Você sabe quem eu sou?
3 Capítulo 3 . Um louca realidade?
Capítulo 3. Uma louca realidade?
“No final da espera, eu espero que você esteja lá... ”1
Eu sentia os olhos de cada pessoa sobre mim. Por mais que tentassem disfarçar, todos naquela sala estavam curiosos para saber qual a minha relação com o jovem herdeiro do grupo Chunwoo, Yo Deok Hwa.
Com o cobiçado herdeiro do grupo Chunwoo.
Ele tinha o mesmo rosto das minhas fantasias, o que colocava em cheque anos de tratamento que me fizeram entender que eu tinha uma doença grave que me fazia imaginar coisas.
Aos vinte e cinco anos, o rapaz era o primeiro na linha de sucessão dos negócios da família e segundo rezava a lenda, estava sendo habilmente preparado para isso. Um excelente partido para qualquer família entregar a filha.
Para alguém como eu, que foi observada, analisada, estudada por tantos anos aquela situação era o meu inferno pessoal.
“Já nos conhecemos? ”
Não havia uma resposta adequada para aquela pergunta. O que diria? Então, querido, eu sou a noiva do seu tio duende. Renasci nessa vida e estou procurando por ele desde os nove anos.
Ele não precisaria ir longe para descobrir meu histórico psiquiátrico.
Usei um sorriso sem graça como resposta e me afastei.
Ocupando o lugar na mesa entre minhas amigas e tentei sinceramente desviar atenção sobre minha pessoa.
— Você trocaria de lugar comigo? — Deok Hwa solicitou a Eun-Ha que o obedeceu sem questionamentos, para o meu desespero.
E enquanto pegava o guardanapo, ele perguntou:
— Você é algum tipo de fã?
— Não. — Respondi e rezei para ser esquecida. Minhas preces, obviamente, não foram atendidas daquela vez.
Ele sorriu e ficou me encarando por um tempo indeterminado.
Se pudesse teria me afundado na cadeira ou me escondido sob a mesa.
Acredito que teria passado despercebida o resto da noite, se não fosse pela exagerada atenção do herdeiro Yu. Buscou incessantemente travar uma conversa, não se intimidando com as minhas respostas monossilábicas.
Logo ficou claro que a mãe de Yuna havia escolhido um candidato a genro e eu estava estragando seu plano. Depois daquele jantar, eu certamente não seria uma convidada recorrente.
—Você sabia que ele viria?
Perguntei a Yuna num sussurro tão logo pude.
— Claro que sim. Meus pais estão interessados nessa sociedade porque comecei a fazer perguntas sobre o herdeiro do grupo Chunwoo. Um casamento entre nossas famílias traria vantagens para os dois lados. Os cifrões brilharam nos olhos enquanto respondiam as minhas perguntas. É claro que vão aproveitar a oportunidade para me vender. Tudo o que eles querem é consegui um bom preço para mim.
— Entendo. — Falei com desânimo. Nada em minha vida era simples.
— O problema é que agora eles já sabem que a minha curiosidade era por sua causa e que você atraiu a atenção do genro dos sonhos deles.
— Você me usou! — Acusei.
— Não, eu estou ajudando você a descobrir os enigmas de sua vida... e nesse meio tempo me livrando de um problema.
E antes que eu pudesse encontrar uma resposta apropriada, o “problema” falou comigo.
— Você ainda não disse de onde nos conhecemos.
— Não nos conhecemos. Pelo menos não nessa vida.
Ele sorriu discretamente do meu comentário enigmático e insistiu.
— Você sabia meu nome.
Curioso, não me deixaria em paz enquanto eu não desse uma resposta que o satisfizesse.
— Você tem razão, tenho curiosidade pela genealogia de sua família. Na verdade, eu sabia o nome de um ancestral seu, que viveu no começo do século XXI e é muito parecido com você. Foi ele que eu reconheci.
— Meu avô, ele foi o primeiro Deok Hwa.
Meu coração disparou. Era a primeira vez que uma das minhas visões se confirmava.
