Você

4 Capítulo 4


Você está satisfeito, enfim. Não completamente satisfeito, obviamente, porque você tende a ser uma pessoa gananciosa em alguns aspectos. Como qualquer pessoa normal, você gosta quando as coisas acontecem conforme a sua vontade. Mas você não é exatamente uma pessoa normal, por isso tende a levar as coisas um pouco longe demais às vezes, a forçar demais, a se impor demais de modo que no fim, sua vontade seja feita.

Era o que você tinha feito com Koujaku, pelo jeito. E havia valido a pena: o velhote era de fato tão bom de cama quando afirmavam as fofocas. A forma como ele movia os quadris era fenomenal e você havia enfim conseguido o seu tão desejado alívio. Você sorri tentando recriar em sua mente a sensação do membro dele atingindo em cheio a sua próstata, e você sente uma contração em seu baixo-ventre. Você está se excitando de novo. Para piorar sua situação, vocês tinham gozado quase que ao mesmo tempo, e por mais estranho ou tolo que fosse, aquilo era significativo para você – afinal, na maior parte das vezes você gozava muito depois da outra pessoa, por vezes sequer chegava a gozar.

Você deseja mais, mas ele está tomando banho e você tenta não pensar a respeito. Veste a cueca lentamente e encara com satisfação a mancha de sêmen no sofá enquanto se lembra da sensação do pênis dele em sua boca. Isso te excita ainda mais. O pênis dele era grosso e quente e você o sentira pulsar contra sua língua. Era um pouco patético admitir algo assim, mas você realmente tinha gostado de fazer sexo oral nele. Você certamente proporia fazer de novo, tão logo ele saísse do banho. Com esse plano em mente você abre a caixa da pizza quatro queijos e pega uma fatia. Está fria, mas você come mesmo assim e em poucos minutos a porta do banheiro se abre. Ele chega até você em passos lentos e você vê uma grande marca molhada no quimono dele. Deve ter tentado lavá-lo na pia. Ele também estava sem as ataduras que costumava usar por baixo, o que lhe causa alguma satisfação estranha: o fato do seu prazer ter arruinado as roupas dele te deixa feliz. Era como se você tivesse deixado sua marca nele.

–Quer usar a secadora?

Ele hesita por um instante, olhando para a área de serviço integrada à cozinha americana. Em momento algum ele olhou para você, o que o faz pensar que ele deve estar se sentindo bem desconfortável com o fato de ter te fodido. Você acha isso infantil e patético da parte dele e dá um sorriso de escárnio enquanto ele parece ir a contragosto colocar o quimono no eletrodoméstico. Ele volta até a sala e se senta na poltrona, parece querer manter distância de você. As íris carmesins ainda fixas no chão deixam mais do que claro o incômodo dele.

–Seus mamilos estão duros. –Você observa.

–Está frio pra caralho, você não sente? –Ele resmunga e você olha ao redor, percebendo que esqueceu mais uma vez de ligar o aquecedor.

Você sabe que isso é perigoso para alguém com as suas particularidades, afinal você já havia quase morrido de hipotermia antes, mas desde então você configurou Usagimodoki para que ele monitorasse suas funções vitais, então se ele não havia se manifestado, a temperatura ainda deveria estar segura.

–Eu gosto de frio. –Você mente. Você não sabe muito bem o que é o frio tirando a sensação boa de quando você bebe ou come algo gelado. –Quer pizza?

–Não. –Ele responde seco, ainda sem direcionar o olhar para você.

–Quer fazer de novo?

–O quê?!

–Sexo, que fazer de novo?

–Você é demente?

–Não quer? –Você pede uma confirmação, afinal você não entendeu mesmo. Já tinha dado tempo para ambos se recuperarem, o que custava então um ‘segundo round’?

–É claro que não!

–Por quê?

–Porque eu não quero fazer isso com você. Nunca mais.

–Vai dar uma de hétero agora, é? –Você tem certeza de que suas sobrancelhas estão franzidas nesse momento. Você está irritado.

–Não é isso. –Ele responde após fazer um estalo com a língua. Pelo jeito ele está irritado também. –Eu apenas não gostei da experiência e não quero repeti-la.

