Você
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Você provavelmente nunca se sentiu tão constrangido em toda sua vida, e você tem plena ciência de que a sua face deve estar muito vermelha por conta do calor intenso a ponto de fazê-la quase arder. Mas ainda assim, você não vê outra opção senão apertar com ainda mais força a mão do rapaz loiro enquanto você se pergunta se o seu coração não vai fazer o favor de bater num ritmo aceitável em algum momento.
Você não deveria estar se sentindo daquela maneira. Você era um homem maduro e experiente. Você havia pegado na mão de tantas mulheres que jamais seria capaz de contar, mas nem com sua primeira namorada você se sentiu tão nervoso. Você se pergunta sobre qual a origem de tamanha apreensão e em seguida se arrepende de tal indagação, pois a resposta é óbvia demais para ser considerada minimamente reconfortante. Aí você se pergunta desde quando Noiz te deixava daquele jeito. Há menos de 24 horas você podia dizer com absoluta certeza de que não gostava daquele pirralho irritante. Você o aturava, tinha pena dele e você sentia que ele precisava de ajuda, mas você definitivamente não gostava dele, ao menos não de uma maneira romântica. Mas algo havia mudado muito em um tempo curto demais, e você se via incapaz de assimilar tudo. A única certeza que você tinha era que seus sentimentos atuais iam além da compaixão que você sentiu quando descobriu a respeito da solidão ou das limitações sensoriais do pirralho. Você não dormiu naquela noite e não trabalhou direito naquela manhã tentando compreender o que poderia significar para alguém a incapacidade de sentir dor.
Não sentir dor, a primeira vista, parecia algo maravilhoso, especialmente quando você se lembrava dos momentos excruciantes que passara para obter as marcas indesejadas em sua pele. Mas não demorou para que você entendesse o quanto aquela característica poderia atrapalhar a vida de alguém. Bastava observar as marcas em Noiz, não apenas as físicas, mas especialmente aquelas que você apenas pode vislumbrar no olhar vazio e na atitude indiferente que ele alimentava ou ainda no receio dele de falar sobre o que havia acontecido entre ele e os pais. Você poderia estar sendo prepotente em afirmar algo assim, mas o fato era que ficou claro para você que Noiz não conhecia o mundo, e por isso ele não conhecia as pessoas, e por isso ele não conhecia a si mesmo.
Noiz habitava um corpo privado dos prazeres mais simples, como um abraço, uma coberta quente ou um toque apaixonado. Isso ficou ainda mais evidente quando o loiro disse que sexo era ruim, mas que ainda assim ele havia lhe procurado porque precisava sentir algo. Nesse momento você se recordou das tantas vezes que havia buscado no corpo de alguém o alívio para as dores que atormentavam o seu espírito, das tantas vezes que você se entregou aos prazeres carnais na tentativa de desviar a atenção de sua consciência pesada. Você agradecia a cada uma das mulheres que passaram por sua vida, mesmo que por não mais que algumas horas, pois elas o haviam ajudado a suportar aquela carga terrivelmente pesada que era ser você.
Mas Noiz aparentemente não tinha isso, o que o levou ao desespero de te procurar. Você imaginava que ele já havia procurado muitos outros antes de você, mas sem conseguir alívio. Aquele pensamento o incomodava muito, mas explicava a maneira como ele o convidava e o instigava para o ato, o jeito bruto e descuidado com o qual ele se entregava e tratava o próprio corpo. Para ele, era como se nada importasse além da necessidade de sentir alguma coisa – dor ou prazer, você tinha certeza que ele se satisfaria com qualquer um dos dois. Aquilo era doloroso e destrutivo, e você se viu contaminado pelo desespero dele.
Você queria fazê-lo sentir.
Você queria fazê-lo sentir coisas que ele jamais havia sentido antes.
E era por isso que agora você estava apertando a mão dele tão forte, e era por isso que a sua face ficava mais quente a medida em que os olhos dele se enchiam de emoção – mesmo que essa emoção fosse espanto e receio. Você queria que ele se sentisse bem, e que se sentisse completo. E você queria que ele sentisse algo por você além de uma esperança de sexo minimamente agradável.
Você se levanta, mas não solta a mão dele. Você dá a volta na pequena mesa enquanto seus olhos permanecem fixos na boca rosada. Nesse momento ele permite que os dentes se afundem levemente nos lábios finos, tocando as duas joias prateadas em um ato que denunciava seu nervosismo. Ele está realmente nervoso, e você tem certeza de que foram poucas as pessoas que tiveram o privilégio de vê-lo naquele estado. Você se sente especial. Você se sente poderoso. Você sente que conseguiu derrubar aquela gigantesca muralha de indiferença que sempre manteve o loiro distante e protegido do mundo. E você está feliz com isso.
