5% da população feminina em idade reprodutiva.
– Mas me diga uma coisa...é reversível?...Depois de uma pausa que parecia interminável o médico lhe responde...
– Não Clara...não é reversível...essa degeneração se aloja nos cromossomos provocando uma anomalia denominada de anomalia cromossômica, que não permite que seus óvulos sejam viáveis pra conseguir engravidar.
– Mas Doutor como pode isso?...Minha menstruação é regular...eu...
– Essa condição não impede a regularidade no seu ciclo menstrual, mas que seu corpo produza óvulos capazes de levar a uma gravidez, quer dizer que sejam aptos à fecundação.
– Mas como?
– Não tem explicação...são os mistérios da genética que ainda não foram revelados completamente. Acredite Clara...sinto muito por ser eu quem tenha que informá-la, mas nem tudo está perdido...o médico procura dar-lhe um pouco de alento...você tem a possibilidade de adotar uma criança ou se submeter a um processo de fertilização in vitro

– Como isso é possível se meus óvulos não servem...não servem pra nada!...Clara diz num tom histérico.
– Claro que você pode ser mãe, a ciência avançou muito e existem alternativas como a doação de óvulos, antes que Clara possa dizer alguma coisa o localizador do médico começa a emitir aquele estridente som BEEP BEEP BEEP BEEP alertando que há uma emergência...
– Clara...precisamos conversar depois com mais calma, agora infelizmente tenho que ir atender a uma paciente que necessita de cuidados urgentes, o que quero é que saindo daqui tenha em mente que nem tudo está perdido...me entende?...Clara olha para o médico sem dizer uma única palavra.
– Clara!...Mais uma vez são interrompidos, agora a assistente entra no consultório...
– Doutor!...Estão aguardando o senhor na sala de cirurgia...
– Sim diga-lhes que já estou indo, Dr. Morais não quer deixar Clara naquele estado mas no momento há uma emergência que requer sua presença.

