Você Sempre Esteve Em Mim
45 Capítulo 45 - Fé...
Notas iniciais
Era noite e todos permaneciam no hospital. Santana, Britt e Kurt revezaram-se indo à lanchonete, para não deixarem Quinn sozinha, já que ela não queria ir. Santana acabou convencendo Leroy e Hiram a irem ao apartamento para tomar banho e descansar, mas Quinn estava irredutível. Nem a roupa a latina conseguiu convencê-la a trocar.
S: Q, quando os pais da Rachel voltarem, eu vou te levar pra casa.
Q: Eu não vou, San! [respondeu baixinho, sem olhar para a amiga]
S: Eu não perguntei se você quer ir, eu disse que vou te levar, nem que seja só pra você tomar um banho, trocar de roupa e voltar pra cá.
Q: E se ela precisar de mim? [disse virando o rosto para, finalmente, encará-la]
S: Você estará de volta antes que ela perceba sua ausência. Eu prometo!
Q: Você viu meu celular? [perguntou um pouco confusa]
S: Está aqui comigo. [disse entregando-lhe]
Quinn começou a discar um número e Santana ficou atenta para saber quem era.
J: Alô?
Q: Mãe? [perguntou com a voz falha]
J: Quinnie, filha... Como é bom ouvir sua voz e não receber apenas uma mensagem!
Quinn ficou em silêncio, até que voltou a chorar:
J: Quinnie? Está tudo bem? [perguntou preocupada]
Q: Não, mãe! Não está! [respondeu chorando ainda mais]
J: Filha o que houve? Você está me deixando nervosa! [dizia preocupada]
Q: A senhora pode vir pra cá? Eu preciso da senhora aqui comigo! [chorava mais]
J: Claro, filha! Mas o que houve?
Q: A Rach, mãe! Ela sofreu um acidente e está na UTI... Eu estou com medo, mãe! [soluçava ao telefone]
J: Pegarei o primeiro voo. Em que hospital ela está?
Q: No Mount Sinai.
J: Eu te encontro no hospital?
Q: Sim... Eu não vou sair daqui.
J: Santana está com você?
Q: Sim. Ela está. [continuava chorando]
J: Me deixa falar com ela um instante?
Q: S, minha mãe quer falar com você. [passou-lhe o celular, enquanto tentava enxugar as lágrimas]
S: Oi, Judy!
J: Santana o estado da Rachel é mesmo grave?
S: Sim. É sim. [respondia sem deixar que Quinn soubesse do que falavam]
J: Pegarei o primeiro voo para NY e irei direto ao hospital. Por favor, cuide da Quinnie. Eu sei que ela não deve ter comido nada. Por favor, cuide dela!
S: Certo. Não se preocupe com isso.
J: Obrigada! Agora pode passar pra ela de novo.
Q: Mãe? Você vai demorar muito?
J: Não, filha. Chegarei logo!
Q: Obrigada, mãe! Eu te amo!
J: Eu te amo, filha!
Leroy e Hiram estavam de volta ao hospital e insistiram para que Quinn fosse em casa descansar um pouco. Depois de muito negar, acabou cedendo e deixou que Santana a levasse. Kurt foi pra casa tentar dormir, enquanto Britt acompanhou as duas até o apartamento.
B: Precisa de ajuda com o banho, Q? [perguntou assim que entraram no apartamento]
Q: Não, B. Obrigada! [disse enquanto seguia em direção ao quarto]
S: Não tranque a porta! [ordenou]
Quinn abriu a porta do quarto e sentiu seu chão se abrir de novo, pois tudo ali lembrava Rachel. A colcha e os travesseiros escolhidos por ela. Os quadros pendurados onde ela disse que ficava melhor. Uma blusa estendida sobre o encosto da cadeira. O cheiro dela em todo o ambiente... A loira se perguntava em que momento tudo poderia ter sido evitado. Qual foi a fissura na história delas que permitiu que isso acontecesse? Respirou fundo e dirigiu-se ao banheiro. Não foi mais fácil... Shampoo, sabonete, cremes e maquiagens... A toalha. As coisas de Rachel estavam ali, nos mesmos lugares, como se ela as fosse usar dali a pouco. As lembranças dos banhos juntas, das vezes em que fizeram amor ali, naquela pia, naquele chuveiro... Da morena se maquiando, da rotina diária de cremes em frente ao espelho, da mania que tinha de escovar os dentes atrás de Quinn, observando-a com um sorriso divertido através do espelho. Respirou fundo mais uma vez. Duas. Três... Tirou toda a roupa e jogou o mais longe de si possível. Queria distância daquelas peças. Já debaixo do chuveiro, deixava a água fria cair em seus cabelos, em suas costas, e via o resto do sangue de Rachel, que ainda havia ficado grudado em seu corpo, descer pelo ralo. Não aguentou e se deixou cair no chão. De fora, Santana escutou os soluços altos que vinham do banheiro e não pensou duas vezes: entrou! Jogou-se dentro do box também e abraçou a amiga com força.
