Você Sempre Esteve Em Mim
10 Capítulo 10 - Eu me encontrei em você...
Notas iniciais
Rachel manteve um sorriso no rosto. Quinn já havia ido há alguns minutos e a morena estava confortável em sentir o perfume da loira em seu quarto, em sua cama, em seu próprio corpo. Preferiu tomar um banho antes de descer para tomar o café da manhã com seus pais. Olhou-se no espelho e viu que tinha um brilho diferente em seu olhar. Não sabia o que significava, mas se via diferente. Sem conseguir evitar, um nó se formou em sua garganta e uma vontade incontrolável de chorar apareceu. De repente, explodiu em lágrimas... Desviou o olhar do espelho e apertou as mãos à pia do banheiro. Entendeu que toda a necessidade de chorar que ficara contida enquanto apoiava Quinn, acabava de vir à tona. Então, despiu-se e entrou debaixo do chuveiro, e lá, permitiu-se chorar sem parar. Não estava arrependida de nada. De nenhum beijo, de nenhum abraço, de nenhum toque, de nenhuma palavra... Estava com medo. Suas pernas tremiam, como se todo o peso emocional sustentado durante toda a noite estivesse indo embora. Estava apavorada! Não sabia como as coisas seriam dali em diante e não queria, nem poderia perder Quinn.
Terminou seu banho, vestiu-se e desceu. Encontrou Hiran na cozinha, respirou fundo e falou:
R: Bom dia, papai!
H: Bom dia, meu amor! — ao perceber os olhos da filha, assustou-se – Você estava chorando? Aconteceu alguma coisa? Filha, o que houve? — Começava a se desesperar.
R: Calma, papai! Eu vou explicar. Mas queria que o pai estivesse aqui também. Cadê ele?
H: Ele saiu cedo para um plantão. Mas eu quero saber o que houve. Não vou esperar seu pai voltar para saber.
R: Ok. Senta, papai! Eu, realmente, preciso falar com vocês! Ou só com você...
H: Filha, você está me assustando.
R: Não precisa se assustar, papai. Senta aqui comigo.
Então, ambos sentaram à mesa e Rachel começou a falar:
R: Você sabe que eu e Quinn, apesar de todo um passado conturbado, somos amigas já há algum tempo, não sabe?!
H: Sei, filha. Você não deixaria sua inimiga dormir em sua casa.
R: Como? Como você...?
H: Filha, eu encontrei a Quinn nas escadas quando ela estava indo embora. Era segredo o fato dela estar aqui?
R: Não. Não era... Bom, vou continuar... De uns tempos pra cá, ela estava diferente, mais pensativa do que o normal e eu percebi isso. Então, meio que a pressionei para saber o que estava acontecendo.
H: E ela falou?
R: Sim. Ela falou... — dizia Rachel, desviando os olhos dos olhos de seu pai.
H: Filha, você vai me dizer o que está havendo? Você sabe que pode confiar em mim, não sabe?!
R: Sei... — acenou com a cabeça.
H: Então...
Rachel respirou fundo, juntou as duas mãos sobre a mesa, apertou os dedos, fechou os olhos e falou:
R: Ela disse que me ama... Que está apaixonada por mim... — a voz começou a falhar.
H: Certo. E era por isso que você estava chorando?
R: Não... Eu estava chorando porque estou com medo do que vai acontecer daqui pra frente. Eu não quero que as coisas mudem para pior.
H: Entendo... Mas, filha... O que você sente por ela?
Rachel levantou a cabeça e voltou a olhar nos olhos de seu pai, então começou a falar:
R: Eu, sinceramente, não sei, papai! Eu não sei... — sentia que ia começar a chorar.
H: Filha, não chora. Imagino que já tenha chorado o suficiente. Apenas me fale como se sente. Como você se sentiu ao ouvi-la dizer que está apaixonada por você?
R: Foi a coisa mais louca que eu já ouvi, papai. Mas, ao mesmo tempo, foi a melhor coisa, talvez... — disse envergonhada. — Eu não consigo explicar. Quando começamos a conversar, toda agonia que ela demonstrava, todo o receio em me dizer o que se passava, fazia com que eu sentisse, no fundo, que nada mais seria igual depois de ontem. Eu sabia que nossa relação mudaria e eu estava ansiosa para ouvi-la dizer o que era. E, papai... Eu desejava que ela se aproximasse. Deus! Eu queria muito que ela ficasse mais perto, mas eu esperei... Esperei até que ela se aproximou...
H: E?
R: Ela me beijou... — disse ainda mais envergonhada.
H: E como você se sentiu, filha?
R: Como se estivesse sendo beijada pela primeira vez...
H: Você sabe que esse é um sentimento bom, não sabe?!
R: Sei... Sei sim! — acenou timidamente com a cabeça.
H: Como você agiu com Quinn?