Depois de sair do bistrô Marina passa na creche pra buscar Diogo, como de costume fica conversando com Judith sobre as aventuras de seu pequeno furacão. Marina pega o filho e vão pra casa, ao chegar tomam aquele banho onde mãe e filho estreitam mais ainda os laços de cumplicidade fazendo aquela farra. Marina prepara a comida dele e depois de brincar um pouco já dá sinais de que está pronto pra dormir, o que acontece logo que ela o coloca no berço. Como sempre deixa o quarto com uma luz tênue e a porta aberta, faz sua higiene, coloca o pijama, se acomoda na cama, pega seus óculos, seu tablet e começa a revisar cronogramas e planos de trabalho dos projetos em andamento nos Estúdios. Está tão concentrada que leva um tempo pra perceber que estão tocando a campainha insistentemente. Receosa deixa o aparelho sobre a cama, devagar vai se aproximando da janela junto a porta principal e vê quem está parada do outro lado. Abre e imediatamente um corpo se joga em seus braços, sem questionar nada sua reação é apenas de corresponder àquele abraço. Enquanto Clara se desmancha em lágrimas Marina consegue a façanha de fechar a porta.
– Clara o que houve?...Porque você está assim?...Clara não responde nada só permanece ali aninhada naqueles braços que por incrível que pareça são os únicos capazes de dar-lhe consolo nesse momento tão difícil. Por alguma razão Marina não insiste, algo lhe diz que não é hora para questionamentos, assim decide dar àquela mulher o que o que ela está precisando, seu total apoio. Marina começa pouco a pouco a conduzi-la ao quarto de hóspedes, o pranto parece inesgotável e em silêncio ela acomoda Clara na cama que a abraça obrigando-a a ficar sentada enquanto Clara coloca a cabeça em suas pernas e aperta mais ainda.
– Não me deixa só...por favor sussurra Clara.
– Clara!...Diz Marina ao mesmo tempo que acaricia ternamente os cabelos da morena e se preocupa ainda mais com o silêncio da amiga. Depois de um tempo Clara começa a se acalmar, por sua vez Marina se dá conta que só o fato de ter a presença daquela mulher junto dela é capaz de transmitir-lhe um estado de paz...tranquilidade, ela é capaz de fazê-la sentir-se completa, só uma vez em sua vida teve essa sensação, quando Gio estava viva...mas agora não é momento pra pensar nessas coisas, Clara está precisando do seu conforto. Marina fica ali cuidando dela, fazendo carinho nela e dessa forma a noite foi passando, aos poucos aquela carícia vai provocando o sono que começa a dominar as duas. Clara continua agarrada à coxa de Marina como se fosse um náufrago e sua tábua de salvação, o cansaço já apodera-se delas, a postura incômoda que assumiu pra não incomodar Clara certamente trará consequências, as duas caem num sono profundo.
A noite dá lugar ao dia, Marina abre os olhos e toma consciência de que por haver dormido toda a noite naquela posição seu corpo está bastante dolorido, tenta desvencilhar-se de Clara mas ela segue ali aconchegada em suas pernas, nisso começa a escutar sons vindos do quarto de seu filho, devagar Marina procura um travesseiro que usa para substituir suas pernas e melhor acomodar a amiga. Diogo já se encontra de pé apoiado na proteção do berço pronto para as aventuras do novo dia, o pequeno ao ver Marina entrar sorri, estende os bracinhos e diz...
– Mamãe!...Ela fica paralisada...Diogo falou!...ELE DISSE MAMÃE com todas as letras não aquele MA...ao que ela já estava acostumada.
– Oh meu deus!...Oh meu deus!...O que você disse meu anjo?...Marina tira o filho do berço e o olha emocionada...
– Mamãe!...Repete o garoto como se estivesse entendendo o que sua mãe diz.
– Isso merece uma comemoração, depois de tomá-lo nos braços fica brincando com ele no piso do quarto fazendo-lhe cócegas, as risadas do pequeno enchem o espaço de uma alegria contagiante. Marina decidiu que considerando o estado de Clara nem ela e nem Diogo sairiam de casa, lhe fariam companhia, claro se assim ela quisesse.
No quarto Clara acorda, de imediato procura o calor reconfortante do corpo de Marina, mas ela não está ali, começa a escutar um leve barulho que estão fazendo Diogo e sua a mãe, devagar sai da cama e segue o som das risadas dos dois, caminha até o quarto e quando chega depara-se com uma imagem encantadora...Diogo e Marina literalmente estão esparramados no chão brincando, ela fazendo cócegas no pequeno ventre do garoto enquanto ele tem um ataque de risos. Clara sente o coração fazer-se em pedaços, ela jamais vai desfrutar de algo assim, seus olhos enchem-se de lágrimas. Marina e Diogo logo percebem que não estão sozinhos, ambos olham na direção da porta, é incrível que embora não tenham uma laço genético que os una nesse mesmo instante eles a observam da mesma forma. Marina fica encarando Clara enquanto seu coração aperta em ver aquela imagem dela tão desolada, parada ali na entrada do quarto de seu filho, então acontece algo que ninguém poderia prever nem em um milhão de anos, o pequeno se levanta do chão e estende os bracinhos pra deusa dourada que está ali observando aquele momento entre mãe e filho e caminha dando passos rápidos, até exagerados para o seu tamanho, assim que no trajeto perde um pouco do equilíbrio fazendo com que tanto Clara como Marina se lancem em seu auxílio. A morena chega mais rápido e o segura em seus braços ao mesmo tempo que lágrimas inundam seus olhos molhando a cabeça do pequeno, que ao sentir aquele abraço rapidamente se acomoda nele. Marina sente o coração palpitar mais forte, aquela imagem é tão terna, Clara fica tão bem com seu filho nos braços.
– Clara...o que está acontecendo?...Marina não recebe nenhuma resposta mas pode ver a dor no semblante de sua amiga ganhar mais e mais terreno, ela se aproxima dos dois e simplesmente compreende que naquele momento suas perguntas não terão retorno, a única coisa que pode fazer é seguir seu instinto, assim os envolve em um protetor abraço.

NO CSSA...
– Cla...Helena entra para despachar com sua amiga e se surpreende ao ver aquela sala vazia, olha o relógio e estranha porque nesse horário normalmente Clara já está no Centro, pega o celular e liga pra ela, chama até ir pra caixa postal...que esquisito!...Liga pra casa dela e ninguém atende, não tem tempo pra analisar muito isso pois chega uma das meninas...
– Helena um dos provedores quer falar com você.
– Vamos!...Diz embora um pouco dispersa.