S: Você precisa ser forte, Q! Por favor, seja forte! [tentava manter-se dura, mas já chorava também]
Q: Por que ela, San?! Por que isso tinha que acontecer com ela? [chorava intensamente]
S: Eu não sei, Q! Mas você precisa ser otimista! Todos nós precisamos... Por ela!
Q: Eu não sei se consigo! Eu estou com tanto medo, S! Tanto! Tanto... [chorava mais]
S: Eu sei... Eu sei...
Britt entrou no banheiro também e, junto com Santana, ajudou Quinn a se levantar e a tomar banho. Ajudaram a vestir a roupa e a convenceram a dormir um pouco, apesar da resistência da loira. Não demorou e ela pegou no sono. Estava exausta. Recusou-se a dormir na própria cama, pois não conseguia sentir o cheiro de Rachel e não chorar. Então, o sofá foi o escolhido, apesar de Santana ter insistido que dormisse em sua cama.
Eram quase 4 horas da manhã, quando Britt despertou com um barulho vindo da sala. Ao chegar lá, viu Quinn se preparando pra sair.
B: Q? Aonde você vai a essa hora?
Q: Vou voltar pra lá, Britt! [respondeu com a voz rouca de quem tinha acabado de acordar]
B: Espera amanhecer! Você precisa dormir mais!
Q: Eu preciso saber como ela está!
B: Ninguém ligou, Q! Então não aconteceu nada de novo.
Q: Mas eu preciso estar lá!
Santana chegou na sala vestida para sair também, mas com a cara de sono:
S: Eu sabia que você faria isso... Vamos... Eu vou com você! [disse enquanto se aproximava] Amor, você fica e dorme. Descansa e nos vemos mais tarde, ok?! [disse à Britt, enquanto lhe beijava os lábios]
B: Ok! Me ligue se tiverem novas notícias.
S: Ligarei!
No táxi, o caminho até o hospital foi em silêncio absoluto. Santana sabia que Quinn precisava ficar quieta, então não insistia em conversar. Lá chegando, apenas Leroy estava, pois Hiram tinha cedido aos seus pedidos e foi dormir.
L: Meninas, o que fazem aqui a essa hora?
S: Ela não quis ficar em casa. [disse apontando para Quinn, que se sentava, em silêncio, na mesma cadeira em que passou quase todo o dia anterior]
L: Você precisa dormir, Quinn!
Q: Eu dormi... [respondeu baixinho] Como ela está? [levantou o olhar para encará-lo]
L: Nenhuma novidade...
S: Q, vou à lanchonete buscar algo pra você comer. E não adianta dizer que não quer! Você está sem comer há quase 24 horas! [disse enquanto se afastava]
Ficaram apenas Leroy e Quinn, compartilhando o silêncio, até que ele resolveu falar:
L: Você sabe que salvou a vida dela, não sabe?!
Q: Eu? [olhou-o confusa]
L: Sim... Você! Os médicos nos disseram que se ela não tivesse sido reanimada no local do acidente, os paramédicos já não teriam o que fazer quando chegaram... [disse com a voz embargada, só de pensar na possibilidade de Rachel não ter sido salva]
Q: Eu só... eu só fiz o que deveria ser feito... [tentou constatar o que era óbvio para ela]
L: Não. Você fez mais! Você manteve um nível de calma, em meio ao desespero, que permitiu que você a salvasse. Você foi inteligente, mas, acima de tudo, você foi brava, foi corajosa! Você enfrentou o medo do momento e a salvou... Eu nunca serei capaz de te agradecer por isso... [disse com um choro leve]
Quinn não sabia o que dizer. Não esperava ouvir aquelas coisas, nem tinha noção das consequências de sua atitude. Não tinha parado pra pensar nisso, pois até ver uma melhora no estado de Rachel, não enxergava que tivesse feito algo certo.