“Nada que não possa ser confirmado numa rápida pesquisa na internet. De algum modo você teve acesso a essas informações e criou esse mundo imaginário.”
As palavras do doutor White surgiram em minha cabeça, refreando qualquer euforia que começasse a florescer.
— O que preocupa tanto você? Eu ainda não vou incluí-la na lista de stalkers que precisam ser observados por nossa segurança. Agora pare de hesitar e me responda, de onde vem tanto interesse por minha família?
Seu olhar sério, que eu jamais associaria ao antigo Deok Hwa, era uma mostra de sua personalidade observadora.
Levando o garfo a boca, tratei de mastigar enquanto pensava numa resposta adequada. Aquela seria uma grande oportunidade. Poderia falar abertamente sobre o meu problema. Contar sobre as minhas supostas memórias e então aquilo só poderia terminar de duas maneiras: ou ele diria que sim, havia um duende em sua família que estava esperando por sua noiva, ou ele conseguiria uma ordem de restrição e eu voltaria a terapia em dois tempos.
— Vi um artigo sobre vocês quando era criança, não me lembro exatamente onde, só que desde então tenho verdadeira fascinação sobre a história de sua família.
Mais uma vez me vi examinada pelo olhar inteligente do rapaz. Sabia que ele estava calculando se eu era ou não uma doida.
— Ainda há um tio recluso que é dono de tudo, mas deixa que terceiros cuidem de seus negócios?
Perguntei como uma última cartada. Aquilo era uma loucura, eu sabia. Não havia duende algum e mesmo que houvesse um tio, ele definitivamente não teria poderes especiais.
— E você diz que não é uma fã, mas sabe até mesmo sobre o meus antepassados excêntricos e reclusos.
— Ok, talvez eu seja uma fã.
Admiti sem encará-lo. Sentia sua atenção totalmente focada em mim, quase queimando minha pele.
— Minha família tem sempre um parente excêntrico e recluso. Uma tradição que parece se perpetuar de geração em geração. Faz parte do nosso charme. Quem sabe algum dia eu não apresente a você o recluso da vez?
— Eu gostaria muito! — Aceitei sem hesitar e meu visível interesse o fez arquear uma das sobrancelhas.
Percebi naquele momento que tão logo acabasse o jantar ele saberia cada pequena coisa sobre mim.
E eu estaria definitivamente na lista de pessoa que a segurança dos Yu deveria observar e afastar.
— Oi mãe.
Horas mais tardes, sob as cobertas, liguei para casa. Era um combinado que tínhamos quando eu ia passar a noite fora: eu nunca dormia sem falar com ela. Não que dormir fora fosse um hábito meu.
— Oi meu amor. Como foi o jantar?
— Bom, conheci o herdeiro do grupo Chunwoo.
O ruim de uma vídeo chamada é que poucas coisas podem ser escondidas nelas. Percebi como de repente minha mãe ficou tensa, ela estava sentada na cama, papai dormia ao seu lado. No entanto, recuperando-se rapidamente, inspirou fundo e perguntou com pretensa serenidade.
— E como foi?
— Normal. Ele não tem poderes ou qualquer outra coisa. É só um herdeiro pretensioso, com mais dinheiro que bom senso.
Percebi que o sorriso que ela me deu transmitia alívio.
— Então acabou?
— Sim. Eu acho que acabou. Não existe um duende, ou qualquer mistério fantasioso envolvendo os Yu.
— E como você se sente com isso?
— Um pouco aliviada. Um pouco triste. Foi uma fantasia bonita enquanto durou, apesar de tudo.
— Ah, minha Yeon Woo, deixar as fantasias para trás faz parte do nosso crescimento. Embora eu ainda ache que está cedo para você descobrir que a vida não é feita de sonhos, eu fico feliz por vê-la fechar outro ciclo.
— Eu também... mãe.
— Diga meu amor.
— Eu farei umas coisas estranhas nos próximos dias.
— Que coisas estranhas?
— Vou visitar todos os lugares de que me lembro.
— Você acha uma boa ideia?
