Você Sempre Esteve Em Mim

87 Capítulo 87 - Fênix...


Notas iniciais
Música do Capítulo: Audioslave - Gasoline

Santana havia descido ao café apenas para reabastecer a mesa da cozinha. Precisava ter sempre alguma coisa pronta, pois toda sua atenção estava voltada a cuidar de Quinn. A loira já estava há 6 dias em silêncio absoluto. No primeiro dia pós-término, acordou apenas no fim da tarde e logo se forçou a dormir novamente. Santana ainda conseguiu fazê-la tomar banho, mas comer estava sendo uma tarefa quase impossível. Quinn podia estar sem falar, mas ainda chorava. Silenciosamente. Mas chorava... E dormia.

Rachel vivia exatamente a mesma coisa. Entregou-se totalmente à cama, dormindo o máximo que podia. Tudo o que queria era voltar atrás. Atravessar o corredor e pedir para Quinn esquecer o que tinha acontecido. Chorava baixinho e se recusava a comer. A clausura de seu quarto tinha se transformado no lugar onde se enchia de lembranças da loira, do cheiro em sua cama, dos livros ainda espalhados por ali. Kurt agia tal qual Santana, e se correspondia com ela o tempo inteiro, por mensagens. Aproveitavam quando as duas estavam completamente dormidas e se encontravam na fronteira (corredor) para tentarem dividir informações que pudessem ajudá-las. Faltaram às aulas para ficar ao lado delas...

Santana entendia a decisão de Rachel, assim como entendia a dor de Quinn. Sabia que não estava sendo fácil pra morena, mas achava que a decisão deveria ter sido menos dolorosa, menos drástica e por que não, trágica?! Voltava ao apartamento com os cafés e bolinhos, tentando equilibrar tudo enquanto abria a porta. Deparou-se com Quinn acordada, escrevendo no quadro que mantinha para fazer anotações no quarto. Tinha colocado na sala e rabiscava pacientemente palavras que a latina estava curiosa para entender:

S: Q? Que bom que você acordou! [sorriu suavemente]

Q: Acho que dormi demais já... [devolveu o sorriso]

S: Está tudo bem? [perguntou estranhando o fato de Quinn estar falando e, principalmente, por ter devolvido o sorriso]

Q: Tenho que estar... [respondeu naturalmente]

S: O que você está escrevendo? [perguntou se aproximando do quadro]

Ao se aproximar, Santana pôde ver as palavras postas uma sobre a outra: “Entorpecimento”, “Anseio e Busca”, “Desorganização e Desespero” e “Recuperação e Restituição”. Franziu a testa e tentou entender o porquê de Quinn tê-las escrito. Não precisou perguntar:

Q: Luto. Essas são as fases do luto, segundo Freud... [disse calmamente]

S: Isso é mórbido, Quinn! [olhou-a com estranheza]

Q: Não. Não é... [deu um sorriso fraco]

S: E por que você escreveu isso? [perguntou confusa]

Q: Estou chegando a uma conclusão. [respondeu baixo, voltando às palavras, traçando padrões gráficos ao redor delas. Quinn estava calculando suas dores. Tornando científico o seu sofrimento]

S: Como assim? [perguntava completamente confusa]

Q: Essas fases [apontava para cada uma delas] duram determinado período de tempo. É normal passar de uma à outra, nesta ordem. Ou simplesmente viver uma ou algumas, sem precisar completar o ciclo com precisão. [explicava calma]

S: O que você está tentando dizer?

Q: Que eu vivi todas! [olhou-a tranquila] Nos últimos dias eu vivi as sensações das quatro fases do luto, misturadas e desordenadas. De alguma forma, eu vivi todas. E o normal seria tê-las vivido em um período de tempo muito maior. Rachel me faz sentir tudo muito mais forte, muito mais intenso do que o normal. Tudo ao mesmo tempo...

S: Ainda não entendi onde você quer chegar.

Q: Eu vivi toda essa intensidade de dor, em tão pouco tempo, por amor... Um amor que me revira, que me domina, por inteiro...

S: Q, você está mesmo bem?

Q: Como pareço? [sorriu misteriosamente]

S: Meio psicopata? [perguntou com um olhar completamente confuso] Eu não sei. Estou assustada. Seu comportamento recente faz o seu comportamento agora parecer impossível. Você está incrivelmente calma.

