CAP 19

Giselle chega ao Bistrô que encontra-se lotado como sempre, sua presença desperta imediatamente a atenção de todos os funcionários que vêm cumprimentá-la demonstrando sua alegria em revê-la, de certa forma respiram aliviados especialmente Felipe o maître, afinal acredita que o retorno dela certamente acalmará os ânimos da sua chefe e quem sabe até fazê-la sorrir. Durante a ausência da empresária que foi notória o pessoal passou por dias infernais, tudo em consequência do mau humor de Flávia, agora espera-se que o ambiente possa melhorar, enquanto isso Giselle alheia à quantidade de pensamentos direcionados a ela dirige-se ao escritório, antes de entrar sua respiração agita-se imaginando quem vai encontrar do outro lado daquela porta, a empresária fecha os olhos buscando forças suficientes pra resistir a esta prova de fogo e aparentar a tranquilidade que está muito longe de sentir, sem protelar mais abre a porta e grande é a surpresa com a qual se depara...

– Porra...não acredito!...Deixa escapar um palavrão ao ver o caos que impera naquele lugar...- Mas que diabos aconteceu aqui?...se pergunta...como Flávia pode ser tão eficiente lá fora e aqui dentro...diz para si mesma incapaz de concluir a frase.

– Falando só Giselle?

Segundos depois que Giselle entra no Bistrô...

Felipe ao ver que a empresária havia chegado corre imediatamente em busca de Flávia pra contar a novidade, ela está na cozinha discutindo detalhes do menu com o chef, inicialmente a ideia do Bistrô era ser um local tranquilo, elegante, agradável para um público que quisesse degustar algo diferente e com muita qualidade, não tinha muitas pretensões, jamais esperou que o empreendimento crescesse tanto, que se tornasse um sucesso na cidade, ascendeu na categoria e agora tem que estar à altura do seu conceito, nada pode ser deixado de lado, toda decisão é discutida em conjunto e tudo ali é devidamente planejado e estruturado no sentido de que os clientes tenham uma experiência tão aprazível que lhes seja impossível não retornar.

– Então...o que vocês acham da ideia?...Flávia pergunta à sua equipe, no exato momento em que um dos chefs vai lhe responder Felipe irrompe naquela pequena reunião.

– Chefe!...ela...ela voltou!...diz ofegante pela velocidade incrível com que se dirigiu até Flávia depois de ver Giselle ir na direção do escritório.

– Que?...uma onda nervosa toma conta daquela mulher segura que há alguns segundos estava comandando seus funcionários.

– Giselle retornou!...Flávia nem espera que Felipe termine de falar, de imediato entra em ação e se dirige a passos largos à sua sala com o coração batendo o dobro do que deveria, ela praticamente corre e só para quando escuta Giselle extravasar sua irritação... — Porra...não acredito!...É evidente que deve estar chocada ao ver aquela desordem, a expressão a faz rir, aproveitando a vantagem de Giselle ainda não ter percebido a presença dela tenta acalmar sua agitada respiração e parecer o mais natural possível e pergunta-lhe...

– Falando só Giselle?

A empresária ao escutar a voz de Flávia quase dá um grito do susto que tomou com a entrada repentina da morena.

– Não por muito tempo se continuar me assustando dessa forma...Giselle responde com a mão no peito, Flávia sorri dissimulando a alegria em tê-la novamente ali, sem contar que seu coração bate no peito como se quisesse sair.

– E então...por que está aí se lastimando?...as duas se perdem no olhar uma da outra e como vem acontecendo ultimamente sempre que estão confinadas no mesmo espaço o ar muda, o ambiente praticamente fica eletrificado, aquela sensação a qual Flávia resiste em denominar a invade, ali permanecem encarando-se até que Giselle sai do transe e responde...

– Você ainda pergunta?...Talvez por estar vendo este desastre...aponta pra mesa...- Até parece que passou um tornado por aqui ou algo assim!...diz suspirando ao mesmo tempo que mostra a pilha de papeis...- Afinal você não aprendeu nada?...referindo-se a ocasião em que deu instruções precisas a fim de ajudá-la embora que minimamente na organização do Bistrô. Flávia não consegue deixar de admirar aquela mulher, depois que se beijaram a “amiga” deixou de existir e agora diante dela está somente a mulher de personalidade atraente, que esbanja sensualidade e capaz de seduzir até uma santo. Flávia respira profundo tentando acalmar-se e não transparecer o que se passa no seu interior... — E então?...Giselle pergunta alheia a tudo o que ocorre por trás daquele rosto sereno que Flávia apresenta no momento.

– Ahhhh Giselle você sabe que não tenho nenhuma aptidão pra isso...é só o que vem à sua mente pra dizer depois de sair daquela análise...- Por essa razão que preciso de você aqui...diz manhosa enquanto sua memória traz à tona lembranças do esforço que fez pra deixar o escritório naquele pandemônio, seu olhar passeia pelo local e revive todo o processo de sua obra magistral, como deixou faturas e papeis de forma descuidada e espalhada sobre a mesa, há de reconhecer que montou um cenário digno de aplausos, uma verdadeira obra de arte capaz de ludibriar até o olhar mais atento, congratula-se pelo trabalho perfeito ao mesmo tempo que disfarça um sorriso de satisfação e de divertimento ao ver a expressão de horror desenhada naquele belo rosto...- Que exagero!...Até que não está tão ruim assim...diz inocentemente.

– Como não?...Giselle pergunta sentindo seu corpo ser invadido por uma onda de incredulidade e indignação.

– Isso só comprova o quanto você é imprescindível aqui...diz a dona do Bistrô naquele tom suave e indefeso que sabe ser muito eficiente e funciona as mil maravilhas com Giselle.

