Vocare
4 CAPITULO 3 - Vamos Jantar?
Molly encheu as mãos de água e levou-as ao rosto. Aquele frescor a fazia se sentir melhor, mas não aliviava coisa nenhuma.
– Molly?
Ótimo. Fantástico.
Ela olhou no espelho do banheiro, e suspirou. Tendo acabado de despejar o conteúdo do seu estomago no esgoto londrino, ela não parecia estar com a melhor aparência desse mundo.
Ela passou as mãos molhadas nos cabelos, para então colocá-las no secador acoplado à parede três vezes.
– Molly? Você está aqui? As luzes estão acesas. Molly? — Ela olhou para seu reflexo novamente. Pálida como a morte, nariz vermelho, cabelo desgrenhado. Parecia um zumbi. Apropriado, já que ela tinha acabado de ver um no seu necrotério.
– Vou sair em um minuto, Sherlock. — ela avisou. Ela não o via há semanas. Não o via desde o teste de drogas, em que ela o estapeou duas vezes. Depois de Sherlock ter tomado um tiro, ela se culpa pelos tapas.
Molly lentamente abriu a porta. Belstaff, cachos escuros, rosto perfeito. O de sempre. Ela queria segurar aquele rosto pálido e triste com as mãos e beijá-lo. Ela queria colocar os braços dentro do casaco, segurá-lo, descansar a cabeça em seu peito, e dizer-lhe que tudo ia ficar bem. Embora, para ser honesta, ele provavelmente iria lhe dizer que nada ia ficar bem.
– Está muito tarde... — disse ela ao invés disso. Ela não queria encará-lo. De jeito nenhum.
– Molly, ele voltou.
Ela assentiu com a cabeça.
– É, eu vi. — ela apontou para a televisão na parede distante. Às vezes as coisas ficavam lentas no necrotério. Ninguém recusava de vez em quando um programa de notícias ou um jogo de futebol.
Ambos ficaram lá parados, vários pés de distância um do outro.
– Eu queria ter certeza de que você sabia. Para avisá-la. – e então balançou a cabeça. — Molly, ele está morto. Não pode ser ele.
O que ela poderia dizer a ele?
Ao menos ela poderia lhe dizer o que sabia.
– Ele estava morto, — disse ela. Ela respirou fundo. — E ele estava aqui, Sherlock. Ele esteve aqui.
De repente, ele fechou o espaço entre eles. Suas mãos estavam em seus braços.
– O quê? — Ele arregalou os olhos. — Você está bem?
Seus olhos procuraram os dela, encarando seu rosto pálido e cabelos soltando do elástico. Ele viu o arroxeado nas bochechas dela, e a tocou.
– Molly, ele te machucou?
Ela apenas baixou os olhos.
– Molly?
– Eu estou bem. — disse ela.
Sherlock estava chocado. Sua boca se abriu. Fechou novamente. Ele desviou o olhar.
– Meu Deus, — disse ele. Ela o viu se virar. Sabia que ele ia correr atrás de Moriarty. Ela estendeu a mão e agarrou seu braço.
– Espere. Ele já foi embora há muito tempo.
Ele olhou para ela. Respirou algumas vezes profundamente. E se acalmou.
– Por que ele veio aqui? — perguntou.
– Ele disse que era para me dar um aviso. Para eu não interferir com... seja o que for que ele está planejando.
Sherlock entortou a cabeça e olhou mais de perto. Molly baixou os olhos.
– O que você não está me dizendo, Molly?
– Nada que você já não saiba. – Era uma baita mentira. — Ele é maligno, Sherlock. Ele quer te ferir e ferir com quem você se importa. — Isso era, de longe, o mais próximo da verdade. Ela não podia lhe dizer quem Moriarty realmente era. Ela teria apenas que fazer de tudo para protegê-lo e ajudá-lo.
– Você vai ter que falar com Mycroft. — disse Sherlock. — Eu acabei de... vir de uma conversa com ele. Nós dois tínhamos certeza de que ele estava morto. Agora ele está aqui. Você tem alguma ideia de como isso poderia ter acontecido? — Sua voz tinha assumido um tom irônico. Molly levou a mão direita ao rosto para tocar o lugar onde Jim a havia tocado brevemente. Lágrimas vieram aos olhos. Henkel era poderoso, e ela jamais seria capaz de explicar isso a Sherlock ou Mycroft. Não poderia... Provavelmente não... Ela não seria capaz de proteger Sherlock. Ela suspirou, seus ombros caíram, e ela se inclinou sobre a mesa, se apoiando no cadáver do Sr. Pullman.