Q: A fase do desespero já passou, S!

S: Mas como você está tão calma? Não que eu esteja reclamando, claro! Mas é que isso me assusta. Será que daqui a pouco você vai desmoronar de novo?

Q: Não confunda calma com anestesia. Estou meio anestesiada. Como se tivesse morrido e entrado em auto-combustão e...

S: O que?

Q: Como uma fênix, Santana. Renascendo de minhas próprias cinzas. [respondia serena]

S: Então me explique mais sobre como você se sente agora e sobre essa sua necessidade de enumerar essas fases do luto.

Q: Como eu me sinto? Bom... Eu sou Quinn Fabray. Eu não nasci para viver chorando em uma cama. Ainda que seja por amor. [mantinha uma certeza desafiante em sua voz]

S: Você vai bater na Berry?

Q: Claro que não! [surpreendeu-se com a pergunta]

S: Por favor, Q! Me explica o que está acontecendo.

Q: Ela quer que eu use esse espaço que ela diz que está me dando para pensar com calma nas outras universidades. Mas eu não vou fazer isso.

S: Continue...

Q: Usarei esse espaço para fazê-la entender que ela precisa de mim. Porque ela já sabe que eu preciso dela.

S: Então você quer dizer que...

Q: Eu vou tê-la de volta. E eu não vou precisar pedir... Eu não vou precisar buscar. Ela vai voltar aqui... [disse segura e calma]

S: Você tem um plano?

Q: Não. As coisas vão acontecer naturalmente e eu não estou com pressa... Mas sei que não vai demorar...

S: Tem certeza de que você está bem? Você parece um pouco delirante! [fez uma expressão um pouco assustada]

Q: Não se assuste, S... Eu apenas estou de volta!

Foi nesse mesmo dia que Rachel reagiu. Resolveu sair de casa e caminhar. Sozinha... Não entendia como Quinn ainda não tinha ido atrás dela. O desespero com que a loira agiu dava a entender que não aguentaria muito tempo sem ela. Dias sem notícias. Dias sem vê-la... Um mísero corredor as separava com a força de um abismo. Rachel sentia a falta de Quinn em todo seu corpo. Doía nos ossos. Doía na alma. Mais alguns passos e suas pernas fraquejaram: por trás da imensa parede de vidro à sua frente, avistou Quinn correndo sobre uma das esteiras da academia. Com seu iPod, a loira parecia presa numa bolha, e parecia não perceber o que acontecia ao seu redor. Vê-la, fez o coração de Rachel acelerar, quase parar, pular, enlouquecer... O magnetismo que Quinn sempre teve sobre ela, estava ali... Continuava ali... Jogar-se sobre o vidro e atravessar aquela distância para tomar-lhe os lábios com voracidade estava fora de cogitação. A cabeça de Rachel era um rodamoinho. Desde que colocou os pés fora do apartamento 112, naquela noite, todo seu corpo tentava puxá-la de volta para os braços de Quinn. Sua mente dizia que sua decisão era certa, mas seu corpo gritava o contrário. Rachel não precisava de muito tempo para sentir que não era capaz de viver longe da namorada. A sensação de que o espaço que lhe deu poderia ter sido a chave para uma distância definitiva passou a embrulhar-lhe o estômago.

Quinn corria. Cada vez mais rápido. O corpo perfeito parecia se reabastecer naquele exercício, recuperando a vida que tinha se esvaído por suas lágrimas nos últimos dias. A falta que sentia de Rachel e a raiva por ter sido forçada a aceitar um tempo que considerava ridículo, fazia com que suas pernas corressem com mais intensidade. Seus músculos gritavam, pedindo misericórdia, mas ela não dava ouvidos. Quinn já não dava mais ouvidos à dor. Fosse ela física ou emocional... Havia chorado demais e pensado demais. Já não se permitia passar seu tempo presa na melancolia. Não estava pensando que tudo estava bem, afinal de contas, sabia muito bem que aquele nó em sua garganta permaneceria ali por muito tempo, ainda que seu comportamento tentasse dizer que já não estava mergulhada na dor. Vontade de chorar não lhe faltava, mas ela já não choraria mais. Estava decidida a ser mais forte, a ser novamente Quinn Fabray. Ela havia se machucado mais uma vez. E mais uma vez ela se viu forçada a se fechar. Rachel provocou uma transformação. Na verdade, ela provocou um retorno. Quinn estava de volta a si mesma...