Feliz o suficiente para seguir adiante.
Feliz o suficiente para tentar algo.
Feliz o suficiente para beijá-lo.
Você se aproxima. Um, dois passos são o suficiente para que você fique diante dele, bastando que você se incline um pouco para que suas faces fiquem a centímetros de distância. Aqueles olhos verdes o encaram fixamente, e eles parecem apavorados e ansiosos ao mesmo tempo. Você estende a sua mão e toca suavemente a lateral da cabeça dele, acariciando com cuidado os finos fios loiros. Como era de se esperar, ele não reage àquele toque. Ele apenas continua te encarando, e você precisa reunir coragem para seguir em frente. Você se inclina para ficar na altura dele e então a sua boca se encosta suavemente...
...na testa dele.
Você suspira e se separa, e ele te olha como se você tivesse acabado de fazer a coisa mais absurda sobre a face da Terra. Ele parece até um pouco irritado, além de embasbacado com a sua atitude.
–É só isso?
–Você queria mais?
–Não é obvio?
Sim, era. Você também queria mais, mas havia algo o impedindo, e você sinceramente não sabia identificar. Você se lembra dos sentimentos que teve por Aoba assim que se conheceram; os de um irmão mais velho que deseja proteger o mais novo. Demorou bastante até que esse sentimento se distorcesse para algo mais platônico e romântico, e você sabia que Noiz não estava disposto a esperar por isso. Nem você estava disposto a esperar por isso, mas ainda assim você queria algo que pudesse fazer com que você sentisse que havia algo realmente especial ali. Você queria algo doce e idealizado, de modo que afastasse do seu coração a péssima impressão deixada pela primeira vez que vocês transaram. Não que você tivesse intenções de ‘fazer amor’ com Noiz, mas...
...mentira, você queria sim ‘fazer amor’ com Noiz.
Podia ser loucura sua, mas repentinamente você tinha vontade de cortejar aquele rapaz, e tocá-lo com carinho, fazer com que ele se sentisse especial e amado. E por que não, quem sabe, ser amado de volta? Sim, aquilo era insano. Noiz estava lhe deixando insano, mas dentre todas as coisas no mundo que poderiam acabar com a sua sanidade, o jovem parecia ser a menos destrutiva e a mais adorável agora que você contemplava as bochechas vermelhas dele enquanto os olhos verdes vagavam por qualquer ponto da sua roupa.
Você respira fundo e toma coragem para pegar o rosto dele entre as suas mãos. Você faz com que ele olhe novamente nos seus olhos na esperança que ele compreenda através disso quais são as suas intenções. As íris dele estão trêmulas e brilhantes, incertas acima de tudo. Você pensa que não seria ruim acordar um dia com aquelas lindas íris olhando para você, mas de outra forma. É nesse instante que você finalmente se convence de que está fazendo a coisa certa, você o beija na boca.
Você fecha os olhos enquanto seus lábios se encostam suavemente aos dele, iniciando um beijo suave e...
...e ele se levanta de supetão, tão veloz que a cadeira em que estava sentado encontra o chão num barulho considerável enquanto os braços dele envolvem o seu pescoço. Ele dá um passo firme na sua direção, pressionando a perna direita entre as suas coxas enquanto morde os seus lábios com bem mais força do que o que poderia ser considerado agradável. Seus lábios se abrem involuntariamente no momento em que sente um puxão no seu cabelo. Você quer reclamar, mas é impossível com a língua dele já dentro da sua boca, o piercing dele batendo contra os seus dentes. E se você já tinha certeza que aquilo havia mais uma vez saído do seu controle, seu desespero se intensifica no momento em que você sente uma das mãos dele adentrando a abertura do seu quimono, apertando seu peito de forma possessiva e desesperada, arranhando-o em seguida.
Dentro deste contexto, não há outra saída senão empurrá-lo, talvez de forma um tanto ríspida demais.
–Calma! –Você quase grita, e então encara a expressão confusa dele.
–...fiz algo errado?
–Não, mas... tá rápido demais, moleque! –Você suspira, finalmente dando-se conta do quão alterada estava a sua própria respiração. –Vamos mais devagar!
–Por quê? Não vai conseguir levantar? –Ele pergunta seriamente, olhando para a região da sua virilha, provavelmente querendo identificar se não havia qualquer volume anormal lá.
–Não é isso! –Você exclama quase ofendido com aquela insinuação. –É só que não precisa ter tanta pressa, seu pirralho!
–Por quê? –Mais uma vez ele te olha daquela forma que deixa claro que ele realmente não está entendendo. Você suspira agora mais calmamente e tenta escolher as palavras.