— Eu acho que eu preciso aproveitar esse momento e fechar todas as portas.
— Quer que eu vá com você?
— Na verdade, eu quero ir com a Eun-Ha e com a Yuna. O que a senhora acha?
— Elas sabem?
— De tudo.
— Ok, mas você vai me chamar se acontecer algo errado, certo?
— Certo... mãe?
— Sim, meu bem?
— Eu não quero mais o controle parental em mim.
— Amor... é para a sua segurança.
— Eu entendo isso, mas eu não me sinto bem com ele. Acho que pelo duro que dei nos últimos anos, mereço um gesto de confiança.
— Eu sei que você merece Yeon Woo, mas...
— Eu quero me sentir como uma adolescente normal. Deixe apenas o controle de uma adolescente. Sem a monitoração de uma paciente psiquiátrica. Eu nunca ficarei bem se for tratada como alguém doente.
— Filha...
— Confie em mim. Só dessa vez, ok?
Todos os dias na semana seguinte, após as aulas, eu e minhas amigas exploramos a vida de Ji Eun Tak, ou o que parecia ter restado dela.
Em cem anos, muita coisa havia mudado. Lugares onde antes haviam casas, tornaram-se um mar de arranha-céus. Onde antes ficava a loja de frango frito que a Eun Tak trabalhou, havia um shopping. A biblioteca ainda funcionava, mas seu interior abrigava todos os recursos tecnológicos de nossa era. A livraria onde tantas vezes ela encontrou Kim Shin, agora era um prédio abandonado.
Apesar das diferenças, Yeon Woo conseguiu andar com desenvoltura pelas ruas que antes Eun Tak também andou.
Se tudo mais estava diferente, o casarão onde Eun Tak viveu estava exatamente igual a minhas fantasias. O impacto de vê-lo foi tamanho que meu coração doeu. E eu me vi sentada no chão, no meio da rua.
—Yeon Woo?! O que você está sentindo? — Perguntou Eun-Ha perguntou alarmada tentando sustentar meu peso.
Yuna, que estava petrificada com a minha reação, demorou um pouco para me auxiliar.
— Eu... eu... estou bem. — Balbuciei, mas não tentei me levantar. Minhas pernas trêmulas seriam incapazes de sustentar meu peso. Meu celular ligou-se automaticamente e eu escutei a voz desesperada de minha mãe.
— Yeon Woo? Yeon Woo?
Inspirando profundamente buscando me controlar, abri a bolsa e retirei de lá o aparelho.
— A senhora não retirou o controle parental.
— Querida, eu vi que...
— Eu estou bem, mãe. Apenas me esforcei mais do que devia. — Era melhor que contar para ela que quase tive um surto diante de um casarão antigo.
— Mas...
— Mãe, eu quero ter uma vida normal, mas nada disso será possível se cada vez que meu coração disparar, eu receber um telefonema seu desesperado.
— Yeon Woo, isso foi mais que um coração disparado. Segundo a análise...
— A senhora quer dizer que eu não tenho competência nem mesmo para saber o que eu estou sentido?
Usei palavras muito duras, eu sei... mas ter cada passo meu vigiado, cada atitude, sensação destrinchada, começava a me sufocar. Na medida do possível, eu estava bem e precisava que confiassem em mim.
— Eu sei onde você está, Yeon Woo.
— Claro que sabe. Eu avisei que viria.
— Eu acho que você não deve...
— Eu pensei que a decisão fosse minha.
Talvez, por perceber que eu logo estaria discutindo com minha mãe, Yuna arrebatou o celular das minhas mãos.
— Oi tia, é a Yuna, eu e a Eun-Ha estamos com a Yeon Woo. Não precisa se preocupar, estaremos atentas e qualquer coisa, ligamos para a senhora. — Houve uma pausa e entendi que minha mãe estava fazendo recomendações.
Num impulso infantil dei um tchauzinho irônico em direção aos céus. Sabia que naquele instante já estava sendo monitorada via satélite e que minha mãe assistia ao vivo tudo o que eu fazia.