O olhar de Rachel se desviou para o movimento de alguém se aproximando de Quinn. As coisas poderiam piorar? A morena avistou Jennifer se aproximar e abrir um imenso sorriso para a loira que, educadamente, retribuiu. Raiva? Raiva não chegava nem perto do que ela estava sentindo naquele momento. Se ela odiava a presença daquela garota próximo a Quinn quando tudo estava bem entre elas, agora que já não a tinha da mesma forma, o ódio era ainda maior. A sensação de que seu espaço poderia ser ocupado por outra pessoa fez sua mente ficar turva de repente. Pensar que Quinn poderia buscar nos braços de outra pessoa consolo para a solidão que tinha sido provocada por ela, fez Rachel repensar aquela possibilidade de se atirar sobre aquele vidro imenso e devorar os lábios de seu amor. Ela não sabia, mas Quinn tinha percebido sua presença, seu olhar fixo nela desde o começo. Percebeu que era observada e não queria demonstrar fraqueza. Por dentro, misturado a todos os sentimentos pesados e que a magoavam, estava um belo e vibrante sorriso, que sabia que poderia ser fácil fazer a morena voltar atrás. Em sua cabeça, Quinn concluía que se Rachel teve a coragem de tomar aquela decisão de se afastar, ela também teria que tomar coragem para voltar atrás. Dessa vez, voltar ao eixo, seria função daquela que as tirou do eixo. E, talvez, ciúme fosse apenas o primeiro passo de Rachel em sua direção. O primeiro passo de volta...

Quinn era consciente de que tudo no relacionamento delas era intenso demais! Era mais intenso do que o normal. Então, uma semana de choro e silêncio, na linguagem delas, correspondia a meses para as outras pessoas. Sentiam, uma pela outra, os sentimentos mais intensos e viscerais que era possível sentir. Arriscavam dizer que tinham ultrapassado o impossível. Tempo, para elas, era mais relativo do que qualquer coisa. Dois minutos afastadas = dois séculos... A semana que passou trancada no apartamento, os pensamentos que trabalhou, as lembranças que, inevitavelmente, reviveu naqueles dias, reafirmaram o furacão que a relação das duas sempre foi, desde o começo. Da revelação do amor que sentiam, para um namoro sério, a união de duas vidas que mais pareciam uma, os ciúmes, a necessidade de dormirem juntas, o sexo perfeito e voraz, o acidente, os medos... Tudo as guiou àquele momento. O momento posterior ao tiro mais errado que Rachel poderia dar na tentativa de acertar alguma coisa. Pensar que Quinn precisava ficar longe dela para tomar uma decisão profissional, era o mesmo que admitir que o relacionamento estava fadado ao fracasso, pois alguém com uma mente tão brilhante como a loira, sempre terá em sua vida opções diversas para se realizar profissionalmente. Então a cada decisão profissional que ela tiver que tomar, Rachel deverá se afastar? Isso implicaria o término definitivo, e rápido... Quinn não precisa que ninguém faça nada por ela. Nunca precisou.

Quinn sorriu novamente para Jennifer. Era cruel, e ela sabia disso, mas sabia também que aquilo provocaria em Rachel uma vontade de agir. Qualquer ação. Ou pelo menos queria que a morena tivesse plena noção de que espaço, no fim, equivale à distância. E que deixar seu amor sozinho, vagando por aí, pode fazer com que ele não volte mais...

Depois de tantos dias fechada no apartamento, rodeando-se das coisas e do cheiro de Quinn, Rachel percebia, enfim, que não tinha segurança quanto a voltar para ela quando quisesse. Não tinha certeza de que seu lugar permaneceria vazio. Não duvidava do amor da loira. Jamais! Mas sabia que dor se cura com remédio. E qual o melhor remédio para um coração partido? Sentiu um calafrio intenso... Medo. Com muito medo, Rachel saiu dali e foi rápido para casa. Sua mente voltou a dar voltas. Talvez seu ato de altruísmo tivesse sido precipitado. Talvez devesse ter sido a Rachel Berry egoísta do passado. Confusa... Ela estava mergulhada em pura confusão...