Q: O senhor acha que ela vai ficar bem? [peguntou baixo]
L: Tenho certeza de que vai. Apesar de todo o medo, eu sei que a minha estrelinha vai ser forte, como sempre foi! [disse, limpando as próprias lágrimas]
Eram 8 horas da manhã. Quinn havia comido meio sanduíche (obrigada por Santana) há algumas horas. A latina cochilava ao seu lado, enquanto Leroy conversava com duas das enfermeiras que haviam passado pela UTI. O Dr. Lawrence os encontrou na sala de espera para novas notícias:
Dr. Lawrence: Bom dia, Sr. Berry!
L: Bom dia!
Quinn levantou o olhar expectante, na esperança de ter boas notícias.
Dr. Lawrence: Rachel passou a noite bem, e a submetemos a uma tomografia e a uma ressonância magnética. Constatamos que ela não tem um hematoma subdural, mas vários pequenos hematomas. Houve uma pequena, mas considerável diminuição dos hematomas, sumindo com o que parecia ser apenas um imenso hematoma.
L: O Sr. tem certeza?
Dr. Lawrence: Nós temos! Somos uma equipe trabalhando para ajudar sua filha.
Q: E isso é pior? [perguntou se levantando]
Dr. Lawrence: Não. Isso é melhor. Sendo pequenos hematomas, não precisamos, à primeira vista, levá-la à cirurgia, que seria uma craniotomia. Bastante invasiva. Queremos evitá-la. Com pequenos hematomas, podemos apenas observar a evolução deles, ou drená-los.
Q: E o que vocês vão fazer?
Dr. Lawrence: A princípio, vamos observá-los. O fato de Rachel estar respondendo bem ao coma induzido, e o fato de ter havido uma diminuição da hemorragia, nos dá um pouco mais de ânimo para acreditar que não precisaremos submetê-la à cirurgia.
L: E vocês vão observá-la por quanto tempo?
Dr. Lawrence: Por algumas horas. Verificaremos a evolução do quadro e decidiremos os próximos passos no fim da tarde.
Q: Sabe quando ela vai acordar?
Dr. Lawrence: Não sabemos quando. Pode demorar horas, dias, meses... Nem podemos garantir que acordará bem. Estamos fazendo de tudo para que o resultado seja o mais satisfatório possível. Entendam que uma craniotomia agora, pode prejudicá-la mais do que ajudar. A observação e o acompanhamento clínico é a melhor opção nas próximas horas.
Q: Mas o coma não é induzido? Por que demoraria tanto? Vocês não podem, simplesmente, tirá-la do coma? [perguntou um pouco irritada]
Dr. Lawrence: Tirá-la do coma induzido pode levá-la a óbito em questão de minutos. Não sabemos como ela reagirá sem os medicamentos, sem os sedativos, sem o respirador. Só teremos alguma garantia depois que ela estiver melhor dos hematomas.
Aproximava-se do meio-dia quando Quinn viu sua mãe no final do corredor. Não conteve as lágrimas que há algumas horas estavam presas em sua garganta. Judy se aproximou, carregando uma pequena mala, que logo deixou no chão para abraçar a filha. Quinn não falava nada, apenas chorava abraçada à mãe. Judy respeitava seu silêncio e apenas acariciava as costas da filha, sentindo os espasmos de seus soluços.
Kurt, que já estava com elas, contou à Judy sobre o acidente e sobre o estado de Rachel. Quinn apenas ouvia, segurando forte a mão de sua mãe.
J: Filha, eu imagino o que você está sentindo por ver sua amiga assim. Mas eu sei que Deus vai cuidar dela e tudo ficará bem...
Quinn ouviu sua mãe chamar Rachel de sua “amiga” e sentiu um aperto no peito. Sabia que não poderia, nem deveria adiar mais a verdade e já não se importava mais com o resto das coisas.
Q: Mãe, precisamos conversar... [disse enquanto olhava os amigos, que entenderam e saíram dali]
J: Pode falar, filha.
Leroy sabia que era um momento de mãe e filha, e resolveu se afastar também para telefonar para Hiram, que ainda não tinha voltado.
Q: Eu fui criada na igreja católica, frequentando as missas, lendo a bíblia e tentando praticar aquilo que vocês me ensinaram como sendo ensinamentos de Deus.
J: Sim, filha. Eu sei disso. Onde você quer chegar?
Q: Que eu tenho tentado seguir os passos que vocês me ensinaram como sendo os certos. Mas que, certas coisas não são tão simples.
J: Filha, eu não estou entendendo. Seja mais clara. Seja objetiva.