R: Ela disse que eu fui incrível! Compreensiva e carinhosa... Eu a ouvi, eu lhe dei espaço para dizer o que precisava e conseguia. Eu me expus também. Acho que, numa situação como essa, qualquer pessoa pensaria que eu iria surtar, mas eu não surtei. Ela esperava que eu surtasse e me perguntou diversas vezes porque eu não surtei, mas não fazia sentido eu surtar. Ela estava me falando de amor. Seria desrespeitoso da minha parte não receber aquilo como um elogio, no mínimo. Mas eu fui além... Eu sei que fui além. Sei que agi de uma maneira que ela não esperava e que nem eu mesma esperaria de mim se tudo isso me fosse narrado como uma situação hipotética. Mas eu me vi tomada por uma força que, talvez, nem me pertencesse, para segurar a situação e nos permitir conversar e nos entender sem que nos confundíssemos ainda mais. Ela é importante para mim! Como ninguém nunca foi... A presença dela em minha vida, desde o começo, desde sempre, acabou me fazendo alguém mais forte. Fosse para atacar ou me defender. Eu não poderia ser fraca, não poderia não ser o apoio que ela precisava, principalmente porque eu era... Quer dizer, eu sou o motivo disso, não é?!
H: Você é uma ótima amiga, filha! Com certeza, não foi fácil para ela se abrir com você, revelar o que sente.
R: Não foi fácil mesmo, papai. Mas eu não fui só uma boa amiga. Eu realmente queria tudo aquilo. Eu sei que se ela não tivesse tomado a iniciativa, talvez agora isso nunca me passasse pela cabeça. Mas, ali, dentro do meu quarto, da forma com que ela me olhava, depois que ela chegou tão perto, tudo passou a fazer sentido e, quando eu vi, já estava correspondendo ao beijo e querendo mais... — falava incrivelmente corada.
H: Vocês não... Quer dizer... Assim, não chegaram a fazer... Você sabe...
R: PAPAI! Claro que não! A gente não fez sexo não! Por Deus, papai! — falava exasperada, corada ao extremo.
H: Não custa perguntar... — disse o pai com um sorriso protetor.
R: O que eu quero dizer é que eu sinto como se estivesse dormindo e ela me despertou. Como se agora eu estivesse enxergando algo que sempre esteve à minha frente, mas que eu não percebia.
H: Você se refere à sexualidade no geral?
R: Não. Eu me refiro a ela... Só a ela, papai.
H: Então, eu volto a perguntar: O que você sente por ela?
R: Eu não sei nomear.
H: Mas sabe o que fazer com esse sentimento?
R: Não faço ideia, papai. Só sei que não posso fazer uma bobagem. Não concebo a hipótese de permitir que ela se afaste de mim.
H: Mas você não pode se forçar a corresponder ao que ela sente só para não perdê-la, filha. Isso é covardia, com você e com ela. Você não pode dar falsas esperanças.
R: Mas eu não dei falsas esperanças, papai. Não dei esperança nenhuma, na verdade. A única garantia que fui capaz de dar é a de que não permitirei que ela se afaste.
H: Mas se ela precisar se afastar, filha, você terá que respeitar.
R: Eu não posso deixar que isso aconteça. — voltava a chorar.
Hiran se aproximou da filha e a abraçou.
H: Calma, filha! Está tudo muito recente. Você verá que o tempo vai te ajudar a entender o que se passa entre vocês.
R: Eu não fui capaz, nem sou, de dizer a ela que a amo de volta e sei que isso a magoou. Por mais que ela tenha me dito que não esperava ouvir isso, eu sei que o não dizer doeu nela. Mas eu tentei fazê-la entender como eu me sinto, papai. Eu juro que tentei. — chorava com mais força.
H: Tudo bem, filha. Eu sei que você fez o melhor que pôde.
Rachel se soltou de seu pai e o olhou novamente:
R: Eu nunca me senti dessa forma. Eu posso não saber o nome do que sinto, mas eu sei que nunca me senti desse jeito. E outra: Ela é Quinn Fabray! Eu sei que ela nunca se sentiu assim. Ela está assustada, muito assustada! É tudo muito intenso e surreal para nós duas... Mas eu sei que nunca senti isso, seja lá qual nome este sentimento tenha!
H: Nem pelo Finn? — perguntou com cuidado.
R: É diferente. Muito diferente...
H: Pode me explicar?
R: Não sei... Não posso jamais negar a importância do Finn para mim. Ele ainda é muito importante! E se eu disser que não o amo mais, estarei mentindo, porque eu simplesmente não sei se ainda o amo. Posso amar, posso não amar, mas não posso dizer nenhuma das duas coisas com certeza. Não hoje. Hoje eu não tenho certeza. Mas o que a Quinn me faz sentir, ninguém nunca fez! Ela me faz perder a cabeça. Na verdade, ela sempre me fez perder a cabeça, mas agora é de uma forma diferente.
H: De uma forma boa?
R: Sim! Definitivamente de uma forma boa! — disse com segurança.
H: Filha, há três corações em jogo. Você precisa cuidar dos 3. Sabe disso, não sabe?!