–Sério? Não é o que parece... –Você comenta com descaso enquanto passa a mão no assento do sofá e a mela no sêmen de Koujaku, mostrando em seguida a evidência de que ele havia apreciado.

–Não é porque eu gozei que eu gostei.

Nesse ponto você precisou concordar – suas experiências sexuais anteriores comprovavam a veracidade daquela informação. Mas você tinha gostado dessa transa com Koujaku e por algum motivo lhe incomodava saber que ele não.

–Por que você não gostou?

–Porque foi estranho. –Ele respondeu e você realmente não entendeu. Você não se lembrava de ter batido nele ou qualquer coisa do tipo. Muito pelo contrário, ele que havia batido em você. –Olha, eu saquei que você curte dor, mas eu não sou chegado nesses negócios de sadomasoquismo, então não rola, entendeu?

–Eu não sou masoquista. –Você foi sincero, mas ele obviamente te olhou como se você tivesse acabado de contar a mais absurda das mentiras.

–Pirralho, você nem se lubrificou! Foi ruim, doeu! E você gozou quando eu enfiei as unhas no seu pênis. Aliais você tem piercings no seu pênis! Isso dá aflição só de olhar, sabia?

Você até tinha como rebater os argumentos dele, mas você apenas virou a cara e estalou a língua, também irritado. Você estava aborrecido com ele por ser tão fresco e idiota e imbecil e infantil e mil outras coisas que você não saberia nomear. Mas você está com mais raiva ainda de si mesmo por ser tudo isso e muito mais. Por isso você veste mais uma vez sua armadura de indiferença e se levanta. Você vai para seu quarto e não consegue conter o impulso de bater a porta com força, fazendo um estrondo se espalhar pelo apartamento luxuoso.

Você está com raiva e frustrado e triste, e em meio a essa torrente de sentimentos desagradáveis você se permite desabar enquanto escorrega lentamente com as costas contra a porta. Você se sente perdido e traído, por mais que Koujaku nunca tivesse te prometido nada. Era um sentimento irracional, você sabia. E você odiava aqueles sentimentos irracionais. Era algo semelhante ao que você sentia pelos seus pais. Eles eram pessoas escrotas que haviam fodido com a sua vida, e o mais correto seria apenas odiá-los. Você os odiava de fato, mas bem no fundo ainda resistia aquele desejo imbecil e intangível: a vontade de ser amado e de experimentar como seria a sensação de receber um abraço deles.

Não, você não queria o amor do Koujaku. Você jamais desejaria algo tão idiota. Você queria apenas alguém que pudesse te ajudar a aliviar a tensão. A sentir. Você queria apenas foder, e poder gozar. Você não queria carinhos ou palavras de afeto. Você queria apenas um segundo round sem que lhe dissessem o quão escroto era transar com você. Será que isso era realmente pedir demais?

Patético, mil vezes patético; você pensa enquanto observa as marcas de unha que o cabeleireiro havia deixado nas laterais do seu corpo. Você tira a cueca e observa seu membro flácido. As jóias pareciam maiores quando ele estava nesse estado e você tem vontade de esfregar isso na cara do homem mais velho só porque ele tinha dito que aquilo lhe causava aflição. Ele devia realmente achar que você era masoquista, mas você tinha colocado aqueles piercings apenas para aumentar sua sensibilidade.

Você fecha os olhos e suspira tentando não pensar mais nele. Não consegue. Está tudo firme na sua mente: o beijo, os toques, o membro dele dentro de você, tocando-o fundo. As tatuagens bonitas e a face séria, o desprezo e o ódio no fundo dos olhos carmim. Mais uma vez, você amaldiçoa o velho. Você deveria tomar um banho, mas está se sentindo desanimado demais para isso. Tudo o que você faz é permitir que seu corpo tombe para o lado, afinal você está desanimado demais para andar até a cama. Você fecha os olhos tentando suprimir a angústia que está ameaçando explodir em seu peito e tenta simplesmente dormir, mesmo sabendo que o sono não lhe trará qualquer conforto.

Mesmo sabendo que até em seus sonhos, você sempre está sozinho. Pelo menos, você costumava estar sempre sozinho.