— Eu conheço o dono da casa, tia. Vamos entrar um instante, deixar que a Yeon veja seu interior e logo em seguida, voltamos. Não precisava se preocupar.
Yuna ainda ficou alguns instantes no celular e então me devolveu.
— Não temos tempo, talvez meia hora até ela criar coragem e tomar qualquer medida. Vamos entrar?
— Entrar aonde?
— Onde mais?! Na casa do seu noivo!
Ia repreendê-la, mas não tive tempo.
— Eu devo ficar preocupado e chamar a segurança?
A pergunta surpreendeu nós três, que viramos e nos deparamos com Deok Hwa.
Para piorar a minha imagem diante dele, eu estava em frente a sua casa, sentada no chão.
— Por que você chamaria a segurança? — Yuna perguntou com a petulância que ocasionalmente era uma característica forte em sua personalidade.
— Bem, três garotas resolveram aparecer em minha casa sem convite. Uma delas tem fixação por minha família. Não percebe uma situação estranha aí?
— O que eu percebo são três adolescentes fascinadas por um homem bonito. Toda adolescente fica meio doida quando vê um homem bonito. — Rebateu Yuna sem se alterar. Às vezes eu queria ter a autoconfiança dela.
— Então, vocês estão aqui por causa da minha beleza? — Ele perguntou com um sorriso presunçoso.
— Ou pela beleza da sua fortuna. No fim, você é um pacote completo. Por que não nos convida para entrar e age com a elegância de um jovem herdeiro? Finja ser o príncipe que você não é. A Yeon Woo não está passando bem.
— Eu estou melhor. — Falei tentando me levantar, mas minhas amigas me seguraram pelos ombros, impedindo.
— O que ela tem?
— Apenas uma queda de pressão, caminhamos muito e ela não se alimentou muito bem. Depois você poderia fazer a gentileza de nos consegui um transporte seguro para casa.
Ainda havia desconfiança nos olhos de Deok Hwa e eu pensei que logo estaríamos sendo expulsas da propriedade, mas nos surpreendo, ele concordou.
— Acho que não há problema algum em deixa-las entrar por alguns instantes. Você consegue ficar de pé sozinha?
Foi como entrar numa viagem louca por minhas mais profundas alucinações. Se a entrada da casa era igual em minhas “lembranças”, seu interior não decepcionava. Aquilo só podia significar uma coisa: de alguma forma eu já estive naquele lugar. Talvez ele estivesse de algum modo relacionado ao trauma que eu suprimir muito bem de minha memorias.
E se alguém naquela casa me fez mal? E aquele tio misterioso...
Afastei meus pensamentos sombrios e tentei interagir com o anfitrião involuntário.
— É muito bonito aqui. — Falei num gesto amplo, tentando acalmar o meu coração.
— Meu tio tem um gosto impecável.
— Seu tio? — Quem ousou fazer a pergunta que ecoou em minha cabeça foi Eun-Ha.
— Sim, ele é o dono da casa. Vivo com ele.
Eu sentia o bolo crescer em minha garganta.
— E onde ele está? — Yuna perguntou, após olhar para mim de relance.
— Quem pode saber? Faz alguns meses que se mudou. Ele tende a desaparecer por uns tempos. Seja como for, quando for preciso ele volta.
— Seus moveis são antigos. — Falei, enquanto tentava me esforça para ir além das lembranças fantasiosas. Algo aconteceu comigo naquele lugar, algo tão denso, que preferi criar uma ilusão fantasiosa de uma outra vida a ter que encarar a realidade.
— Meu tio tem muito interesse pelo passado... artes, músicas, literatura. É um tipo excêntrico e solitário, mas você já sabe, em cada geração de minha família surge alguém assim.
Eu teria feito mais perguntas se a campainha não houvesse tocado de repente.
Olhei para o anfitrião com um pedido de desculpas mudo em minha face e informei.
— Deve ser minha mãe.
— Entendo, então vamos recebe-la antes que pense alguma besteira.