Rachel acenava hesitante.
H: Você precisa ter cuidado para não magoar os 2 e, principalmente, para não se magoar.
R: Eu sei.
H: As coisas são complicadas com o amor. Mas serão muito mais complicadas com o amor de Quinn. Porque o mundo, filha, é cruel. Uma grande parte da sociedade pode tornar a vida dela um inferno, e a sua, se você estiver com ela.
R: Você está me desencorajando? — perguntava assustada.
H: Filha, olhe bem para mim. Olhe para a nossa casa. Eu sou seu papai. Casado com seu pai. Somos dois homens e criamos você com todo amor do mundo. Você acha que eu desencorajaria você a ser feliz junto do amor de sua vida, só porque seria um amor homossexual?
R: Não! Mas é que a forma como você falou...
H: Eu só quero que você esteja preparada, porque o mundo não está repleto de amor na quantidade certa. Ainda há muita gente ignorante e desrespeitosa que vai magoar a Quinn e que pode te magoar também se você descobrir que ela é a pessoa certa para você. Eu só quero que você esteja preparada. E seja quem for o seu amor, não se censure! Seja feliz, filha! E lute! Nunca deixe de lutar.
H: E não esqueça que a Quinn é sua amiga, mas a amizade de vocês não vai resistir a isso, seja qual for a conclusão a qual você chegue.
R:Como assim?
H: Se você não corresponder ao que ela sente, para se proteger, ela vai se afastar de você. Até que estar perto de você não machuque mais. E se você corresponder, a relação de vocês será outra coisa, não mais essa amizade de hoje.
R: De ontem... Porque desde ontem, tudo mudou...
H: Isso... Desde ontem, tudo é diferente.
R: Estou com medo! — falava, já mais calma, porém triste – Eu fui forte para ela e por ela, mas não estou conseguindo ser forte agora. Por que eu estou me sentindo assim agora?
H: Porque sua vida mudou, filha. Você está cogitando a hipótese de sua amiga ser, talvez, o seu amor, quem sabe... Isso faz as coisas diferentes para você agora.
R: Com relação a ela?
H: Com relação a você mesma.
R: Preciso ter cuidado para não magoar ninguém.
H: Precisa...
R: Eu te amo! Você é incrível e foi incrível nessa conversa, eu... não sei como dizer... — voltava a chorar.
H: Filha, eu sempre estarei aqui. Eu e seu pai. Nós te amamos e tudo o que queremos é que você seja feliz.
R: Eu sei... Eu sei... Papai, não estou com fome. Posso subir?
H: Claro, filha!
Os dois se abraçaram por um tempo, até que Rachel subiu. Sabia que as coisas não seriam fáceis dali para a frente e sabia que sua amizade com Quinn não seria mais a mesma. Mas o que ela poderia fazer? Voltar no tempo? Não! Ela não queria voltar. Não queria voltar nem um segundo sequer, para mudar nada. Tudo aconteceu como deveria ter acontecido. Sabia que só o tempo lhe traria as respostas certas. Pensava que teria, apenas, que ter cuidado com suas ações, para não machucar ninguém. Para não magoar Quinn...
Ao chegar em seu quarto, viu que havia uma mensagem em seu celular. Ao se aproximar, descobriu que era de Quinn. Seu coração disparou. Não sabia se deveria ler. Então se perguntava: “Mas por que diabo eu não leria?”. Então, abriu a mensagem:
Q: O mundo aqui fora é diferente do seu quarto. Não me sinto mais tão protegida. Mas já não é mais tão assustador como eu pensava. Você me fez e me faz acreditar que tudo vai dar certo... Você sabe... Eu já não estou mais perdida... Eu me encontrei em você... Beijo! Q
Rachel se arrepiou. Novamente! Já estava virando rotina se arrepiar e estremecer por causa de Quinn. Era tudo tão intenso quando se tratava dela! Todas as estruturas de Rachel eram abaladas pela loira. Mas então por que esse sentimento ainda não tinha nome? Por que era tão difícil defini-lo? Releu a mensagem dezenas, quase centenas de vezes... E na última leitura, suspirou com um sorriso... Então, livrou-se de qualquer pudor e de qualquer medo e arriscou. Não pensou em seguir a razão. Deixou de se preocupar com qualquer consequência e simplesmente disse o que sentia naquele momento:
R: Seja lá o que você tem em mente, acho difícil que não consiga. :) Lembro de tudo o que você falou e acho que posso dizer que há uma chance de você estar em mim também há bastante tempo, de uma forma que eu desconhecia... Só peço paciência e, quem sabe, eu consiga entender que eu também posso me encontrar em você... Bjo. R
Então, Rachel pensou: “Estou perdida! Estou completamente perdida! Ela já me tem na mão... Quinn Fabray... Você é implacável!”
E Quinn, do outro lado, sentia como se pudesse conquistar tudo. Principalmente o que ela mais queria: Rachel.
Notas finais
Spoiler: Notícias sobre Columbia no próximo capítulo... ;)
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