– Sim percebi...a empresária diz resignada observando aquele caos, há documentos e faturas espalhadas por toda a parte, sem pensar mais tira seu blazer, coloca sobre uma das cadeiras e esquecendo momentaneamente de Flávia começa a trabalhar, a morena satisfeita fica admirando Giselle acomodar-se naquela sala...e como ela se encaixa bem ali, sorri...uma coisa tem que admitir Giselle Vieira é uma mulher linda em todos os aspectos, muito atraente, encantadora...que ninguém leia seus pensamentos, é difícil confessar até pra si mesma.

– Se quiser posso ajudar...Flávia diz enquanto começa a recolher um e outro papel...Giselle em meio àquela confusão ali instalada coloca as mãos nos quadris e responde...

– Não...não...melhor que vá resolver alguma outra coisa fora daqui...diz levando as mãos à testa, talvez tentando conter a intensa dor de cabeça que está por vir....- Me deixe sozinha organizar essa bagunça...fala isso já arregaçando as mangas e suspirando pesadamente, Flávia então decide acatar a sugestão de Giselle e deixá-la trabalhar sossegada, ao mesmo tempo busca explicações para o estranho prazer que está sentindo naquele momento.

– Ok!...Boa sorte!...diz antes de sair.

– Vou precisar mesmo...Giselle ironiza olhando aquela pilha de papel e perguntando-se como aquilo era possível.

Depois de horas de trabalho a empresária precisa estirar o corpo, está exausta e também com um pouco de fome, sai do escritório e vai ao bar do Bistrô, cumprimenta o barman que sorri encantado ao vê-la, observa o lugar que está cheio...não há mais nenhuma mesa livre.

– Onde Flávia está?...pergunta ao barman.

– Ela...

– Ela está lá fora provando um novo prato do menu...Felipe responde se antecipando.

– Oi?...aquilo desperta a curiosidade de Giselle...- E o que tem de novo?

– Comida Japonesa...responde o maître satisfeito com a novidade.

– Comida Japonesa?...Giselle fica com uma expressão como quem diz E AGORA...DE ONDE SAIU ESSA LOUCURA!...- Não entendo...

– Bem...é que semana passada uns japoneses estiveram aqui e adoraram o lugar, tornaram-se clientes, então sugeriram a Flávia colocar um ou outro prato da culinária japonesa no cardápio, assim teriam opções de comida oriental no menu sem ter que se deslocarem a outro lugar, ou seja uniriam o útil ao agradável...é isso.

– Ela decidiu provar...Giselle termina falando por Felipe.

– Exato!

– E onde ela está?

– Na parte de trás...naquele cantinho.

Giselle decide ir até lá constatar o que Flávia está aprontando dessa vez. A empresária adora o lugar onde a morena está, consiste em um pequeno espaço onde é possível desfrutar de uma bela vista da cidade, normalmente ela utiliza para descansar, de todo o local aquela pequena área tem o privilégio de proporcionar uma visão realmente impressionante, lembra que ela mesma sugeriu a Flávia que reservasse um pedacinho daquele jardim pra ela sabendo como o amaria e funcionaria também como seu refúgio em momentos que precisasse relaxar deixando-se seduzir pela paisagem deslumbrante, agora está ali experimentando novos pratos, aproxima-se lentamente da mulher que rouba sua respiração, Giselle sente seu coração agitar-se ao vê-la assim distraída, realmente Flávia leva aquele trabalho muito a sério, é comprometida de uma forma que a deixa extremamente orgulhosa. Giselle vendo a morena se digladiar com os saibashis (palitos)...leva a mão à boca para conter o sorriso que aparece, depois de tanto tempo Flávia ainda não aprendeu a manuseá-los e está literalmente brigando com um deles tentando agarrar a comida sem êxito algum, devagar Giselle começa a aproximar-se até ficar muito perto da morena que está tão concentrada tentando capturar uma porção da comida que não percebe a presença dela ali, Giselle então inclina-se sobre Flávia e sussurra-lhe ao ouvido.

– Se quiser posso ajudar com isso...diz e sem esperar resposta estende a mão até alcançar a da morena e guiá-la ensinando uma vez mais como usar o saibashi...- Tem que colocar a mão assim...começa a explicar, nesse meio tempo Flávia nada fala, primeiro ainda está se recuperando da surpresa de ter Giselle de forma tão perigosamente próxima e segundo por sentir a respiração dela roçar seu pescoço e inalar seu perfume, de maneira inevitável seu corpo reage fazendo-a ficar num semi estado de petrificação. Flávia não deixa de perceber seus próprios seios intumescerem com a proximidade e ao mesmo tempo respira em descompasso tornando difícil a concentração, ela realmente escuta a voz de Gi mas não pode captar com clareza nenhuma palavra, seu sangue circula tão rápido que a pulsação é perceptível...de fato aquilo é uma tortura...Giselle alheia a todo o efeito que causa em Flávia segue com suas orientações, para ser mais eficiente na demonstração da técnica estira o outro braço fechando o cerco em torno da morena deixando-a presa entre eles, Flávia fecha os olhos aquela voz hipnotizante invade seu cérebro impedindo-a de dar ainda que minimamente, atenção ao que Giselle fala. Flávia olha furtivamente aquela mulher tão próxima dela, o frescor da respiração de Giselle agora atinge-lhe diretamente o rosto causando-lhe uma imensa vontade de beijá-la, a morena não tira os olhos daqueles lábios rosados, alimentando sua imaginação com imagens nada inocentes dela e Giselle, suspira sem saber de onde saíram aqueles pensamentos, a empresária interrompe a explicação e cruza o olhar com o de Flávia, seus olhos ficam presos como se possuíssem um imã que os impedisse de enxergar qualquer coisa além daquele campo visual. Giselle suavemente aproxima-se mais da morena que ao perceber o avanço da outra prende a respiração à espera que desapareça a escassa distância que as separa, quando está a ponto de voltar a beijar àqueles deliciosos lábios...

– Flávia...se escuta a voz de Felipe fazendo-as se separarem assustadas.

– Sim?...rapidamente Flávia se recompõe.