Quinn estava nervosa. Tremia e tinha as mãos frias. Dizer a verdade à sua mãe, poderia significar uma nova ruptura na família. Mas já não podia manter Rachel como um segredo. Respirou fundo e continuou a falar:
Q: O que estou querendo dizer, mãe, é que uma coisa complicada no meio disso tudo é o amor. A gente não escolhe quem ama. E por mais que lute para não sentir o que sente, no fim, não consegue evitar. O que estou tentando dizer, mãe, é que a Rachel é mais do que minha amiga. Muito mais! Nós nos apaixonamos e ela é minha namorada. [disse de uma vez]
J: O que? Quinnie, o que você está falando? [perguntou surpresa]
Q: O que a senhora ouviu... Eu não posso mais te esconder isso. Não quando eu faço a senhora vir pra cá. Eu não posso mais esconder isso, quando a Rach está ali, numa UTI, lutando pra viver e eu estou aqui, desesperada porque tenho medo de perder o amor da minha vida! [voltava a chorar] Me desculpe! Eu sei que isso decepciona você! Que, mais uma vez, eu estou quebrando as regras da família, da igreja, do que você me ensinou, mas eu não pude evitar. Ela é o meu caminho e eu não tive como desviar... Eu juro que tentei, mãe! Eu juro que tentei não sentir, que rezei para não sentir, mas nada adiantou. Desculpe decepcioná-la de novo! Desculpe! [chorava sem conseguir olhar a mãe nos olhos]
Judy se levantou e caminhou um pouco de um lado para o outro. Calma... Bastante calma... Virou-se para Quinn e, enfim, falou:
J: Você sabe que a igreja não aprova isso. Você sabe!
Q: Eu sei... mas...
J: Deixa eu falar, Quinn! Você sabe que a igreja não aprova. Mas eu não sou a igreja. Eu sou sua mãe. E já abandonei você uma vez, quando você mais precisou de mim. Eu não pretendo fazer isso de novo. Você é minha filha e, por mais que eu não entenda o que você sente. Por mais que eu não saiba se me acostumarei, você é minha filha e eu não vou permitir que você saia da minha vida de novo. Eu me arrependo todos os dias por ter sido omissa quando seu pai te expulsou de casa. Nunca mais eu ficarei omissa diante de você. Eu me orgulho de você, da pessoa que você está se tornando e não vou interferir na sua forma de amar enquanto você for feliz. Você é feliz?
Quinn não acreditava que sua mãe estava sendo compreensiva. Esperava tudo, menos essa reação...
Q: Sim, mãe! Sou feliz como nunca fui...
J: Então, mesmo sem entender, eu te apoiarei!
Quinn se jogou nos braços da mãe, sem saber o que dizer. Deixou-se chorar. Chorava de alívio, de dor, de tristeza. Era uma mistura de sentimentos, de sensações... Só queria ter um pouco de conforto diante de todo o sofrimento que estava passando.
J: Vem! Vamos procurar a capela daqui.
Q: Eu sei onde fica. Mas a senhora que ir lá agora?
J: Você já rezou pela Rachel?
Q: Sim... Eu não paro de rezar.
J: Então vamos! Eu vou rezar com você. Deus escutará nossas preces ainda mais alto.
Q: A senhora acha que ele vai nos escutar mesmo?
J: Fé, Quinnie! Apenas tenha fé e seu coração lhe confortará.
Na capela, Judy e Quinn se ajoelhavam e rezavam juntas pela recuperação de Rachel. A alguns metros dali, os aparelhos da morena indicavam que algo estava errado e os médicos a levavam às pressas para a sala de cirurgia. Quinn sentia, novamente, uma imensa agonia, mas dessa vez não sabia se significava mais do que sua própria dor. Fé... ela só precisava ter fé e tudo daria certo. Mal sabia ela que, naquele exato momento, talvez fosse preciso uma fé mais forte: fé num verdadeiro milagre...
Notas finais
Quanto a esse capítulo atual, sei que, mais uma vez, aumentarei a ansiedade de vocês. Mas, por favor, não se revoltem.
1. A boa notícia é que o desfecho para esse drama no hospital está no próximo capítulo. Só não posso adiantar aqui se é um desfecho bom ou mais triste.
2. A outra boa notícia é que estou terminando a correção do próximo capítulo para postá-lo ainda hoje. Só vou dormir depois de postá-lo.
3. A outra dica é que a fic não está nem perto de acabar. ;)
Aguardo comentários neste!
Ah... Confiem em mim... ;)
Fale com o autor