Em frente ao bistrô o ruído estridente dos pneus do carro esportivo de Murilo chama a atenção no estacionamento, sai do carro e entra distraído enquanto olha o celular.
– Murilo!...Uma furiosa Flávia aproxima-se do marido e começa a dar-lhe golpes nos braços.
– O que foi mulher?...O que está acontecendo?...Murilo afasta-se então da esposa.
– Quantas vezes eu já falei pra você não correr desse jeito, por deus vai acabar se matando um dia!
– Ahhh que saco!...Relaxa Flávia!...E quantas vezes já disse que não tem porque você se preocupar, eu sei o que faço sou um piloto profissional!
– Ex!...Ex-piloto!
– Ainda tenho minhas habilidades ao volante!...Não sei porque você insiste nessa ladainha!...Não vai acontecer nada!...Nada!...Ouviu mulher?...Sem esperar resposta alguma de Flávia, Murilo sai caminhando pelas dependências do bistrô.

RESIDÊNCIA DE MARINA...

Na casa de Marina os ânimos estão mais calmos, o trio agora está na cozinha, Diogo concentrado comendo pedacinhos de panqueca, Clara vestida com uma das roupas de Marina que a convenceu a tomar um banho e lhe preparou o café da manhã.
– Clara...aconteceu alguma coisa?...Começa a perguntar num tom muito suave procurando não alterar a frágil paz que percebe na amiga.
– Ontem...a morena faz uma pausa tentando manter-se calma, estive numa consulta médica... Marina engole em seco parece um déjà vu, exatamente essas foram as palavras de Giovanna quando lhe disse que estava com câncer.
– E...e o que ele disse?...Pergunta uma receosa Marina e Clara sorri triste seus olhos enchem-se de lágrimas novamente.
– Me disse que...respira profundo tentando conter o choro que insiste em manifestar-se...me disse que não poderei ter filhos!...A voz de Clara desaparece enquanto a dor volta com a mesma intensidade, Marina leva uns segundos pra assimilar a notícia, por um lado respira aliviada...não é câncer ou algo do tipo, mas ao mesmo tempo sente uma imensa pena dela, sabia dos desejos da amiga em ser mãe, num impulso levanta-se, aproxima-se de Clara e a abraça, a morena corresponde envolvendo a cintura de Marina deixando que toda a dor flua.
– Estou aqui...diz Marina enquanto põe-se de joelhos, agora seus olhos miram fixamente os de Clara, lhe acaricia o cabelo e seca suas lágrimas...shhh...calma!...Fala baixinho...estou aqui para o que necessitar, você tem a mim...a nós!...Diz incluindo Diogo...verdade filho?...Ao escutar seu nome ele dirige o olhar para as duas mulheres e lhes sorri, está todo lambuzado com o mel da panqueca e pequenos pedaços na sua cabeça e rostinho.
– Mamãe...diz o pequeno.
– Viu?...você foi aprovada...agora já é oficialmente um membro do exclusivo Clube Meirelles!
– Desculpa ter invadido sua casa.
– Shhhh...não diga isso!
– Diogo e eu estamos aqui pra você, hoje tiraremos o dia de folga e passaremos com você!...Então me acompanhe...vamos nos trocar e depois pisciiiina!!!
– Mas Marina!...Acho que já abusei bastante de você...da sua hospitalidade?...E além disso tem o Centro de Assistência, tenho um monte de coisas pendentes...
– Para!...Não diga mais nada!...Esqueça o trabalho e você não me incomoda, encomendarei a comida à Flávia e passaremos o dia nos divertindo na companhia uma da outra e do pequeno furacão.
– Mas e o Centro?
– Já disse...não pense nisso agora, hoje quem importa é você!...Não vou permitir que nos deixe!
– Está bem...Clara aceita reconhecendo sua derrota.