–Porque eu quero fazer tudo certo dessa vez, então deixa comigo e relaxa, certo? Sem puxão de cabelo, sem arranhões e sem mordidas, pode ser?
–Apertões, pode?
Você pondera um pouco, finalmente lembrando-se das condições alteradas do tato dele e do motivo dele precisar daquela intensidade toda.
–Pode, mas... calmos. –Ele não parece muito satisfeito com a sua proposta, mas não reclama. –Certo, se você quiser eu posso te morder e te arranhar, mas eu preferia que você não fizesse o mesmo comigo. E... Eu vou precisar descobrir a intensidade que te faz sentir, mas sem te agredir. –Você diz seriamente, notando algum calor surgir no seu rosto. –Não quero que seja tão... bruto quanto daquela vez.
–Você realmente não gostou da nossa transa... –Ele parece finalmente se conformar com o fato, mas a cara triste que ele faz te preenche de arrependimento.
–Mas a gente pode achar um meio-termo que seja bom para nós dois. –Ao escutar aquilo a expressão na face dele muda, as íris verdes parecem brilhar mais uma vez ansiosas. Você sorri levemente diante daquela reação e dá um passo na direção dele, sua mão tocando a lateral dos quadris dele, apertando-o em seguida enquanto seus corpos se encostam. –Você me fala se precisar ser mais forte, certo?
–Um pouco mais forte... –Ele pede num sussurro, e você acata imediatamente.
–Assim está bom?
Ele faz que sim com a cabeça e você, mais uma vez o beija, suave e superficial mesmo. Ele não faz nada dessa vez, mas antes de fechar os próprios olhos você nota como aquelas duas íris de perídoto parecem tremer em ansiedade. Você abre a boca e permite que sua língua toque os lábios dele, sentindo as duas argolas ali presentes e incentivando-o a fazer o mesmo. Ele abre a boca mas não faz nada, cabendo a você a grata tarefa de alcançar a língua dele, acariciando-a de forma calma mas ainda assim, intensa.
Ele suspira contra a sua boca, e você suspira contra a dele na medida em que ele toma coragem para imitar seus movimentos, aventurando-se até a dar uma leve mordida em seu lábio inferior – e dessa vez você não vê motivos para reclamar. Em questão de segundos vocês dois estão trocando um lento mas lânguido beijo, diante do qual você sente o coração acelerar, o sangue esquentar e as mãos suarem. Você se pergunta de onde vinha a capacidade que aquele jovem tinha de provocar seus instintos daquela forma. Ainda sem encontrar uma resposta, você puxa com mais força os quadris dele na direção dos seus. A pressão do corpo dele contra a ereção que já desponta em suas calças faz com que o ar lhe falte por um segundo e que você seja subitamente tomado pela necessidade de intensificar ainda mais as coisas. Você desfaz o beijo e encara a face dele, corada em explícito desejo, que deixa claro o quanto ele também deseja mais.
Você direciona sua boca até o pescoço dele, apenas encostando seus lábios a princípio, sentindo o perfume suave do seu próprio sabonete na tenra pele do mais jovem. Como ele não reage ao seu toque, você o morde, ainda que dotado de bastante delicadeza. Você sente os músculos do ombro dele se tencionarem um pouco quando você começa a sugar a tez alva, passando a intercalar mordidas, chupões e lambidas vigorosas.
–Você sente isso? –Sua voz sai em um sussurro quente e arrastado quando se aproxima da orelha dele, e no momento em que ele suspira dizendo que sim, você lambe o lóbulo, sentindo os brincos deslizarem contra sua língua, procurando algum lugar seguro para morder enquanto sua mão direita se move do quadril dele para a cintura, subindo por debaixo das camisas até encontrar um dos mamilos perfurados. Com receio e cuidado, você toca o piercing dele, puxando-o de leve, escutando como a respiração dele falha em mais um suspiro.
Animado com a reação você toma coragem para se separar dele por um instante, apenas para levantar as duas camadas de roupa que cobriam o torso magro, para então direcionar sua boca até a joia que adornava aquele mamilo, beijando-o e o lambendo. Nesse momento você sente a mão dele em seus cabelos. Ele o pressionava um pouco contra o próprio corpo, fazendo você entender que ele precisava de mais intensidade para sentir. Você se incomoda com o medo de machuca-lo, afinal você não mentiu quando disse que os piercings dele lhe causavam aflição. Mas você respira fundo e utiliza os dentes bem levemente ao redor da aureola enquanto pressiona a joia com a língua, e todo seu esforço é recompensado com um gemido baixo de satisfação.
Parece que vocês estão finalmente conseguindo se entender, e diante disso você pega a mão dele e convida:
–Vamos para o quarto então?
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