Você Sempre Esteve Em Mim
86 Capítulo 86 - Aqui sem você...
Notas iniciais
Quinn sempre pensou que todos os sentimentos poderiam ser explicados, mas desde que Rachel se tornou claramente o seu amor, nada mais tinha explicação. As coisas só se explicavam sentindo e sentimentos eram sempre um problema para ela. A sensação da separação era sufocante e fez a loira se lembrar de quando tinha 8 anos de idade e estava de férias com a família, na Flórida, e se afogou por conta de uma onda forte que a levou para o fundo do mar. Seus pulmões se encheram de água e a força da correnteza a empurrava cada vez mais para baixo. Lutar contra aquilo parecia impossível. Não havia força suficiente, até o momento em que faltou esperança. Ela já estava quase desmaiando quando foi puxada por alguém e, da areia, pôde entender que em alguns momentos a vida te surpreendia. Em alguns momentos, quando tudo parecia estar se acabando, uma reviravolta trazia a melhora, a calmaria, a luz... O contrário também era verdade. Da perfeição de seu relacionamento com Rachel, agora ela sentia o sufoco de não saber respirar. Como se estivesse sendo levada pelas ondas fortes novamente, submersa em águas infinitas... Seus pulmões já não sabiam para que serviam... Eram inúteis. A vida parecia inútil...
Quinn estava sentada no chão, com as pernas esticadas, encostada no móvel da TV, enquanto tinha Rachel à sua frente, sentada no sofá, encarando-a de modo a buscar uma compreensão que não vinha. Quinn, simplesmente, não sabia como começar a entender. Estavam há mais de trinta minutos sem dizer uma palavra sequer. O choro desesperado de Quinn havia se transformado em um silêncio perturbador. A impressão que Rachel tinha, era de que a loira estava repassando toda sua vida em sua mente naquele momento. E ela não estava errada. Na cabeça de Quinn, tudo o que ela via eram as perdas que já sofreu. Enumerava mentalmente cada uma e tentava encontrar uma resposta científica que pudesse explicar o porquê de ninguém conseguir permanecer em sua vida por muito tempo. Mais de uma hora depois de terem começado a fatídica conversa, a ausência de arrependimento de Rachel fez Quinn entender que estava sozinha outra vez:
Q: Eu posso pedir à Santana que pegue minhas coisas no seu apartamento? [perguntou de repente, com a voz quase inexistente, surpreendendo Rachel. Principalmente pelo que falou]
R: Você não precisa fazer isso agora... [disse triste, mas firme]
Q: Você fez! Não faz sentido eu manter minhas coisas lá se as suas coisas não estão mais aqui. [disse apática]
R: Isso não é um término, Quinn...[tentou manter-se calma]
Q: Parece um término... [ergueu o olhar desamparado, fazendo o coração de Rachel se quebrar]
R: Mas não é...
Q: Eu vou te ver todos os dias? [perguntou apática]
R: A intenção é que não veja... [respondeu temerosa]
Q: Eu vou falar com você todos os dias? [mantinha a apatia]
R: A intenção é que não fale... [disse sabendo onde Quinn queria chegar]
Q: Se a gente não se fala e nem se vê, o que sobra? Não sobra nada. Nada... [concluía dolorosamente]
R: Isso não é fácil pra mim, Quinn! Eu não sei o que vou fazer para aguentar ficar longe de você. Para aguentar não atravessar esse corredor no meio da noite e me enfiar na sua cama. Como eu vou conseguir ficar sem ouvir sua voz... Não pense que só você está sofrendo, porque eu também estou. [dizia com a voz embargada]
Q: Mas você decidiu isso. É uma decisão sua! [havia irritação em sua voz]
R: É necessária! Por favor, entenda que você precisa de espaço. Que você precisa arejar sua cabeça. Que você precisa enxergar as coisas fora da ótica do “nós”, para enxergar sob uma ótica individual.
Q: Você percebe que está me punindo por te amar? [perguntou desafiante]
R: Não é isso... [defendeu-se triste]
Q: É exatamente isso! Se eu estivesse querendo ir embora, você pensaria que eu não te amo o suficiente. Como eu te amo muito e prefiro ficar com você a ir embora, estou sendo punida por isso. E sabe o que vai acontecer? Você estará ocupada em NYADA, e vai ter muita coisa no que pensar. Pode ser que você sinta minha falta...
R: Pode ser não! [interrompeu] É claro que eu vou sentir! Já estou sentindo...
Q: Certo. Você vai sentir minha falta no começo e então você vai se acostumar... Quando você se acostumar, concluirá que poderá continuar sem mim e, no fim, nunca voltaremos... [concluiu com a voz trêmula e falha]
R: Isso não é verdade! [protestou]
Q: Pague pra ver! [desafiou]
R: Você está sendo cruel! [irritou-se] Não me transforme na vilã. Eu não estou fazendo isso pra te magoar. E quem garante que não será você a que vai se acostumar e não querer mais voltar?