Então porque aquele homem estava com você? Quem dera permissão a ele para invadir seus sonhos? Você sabia que era um sonho porque seus raros sonhos eram todos conscientes – efeito colateral do Rhyme, cujas partidas ocorriam no mesmo lóbulo cerebral onde eram criados os sonhos e acabavam superestimando a região, alterando seu funcionamento. Graças aos anos de Rhyme você dificilmente sonhava, mas quando acontecia você sabia muito bem diferenciá-lo da realidade.

Saber que se tratava de um sonho o acalmou e o incomodou ao mesmo tempo, afinal ele não deveria estar lá. Não era como se você quisesse sonhar com ele, com o beijo dele ou com os toques dele – porque sim, no sonho era como se você tivesse tato normal – não que você tivesse algum parâmetro para saber o que era o tato normal, mas você supunha que era semelhante àquelas pequenas sensações agradáveis que ele provocava na sua pele enquanto a acariciava suavemente. Ele estava na sua cama, entre os seus lençóis. Ele era morno e gentil, e ele sorria para você da mesma forma doce como ele costumava sorrir para Aoba. Ele falava algo que você não entendia e beijava a sua testa; você apenas fechava os olhos e se aninhava no peitoral forte dele. Mesmo sabendo que nada daquilo era real, era aterrorizante se dar conta que você estava se entregando àquele tipo de fantasia boba e sentimental.

Mas mais terrível era saber que jamais sentiria aquilo de verdade.

Por isso você realmente não se importaria de nunca mais acordar. Apenas viver naquela ilusão seria confortável o suficiente, mas a realidade era um cruel carrasco que se manifestava através dos primeiros raios de sol adentrando pela janela cuja cortina você esquecera aberta, vencendo a barreira das pálpebras. Era terrível ter que acordar e notar que não havia amor algum em meio aos seus lençóis – afinal, você não sabia bem como isso havia acontecido, mas você estava na sua cama de fato. Era terrível saber que você continuava prisioneiro de um corpo problemático e cheio de ódio, e que seus sentidos permaneciam entorpecidos como sempre.

Mas seus sentimentos... Estes pareciam aos poucos estarem acordando, e isso era mais terrível ainda.

Para variar, sua boca tinha gosto de sangue, solidão e sonhos destroçados. Você se levanta e caminha até a janela, mas sente como estivesse rastejando na verdade. Olha através do vidro e o sol nascendo no horizonte machuca seus olhos a princípio. Ainda era muito cedo, mas você já vê algumas pessoas andando pela rua. Elas estão todas estão sozinhas. Elas podem não se dar conta, mas elas estão sozinhas, por mais que seus ombros se encostem eventualmente, que suas mãos se toquem ou que seus ouvidos escutem palavras doces. No fundo elas sempre estiveram e sempre estarão sozinhas.

E você é uma delas.

Você está sozinho.

E você vai morrer sozinho.

E você será esquecido.

Você já foi esquecido.

Mas não é porque você foi esquecido que você foi perdoado.

Nisso você solta um sorriso amargo e deseja se dar um soco por ser tolo o suficiente para ficar filosofando de manhã cedo, mas você não pode evitar. Aquele sonho havia mexido com você da pior forma possível; ele esfregava na sua cara a verdade que você jamais quisera admitir: que no fundo, tudo o que você queria era se conectar com alguém. Queria que alguém se importasse com você. Que alguém dissesse que você também era um ser humano.

Mas você era um monstro, e ao se dar conta disso você se vê invadido pelas desagradáveis lembranças daquela época em que você contava meses como quem contava dias. Aquelas lembranças eram o mais próximo que você conhecia da dor. Você se lembra mais especificamente de quando seus pais o libertaram daquele quarto. Você pensou que, a partir de então, tudo poderia ser consertado e você poderia ter uma vida normal com sua família. Não demorou muito até a ficha cair: eles jamais seriam sua família. Foi nesse momento que você encontrou o único alívio possível: da mesma maneira que a ilusão se forma, ela se desfaz. Você sabia que não ia demorar até você se convencer que Koujaku não tinha mais nada para lhe oferecer, e com isso em mente você encontra forças para sair do quarto e encarar o vazio do seu apartamento sem sentir qualquer mal-estar.