– É...que...estão precisando de você lá dentro...diz depois de pigarrear pois tem consciência que interrompeu um momento íntimo entre as duas, não entende muito bem o fato de que duas mulheres possam se amar mas quem é ele para julgar, somente sabe de uma coisa...quando Giselle está perto de sua chefe tudo flui de forma positiva no Bistrô.

– Eu...Flávia começa a dizer nervosa.

– Vá tranquila e resolva o que for necessário, afinal você é a chefe...as duas se olham, Flávia termina assentindo e segue Felipe.

Giselle suspira e conclui...se o maître não tivesse chegado ela e Flávia certamente teriam se beijado, esse pensamento é o suficiente para fazer seu corpo vibrar, enquanto aquela ideia vagueia por sua mente resolve voltar ao escritório, ao chegar lá senta-se e tenta concentrar-se novamente no trabalho embora aquela lembrança ainda orbite sobre sua cabeça, assim termina por recostar-se na cadeira e fecha os olhos procurando relaxar um pouco. Depois de um tempo levanta-se e vai até a janela oposta à porta de entrada, observa o vazio, absorta, desconectada de tudo em volta, então sente uns braços a envolvendo e intrigada vira-se para encontrar o rosto sorridente de Judith.

– Olá!

– Ju!...Giselle surpresa com aquela visita inesperada...- O que faz aqui?

– Estava com saudades!

– Oh meu deus!...diz Giselle um pouco nervosa pois sabe que aquilo pode trazer-lhe problemas com Flávia e interromper a trégua que conseguiu entre elas.

– O que foi...não gostou de ter me visto?...Judith pergunta ao perceber o descontentamento da empresária.

– Não...não é isso...responde Giselle evitando chatear a jovem.

– Então por que não ganho um beijo?...a professora pergunta insinuante fazendo com que Giselle sorria um pouco constrangida, quando a empresária começa a aproximar-se mais de Judith a porta é aberta subitamente por Flávia que fica paralisada ao deduzir o que estava prestes a acontecer.

– Gise...ao ouvir aquela voz Giselle muda o olhar de Judith para Flávia e engole em seco com a expressão no rosto da morena que está imóvel na porta do escritório.

– Flávia...eu...titubeante a empresária ainda tenta falar alguma coisa mas é interrompida pela dona do Bistrô.

– Se não podem controlar o desejo de se devorarem pelo menos procurem um lugar adequado, aqui é um local de trabalho deveria manter a compostura não é dona Giselle...Flávia cospe as palavras e deixa o recinto revoltada.

– O que houve?...Judith pergunta de forma ingênua.

– Nada...não houve nada...Giselle suspira profundo sem desviar o olhar daquela porta, logo volta a atenção pra jovem na sua frente...- Vamos sair daqui.

– Pra onde quer ir?

– Não sei...surpreenda-me...Giselle diz simplesmente.

– Vamos então!..Judith sorri travessa.

No bar do Bistrô Flávia está tomando seu whisky, depois de flagrar Giselle quase se beijando com aquela pirralha atrevida sentiu seu peito oprimir-se e uma raiva imensa a consumiu, não lhe agradou em nada ver aquela mulherzinha tão próxima de Giselle e o que estavam a ponto de fazer...realmente NÃO GOSTA DE JUDITH e só há uma palavra para definir esse sentimento...mas isso ela não está disposta a admitir.

NOS ESTÚDIOS...

Marina está dando os toques finais à sua viagem e ainda não contou nada pra Clara, sabe que a morena ficará extremamente contrariada porque embora tenha consciência da necessidade da produtora em viajar com frequência, aquilo definitivamente a chateia muito. Marina respira fundo e olha o relógio, é hora de pegar Diogo na Creche, assim recolhe suas coisas e prepara-se pra ir buscá-lo. Um par de horas depois chega em casa na companhia do filho que a cada dia está mais ágil ao mover-se pelo local e não é pra menos, está para completar dois anos. Lembra que terá uma festinha de aniversário pra organizar, quem sabe algo com os coleguinhas da Creche, mentalmente toma nota de falar com Judith sobre o que pode ser feito nesse sentido.

– Mamãe!...Diogo chama Marina tirando-a de seus devaneios.

– Diga meu pequeno...a mãe fala docemente, Diogo a olha fixamente e reclama...

– Diogo...fome...

– Ohhh meu lindo parece que terei que fazer algo a respeito...Marina fala enquanto faz cócegas na barriga do garoto arrancando-lhe gargalhadas.

– Mamãããããe se queixa o pirralho.

– Ahhhhh...está bem!...coloca o menino no chão, pega uns brinquedos para distrai-lo e ficar à vontade pra preparar o jantar, olha o relógio da cozinha...já que Clara está por chegar decide fazer algo especial, essa noite aproveitará pra dizer a sua morena que viajará por duas semanas, sabe que isso vai lhe desagradar bastante, especialmente depois do que aconteceu...uma lembrança lhe vem à cabeça.

Flashback...

Aeroporto do Rio de Janeiro.

Marina voltava de uma de suas curtas viagens, havia ficado apenas dois dias fora de casa, durante o voo no assento vizinho ao seu sentou-se uma mulher que não parava de olhar pra ela deixando-a um pouco incomodada.

– Oi...Marina Meirelles...é isso?...a mulher decide falar.

– Sim...Marina responde sorrindo de forma amável...- Desculpa...nos conhecemos?

– Não de forma direta...não faz muito tempo estive na apresentação de um documentário que foi produzido por você.

– Ahh...diz Marina recordando a festa de lançamento dos Estúdios e o seu trabalho sobre o CCAS.

– Preciso confessar que fiquei encantada, a forma sensível com que foi tratado o tema...parabéns!...Marina sorri envaidecida.