– Molly? — A voz dele ficou leve, como uma carícia, de preocupação. Droga! Uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho direito, serpenteou-se pelo seu rosto.
– Estou cansada. — disse ela, esfregando a umidade com as costas da mão. Baixou a cabeça. Os olhos fugindo dele. — Mycroft pode esperar até amanhã?
– Claro. Vou mandar uma mensagem para ele. Molly... — Ele hesitou. Ela o olhou nos olhos. Ele parecia tão cansado e triste.
– Você gostaria de... — Ele hesitou novamente.
O que é agora?
– Resolver crimes? — ela perguntou. — Pegar o vilão?
Ela riu. Era trêmula, mas era uma risada.
– Jantar? – ele sugeriu.
– O quê?
Ele estreitou os brilhantes olhos azul-esverdeados para ela como se ela tivesse feito uma pergunta totalmente idiota.
– Jantar? – ele explicou. — São oito horas. Jantar é quando as pessoas que gostam umas das outros saem e... comem? Bebem vinho? Falam sobre seus dias? Eu tive um dia do inferno, a propósito. E você também. Então… Jantar?
– Oh, Sherlock... — disse ela -... Olhe para mim. — ela apontou para seu jaleco sujo, o cabelo bagunçado, seu caos generalizado. — Eu não estou bem para ser vista em público.
– Hmm... — disse ele. Ele não podia negar que ambos estavam um pouco desgastados. Tinha sido um dia muito longo. — Baker Street! — disse ele de repente. — Vou ligar para a Sra. Hudson e ver se ela tem algo que ela estaria disposta a compartilhar.
Ela hesitou. Águas desconhecidas.
– Por favor, Molly. Você não precisa ficar sozinha agora. Nem eu. Venha jantar comigo. Precisamos de um plano de ataque para Moriarty.
Se ela já o ouviu dizer ‘por favor’? Acho que não.
– Obrigada, Sherlock. Isso seria... Ótimo.
**vocare**
– Molly, querida, você viu na televisão? Sherlock, você disse que ele estava morto! – Sra. Hudson saiu de seu apartamento e esvoaçava em volta de ambos, logo que Sherlock abriu a porta da rua.
– Foi o que nós pensavamos. — disse Sherlock.
– E eu achei que você estivesse longe fazendo algo para o seu irmão. Durante meses e meses, você disse. Limpei sua geladeira esta manhã. Havia orelhas no congelador, Sherlock. Orelhas! Você prometeu que não faria isso de novo.
De repente, ela se aproximou e abraçou-o.
– Pobrezinho! Você está tão magro. Parece papel amassado. Aquele seu irmão! Por favor, me diga que você não está realmente indo embora.
Seu rosto se suavizou. Seus braços rodearam suas costas, e ele lhe deu um beijo no topo de sua cabeça.
– Eu não tenho que ir a lugar nenhum, no final das contas. Mas todos nós tivemos um grande choque, e Molly gostaria de um pouco de chá, se não for muito problema.
Sra. Hudson se virou para Molly.
– Aquele homem horrível de volta dos mortos! Mas não se preocupe. Sherlock vai dar um jeito. — ela saiu dos braços de Sherlock. – Subam vocês dois. Vou levar chá. E eu vou levar a vocês um pouco de jantar.
– Jantar é um pouco demais, — disse Molly. -... Mas o chá seria maravilhoso.
– Bem, se depender dele, você não vai comer nada hoje à noite. Não a menos que eu traga. Eu fiz lasanha, e há uma travessa cheia inteira. Você pode comer lasanha e um pouco de salada. O que acha disso?
– Você é maravilhosa, Sra. Hudson. — disse Sherlock. — Eu vou acomodar Molly, e então eu desço pra te ajudar. – Sra. Hudson sorriu e deu um tapinha no braço dele.
– Você finalmente está aprendendo, não é querido? — disse ela, com um sorriso misterioso.