Mas ele estava lá, dormindo todo encolhido no seu sofá em uma cena ridícula. Você olha para o termostato e vê que ele continua desligado. Você estala a língua, irritado, e vai até o painel eletrônico que controlava as funções do apartamento. Por que o velho idiota não havia ligado ontem? Ou melhor, por que o venho idiota estava lá afinal? Ele já estava vestindo o seu quimono, então não era pelo tempo da secadora, definitivamente. Você tenta ignorar a presença dele e vai finalmente tomar seu banho. Quando você termina, ele já está acordado e sentado no seu sofá. Em um esforço sobre-humano você continua a ignorar a presença dele, vai até o balcão da cozinha e aciona a cafeteira. Você sabe muito bem que o correto seria perguntar se ele quer café também, mas você está com raiva demais para ser educado, por isso, tudo que você faz é externar a questão que estava te incomodando tanto.

–Que diabos você ainda está fazendo aqui?

–Eu queria falar com você. –Ele responde do mesmo lugar, ainda sem olhar para você.

–Nós não temos nada para falar.

–Eu quero que você me explique afinal o que foi que aconteceu ontem.

–A gente transou, não lembra? Será que a velhice já afetou sua memória?

–O que eu quero saber é como foi que isso acabou acontecendo. –Nessa hora os olhos dele finalmente encontraram os seus, e eles pareciam repletos de algum tipo de afeto, o que você achou muito estranho.

–O seu pau ficou duro, aí... –Você ia responder com seu costumeiro sarcasmo, mas ele te interrompeu.

–Noiz... Você gosta de mim? –Ele pergunta seriamente e você a princípio fica sem reação. E logo depois você sente uma vontade insana de bater na cara dele por ser tão convencido e prepotente.

–Você é idiota? –Você pergunta seriamente. Ele não poderia realmente acreditar numa tolice daquelas. Ele não se atreveria.

–Depois do que aconteceu ontem eu fiquei pensando e notei que você tem dado em cima de mim direto e...

–Eu não gosto de você.

–Desde aquele dia no Black Needle...

–Eu não gosto de você. –Você reitera, sua voz fria e cortante, mas ele continua.

–E aquilo foi estranho, mas você apareceu com flores e...

–Você é surdo, porra? Eu não gosto de você!

–Você fez de tudo para transar comigo, admita.

–Isso não tem relação alguma com gostar de você!

–Então me diz o motivo.

–Porque eu queria, oras! Eu queria saber se você era bom de cama, mas no fim você é um velho broxa escroto e fresco.

–Você ficou triste por eu ter dito que não ia mais transar com você? –Ele acertou em cheio, o que te deixou com ainda mais raiva.

–Dane-se! Aquilo não significou nada para mim! Eu não me importo com quem você transa ou deixa de transar! Deixa de ser metido a garanhão, porque eu não sou uma das suas putas para ficar me derretendo todo só porque você me comeu!

–Eu fui no seu quarto tentar falar com você ontem a noite, mas você estava jogado no chão... E eu notei que você tinha chorado.

Aquela revelação te pegou de surpresa. Do que ele estava falando? Você tinha chorado? Não. Não. Não mesmo. Isso explicava, todavia, o fato de você ter acordado na sua cama.

–Eu não chorei. –Você afirma enfaticamente, mas ele aparentemente ignora.

–Olha Noiz, eu sei que a gente nunca se deu bem...

–Cala a boca... –Você murmurou com raiva mais para si mesmo, tentando se convencer de que ele não ia te dizer o que você achava que ele iria.

–Mas eu queria que você soubesse que eu não te odeio... –Ele ia te rejeitar. Ele ia falar algo como ‘eu só te vejo como amigo’ ou coisa pior. –Mas aquilo que aconteceu entre a gente foi muito estranho e... –Ele ia te rejeitar, sendo que você nem tinha se declarado para ele ou qualquer merda do tipo. Você não ia permitir que algo assim acontecesse, por isso você o interrompeu.