– Obrigada...e seu nome?...Este foi seu erro...ali começou sua torturante conversa, a mulher relatou detalhes de sua vida íntima, que era atriz, estava solteira e nisso deu muita ênfase, elogiou demasiadamente o talento de Marina que por seu lado já se sentia um pouco envergonhada com tanta rasgação de seda, embora já esteja acostumada com aquele tipo assédio...sempre há alguém que procura bajulá-la ao máximo com o objetivo de obter vantagens, nunca se sentiu cômoda com isso. A atriz vendo que não iria muito longe com aquela tática, mudou de estratégia e começou a insinuar-se de forma incisiva, por sorte o martírio de Marina não durou muito tempo pois o comandante logo avisou que a aeronave estava por aterrissar. A produtora saiu o mais rápido possível pelo terminal em busca de sua morena mas sobretudo para livrar-se daquela criatura pegajosa, infelizmente o destino não estava a seu favor e não conseguiu despistar aquela louca.

– Marina!...a mulher abre espaço na multidão jogando-se sobre a produtora dando-lhe um abraço e um beijo na face, assustada com aquela investida recua mas a atriz é mais rápida e consegue alcançar seu objetivo que é agarrar Marina e aparecer.

– O que está acontecendo aqui?...soa a voz de uma Clara muito ciumenta.

– Clara!...Marina deseja que o chão se abra e a engula naquele momento, não havia uma hora mais inoportuna pra Clara chegar, a produtora que é branca com aquele susto sua pele perde um pouco mais a cor.

– Clara...amor...posso explicar...Marina está constrangida com a situação e pelo o que Clara possa pensar.

– Não precisa....você não tem nada que explicar...a morena move-se de forma ameaçadora na direção da mulher...- Acho que quem tem que se justificar é essa lagartixa que está em cima de você, de imediato Marina olha pra atriz que ainda está atracada nela e a empurra de forma brusca.

– Não tenho nada pra explicar, estou falando aqui com a Mari...

– Como é...do que você chamou ela?...A raiva de Clara aumenta de maneira desmedida.

– Mari...repete a mulher idiotamente.

– Ahh é...e desde quando você e minha mulher têm esse tipo de intimidade?

– Sua mu...lher?...A atriz gagueja.

– Sim...minha mulher...dê graças a deus estarmos em público...porque senão...Clara está bastante alterada e fala de forma tão hostil que Marina se interpõe entre as duas a fim de evitar algum barraco, o mais sensato a fazer é tirar Clara dali rapidamente, por sua vez a atriz atrevida compreende que sua vida também corre risco e que o melhor é partir antes que a situação piore.

– A...cho...que...é...me...lhor...eu...ir...em...bo...ra...gagueja assustada.

– Sim...também acho...pra sua segurança e não se aproxime mais da mercadoria alheia.

– Claro...claro...fala nervosamente...a morena vê a mulher sair até que se perde em meio aos transeuntes, olha pra Marina que está sorrindo num misto de alívio e encantamento pelo seu rompante possessivo.

– E você ainda ri não é Dona Marina...diz fingindo indignação...- Posso saber o motivo desse sorriso estampado no rosto?

– Nossa Clara...sua mercadoria...é isso que eu sou pra minha morena?

– Ai...ai...ai Marina Meirelles agradeça que eu confio cegamente em você...do contrário...

– Do contrário nada!...Não vê que meu coração bate por você a cada dia com mais força...toma Clara em seus braços e a beija apaixonadamente sem importar-se de estarem em pleno terminal do aeroporto lotado e sem perceber que um fotógrafo furtivamente registra aquele momento.

Fim do Flashback.

Clara chega em casa que está impregnada de um delicioso aroma de comida, sorri...adora quando Marina usa de seus dotes culinários pra agradá-la, deve reconhecer que além de tantas outras qualidades Marina ainda cozinha muito bem.

– Amores já cheguei!...grita enquanto deixa sua bolsa em uma das cadeiras, logo dirige-se à cozinha de onde Diogo sai em disparada como se fosse um bólido tamanha a velocidade que consegue alcançar.

– Mamãããããe...aquilo arranca um enorme sorriso dos lábios de Clara fazendo-a inclinar-se e recebê-lo nos braços, não importa se o garoto não é seu filho biológico, aquele pequeno se encarregou de fazê-la sentir o amor materno, mostrá-la como um amor incondicional a transformou numa verdadeira mãe, Diogo ocupou um lugar único em seu coração e preencheu o vazio de não poder ter seu próprio filho, embora consiga gerar em seu ventre uma criança ninguém jamais ocupará o espaço que aquele menino conquistou.

– Olá meu amoooor!...diz Clara emocionada.

– Beijo!...pede Diogo...Clara solta uma gargalhada, aquele pestinha definitivamente roubou uma grande parte do seu coração, de imediato a morena atende seu pedido.

– Epa!...Epa!...Será que vai sobrar algo pra mim!...intervém Marina toda sorridente ao ver as duas pessoas que mais ama juntas.

– MAMÃE...BEIJO!...repete Diogo.

– Beijo então meu amor...Marina responde aproximando-se de Clara e Diogo abraçando os dois e ao mesmo tempo se inclina para beijar Clara.

– Oi minha deusa...sussurra contra os lábios da sua morena.

– Oiiii...Clara responde...e neste momento o pequeno se une ao beijo causando sorrisos no casal porque ele realmente só consegue beijar as bochechas de uma delas.

– Se apressem!...vão se lavar que o jantar já está pronto!...Marina coloca os dois pra fora depois daquela tentativa de beijo grupal.

– Mamãe...lavar mão!

– Vamos amor...mamãe leva você...Clara pega o garoto nos braços e sai.

Mais tarde depois do jantar e de terem colocado o filho pra dormir, como de hábito as duas aproveitam a área externa da casa próxima a piscina desfrutando da frescura da noite, do céu estrelado e da companhia uma da outra, a morena está recostada à amada entre seus braços.

– Amor...

– Mmmmm...

– Vou viajar...a produtora solta de uma vez sentindo o corpo relaxado de Clara entrar em tensão.