Nos dias seguintes fiquei sobre vigilância severa. O relacionamento, que sempre foi ameno com minha mãe, estava estremecido. Quando não suportei mais a pressão exercida por ela, liguei para o doutor White.
— E você se sentiu confortável visitando esses lugares?
— Algumas coisas são iguais a minhas fantasias, outras perfeitamente diferentes.
— E o que você pensa sobre isso?
— Que eu me esforcei muito para menti para mim mesma e eu preciso saber o motivo.
— Entendo e concordo com você, mas seja cuidadosa. Entrar na casa de um desconhecido quase nunca é uma boa ideia.
— Não era um desconhecido e eu não estava sozinha. Mamãe está exagerando. E tem me sufocado com sua superproteção.
— Sei. Irei conversar com sua mãe.
— Obrigada.
— Pode ligar sempre que precisar, mas não seria melhor você procurar um dos colegas que indiquei?
— Eu confio em você!
— Entendo... muito bem, ligue sempre que precisar. Se não puder atender, retorno depois.
Por algum tempo, pude ser eu mesma: Yeon Woo, uma jovem de 18 anos (em idade coreana)2, estudante secundarista que precisava começar a pensar no vestibular. Meus pais estiveram apreensivos no primeiro momento com minha súbita busca por identidade e autonomia, afinal, por tantos anos tudo o que fiz foi tentar conter a mim mesma, essa pessoa agora, que tentava tomar as rédeas da própria vida os assustava.
— Você não precisa ter tanta pressa, querida. — Meu pai me disse certa vez.
— Eu já perdi tempo demais.
O sorriso de orgulho dele me reconfortou. Ele era muito mais acessível que minha mãe nesse sentido. Aceitava que eu teria minha própria vida e um dia tomaria minhas próprias decisões. Melhor que isso, ele acreditava em mim. Sempre acreditou que eu seria capaz de encontrar o meu caminho.
Por isso, com seu incentivo e apoio, quase um mês após aquela conversa, eu embarcava para o Canadá em uma excursão do colégio.
— Logo estaremos em Quebec. Você acha que está pronta para isso?— Perguntou Eun-Ha excitada.
Por mais que tentasse convencer minhas amigas que as "memórias" de outra vida era uma fantasia para esconder um trauma passado, elas preferiam acreditar nas fantasias.
— Eu não acredito que seu namorado seja um duende, mas por conta de tantos detalhes que se encaixam tão bem que é impossível que você não esteja destinada a amar alguém de forma mágica nessa vida. Você só precisa descobrir quem ele é.
— Eu estou destinada a amar alguém, é óbvio, mas isso não é mágica, é a vida.
— E porque a vida não pode ser mágica?
O que posso dizer? Apesar das posturas moderninhas, minhas amigas eram duas românticas incuráveis. Eu nunca poderia ir contra elas por conta disso, mas também não poderia me deixar levar por elas.
Entrei no avião para o Canadá carregando uma mala de recomendações. Sabia que minha mãe seguiria remotamente cada movimento meu. Por mais que tenhamos negociado minha “liberdade”.
Infelizmente para ela, minhas amigas tinham anos de experiência em burlar o controle de seus pais.
— Fora da Coreia, ela só pode monitorar você pelo celular e embora ele seja capaz de emitir dados até mesmo de seus sinais vitais, esse programa que instalamos para você, vai mandar informações falsas previamente configuradas. Mesmo que ela tente localiza-la via satélite, uma projeção de sua imagem aparecerá na tela dela, no local onde você deveria estar.
Preciso dizer que as vezes ficava assustada com as coisas que aquelas criaturas eram capazes?
Infelizmente, eu não compartilhei da alegria e entusiasmo delas com Quebec. Cada passo que dava, parecia uma agulhada em meu coração. Eu reconhecia os lugares, os cheios, as cores. Tudo ali era tão familiar que a muito custo contive as lágrimas.
Um tanto apreensiva, esperei a ligação de minha mãe, mas ela não veio. Eu estava só, com meus pensamentos, com meus sentimentos... e isso foi um alívio. Sofrer em silêncio, sozinha, sem ter que me preocupar em esconder minhas emoções para não causar o sofrimento alheio era um presente.
