Vocadroid
4 Utatane Piko
Miranda acordou exausta com o despertador. Não tinha conseguido dormir direito na noite anterior.
Era sábado. Seus pais saíram como de costume para trabalhar.
Mais um final de semana sozinha, pensou Miranda se levantando.
Ela se dirigiu ao banheiro. Os olhos castanhos refletiram no espelho a exaustão do dia anterior. Ela lavou o rosto e prendeu seus cabelos. Então andou em direção a cozinha.
Então, ouviu algo.
Ela volta e encara a porta do escritório, que estava fechada.
O som aumentava. Parecia o de pequenos metais se juntando.
Miranda abriu a porta com cautela.
Então colocou as mãos sobre a boca, contendo um grito.
Dentro do quarto estava a mesma coisa que vira no dia anterior. Mas esta estava mais sólida. E... Tinha a forma humanoide.
Aos poucos ela ia tomando cor. O corpo se tornava um tom de pele bege claro. No topo da cabeça, se formaram fios de cabelos prateados lisos que batiam no queixo da criatura. E ela foi adquirindo um rosto.
Os lábios não eram tão cheios, o nariz afilado, os olhos ainda estavam fechados.
Bem, estavam.
A criatura abriu os olhos. Eram heterocromáticos: Um azul e um verde.
Miranda tentou não gritar outra vez. Aquele era...
O garoto que estava no seu quarto.
Não era um garoto perfeito, mas quase. Era como um personagem 3D bem feito de um jogo de RPG de PS3.
O seu olho azul era totalmente robótico. Apesar de estar longe, Miranda conseguia ver códigos binários passando por ele, subindo como créditos de um filme.
Então a logo da Yamaha apareceu.
O corpo do rapaz brilhou por um breve segundo. Então, em seu corpo, surgiu a camisa branca inspirada em guitarra, a leg preta e os sapatos brancos. Em seus braços, algo parecido com luvas ia até perto dos ombros.
O rosto de Miranda perdeu a cor.
– Utatane... Piko... – murmurou a morena.
O “rapaz” dirigiu o olhar para a porta semiaberta. O olho azul brilhou.
Ele tinha notado sua presença.
Miranda começou a correr e foi ao telefone. Precisava ligar para a polícia pra avisar daquilo.
Mas assim que chegou ao telefone o rapaz já estava lá.
Miranda grita e corre pro quarto, onde se tranca.
– O que... O que é... Aquela coisa? – falou Miranda arfando.
Ela ouviu um barulho de metal deslizando pelo chão. Então Miranda olhou para seus pés. Aquela coisa cinzenta entrava no seu quarto por debaixo da porta.
Ela gritou e correu pra cima da cama. Aquela altura do campeonato não dava mais pra fugir daquela coisa.
Ele tomou a forma do Piko novamente. Seu semblante sério.
– Sai daqui! – berrou a garota jogando um travesseiro na direção dele.
O travesseiro bateu no peito dele e caiu no chão. O rapaz olhou para o travesseiro e se abaixou, pegando-o.
Ele apertou o objeto, como se aquilo fosse a primeira coisa que ele tocava.
– É um travesseiro. – falou Miranda revirando os olhos – Nunca viu um, não?
Piko a encarou novamente, então olhou para o objeto macio.
– Tra-ves-sei-ro. – falou o “rapaz” pausadamente, com a voz robótica do Utau – Nun-ca... Vi... Um...
Ele encara Miranda.
– Não?
Miranda o encara surpresa. Talvez ele realmente não fosse uma ameaça.
– O que é você? – perguntou Miranda ainda desconfiada.
Piko a encarou por um momento.
– Você... é? – perguntou.
Então ela viu que ele franzia a testa e comprimia as sobrancelhas contra os olhos.
Ele estava a imitando?
Miranda riu. O “rapaz” ficou sério novamente.
– Você é engraçado. – falou Miranda – E assustador ao mesmo tempo.
– Assustador? – perguntou Piko.
Miranda se levantou e tentou se aproximar do loiro.
– Eu sou a Miranda. – falou ela receosa – E você? Sabe quem é?
Piko encarou Miranda.
– Quem... Sou?
– Parece um bebê. – riu Miranda – Você é o Utatane Piko.
Piko franziu as sobrancelhas.
– Eu... Não... Sou... Um bebê. – reclamou o vocaloid – Eu... Sou... Utatane Piko?
Miranda riu novamente.
– Eu comprei um vocagochi. – falou Miranda – mas acho que o Gakupo da Letícia não fica do tamanho real.