O dia foi passando tranquilamente e aqueles três aproveitaram cada momento intensamente...Marina, Clara e Diogo ficaram o tempo todo na piscina divertindo-se, algumas vezes Clara se perdia na dor de seus sentimentos, mas ai Marina fazia alguma brincadeira e conseguia tirar-lhe um sorriso dos lábios. Como tanta atividade Diogo acabou por fazer sua sesta mais cedo, o dia foi pleno de muitas emoções e uma delas em especial pra Marina ver CLARA DE BIQUINI, ela procurou em suas coisas e encontrou um que serviu perfeitamente na morena, a deixou no quarto de hóspedes e foi para o seu vestir-se também. Pegou Diogo e entraram na piscina, ele estava usando uns brinquedos infláveis que lhe permitem ficar na água sem correr risco algum, além disso estava sempre sob o olhar protetor de sua mãe. Marina estava brincando com o filho quando viu aquela deusa dourada de biquini, sempre quis saber se aquele bronzeado cobria cada centímetro de sua pele e agora ali diante dos seus olhos pôde constatar que efetivamente isso acontecia. Marina deslizava o olhar por todo aquele corpo à medida que Clara aproximava-se, que por sua vez sorria ao ver como aqueles dois a estavam olhando. Clara entra na piscina e fica junto deles.
– O que foi...não fiquei bem com esse biquini?...Clara sentiu-se envergonhada pela forma como Marina a observou desde que saiu da casa.
– Ehhh não...não...na realidade ele ficou perfeito em você (até demais diz mentalmente)...quase sem voz...limpa a garganta enquanto disfarça o olhar mais atrevido por aquele corpo escultural...ficou mil vezes melhor em você do que em mim.
– Você acha...porque diz isso?
– Sim...sim...ele preenche lugares em você...que...que em mim...não poderia...diz apontando para os seios de Clara e olhando para os seus, fala isso um pouco constrangida, a morena ri está surpresa ao mesmo tempo que não pode deixar de observar que Marina também tem um corpo bem delineado...definido, seios pequenos e arredondados. Clara é tirada de seus devaneios ao sentir a água no seu rosto seguida de uma risada da amiga.
– Que!...Vê Marina levantar as mãos eximindo-se de qualquer culpa daquela brincadeira e revida da mesma maneira jogando água nela que abre a boca surpresa pelo injusto ataque.
– Clara!...
– Não reclame...foi você quem começou!
– Eu?...
– Sim!...Você!...Então Clara volta a sentir aquele jorro de água e descobre o verdadeiro culpado, Diogo entra na brincadeira e Marina a olha triunfante...
– Viu sou inocente!...Marina finge indignação.

A tarde termina e chega a noite, o pequeno dorme em seu berço, as duas mulheres ainda estão de biquini cada uma ocupando uma espreguiçadeira, Marina senta-se ao lado de Clara e pode observar mais atentamente o corpo bronzeado da morena, cada detalhe, de imediato sua consciência reclama...VAI SECÁ-LA MESMO!...O QUE TANTO OLHA PRA ESSA MULHER!...Clara está de olhos fechados e Marina dirige sua atenção para a grandiosidade daquele céu, mudando seu foco.
– Marina!...
– Sim?...
– Obrigada por tudo!...As duas se encaram perdidas na imensidão daquele olhar.

Helena está em frente a casa de Clara tocando a campainha insistentemente, mesmo sabendo ser inútil já que as luzes estão todas apagadas, é evidente que aquela casa está vazia, ela liga novamente para o celular de Clara e o mesmo continua desligado da mesma forma que passou o dia todo, a chamada vai pra caixa postal.
– Ahh Clara...onde você está... murmura preocupada.

ENQUANTO ISSO NA RESIDÊNCIA DE MARINA...
No quarto de hóspedes Marina leva pra Clara um pijama e roupa íntima.
– Você pode usar essa calcinha...é nova.
– Obrigada e desculpa por incomodar.
– Você não incomoda!...Esquece isso...durma bem e boa noite!...Diz enquanto vai saindo do quarto.
– Marina!...
– Sim?...
– Obrigada!
– Não precisa agradecer...logo depois de compartilhar um olhar insinuante ela sai do quarto.

DIA SEGUINTE NO CSSA...
– Clara Fernandes...pode me dizer onde você se meteu durante todo o dia de ontem?...Tentei me comunicar com você várias vezes e nem sinal do seu paradeiro!
– Estava na casa da Marina.
– Que?...Pergunta Helena incrédula...fazendo o que?...Clara fica uns segundos em silêncio, nem ela mesma sabe porque foi procurar Marina depois daquela revelação devastadora que tanto a afetou, mas o certo é que refugiar-se na casa da amiga pareceu o mais normal, encara Helena que demonstra total incompreensão, sabe que não tem como explicar-se pra ela, como convencê-la de que precisava da companhia de alguém que lhe transmitisse tranquilidade, que lhe desse paz de espírito, definitivamente ela não vai entender isso.
– Helena...não posso ter filhos!
– Que?...E você diz isso assim...tão calma, tem certeza?...Não há algo que possa ser feito?...Procurar outro médico...ter outro parecer!
– Não!...Já está confirmado.
– Mas como?...Helena está perplexa diante das palavras da amiga.
– O médico explicou que tenho uma condição genética que faz com que meus óvulos não sejam...como posso dizer...ahhh sim...inviáveis...diz Clara num tom amargo.
– Oh meu deus!...Helena leva uma das mãos à boca...e então?
– Então!...Então nada!...Clara levanta-se e caminha até a janela, olha para o vazio...não quer que Helena veja a dor refletida em seu rosto...e prossegue...só me resta ser mãe por meio de adoção ou por algum método de reprodução assistida.
– Sinto muito amiga!...Sinto muito mesmo...Helena aproxima-se dela e a abraça, Clara vira-se e corresponde ao gesto.