–Foda-se se você não me odeia! Eu odeio você! Eu odeio você, por isso você vai embora da minha casa agora! –Você está gritando. Você está claramente descontrolado. Você nunca se permitiu ser visto nesse estado antes, mas você não pode evitar. Você precisa se livrar daquele velho imediatamente, antes que se enfureça ainda mais e vá para a porrada com ele.

–Noiz... –Ele tenta falar algo mais, mas você se apressa na direção da porta e a escancara.

–Vai embora agora! –Você grita mais uma vez, sem deixar uma sombra de dúvida que o queria longe de si.

Ele abaixa o olhar e segue até a porta. Antes de sair, todavia, ele te olha fundo nos olhos e você tem medo daquilo que acha que viu nas íris carmesim. É nesse momento que você entende afinal porque você quer que ele lhe queira: você quer aquilo que vê escondido no fundo dos olhos dele, aquilo que ele não mostra para ninguém. Você sabe que ele é muito mais do que ele se atreve a mostrar para você ou para qualquer um. Ele é muito parecido com você: um monstro triste e machucado demais para achar que possa ter um final feliz.

Antes que você pudesse fechar a porta, todavia, ele ainda fala:

–Fale com o Aoba e o Mizuki, eles estão mesmo preocupados.

Você pensa em mandar ele se foder junto com Aoba e Mizuki, ainda se lembrando do quanto lhe doeu saber que os dois provavelmente só o aturavam por pena – o que não era de se estranhar, agora que você pensava a respeito, afinal você nunca se esforçou para ser alguém minimamente agradável mesmo. Você não podia culpa-los, você era mesmo um pirralho sem-noção e irritante, como Koujaku vivia dizendo. É aí que você entende que não estava com raiva dos dois por eles terem pena de você, e sim que você estava com raiva de si mesmo por não ser digno da amizade deles.

Aquela certeza contrai o seu peito e quase o sufoca. Você sente vontade de gritar. Foda-se se era seu aniversário e você não tinha mais ninguém para ficar ao seu lado. Foda-se se sua família não te amava. Foda-se se você tinha vinte anos de amargura, solidão e questões mal resolvidas nas costas. Que eles te deixassem sozinho, definhando em paz e comendo uma pizza na frente dum computador, como você sempre fez. Você manda tudo aquilo se foder e em seguida se pergunta desde quando a solidão lhe era fonte de tristeza. Você estava acostumado com ela. Você passou sua vida toda sozinho, e para você, sua própria presença já era o suficiente. A ideia de morrer sem ninguém ao lado sempre lhe fora uma certeza, então por que agora parecia uma maldição tão difícil de suportar? Por que o seu corpo estava tremendo em pavor e a sua face estava molhada?

O sonho que você teve com Koujaku o atinge novamente como um baque e você se sente enjoado, como se algo estivesse errado com seu estômago. A sensação de se sentir querido, amado protegido; não bastasse você nunca tê-la vivido, você nunca havia se permitido desejar algo assim, sequer imaginar que algo assim poderia de fato existir. Você sempre viu relacionamentos como uma questão de custo-benefício. Você oferece algo e recebe algo em troca. Assim, bem simples, lógico e equilibrado.

Mas Aoba destruiu tudo que você entendia sobre relacionamentos. Ele te deu a amizade dele, mesmo sem que você tivesse ofertado quase nada em troca. Para você estaria tudo pago com mais uma partida de Rhyme, mas ele continuou do seu lado, insistindo para que se abrisse, para que você adentrasse no círculo de amizades dele. Clear sempre foi gentil e solícito com você, mas ele era um cara louco, então você não estranhou muito. O impressionante foi quando você viu que Mizuki estava te tratando como um irmão mais novo – o tatuador te tratava da exata maneira como você gostaria de ter tratado o seu irmãozinho caso você tivesse tido a possibilidade de conviver com ele.

Os dois te ensinaram coisas sobre a vida e sobre amizade que você jamais poderia supor. Eles te ensinaram a beber, a jogar pôquer e a não ser um completo imbecil todo tempo. Eles passaram a ser sua principal companhia desde a decadência do Rhyme até sua extinção total. Você havia perdido sua principal conexão com o mundo sensorial, mas havia ganhado dois amigos, e você realmente achava essa uma troca muito justa e satisfatória. Estaria tudo perfeito, se os dois não tivessem te forçado a conviver com Koujaku. Engraçado como você nunca conseguiu ser indiferente ao velho. Você não o odiava, mas ele quase sempre te irritava, por isso as brigas eram uma rotina entre vocês – rotina essa que com muita insistência Aoba e Mizuki conseguiram quase eliminar.