Ela aproximou a mão do rosto do loiro. Era macia, como a pele de uma pessoa real. Mas... Era bastante gelada como a superfície de um metal.
– Você é bem estranho. – falou Miranda séria – Acho que não devo ficar com você, e sim devolver.
Piko segurou a mão de Miranda.
– Eu... Não... devolver... – falou o vocaloid – Ficar com você.
Era impressão de Miranda, ou o Vocaloid não queria ser abandonado?
– Tudo bem. Não chora. – falou Miranda afagando os cabelos do rapaz – mas o que você é? Alguma espécie de Android?! Você não veio com manual de instruções, sei lá?
Piko abraçou Miranda.
– Meu... Manual... É... Você. – sussurrou Piko.
Então ela sentiu uma descarga elétrica percorrer pelo seu corpo.
Miranda gritou. A dor era insuportável que a entorpecia.
Sua visão escureceu. Então desmaiou.
Miranda acordou deitada na cama e coberta pelos lençóis. Seu corpo todo estava dolorido. Ela se levantou e olhou no relógio: já era 12:00. Como pode dormir tanto tempo?
A porta se abriu. Piko entrara com uma bandeja nas mãos repleta de delícias.
Ele sorriu ao ver Miranda.
– Ah, acordou. – falou ele com sua voz robótica.
Então Miranda se lembra de tudo o que aconteceu.
E ela desmaia de novo.
Miranda acorda com tabefes no rosto.
– Você vai desmaiar toda vez que me ver? – resmungou o loiro.
Miranda gritou e se afastou de Piko.
– Você é real! – falou Miranda assustada – Você fala! Você resmunga!
Piko revirou os olhos.
– É claro que sou real. – falou o loiro – Yuko nos criou bem realistas para fazermos os shows.
– Mãe de quem? – perguntou Miranda surpresa.
Piko se sentou ao seu lado.
– Eu nem deveria falar isso pra você. Mas vou porque obriguei você a compartilhar o seu vocabulário e suas experiências comigo.
– Então, aquele choque...
– Mandei impulsos elétricos pelos seus neurônios para que eles mandassem as informações. – falou o vocaloid dando de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais comum que ele fazia – Por isso consigo falar com você normalmente agora. E que pensamentos você têm. Lembranças maravilhosas, e fantasias tão...
– Não precisa falar em voz alta. – resmungou Miranda vermelha.
Piko riu.
– Eu posso satisfazê-las, sabia? – ele sorriu sugestivo para Miranda.
A morena corou.
– Você existe a menos de um dia e já quer... – falou Miranda corada – Não! Primeiro, se apresente devidamente.
– Tenho que cantar? – perguntou Piko sem jeito.
– Não, besta, quero saber o que você é realmente! – falou Miranda.
Piko acariciou os cabelos.
– Bem... – o loiro acariciou os cabelos – Eu só me lembro da minha função. Mas como fui criado...
– Bem, humano você não é. – falou Miranda cruzando as pernas – Então, seria um Android?
– Sim. – falou Piko um pouco confuso – Humanos tem desejos carnais como comer fora do horário, dentre outros, e eu não sinto isso. Também não possuo sentimentos fortes. Seria desastroso, disse uma vez Yuko, se tivéssemos sentimentos.
– Tem mais de vocês? – perguntou Miranda surpresa.
– Sim. – falou Piko – Somos um grupo japonês, que eu não lembro o nome. Nossa função: Substituir os hologramas que eles usam nos shows.
Miranda prendeu o ar.
– Pausa. – falou Miranda – Então, esse tal de Yuko, deu vida aos Vocaloids?
– Isso! – falou Piko – Nos chamamos Vocaloid.
Miranda ficou branca.
– Então, você é o Utatane Piko oficial? – perguntou Miranda pasma.
– Sou. – falou ele sorrindo – Mas onde estão os outros? E o Yuko? Procurei por toda a casa e não os achei.
Miranda gela.
– É-É o seguinte, ô Vocadroid. – falou Miranda nervosa – Não estamos mais no Japão, se não percebeu.
– Bem, isso eu notei. – falou o android – Você usa a língua portuguesa para a comunicação. Se bem que percebi princípios de Inglês, Espanhol e Japonês na sua fala. Mas, se não estamos no Japão, então...
– Você tá no Brasil. – falou Miranda rindo sem graça – Tá bem distante de casa.
Piko abriu bem os olhos.
– O quê?????!!!!
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