– Quando?...Clara pergunta triste.

– Daqui a dois dias.

– Por quanto tempo?

– Duas semanas...Marina agora percebe a tensão mais forte ainda, a produtora saliva e decide que o melhor é falar tudo de uma vez o que envolve a presença de Karina, sabe que Clara não nutre nenhuma simpatia pela assistente...- Karina vai comigo...aquilo definitivamente faz com que a morena saia subitamente dos braços da branquinha.

– Fique tranquila amor...agora Marina está realmente preocupada com a reação de Clara.

– Não gosto quando você viaja...a morena observa sua mulher olhá-la preocupada.

– Sim isso eu sei muito bem...mas por que essa relutância tão grande cada vez que tenho que sair de viagem...Marina toma as mãos de Clara entre as suas...- Vamos amor...me diga qual é o problema?

– Fernando viajava muito, acho que isso foi em parte a causa de tudo o que aconteceu...me traia com a assistente dele durante essas viagens...Marina...eu...

– Ei! Ei!...Eu não sou aquele lixo que você tinha como marido...agora Marina está irritada não gostou nada de ter sido comparada ao ex-marido de Clara...- Eu...jamais faria algo assim, tenho respeito por você e me respeito acima de tudo...amor vou deixar bem claro...diz enquanto segura entre suas mãos o rosto da mulher que ama obrigando-a a olhá-la nos olhos...- Eu sou mulher de uma só...não me interessa nenhuma outra...com você eu estou plena e não cabe nada nem ninguém mais...JAMAIS DUVIDE DA MINHA FIDELIDADE...CLARA EU AMO VOCÊ!...e certamente esses dias não serão mais fáceis pra mim longe de vocês...conclui se inclinando e a beijando de forma apaixonada para que a morena entenda melhor o que foi verbalizado.

– Perdão amor...é...que...eu...

– Shhhh não foi nada amor...não se preocupe...Marina diz carinhosamente compreendendo os medos de sua mulher...- Além disso já é hora de nos programarmos pra uma visita ao seu médico.

– Que tal se o fizermos quando você regressar de viagem?

– Me parece perfeito...Marina beija sua morena novamente tentando através daquele gesto fazer com que os medos dela desapareçam, logo que termina o beijo Clara diz...

– Amor...

– Sim?

– Tem algum compromisso pra amanhã?

– Não...por que?

– É que hoje falei com minha madrinha.

– Sim?...e...?

– Confirmei o jantar aqui em casa com meus padrinhos.

– Ohh sim...é verdade!...Pode contar comigo...só preciso providenciar meu traje de gala, levar Diogo pra cortar o cabelo e comprar um smoking pra ele...Marina brinca com a morena.

– Boba!...Claro que não precisa disso tudo...é só um jantar informal.

– Seremos só nós e eles então podemos convidar a família (para Marina a família a que se refere é Giselle a Flávia).

– Não sei...pensei que seríamos só nós...o tom de Clara é hesitante pois sabe muito bem dos laços que unem a branca e as meninas, durante uns segundos elas se olham, na realidade não estava nos planos de Marina ficarem sozinhas na companhia dos padrinhos da morena...mas enfim...termina mentalmente por aceitar.

– Ok!...A que horas devo estar em casa?

– Cedo...não quero que ocorra qualquer contratempo que atrase o jantar, eles valorizam muito a pontualidade.

– Não se preocupe sairei a tempo, assim poderei ajudá-la com os preparativos.

– Perfeito amor!...Clara distribui beijos e mais beijos em sua branquinha fazendo com que seus corpos reajam acendendo o fogo do desejo.

– Mmmmm acho que deveríamos convidar seus padrinhos mais vezes pra jantar conosco...Marina fala num tom insinuante.

– Boba!...As duas sorriem.

DIA SEGUINTE NOS ESTÚDIOS VIEIRA...

– Ai Marina...você vai causar um infarto naquelas duas feras...Gi comenta depois que Marina menciona o jantar com os padrinhos de Clara.

– Nem me fale...deus do céu!...Ontem não consegui dormir.

– Mas por que?

– Simplesmente porque já passei pela mesma situação com Giovanna, você estava presente lembra que Joane fez daquela noite um tormento?

– Aff...lembro muito bem...amiga você está fodida!...Não se surpreenda se Mário aprontar alguma grosseria, é um maldito machista e preconceituoso, já Sandra é um amor, a esposa devotada, obediente e passiva...infelizmente.

– Sério?...Agora a preocupação de Marina só aumentou.

– Outra coisa...acrescenta Giselle num tom que não a tranquiliza muito.

– O que?

– Eles já sabem que você está desfrutando do corpaço da afilhada deles?...Giselle faz brincadeira com a amiga.

– Giselle!...Marina fica indignada provocando gargalhadas na empresária.

– Desculpa não resisti...nisso abre-se a porta do escritório e Jéferson entra aflito.

– Perdão por entrar assim...mas chefe você tem que ver isso e entrega uma revista onde está estampada a foto dela e de Clara compartilhando um beijo e o título da reportagem em letras garrafais “ ADEUS AO LUTO: DE VOLTA À CAÇA”...Detalhes pag 5.

– DROGA!...Grita Giselle enquanto Marina fica perplexa olhando aquela imagem.

Giselle pega a revista e rapidamente vai à página de referência, começa a ler em voz alta...

– Ninguém resiste a flecha do cupido como é o caso da famosa produtora de cinema e televisão Marina Meirelles a quem flagramos de regresso de uma viagem sendo recepcionada por uma bela morena, há algum tempo declarou categoricamente que seguia solteira, mas pela recepção calorosa, pelo sorriso e o brilho no olhar naquele momento, ficamos em alerta e começamos a investigar até descobrirmos a razão dessa mudança, tudo parece indicar que uma linda carioca conseguiu tirar a produtora do luto conquistando seu coração. Marina Meirelles estava reclusa desde o falecimento de sua esposa a também famosa modelo internacional Giovanna Marinelli, recordemos que a produtora ficou devastada quando a perdeu depois de uma longa batalha contra o câncer de mama. Agora as perguntas que estão no ar: Qual a identidade da mulher?...Acaso será uma certa diretora de um conhecido Centro de Assistência Social?...Essas respostas lhes daremos em breve”. Giselle termina de ler olha pra amiga e comenta resignada...- Ai...ai...ai Marina...acho que você está perdida!