Você queria entender em qual exato momento Koujaku deixou de ser uma fonte de entretenimento e virou uma obsessão sexual – afinal, não importava o que ele achava, você não estava apaixonado por ele.

Você ri de si mesmo nesse ponto. Um riso amargo e desesperado, pois você sente seu estômago se revoltar mais uma vez, como se tivesse algo lá ansiando por sair. Você se lembra então de uma conversa que tivera com Clear e que ele descrevera o sentimento do amor como ‘borboletas voando pelo seu estômago’. Você não tinha certeza se eram borboletas no seu caso. Deviam ser bichos maiores, como coelhos – ou pardais. A verdade era que você não faz ideia do que estava sentindo por Koujaku. Você achava que conhecia o amor pela forma constante que Aoba invadia sua mente pouco depois que vocês se conheceram. Você queria estar com Aoba a todo momento, e foi nesse ponto que você notou que Koujaku desejava a mesma coisa. Mas Aoba claramente estava esperando por outra pessoa. Quando Clear voltou, você finalmente testemunhou o que era amor de verdade: era aquela relação bonita que eles tinham e que você jamais saberia explicar. Algo que envolvia toques, olhares, cumplicidade e até brigas bobas e rotineiras. Você apenas sabia que jamais poderia viver algo semelhante, então você se sentia satisfeito de estar perto deles e assistir aquela felicidade. E você estava conformado com esse fato, então por que você estava chorando?

Você enxuga as lágrimas com raiva sem entender o motivo delas e se lembra do aperto que sentiu em seu peito quando escutou os sons que Koujaku fez ao levar uma mulher para a cama. Você não quis admitir a princípio, mas você daria qualquer coisa para estar no lugar dela. Para ser sincero, não. Você daria qualquer coisa para estar no lugar de Aoba, pois você sabia que era nele que o cabeleireiro pensava. Você queria que Koujaku pensasse em você. Você propôs enquanto transavam que Koujaku chamasse o nome de Aoba, mas no fundo você se sentiu muito grato que ele não o tivesse feito, pois aquilo doeria muito.

Talvez você esteja de fato gostando do velho, e essa teoria o aterroriza. Você não quer pensar nisso, você não pode pensar nisso. Você quer sair, mas não lhe ocorre nenhum lugar além do Black Needle, o qual certamente está fechado pelo horário. Você poderia visitar Aoba na Heibon, mas o rapaz de cabelo azul certamente lhe faria mais perguntas do que você estava disposto a responder, sem falar que ele tinha um talento natural para arrancar a verdade de você. E nisso se esgotavam suas opções. Não havia sobrado muita gente ao seu redor. Apenas Aoba, Mizuki e o velho...

A constatação o enche de desespero e você não sabe o que fazer para diminuí-lo. Você abre a geladeira e procura algo para comer, mas nada lá assanha seu apetite. Você abre o armário e seus olhos logo se focam na garrafa de tequila que Mizuki tinha te dado de presente de aniversário. Você nunca tinha tocado antes nela porque odiou o gosto de todos os destilados puros que o ruivo lhe apresentara, mas ela parecia convidativa assim mesmo. Você sabia muito bem que beber álcool de manhã com estômago vazio seria o arauto da autodestruição e falta de amor próprio. Nada mais adequado, você concluiu enquanto abria o lacre da garrafa. Você sentiu o cheiro e aquilo embrulhou mais uma vez seu estômago. Você prendeu a respiração e levou o gargalo até a boca, tomando uma grande golada. Era horrível, horrível. Mas aquilo era como uma indulgência e você tinha fé que se bebesse o suficiente, você ao menos mataria aquelas malditas borboletas, ou coelhos, ou pardais, ou o que fosse que estivesse habitando o seu estômago naquele momento.

Notas finais
Notas: Perséfone Tenou, mais uma vez obrigada por betar esse capítulo *-* Você é foda