Marina está nos Estúdios quando seu celular toca...
– Sim?...ao escutar quem está do outro lado da linha diz...ahhhh até que enfim você se resolve dar notícias...onde se meteu mulher?
– Perdão por ter desaparecido...mas é que precisava tomar um ar fresco, esse ambiente já estava muito saturado.
– Sim...entendo e está melhor?
– Não...mas estou me recuperando...voltando ao meu estado normal.
– E quando retorna?
– Não sei dizer...estou aproveitando, passarei uns dias com mamãe.
– Bem...não se preocupe!...Aqui está correndo tudo sem problemas, Marcos está trabalhando duro...e eu também.
– Eu sei amiga...disso não tenho dúvidas, Marina e Giselle se despedem e encerram a ligação.

RESIDÊNCIA DE CLARA...

Clara chega em casa, pela primeira vez sente o peso da solidão, vai até onde ficam umas fotos dela e de Fernando, as olha e em vez de sentir alegria sente um vazio, em que momento ela e o marido se perderam, sem perceber caminha por toda a casa até chegar ao quarto, ao abrir a porta seu coração aperta dentro do peito, não pode evitar de pensar que aquele espaço é seu reflexo, está completamente vazio como seu ventre, leva as mãos àquela parte do corpo e se abraça enquanto uma vez mais o pranto se faz presente, ao final não deixa de perguntar-se porque ela.
– Porque isso?...porque?...Que foi que eu fiz pra merecer esse destino?...Porque não posso ter filhos?...Porque?...Cai de joelhos apoiando aos mãos no chão, murmura novamente a mesma pergunta sem obter resposta.

Os dias transcorrem aparentemente normais, Clara tem o apoio irrestrito de Marina e Helena, cada uma a conforta à sua maneira. Helena não a deixa sozinha muito tempo fazendo-se sempre presente, enquanto Marina inventa frequentemente uma desculpa pra levá-la pra almoçar fora, conhecer outros lugares, mas Clara termina sugerindo toda a vez o bistrô de Flávia, aquele lugar tornou-se seu cantinho predileto. Marina na maioria das vezes a convida pra ir com ela buscar Diogo na creche e depois de uma divertida sessão com aquele pequeno furacão, Clara regressa pra casa com um grande sorriso e a alma renovada, não há como negar que passar um tempo com aqueles dois tem lhe feito muito bem. Quando encontra Helena está cheia de histórias para compartilhar com a amiga que não deixa de perceber toda aquela empolgação e a alegria que Marina e Diogo têm proporcionado à sua amiga, até a pequena resistência que tinha em relação a produtora não existe mais, Helena pode ver que aquela mulher carismática gosta muito de Clara, isso é visível no trato, na forma como a faz sorrir, embora nem elas mesmas notem de certa maneira estão cuidando uma da outra e isso tranquiliza Helena, depois de tudo sabe muito bem que a amiga precisa de tudo aquilo que Marina está lhe proporcionando.