Nos hospedemos no hotel do grupo Chunwoo. Estar ali me trouxe o entorpecimento, o zumbido em meus ouvidos, a sensação de caminhar por um terreno instável.
— A nossa tarde é livre, você que conhece bem a cidade, o que acha que devemos fazer? — Perguntou Yuna sentando-se em minha cama. Eu compartilharia, obviamente, o quarto com ela e a Eun-Ha.
— Vamos só andar por aí. Como se não conhecêssemos nada. Vamos ser apenas três estudantes num país estrangeiro pela primeira vez. Vamos apenas sair, paquerar rapazes bonitos, comer algo delicioso...
Senti minhas amigas atentas em mim. Eun-Ha, a mais sensível de nós, foi a primeira a quebrar o silêncio.
— E tem coisa melhor para se fazer? O que estamos esperando?
Tiramos milhões de fotografias, andamos pela cidade, paqueramos rapazes bonitos, desse modo eu quase pude ignorar as emoções que me invadiam a cada esquina, e foi exatamente ao virar uma esquina que eu o avistei. Passava do outro lado da rua, um buque de flores numa mão. Um livro na outra. Eu havia esquecido o quanto ele era bonito. Alto. Elegante.
— Yeon Woo? Você está bem?
Olhei para as minhas amigas que estavam alguns passos adiante e percebi que havia paralisado e me apoiava contra a parede. Desviei o olhar dele por apenas um momento, para olhar para elas e quando o procurei instantes depois, havia ele havia desaparecido. Foi demais para mim. Tudo o que precisava para que as lágrimas que havia retido desabassem.
Yuna me abraçou, perguntando o que aconteceu, mas eu não conseguia falar, apenas soluçava.
Mais tarde no quarto do hotel estávamos as três deitadas precariamente em minha cama. Eu ainda estava angustiada, mas era uma sensação doce. Era a primeira vez que elas viam uma das minhas crises... e não foram embora, ao contrário, ficaram comigo até eu me acalmar, me protegeram dos olhares curiosos e sem alarde me levaram de volta ao quarto.
Sem perguntas, ficamos ali, vendo o tempo passar.
Então, era isso: eu já não estava sozinha.
— As lembranças ficaram vívidas demais. — Expliquei quando me senti confortável.
— E se ele for um fantasma? — Yuna sugeriu e eu sorri, lembrando de minha avó. — Eu estou falando sério. Pode ser alguém que te amou muito numa vida passada e que não consegue se libertar nessa vida.
— Eu já passei por todos os tipos de exorcismos que você possa imaginar.
— Não digo isso. Minha mãe conhece uma xamã muito boa. Ela pode encontrar uma noiva para o falecido...
— Não! — Respondi prontamente e então percebi que fui agressiva demais. — Desculpe, mas eu já conheci mais xamãs do que qualquer pessoa deve conhecer numa só vida. Passo!
Expliquei querendo que ela acreditasse que era só isso, mas não era. A ideia que o Kim Shin, fantasma, duende, ou ser humano se casasse que qualquer outra, era inconcebível.
— Não seja tão cabeça dura e não responda tão rápido. Analise a possibilidade com calma e quando estiver pronta, pode falar comigo que a gente resolve isso em dois tempos.
— Obrigada, agora se vocês não se importam, eu gostaria de dormir um pouco.
— Mas ainda é cedo!
— Eu sei, mas foram muitas emoções para mim... não estraguem a viagem de vocês por minha causa. Eu vou me sentir péssima se isso acontecer.
— Você não está estragando nada. Ainda temos três dias inteiros, podemos...
— Saiam, por favor. Eu quero apenas dormir e vou ficar mal se vocês ficarem nesse quarto de hotel apenas por minha causa.
— Tem certeza?
Elas ainda resistiram um pouco, mas no fim, acho que perceberam que tudo o que eu queria era um pouco de solidão.