** vocare **
A lasanha estava maravilhosa: quente e farta. Já que a mesa de jantar estava lotada de bicos de Bunsen, tubos de ensaio e um microscópio, eles comeram em bandejas no sofá. Sherlock, até mesmo, desenterrou uma garrafa de Nero d'Avola da despensa, provavelmente esquecida da época em que John levava garotas ao apartamento. Molly contou de novo, cuidadosamente editado, sobre a visita de Moriarty no necrotério. Sherlock, por sua vez, disse-lhe, cuidadosamente editado, sobre a morte de Magnussen. Assassinato, na verdade.
– Não encontrei uma alternativa, Molly. John e Mary estavam em perigo enquanto ele estivesse vivo. Mas foi um assassinato. — ele tomou um longo gole do vinho e não conseguiu encontrar os olhos dela. — Eu não vou te culpar se você não quiser ter nada mais a ver comigo. Talvez seja melhor assim, de qualquer maneira. Eu não acho que Moriarty virá atrás de você, se ele perceber que nós... — ele parou.
– Que nós o quê? — ela perguntou.
– Nós não estamos mais... Juntos.
– Você ia embora sem me dizer, não ia?
– Mycroft achou que quanto menos pessoas soubessem, melhor. Eu me despedi de John hoje. E aquilo foi…
Ele parou. Ela ouviu o não dito, ‘... Tudo o que eu poderia suportar’.
– Você não esperava voltar. — era uma afirmação, não uma pergunta. Ele deu de ombros, e manteve os olhos fixos em seu copo de vinho. Ela achou que o coração dela ia se despedaçar. Ele parecia mais velho do que a idade que tem. Parecia mais velho do que parecia no casamento. Mais velho do que naquele dia no laboratório quando ela o testou para o uso de drogas. Ele tinha cometido assassinato por John Watson, e agora John estava nos subúrbios com sua esposa. Ele tinha se livrado do exílio e da morte, com o retorno do seu pior inimigo. Ela tinha confrontado esse inimigo, que era, na verdade, não apenas inimigo dele, mas um anjo caído que queria destruí-la. Ambos tiveram um dia terrível. Ela tomou outro gole de vinho.
– Mycroft cometeu um erro ao me chamar de volta. — ele estava dizendo. — Se Moriarty está focado em mim, o que parece ser, eu estou colocando todos em perigo até mesmo por estar aqui. Estou colocando você em perigo agora. Só porque eu não quero estar sozinho. Sinto muito, Molly. Desculpe por ter te envolvido com toda essa história com Moriarty em primeiro lugar. Desculpe por ter precisado de você. Eu sinto muito que eu... ainda preciso de você. — sua voz desceu para um sussurro na última frase.
Ela, então, colocou sua bandeja no chão e colocou a taça de vinho com cuidado sobre ela. Inclinou-se, tirou a bandeja do colo dele, colocou-a no chão, para então pegar, sem resistência, o copo de vinho da sua mão e colocá-lo na bandeja.
Ela se sentou ao lado dele, pegou sua mão direita entre as dela, levou-a aos lábios e beijou-a suavemente. Ele suspirou. Ela levou uma de suas mãos ao rosto dele e puxou-o na direção dela. Ele fechou os olhos. Ela se inclinou e deixou seus lábios tocarem suavemente os dele.
– Oh, Molly. — disse ele. Seus olhos se abriram e olhou firmemente os dela. — Você sabe que eu...
–... Ama John. Eu sei.
– Acho que sim. É muito complicado para eu explicar. E confuso. — Sua mão correu levemente pelo cabelo dela. Os dedos longos exatamente como ela tinha imaginado que seriam. — Não é justo, não é?
– Não. Deixa eu te amar, Sherlock. — ela colocou as duas mãos em seu rosto. — Não tem que ser justo. Não tem que ser lógico. Não tem que fazer sentido. Apenas deixe-nos ser seja lá o que nós somos um para o outro.
– Tem certeza, Molly? — ela sentiu que os músculos de suas mãos e braços ficaram tensos, embora as mãos dele em seu cabelo ainda eram gentis.
– Tenho certeza. — ela sorriu tranquila para aqueles olhos deslumbrantes. — Não se preocupe. Sou eu. Molly. — não era exatamente verdade, pensou Sraosha. Mas ambas tinham certeza absoluta.
TO BE CONTINUED...
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