– Preciso falar com a Clara...é a única coisa em que Marina consegue pensar, fica preocupada não por ela que acostumou-se com o fato de sua vida de certa ter se tornado pública, mas por Clara que nunca se deparou com aquele tipo de situação, é tudo muito novo pra ela...- Caramba!...tinha que ser logo hoje no dia desse bendito jantar!

Em outro ponto da cidade...

Fernando caminha por uma determinada rua e para numa banca de revistas pra comprar o jornal, não sabe porque naquele dia não foi deixado em sua casa e teve que sair pra comprá-lo, de repente uma foto na capa de uma revista chama sua atenção...Clara e Marina se beijando...- Mas essa foi a gota d'água!...Pega a revista, paga e sai em disparada desaparecendo entre os transeuntes.

CCAS...

Marina para o carro na entrada do Centro e como era de se esperar ali estava um grupo de jornalistas que ao vê-la imediatamente correm em sua direção a fim de conseguirem alguma entrevista e fotos, ela consegue evitá-los entrando rapidamente.

– Santo deus o que foi aquilo?...Helena assustada pergunta a Marina

– Onde Clara está?...

– No escritório...o que houve?

– Eles já sabem sobre nós...Marina responde abatida.

– Caramba!...Vamos falar com ela...as duas saem e entram na sala de Clara que ao ver a produtora sorri exultante.

– Amor!...Que surpresa maravilhosa você por aqui!

– Clara...diz Marina enquanto vai à janela e abre a cortina...- Vem aqui amor...a morena levanta-se e fica perplexa com o que vê...normalmente sabe que um e outro repórter costuma ficar à espreita de alguma notícia, mas hoje...agora...o Centro foi invadido por uma porção deles.

– Oh meu deus!

– É isso amor!...Marina fala resignada.

– Co...mo...como souberam sobre nós?...a morena fica realmente preocupada.

– Lembra daquele dia que você foi me buscar no aeroporto?

– Sim...claro...mas não entendo, somos tão cuidadosas em público...então sua voz vai diminuindo quando recorda o incidente no terminal de passageiros e como Marina a beijou no meio de todo mundo. Clara olha a produtora que tem uma expressão angustiada, sabe que está pensando o mesmo que ela, a morena respira fundo tentando mostrar-se calma naquele momento, tinha consciência de que mais cedo ou mais tarde aquilo iria acontecer, só que não esperava tão rápido e principalmente num dia como aquele.

– O que vamos fazer?...Como vamos sair daqui?...Tenho um jantar pra preparar.

– Eu sei como...Helena responde.

– Como?...perguntam simultaneamente Clara e Marina.

– Venham comigo...podemos sair pelos fundos, duvido que estejam lá, assim vocês podem levar meu carro e eu fico com o da Clara...que tal?

– Me parece uma excelente ideia...Marina suspira aliviada....- Vamos amor?

Como planejado Clara e Marina conseguem deixar o Centro sem serem notadas, entram no carro de Helena e partem em direção à Creche pra pegar Diogo, quando estão chegando em casa percebem a presença de alguns repórteres instalados próximos a residência.

– Clara...vou parar o carro um pouco mais distante da nossa entrada pra que entre pela parte de trás, você tem todas as chaves pode ir por lá, vá com Diogo que eu vou entretê-los, ganhar tempo enquanto isso.

A morena sai com Diogo nos braços e se encaminha pra parte indicada por Marina conseguindo despistar a mídia, nesse ínterim Marina aproveita e sai do carro, apressa o passo já que os jornalistas ainda não a identificaram o que não demora a acontecer.

– É ela!...Todos se aproximam ao mesmo tempo e começam as perguntas e fotos, mas anos de experiência fazem com que a produtora ignore-os e entre em casa sem emitir nenhuma declaração.

– Ahhh...graças a deus...finalmente!...sussurra Marina aliviada por ter conseguido despistar a imprensa...- Clara!...Marina chama pela mulher.

– Amor!...Aqui!..Clara responde.

– Tudo bem?

– Sim...

– Bem...vamos cuidar agora do nosso pequeno e logo depois preparemos o jantar.

– Ok!

ALGUMAS HORAS DEPOIS...

Com Diogo dormindo em seu quarto e a partida dos repórteres que parecem ter cansado de esperar na porta da produtora...para alívio delas, Clara e Marina aguardam pacientemente a chegada dos padrinhos da morena.

– Amor...

– Sim?

– Você acha que meus padrinhos viram aquela revista?

– Suponho que não...isso saiu hoje, a menos que eles sejam aficionados por essas notícias sensacionalistas.

– Não que eu saiba...vendo por esse lado podemos ficar tranquilas minha madrinha não lê esse tipo de coisas.

– Então não temos com o que nos preocupar.

MEIA HORA DEPOIS.

Tocam a campainha...enquanto Clara está na cozinha dando os últimos retoques no jantar Marina está na sala e abre uma garrafa de vinho.

– Eu vou amor!...a produtora se antecipa.

– Ok...Clara grita em resposta.

Marina chega à porta e o nervosismo a invade, respira fundo várias vezes, coloca seu melhor sorriso para só então fazer entrar o casal, ali estão duas pessoas muito bem vestidas, a senhora num estilo sóbrio e elegante, o homem trajado apropriadamente para o momento...não é tão bonito quanto a mulher.

– Entrem!...Marina fala insegura.