Em agonia, me obriguei a esperar cinco minutos contados no relógio após a saída de minhas amigas, só então deixei o quarto.
Segui pelas ruas tão conhecidas, tentando acalmar meu coração e aceitar que ele poderia não estar ali. Eu não tinha pressa, andava lentamente, deixando que as lembranças que reprimi por tanto tempo encontrassem vasão na enxurrada de sensações que me dominavam. Passei por dentes-de-leões, colhi um recordando que um dia fiz o mesmo.
Eu tinha medo. Sabia que minha vida mudaria para sempre depois daquele dia. Eu mergulharia profundamente naquela loucura e deixaria o passado no passado.
Não foi difícil encontrá-lo, ao contrário: embora meu olhar vagasse por todo o caminho, numa tentativa de avista-lo, se passasse por mim, ele estava lá, sentado ao lado de seu próprio túmulo.
“Eu o encontrei”.
Disse e soprei a flor, vendo ela se desfazer no ar e voar em direção a ele, enquanto lembrava de uma conversa que tivemos um século antes.
“Não tem nada triste o suficiente para sofrer por quase mil anos. E não existe amor que dure mil anos também. ” Ele me disse.
“Eu aposto que tem”. Respondi.
“No que exatamente você está apostando, exatamente? Na tristeza ou no amor? ”
“Num amor triste. ”
E se meu amor triste fosse o produto de uma mente perturbada?
Mas ele virou e viu, como se tivesse percebido minha presença. Levantou-se, mas ficou no mesmo lugar, com uma expressão chocada na face.
Eu criei coragem e me aproximei lentamente, com medo que qualquer movimento brusco o fizesse desaparecer no ar, mas isso não aconteceu.
— Ahjussi. Você sabe quem sou eu. Não sabe? — perguntei, parada a sua frente, tentando sorrir, mas sentindo as lágrimas se formarem.
Ele sorriu de volta, mas também havia lágrimas em seus olhos.
— A primeira e última noiva do Goblin.
Sorrimos entre lágrimas e como tolos apaixonados, nem mesmo conseguimos nos mover de pronto. Eu sabia que era hora de descobrir se eu era uma louca ou não, mas tocá-lo seria o fim e o começo. Talvez o fim de uma ilusão.
— Eu senti sua falta, Ahjussi.
Criei coragem e o abracei.
“Ele é real!”
O coração batendo forte contra meu ouvido, era muito real.
— Eu também. — respondeu, abraçando-me forte.
Senti suas lágrimas caindo em meu rosto e me afastei para olhá-lo.
— Não chore, Ahjussi, o dia está bonito.
Ele sorriu antes de me puxar de volta para seu abraço.
— Hoje não vai chover.
Confusa, busquei seu rosto com os olhos e perguntei.
— Por que não?
— Porque hoje eu estou feliz.
Ficamos abraçados ali, sem nos importar com as pessoas que passavam, indiferentes a nossa felicidade. Sem terem noção da magnitude de nosso encontro.
— Eu passei por tanta coisa para estar aqui, Ahjussi. Você não sabe como foi triste esperar por você.
Ele riu.
— Você não mudou nada, ainda tem uma história triste para contar em qualquer situação. Seu gosto por carne também não mudou?
Nosso restaurante favorito ainda funcionava. E isso me deixou muito feliz.
— É como se o tempo não houvesse passado.
Ele me olhou com tristeza. Eu sabia o motivo: passou muito tempo e foi uma espera longa. Não querendo trazer assunto tristes ao nosso reencontro, tentei conversar normalmente. — Estou feliz que após tanto tempo esse lugar ainda esteja como antes.
— Há quarenta anos ele fechou as portas. Comprei o prédio e o reabri.
Olhei para ele comovida.
— Ei menina boba, não vamos chorar hoje.
— Não vamos. Você ainda precisa se segurar?
Percebi pelo olhar dele que ele entendeu minha pergunta.
— É claro que preciso, nossa situação agora não é a mesma. Eu sou um homem na casa dos trinta e você, uma colegial fardada. Talvez as pessoas não estejam prestando tanta atenção em nós porque parecemos parentes, mas isso vai mudar se eu começar a agir como seu namorado.