Q: Ninguém pode garantir isso, não é?! Mas sabe, Rachel, neste segundo, tudo o que eu queria era perder a consciência. Queria ficar desacordada, desligada do mundo, por muito tempo, ou pra sempre... [as lágrimas voltaram a inundar seu rosto]
R: Não fala isso!
Q: Porque eu não saberei enfrentar os dias sem você... [seu olhar era imensamente triste] Eu vou acordar, comer, dormir, ler e até rir... Mas será automático. Apenas automático...
R: Pare com isso! Você não pode fazer isso comigo! [chorava] Você está me jogando um peso que eu não posso carregar. Uma culpa que eu não vou aguentar. Se eu fico com você, eu me sinto culpada pelas coisas que você perde por minha causa. Se a gente dá um tempo, eu me sinto culpada por como você vai se sentir...
Q: E como você quer que eu me sinta? Você quer que eu diga que entendo? Que está tudo bem? Que eu agradeça o fato de que a partir de hoje não estamos mais juntas?
R: Não estamos terminando, Quinn! Você ainda é minha namorada.
Q: Eu posso buscar seus braços para me sentir bem num dia ruim? Agora, por exemplo?
R: Não faz isso... [pedia, sabendo que, novamente, Quinn ia chegar a uma conclusão triste]
Q: Se eu não posso contar com você, não vejo como isso pode significar que ainda estamos juntas.
R: Não fala assim... [chorava]
Q: Como eu vou ficar sem você? Me diz... [a voz voltava a falhar em razão das lágrimas que ficavam mais intensas]
R: Quinn, por favor... [fechou os olhos e respirou fundo]
Q: Não. Só me ajude! É um pedido de ajuda sincero! Me faça encontrar uma saída. Se eu terei que ficar sem você, me diz como eu vou fazer isso? [o choro era doído] Me diz como eu vou conseguir dormir sem você? Me diz como eu vou conseguir atravessar um dia inteiro sem ouvir sua voz? Como eu vou dormir se eu sinto seu cheiro na minha pele? Se basta eu fechar os olhos e consigo sentir o sabor do seu corpo em minha boca... Me diz! Como eu posso abrir mão de você se é você quem me faz feliz? Por que é tão difícil pra você entender que nada mais faz sentido pra mim se eu não tiver você comigo? [soluçava de chorar]
R: Isso faz você não pensar direito... [abriu os olhos chorosos]
Alguns segundos, que mais pareceram horas, foram necessários para que Quinn organizasse um pouco a bagunça em sua mente antes de respirar fundo e voltar a falar:
Q: Quer saber? Até eu preciso aceitar a hora de parar... Eu sei que deixei claro que você é mais importante pra mim do que qualquer coisa, mas se você não entende isso, eu já não sei o que fazer... Eu já tenho que aprender a lidar com a sua falta... E isso já é demais pra mim, porque eu não faço ideia de como fazer isso. Tudo o que eu quero fazer agora é implorar até perder o ar para que você não me deixe. Mas eu já não consigo fazer isso... Eu não sei como me sentirei depois de pedir até a exaustão e continuar recebendo o seu não. Então, se você acha... se você quer esse tal tempo, eu não posso fazer nada. Você é livre para fazer o que quiser. Livre pra me deixar... Eu só queria dormir e acordar apenas quando isso acabar... Se isso acabar... [olhava para Rachel com um olhar suplicante, ferido, sofrido]
Antes que Rachel pudesse pensar em dizer alguma coisa, a porta se abriu e as vozes animadas de Santana e Kurt invadiram o apartamento. Mal entraram e logo perceberam o clima pesado entre as amigas:
S: O que houve aqui? [perguntou preocupada]
Santana não recebeu uma resposta verbal, apenas o olhar despedaçado de Quinn, como se pedisse ajuda. Não precisou de mais nada e a latina entendeu:
S: Talvez seja melhor você levar a Rachel daqui, Kurt... [disse calma]
A morena se levantou por conta própria e encarou Quinn por alguns poucos segundos. A intensa troca de olhares já não dizia mais nada. Havia muitas dúvidas, muito cansaço e tudo misturado as deixou sem uma expressão definida. Era tudo um borrão. Rachel saiu rápido, com Kurt em seu encalço. A batida da porta do 110 doeu em Quinn. A loira fechou os olhos e procurava forças para se levantar do chão. Santana não quis pressionar e apenas esperou a amiga se sentir preparada para falar. Sentou-se ao seu lado e deixou que soubesse que estava ali. Alguns minutos haviam passado e o silêncio permanecia, até que Quinn conseguiu se expressar:
Q: Acabou... [disse com a voz quebrada]
S: Como assim acabou? [sentia a dor da amiga]
Q: Ela terminou comigo. Do nada. Dizendo que eu preciso de espaço para tomar decisões sem que ela me atrapalhe... [falava quase anestesiada]
S: O que eu posso fazer por você, Q?
Quinn respirou fundo. Apertou os olhos e respirou mais uma vez. Sentiu que ia desabar novamente:
Q: Não me deixe sozinha. Por favor! [voltava a chorar intensamente] Por favor, não me deixe sozinha!