– Madrinha!...Padrinho!...Clara chega cumprimentando os dois e estendendo os braços transbordando alegria.

– Clara!...respondem sem muito entusiasmo e a morena inocentemente aproxima-se para abraçá-los...- Aii deus que saudade!...há um tempo que não se viam e aquele casal representa seus pais, infelizmente depois do problema com Fernando afastaram-se um pouco, especialmente de seu padrinho que vive implicando com sua separação...o abraço não é correspondido o que é notório pra Marina.

– O que houve?...a morena pergunta nervosa, também percebeu a frieza dos dois além das expressões evidentes, Sandra tem o olhar perdido, não a encara e o padrinho está com um semblante duro, sisudo.

– O que houve?...ainda pergunta?...Mario num tom seco....- Viemos constatar com nossos próprios olhos o desastre em que se transformou sua vida, você está de caso com uma mulher e ainda se deixa fotografar aos beijos com ela em público...isso é uma aberração vocifera o preconceituoso Mário.

– Desde quando filha...você virou lésbica?...pergunta Sandra num tom triste e decepcionado.

– Madrinha...eu...

– Você nada...como é possível...intervém Mário...esse tipo de comportamento é inaceitável em nossa família e você sabe muito bem!...Vamos Clara pegue suas coisas...deixaremos essa casa AGORA!

– Padrinho...Clara está surpresa e confusa com aquela atitude.

– Clara!...Estou esperando.

– Não vou a lugar nenhum...a morena diz convicta.

– Clara...eu sei que você teve uma influência maligna...olha pra Marina com cara de poucos amigos...- Se continuar com essa aí pode nos considerar mortos...Mário cospe as palavras.

– Amor...calma...Sandra tenta apaziguar os ânimos.

– Como calma!...Ela está nos desafiando.

– Padrinho me escute...

– Não quero saber de nada...Clara vou ser sincero...você foi criada como uma filha e essa sua conduta desprezível causou uma dor indescritível em nossos corações, estamos envergonhados com tudo isso, sua decisão vai contra a natureza, como é possível que tenha se envolvido numa coisa indigna dessas, onde já se viu mulher com mulher, saiba que nós não viemos pra jantar mas pra exigir que termine essa relação...se é que se pode denominar assim e que volte para o seu marido, não queremos escândalos em nossa família, sempre valorizamos os princípios e os bons costumes...Mário está indignado...- E proibimos que frequente nossa casa até que acabe com esse relacionamento despudorado...e quanto a você...olhando pra Marina...- Não a consideramos e não desejamos nenhuma proximidade, Clara tem marido e é com ele que ela tem que ficar!...Marina que até então havia se mantido em silêncio reage com firmeza.

– Um momento...o senhor não tem o direito de se expressar assim sobre um sentimento tão puro como o que temos eu e Clara!

– Por favor não se meta...isso é entre minha família e eu...Mário retruca.

– Basta! Basta! Basta!...Clara grita...FORA!...FORA!...FORA DA MINHA CASA...a morena grita bastante alterada

– Clara!...Sandra tenta intervir.

– Se não podem entender minha relação com a Marina então não posso considerá-los minha família, por favor saiam!...Da mesma forma que não sou bem-vinda na sua casa vocês também não são na nossa.

– Você está vendo Sandra...é isso que recebemos depois de acolhermos essa aí...Mário fala com asco estampado no rosto ao ver Clara sendo abraçada por Marina depois das palavras duras com as quais o homem se expressou.

– Cale-se...Marina replica furiosa...não admito ser ultrajada dentro da minha própria casa, eu estava disposta a recebê-los como família...é interrompida por Mário.

– Por favor...família nós?...ISSO JAMAIS!

– Eu lhes peço saiam!...Marina diz resoluta compreendendo que não há espaço para diálogo.

– Esperem!...Clara interrompe...quero que saibam que nunca na minha vida eu fui tão feliz como estou sendo agora...depois de um último olhar de desprezo os padrinhos de Clara deixam a casa. A morena perde as forças e parece desfalecer nos braços de Marina enquanto lágrimas amargas caem insistentes de seus olhos, a branca sente seu coração se partir em mil pedaços por ter presenciado aquela situação tão dolorosa pra sua amada.

– Amor não fique assim.

– Marina...eles...eles...me desprezaram por amar você!

Marina nada responde...o momento não é para palavras, leva sua morena ao quarto e a despe, a duras penas coloca um pijama nela e também se troca, logo se deitam e Marina a abraça transmitindo todo o seu amor, a morena se refugia então nos braços acolhedores da amada.

– Jamais esperei isso deles...Clara sussurra chorando agarrada em Marina que faz carinhos em seus cabelos.

– Calma amor...não quero que fique triste assim, sofrendo por minha causa...na voz de Marina pode-se perceber o sentimento de culpa por toda a situação...ao ouvi-la Clara rapidamente ergue a cabeça e olha fixamente pra ela.

– Meu bem você não é culpada de nada...eles é que estão errados por serem tão preconceituosos, intransigentes e não perceberem a dimensão do nosso amor, nunca duvide...você é o que de melhor aconteceu em toda a minha vida...você e Diogo são os meus pilares, a razão da minha felicidade...sem os dois não sou nada!...diz emocionada...Marina ao ouvir aquelas palavras fica comovida ao ponto de um par de lágrimas também escaparem de seus olhos, Clara recosta a cabeça outra vez no peito da sua amada, ficam ali abraçadas e de pernas entrelaçadas, nessa noite não há lugar para a paixão...desejo...só o sentimento de amizade, companheirismo e lealdade que existe entre elas.

APARTAMENTO DE FLÁVIA...

Flávia caminha inquieta por seu apartamento até chegar à varanda e ficar lá observando a noite, pergunta-se por onde andará Giselle...o que estará fazendo...talvez trabalhando ou com aquela pirralha metida, aquele pensamento a enche de irritação, sem refletir muito cede a necessidade de ouvi-la, pega o celular e digita número da empresária...chama uma...duas...três vezes...quando está por desistir alguém atende à chamada...