Olhei para ele um tanto decepcionada. Ele estava certo. Ainda assim, precisei confessar.
— Eu senti falta de abraçar você enquanto durmo...
Ele se mexeu incomodado em sua cadeira.
— Senti falta de seus beijos...
O vi piscar repetidas vezes e sabia que ele começava a ficar desconcertado.
— Quer parar de falar sobre isso, garota suja? Nosso ritmo agora precisará ser mais lento. Você é uma colegial.
— Eu sou uma mulher casada.
— Isso foi em outra vida, precisaremos recomeçar.
Aquilo me irritou. Eu passei uma vida inteira esperando. Sofrendo com essa espera e agora ele pedia que eu esperasse mais?
— Então eu devo viver normalmente minha vida adolescente, talvez sair com vários caras e quanto estiver na idade ideal voltar para você.
Vi a raiva brilhar nos olhos dele e até mesmo uma espécie de nevoa azul pareceu envolve-lo, mas não me deixei intimidar.
— Ji Eun Tak!
— Kim Yeon Woo. Meu nome ágora é Yeon Woo. Sou uma garota solteira que vai ter vários namorados!
Nos encaramos numa quebra de braços silenciosa.
— Senhor Kim, que prazer tê-lo conosco. Quando soube que o senhor veio comer conosco fiz questão de vim cumprimenta-lo. Como o senhor tem passado?
Sabe antipatia à primeira vista? Foi o que senti quando vi aquela criatura pegajosa que era a chef do restaurante. Soube naquele instante que eu não apreciaria a comida. E ainda para minha completa indignação, o meu Kim Shin sorriu para ela. Isso mesmo, o homem que não sorria nunca, estava ali todo risonho para aquela fulana.
— E essa menininha. É sua sobrinha?
Sei que o sorriso que dirigi a meu marido foi amargo, mas ou eu fazia isso, ou daria uma resposta malcriada a aquela lambisgoia.
— Ela é uma amiga da família que está visitando...
— Eu sou a namorada dele... vamos nos casar quando eu tiver idade. Nossas famílias já decidiram.
A chef olhou para mim chocada. Eu me senti vitoriosa... por meio segundo.
— Releve, isso é conversa de criança...
Voltei para o hotel pisando duro. Isso mesmo. Estava tão irritada que deixei o restaurante, o meu marido indecente e a chef mocreia para trás.
Kim Shin ainda tentou me seguir, mas após dois gritos meus, ele entendeu que deveria manter uma distância segura.
Em meu quarto ainda pude vê-lo sob a minha janela, mas no ato de birra simplesmente a fechei.
Eun-Ha havia deixando uma vela perfumada acessa em meu quarto, para que eu descansasse. Em minha pressa para ir encontrar meu marido safado, esqueci de apagar. Num acesso de raiva, soprei a chama que violência e quase morro do coração ao me virar.
— O que você faz aqui?
— Você me chamou.
— Não chamei.
— Chamou sim, a chama.
— Eu passei os últimos nove anos tentando chamar você e nunca consegui. Por que logo agora?
— Você tentou chamar por mim?
— Claro, enquanto eu estava agindo como uma doida procurando você, você andava por aí, com suas amiguinhas.
— Eun Tak...
— YEON WOO! YEON WOO. YEON WOO! MEU NOME AGORA É YEON WOO!
Ele me olhou surpreso e então riu. O desgraçado ousou rir de mim. Juro que não pensei duas vezes, me atirei sobre ele, batendo com os punhos fechados em seu peito. Ele não precisou de muito esforço para me imobilizar e me beijar.
Sei que deveria ter lutado mais, porém eu sentia tanta falta de seus carinhos que retribuir seu beijo com toda a saudade que sentia.
— Yeon Woo?
A voz alarmada de Yuna me alcançou. Interrompemos o beijo e olhamos para minhas amigas.
— Tudo bem, meninas. Ele é meu marido.
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