Fernando chega em casa e vai direto tomar banho, Clara também chega do trabalho e percebe que o marido já retornou de viagem, então dirige-se ao quarto. Como sempre quando Fernando regressa ela desfaz sua mala separando as roupas pra levá-las ao serviço de lavanderia. Fernando sai do banho tranquilo e relaxado, cantarolando aquela música do Michael Bublé...Make Me Sway, a melodia morre em seus lábios ao ver sua esposa no meio do quarto com uma de suas camisas nas mãos na qual tem marca de batom.
– Que significa isso?
– Não entendo...isso é um camisa!
– A verdade é que você é um cínico!...Como que...que é isso?...Uma camisa (imita sua voz)...não banque o engraçadinho!...Sabemos muito bem o que é!...O que faz essa marca de batom na sua camisa?...Fernando fica olhando pra Clara e como ele é expert em reverter situações difíceis tranquilamente lhe diz...
– Pois sim...na realidade não sei como ela foi parar aí.
– Como não sabe?
– Clara você sabe que essas não são maneiras de receber seu marido depois de uma longa viagem!...Em vez de abrir os braços e me dar um abraço...um beijo de boas vindas, você me vem com insinuações de que estou traindo minha esposa, é isso o que você dizer?...Fernando balança a cabeça negativamente fingindo-se indignado, dirige-lhe um olhar de incredulidade e decepção, mostra-se desanimado e um suspiro sai de seus lábios enquanto segue representando seu teatro. Clara como pode duvidar de mim só porque apareceu na minha camisa uma marca de batom que não prova nada!...De nada serviram esses 10 anos de casamento, por acaso alguma vez eu a enganei?...Em algum momento eu dei motivos para que tivesse dúvidas da minha fidelidade?...Fernando leva uma das mãos aos cabelos molhados e coça a cabeça como que buscando alguma explicação. Mas aquela atuação não foi suficiente para convencer a esposa que põe a camisa na bolsa de roupas da lavanderia.
– Clara aplaude ironicamente!...Que grande ator você daria Fernando!...Com tudo isso que estou passando esse é o menor dos meus problemas, senta-se e esconde o rosto entre as mãos. Fernando respira aliviado então lembra que como ela esteve no médico, esse é um bom motivo pra desviar daquele tema perigoso. Assim como um cordeiro manso aproxima-se de sua esposa até sentar-se na cama ficando um de frente para o outro.
– Ahh esquece isso...quem ama confia, melhor me contar como foi a consulta com o Dr. Morais, que tal...e os resultados?...Clara fecha os olhos e respira profundo, apesar do tempo decorrido e do apoio incondicional de Marina e Helena, aquele assunto ainda a faz chorar...a ferida não deixou de sangrar.
– Ele disse que tenho um problema genético que não me permite engravidar.
– Ohhh...a fisionomia de Fernando mostra tristeza enquanto o seu interior comemora e seu cérebro repete!...DEUS EXISTE!...DEUS EXISTE!...Dá uma tossida pra limpar a garganta antes de falar temendo que a felicidade pela revelação transborde e se reflita em suas palavras...Ahhh amor sinto muito, abre os braços e Clara refugia-se neles, mas não sente o aconchego e a paz que encontrou no abraço de Marina, uma lágrima solitária desliza por seu rosto.
– E ele disse quais seriam as outras alternativas que...
– Shhh...agora não é o momento pra falar sobre isso, quero que saiba...pra mim não importa, estamos bem assim. Fernando beija a cabeça de Clara para logo afastá-la. Agora tenho que ir para o escritório, conversaremos depois...tão rápido como pode veste-se e sai deixando Clara sozinha imersa em sua dor. Já fora de casa Fernando não pode evitar de expressar sua alegria...
– YES!...Enfatiza a palavra fazendo um gesto com os braços, em seguida cantarolando e dançando entra em seu carro, pega o celular digita um número...
– Oiiii!
– Oi amor!...
– Já esta pronta?
– Pra você estou sempre...diz Camila num tom insinuante.
– Então chego ai em 15 minutos...tchau!

Os dias vão passando no mesmo ritmo, Clara e Fernando levam uma rotina tipo gato e rato, ela com suas atividades do Centro começa e chegar mais tarde em casa, o marido por sua vez entre seus obrigações do trabalho e sua relação com Camila também sempre ultrapassa o horário, de preferência se assegura que Clara já esteja dormindo, o mesmo acontece pela manhã, quando Clara acorda Fernando já tem saído. Em um desses dias era tarde da noite Clara ainda não tinha deixado o Centro de Assistência, o toque do celular interrompe sua concentração...
– Marina!!!
– Oi Clara!!!...O que você vai fazer amanhã?
– Não...não tenho planos.
– Você gostaria de ir à praia comigo e Diogo?...Marina pergunta de forma rápida...Clara sorri e sem pensar muito responde...
– Ficaria encantada!...Agora é Marina que sorri como se tivesse ganho na loteria.
– Então esperamos você às 9h em casa...não falte!
– Ahhh estarei ai às 9h em ponto...não perderia esse programa por nada desse mundo!