– Alô!...responde Giselle respirando agitada....- Flávia?...Aconteceu alguma coisa?...(Gi quem é?)...se escuta ao fundo a voz de Judith.

– Desculpa interromper...Flávia desliga o telefone.

A morena fica completamente enfurecida...caminha de um lado a outro falando sozinha.

– Não pode ser...aquela mulherzinha está sempre em cima da Giselle, não lhe dá um minuto de descanso é sexo o tempo todo...vivem se comendo...ahh que raiva!

LOFT DE GISELLLE...

– Quem era?...Judith pergunta curiosa.

– Flávia....

– Ah...e o que ela queria dessa vez?...Judith está um pouco irritada...ultimamente não tem gostado muito dessa dependência exagerada de Flávia, sente-se incomodada pois sabe que se há alguém que pode fazer com que Giselle abandone tudo o que está fazendo pra lhe atender um pedido, esse alguém é Flávia.

– Não sei...responde distraída...embora fique em dúvida olhando a tela do celular pensando se retorna a ligação, só pra se certificar se está tudo bem.

– Ah...qualquer coisa você saberá amanhã, agora vem que preciso de atenção...diz com a voz manhosa, Giselle decide então deixar o assunto Flávia para o dia seguinte, sorri com aquela fogosa menina mulher que vai matá-la de tanto sexo.

– E onde precisa de atenção?...provoca.

– Aqui...responde Judith aceitando a provocação e mostrando sua intimidade pra Giselle.

– Ohh meu deus!...sussurra a empresária.

SANTA TERESA...

Tudo está pronto para a viagem de Marina, ela e Clara estão na sala da casa, cedo foram levar Diogo à Creche, o ambiente encontra-se pesado, se dependesse de Clara a produtora não sairia do seu lado, no coração uma inquietude difícil de descrever, o som da buzina de um carro corta o denso silêncio que ambas se impuseram.

– Bom...chegaram!...diz a produtora sucinta, Clara não resiste e se joga nos braços do seu amor, Marina fecha os olhos buscando força...não entende o motivo de estar sendo tão complicado fazer essa viagem, talvez por nunca ter se ausentado por tanto tempo, geralmente eram só alguns dias.

– Amor vou sentir tanta a sua falta...Clara fala meio chorosa fazendo o coração de Marina apertar em seu peito.

– Eu sei meu amor...eu também mas prometo...esses dias vão passar rápido...juro...Marina diz comovida com a tristeza no rosto da sua morena, lhe dá um abraço forte e a beija apaixonadamente, logo que se separam unem suas testas...- Saiba que pra mim será torturante ficar longe de vocês...murmura a produtora e parte sem olhar pra trás porque se o fizer certamente desistirá. Clara observa Marina entrar no carro da Empresa que passou pra pegá-la.

– Vamos!...a produtora diz seca e rude.

TERMINAL 4 – AEROPORTO DO RIO DE JANEIRO...

Karina está à espera de Marina, já realizou o check in e confirmou sua passagem na primeira classe, agora só falta a chefe chegar, está prestes a entrar na área de embarque para adiantar-se e pegar o voo que as levará à primeira cidade de uma lista de três que terão que visitar.

– Karina!...a assistente vira-se ao ouvir seu nome.

– Você?...O que faz aqui?...a surpresa fica estampada em seu rosto pois na verdade seria a última pessoa que pensou encontrar ali.

– Vim fazer-lhe uma proposta.

– Proposta?...Não entendo...a assistente pergunta intrigada.

– Se me der alguns minutos do seu tempo posso explicar...Karina fica em dúvidas sobre continuar aquela conversa...- Vamos!...posso assegurar que valerá a pena...insiste a voz tentadora percebendo a hesitação de Karina...- Você não tem nada a perder e muito a ganhar...depois de pensar alguns segundos a curiosidade de Karina é mais forte e conclui que a pessoa tem razão, não custa nada escutá-la.

– Ok!...Encaminham-se à praça de alimentação...- E agora fale!

– Preciso que me escute bem...começa a contar tudo...- Entendeu o que estou pedindo?

– Sim...acho perfeito!..Só não vejo o que vou ganhar com isso, até agora só enxergo perdas.

– Posso assegurar que você será muito bem recompensada financeiramente...o que acha?

– Dinheiro...repete Karina saboreando aquela palavra...- E se eu perder meu emprego?

– Você é muito capacitada, logo logo conseguirá outro trabalho e além disso tenho meus contatos e condições de ajudá-la, sem contar que depois disso, se tudo der certo todos irão querer escutar sua versão da história.

– Você acha?

– Conhecendo a mídia como conheço...ahh meu deus!...Solta uma gargalhada malévola e continua falando...- Será notícia de capa, é só questão de aproveitar...(pausa)...seus cinco minutos de fama e glória que terá com tudo isso.

– Sinceramente...não sei...ainda não me sinto convencida...diz Karina depois de pensar um pouco.

– Toma...isso é um bom adiantamento...entregando um cheque, acho que é o suficiente pra começar independente de que aceite ou não minha proposta, veja a boa vontade da minha parte.

– Mas há algo que não entendo...e o que vai ganhar com isso?

– Sei muito bem o que sente por Marina...e convenhamos...você não tem muitas oportunidades com ela...e eu?...Bom...meu desejo é tão somente VINGANÇA!..É o que vou ganhar, tem que me dar uma resposta esta semana, se aceitar só precisa me telefonar...antes que Karina possa responder os alto-falantes anunciam...

Passageiros do voo 451 com destino a...

– Acho que é o seu voo...se apresse não queremos que o perca não é?

– Isso mesmo...responde Karina pensativa com aquela estranha proposta. Abre sua boca pra falar mas aquela persoa diz

– Não me responda agora...só pense! que tenha bom viagem. nao esqueçaa o que falamos!