Santana a abraçou forte. Sentia os tremores do choro da amiga em seu corpo. Nunca tinha visto Quinn chorar dessa maneira. Era um choro completamente diferente dos tantos que ela consolou, incluindo os do acidente. Esse choro estava carregado de uma dor profunda, de quem sentia um vazio maior do que si mesmo...
S: Eu não vou deixar... Calma, Q! Eu estou aqui... [tentava acalmá-la]
Q: Por que ninguém consegue ficar comigo? Por que todos me abandonam? Frannie, meus pais, Beth... A vida não me deixou ficar com ela... [chorava]
S: Sua mãe está do seu lado agora.
Q: Até quando?
S: Sua irmã não te abandonou, Q. Ela foi estudar fora... E eu estou aqui. Desde sempre estive e nunca te deixei... Nem vou deixar. [dizia firme]
Q: Ela me deixou, S! Ela me deixou... [chorava ainda mais] O que eu fiz de errado? Estou pagando pelos meus pecados? É isso? [olhou-a nos olhos]
S: Pára, Quinn! Não pensa assim. Tenta ficar calma e vamos ver como as coisas serão amanhã.
Q: Amanhã... Eu não quero enfrentar o amanhã, S! Pra que insistir em tentar ser feliz se eu nunca vou conseguir?
S: Não pensa assim, Q! Por favor!
Santana não sabia quanto tempo fazia que estavam caladas novamente. Quinn havia fixado o olhar num ponto qualquer da sala, como se naquele ponto ela encontrasse o que precisava para tentar se manter de pé. Pouco tempo depois, a loira se levantou, forçando Santana a se levantar também.
Q: Eu vou... Eu quero deitar... eu... Não quero ir pro meu quarto, S. Eu poderia...
S: Claro! Vamos para o meu! Vem...
Não havia mais nada a se dizer naquela noite. Quinn estava exausta, completamente confusa. Sem entender como chegou naquele ponto em que Rachel pedia um tempo. Tempo... Como se isso a fizesse se sentir melhor... Como se a promessa de ser algo temporário pudesse preencher seus dias vazios. Enfim a loira entendeu o que significa a sua dependência de Rachel. Era como respirar. Mas seus pulmões já não sabiam mais...
Quando Rachel atravessou o corredor, sentiu-se como se estivesse caminhando numa corda-bamba sobre um penhasco. A sensação de que cairia era gigantesca. Poucos passos dentro do apartamento e desabou. O choro intenso fez Kurt se preocupar mais do que já estava. Rachel soluçava, sem conseguir falar nada. Sentou no sofá e levou as mãos à cabeça, tentando se ajudar. Era uma sensação terrível a de ter magoado alguém... de ter magoado a pessoa que mais ama... Não havia adjetivo que pudesse caracterizar a dor da morena. Kurt lhe buscou água e tentou entender o que havia acontecido, mas sabia que ela não tinha condições de falar. Faria quando pudesse. Faria quando quisesse. Após um longo tempo, ele alisava os cabelos dela, que deitada em seu colo, tentava parar de chorar, sem conseguir...
R: Eu disse que queria um tempo e vi nos olhos dela que havia partido seu coração... Eu a magoei, Kurt! Eu só quero fazer o que acho certo. Eu só quero que ela tenha a chance de se sentir realizada profissionalmente, como eu quero pra mim. Não é justo eu estar aqui, realizando meu sonho, impedindo que ela tenha seus próprios. Eu peço a Deus que eu esteja fazendo a coisa certa, porque essa dor que sinto está me dilacerando. E se está assim em mim, está assim nela.
Kurt não dizia nada. Estava ali para o que ela precisasse. Naquele momento, ela só precisava desabafar.
R: Ela pensa que eu não a amo como ela me ama! Neste momento, ela deve estar se questionando e questionando o meu amor... Eu não sei o que fazer sem ela... Eu estou perdida, Kurt! Estou desnorteada... Dói demais! Dói demais... [chorava ainda mais forte]
Quinn se encolheu na cama de Santana, chorando baixinho, enquanto a amiga a abraçava!
S: Vai ficar tudo bem, Q! Vai ficar tudo bem... [sussurrava]
Q: Eu não quero acordar, S! Eu não quero acordar e ver que terei que aceitar que não estou com ela. Como isso aconteceu? Por que isso está acontecendo comigo?
S: Dorme, Q! Se desliga um pouco e dorme...
Enquanto Rachel era consolada por Kurt, tentava se convencer de que havia tomado a decisão certa, pensando no futuro de Quinn e da relação das duas. Mas o que a morena deixou de lado foi a preocupação com o presente. E como Santana já havia avisado, Quinn não poderia ser quebrada outra vez. Algumas coisas não têm conserto... Nem volta...
Notas finais
Mais drama neste... Mas garanto que nos próximos haverá um clima bem menos pesado.
Faltam poucos capítulos para essa fase acabar. Não vou dizer agora(claro!) se elas ficarão juntas logo, se Quinn vai ficar ou vai embora. Mas posso dizer que ainda haverá beijo e outras coisinhas mais... ;)
Não me odeiem e continuem confiando.
Beijos!
Fale com o autor