Conforme o combinado Clara chega pontualmente a casa de Marina, guarda o carro na garagem e os três partem a caminho da praia. Uma vez lá acomodam-se com todos os apetrechos necessários, Marina sempre leva os brinquedos de Diogo que adora brincar na areia. Marina o coloca em frente a elas assim o pequeno não poderá escapar aos seus olhos vigilantes. Em algum momento o trio entra na água para aliviar temporariamente o calor que aquece seus corpos. Clara furtivamente dirige olhares pra Marina, não pode evitar que seus olhos resvalem por aquele corpo, a amiga usa um biquini tão justo que parece uma extensão daquela pele. Deveria ser pecado uma mulher brilhar também dentro dessas diminutas peças. Marina está nas mesmas condições, de vez em quando fecha os olhos, definitivamente essa mulher é linda!...Clara usa um biquini minúsculo e aquelas pernas torneadas deixam a produtora em estado de insanidade mental indescritível. Marina secretamente dá graças a deus por seu filho se fazer notar tirando-a daquele transe que a visão de Clara a colocou.

Marina caminha pela casa verificando se está tudo fechado, passa pelo quarto de Diogo, sorri ao vê-lo dormir, o moleque dorme na mesma posição de Giovanna, de bruços e uma das pernas formando um 4, deixa o espaço a meia luz e vai para o seu quarto, está inquieta, há muito tempo não se sentia assim...com o corpo em brasa, também faz tempo que não tem nenhum tipo de intimidade com ninguém, seu corpo está reclamando, com a cabeça cheia de pensamentos se despe e entra no box, liga o chuveiro e a água fria que percorre todo seu corpo faz com que seus mamilos intumesçam, seus seios fiquem eretos, é tal a excitação que Marina percebe que em vez de aliviar-se à medida que suas mãos deslizam o sabonete pelo o corpo vai deixando uma onda de calor.

Clara está em casa saindo do banho, seca o corpo e começa a passar o creme hidratante, ainda guarda o sorriso que a acompanhou durante todo o dia. Com Marina e Diogo sente-se em família, adora compartilhar esses momentos com eles, ultimamente passar um tempo com os dois transformou-se na melhor parte da sua vida. Termina de colocar o pijama recosta-se na cama e segue relembrando cada instante, recorda como aquele biquini se ajustava à Marina de tal forma que era como se fosse parte de seu corpo e ainda mais sendo cor da pele, parecia que andava nua pela praia, aquela bandida despertou olhares de admiração em homens e mulheres. Ahhh deus!...Ainda pode sentir um arrebatamento em sua alma e corpo ao lembrar aquele tipo disperso que Marina quis passar, fingindo atenção em Diogo. Clara ainda não entende o porquê disso tudo mas não vai se preocupar em analisar, assim desvencilha-se daqueles pensamentos e fecha os olhos, entretanto as imagens daquela mulher encantadora de pele branca como leite, dona de um sorriso puro e terno insistem em voltar.

Enquanto isso Marina está em sua cama e sente-se tão excitada que até a roupa a incomoda, fica nua sob as cobertas, rola de um lado a outro sem encontrar tranquilidade, então deixa de resistir aos seus desejos e leva uma das mãos aos seios e os aperta soltando um gemido, com a outra desliza até sua intimidade, ao sentir aquele toque suave outro gemido mas agora mais prolongado, não tem como ser mais devagar, Marina conhece seu corpo e sabe muito bem onde tocar...apertar...friccionar...para alcançar o orgasmo que está na iminência de acontecer, precisa de alívio para seu atormentado espírito, o gozo vai construindo-se, a temperatura de seu corpo aumenta, seus quadris se movimentam contra seus dedos ágeis, Marina tem os olhos fechados, morde os lábios, o prazer é tão intenso que seus próprios gemidos a excitam mais e mais, ela sabe...ali estão os sinais, seu corpo responde aos estímulos, sente pequenas contrações em seu sexo que tornam-se mais intensas, mais espasmos e gemidos...e então acontece, seus pés se encolhem, suas coxas pressionam sua mão e em meio àquele explosivo orgasmo, dos lábios de Marina escapa um nome e em sua mente se desenha um rosto...
– Claraaaaa!!!!!