Horas depois, Quinn tomava um banho quente. Uma grande novidade! E nesse banho, a loira pensava que poderia dar a volta por cima. Por mais que seu amor por Rachel seja algo imutável, inexplicável, incomparável, inesgotável... Por mais que saiba que nunca se livrará dele, não conseguia não se sentir magoada pela atitude da morena. Não importava as boas intenções. Para ela, separar-se, fosse por quanto tempo fosse, nunca seria uma atitude louvável. Nunca deveria ser uma opção. “Tempo”, para ela, era só uma forma de amenizar a palavra “fim”. E se Rachel não tinha mesmo a intenção de terminar definitivamente, como havia dito, ela teria que aprender a não manipular o relacionamento dessa forma.

Mais dois dias se passaram e todos voltaram às suas rotinas de estudos. Mas Rachel e Quinn buscavam se afundar ainda mais nas aulas. Enquanto a loira anestesiava a mente lendo, deslocando-se para outra atmosfera, Rachel era consumida pela saudade e angústia de não saber mais o que fazer. Não entendia como uma decisão tão pensada e que parecia tão certa, agora a deixava à beira da loucura. Desanimada, recusou o convite de Kurt para jantar fora. Sabia que Santana ia junto e ainda estava temerosa em lidar com a latina. Ao voltar para casa, viu que o carro de Quinn estava lá. Sentia como se seus pés estivessem afundando em areia movediça. Não conseguia dar qualquer passo. Sentia-se afundando e desejava afundar-se mais... Sabia que se movesse seus pés, não conseguiria obedecer sua mente. Minutos depois, encontrou-se parada no meio do corredor. Sua mente queria entrar no apartamento 110, mas todo seu corpo a empurrava ao 112. Três, quatro, quinze, quarenta... Rachel respirava quantas vezes conseguia e não terminava. Não conseguia chegar a uma quantidade segura de “inspira, expira”. Fechou os olhos e buscou as chaves que há dias intermináveis não usava mais. O metal parecia queimar em sua mão. Num movimento incerto, mas intenso, colocou-se dentro do cenário daquela triste noite. Deixou-se invadir pela sensação de estar de novo em casa. Tremia. Não conseguia evitar. Fechou a porta atrás de si e ouviu passos. Os inconfundíveis passos de Quinn. De olhos novamente fechados, contou os passos e percebeu quando eles pararam. Ao abrir os olhos, percebeu o olhar confuso de Quinn para ela. Não havia gelo. Não havia abismo. Havia silêncio. Olharam-se por um minuto. Dois. Quase quatro...

R: Você deve estar se perguntando o que estou fazendo aqui... [disse com a respiração falha]

Q: Não. Não estou. [manteve-se aparentemente calma, mas estava em ebulição por dentro]

Rachel fechou os olhos novamente e baixou a cabeça. Respirou o mais fundo que pôde e num sopro de coragem, voltou a erguer seu olhar:

R: Eu sei que não tenho o direito de estar aqui. De pedir isso... Mas eu preciso... Eu preciso... [dizia agoniada]

Q: Precisa de quê? [mantinha a voz calma e seca]

R: Preciso de você! Eu preciso sentir você de novo. Eu preciso da sua pele. Preciso do seu cheiro. Eu preciso do seu corpo. Eu preciso da sua boca... [a agonia se transformava em um choro nervoso] Eu preciso de você agora!

Ao que parecia, sem muita demora, Quinn avistava uma possível volta por cima. Na verdade, Quinn estava ressurgindo das cinzas...


[CONTINUA...]



Notas finais
Bom... Quinn is back! ;)
Próximos passos? Surpresa.
Espero que gostem desse capitulo depois de toda a tensão dos dois últimos.
Só um aviso: essa fase vai terminar no capítulo 95. Isso só vai mudar se eu dividir os capítulos que faltam de uma forma diferente. Aumentando ou diminuindo. Quando se aproximar mais do último, eu explicarei sobre a próxima fase.
Bem... Comentem, por favor! Quero um feedback. :)
Beijos!