Vizinhos
1 Prólogo – Seis meses antes
Notas iniciais
"The world was on fire and no one could save me but you
It's strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that I'd meet somebody like you
And I never dreamed that I'd lose somebody like you (...)"
— Wicked Game, Chris Isaac, 1989.
O mundo já estava em chamas antes de eu perceber queimar.
E não foi ele quem me incendiou.
Fui eu — no instante em que o desejei.
No momento exato em que olhei nos olhos dele e não desviei.
Dizem que o amor transforma, mas o desejo…
O desejo destrói.
Clary
Seis meses antes
Encaro fixamente as costas do garoto sentado à minha frente, a algumas cadeiras de distância. Sua postura é relaxada, quase desleixada, recostado no assento, enquanto o Sr. Ford dá as instruções para a construção do artigo final do semestre.
— Como de costume, vocês irão se dividir por temas — o professor continua. — Uma notícia triste para você, Blackwell — acrescenta, virando-se para mim, enquanto aponta com a caneta em sua mão. — Sei que adora trabalhar sozinha, mas agora você não é mais a única na área de Dolce Stil Novo. Nosso novo colega aqui também gosta de literatura italiana — diz, olhando por trás dos seus óculos para o garoto de cabelos pretos e parecendo esperar por uma confirmação.
O menino se vira brevemente, me cumprimentando com um simples aceno de cabeça. Não posso deixar de notá-lo. Seus olhos cor de avelã se destacam na pele pálida. As linhas do rosto são bem desenhadas, mas não de forma grosseira ou exagerada. Ele é quase como uma escultura em mármore milimetricamente planejada. Delicadeza em pedra, como as obras de Michelangelo. Seus traços são graciosos e fortes ao mesmo tempo: ossos das bochechas levemente proeminentes, maçãs do rosto levantadas e lábios e nariz proporcionais de uma maneira invejável. Olheiras brandas marcam a parte debaixo dos seus olhos, mas elas o deixam estranhamente ainda mais bonito. Quase como se trouxessem um ar de realidade à sua beleza angelical, deixando-o com uma aura um pouco melancólica – como se algo mais se escondesse por trás da perfeição.
— Sam Lockwood — é o que ele diz, baixo e sucinto, seu olhar inesperadamente intenso sobre mim, de forma quase... possessiva.
— Clarissa Blackwell — respondo, no mesmo tom, encarando-o de volta.
Ficamos nos olhando em silêncio por alguns segundos — que mais parecem uma eternidade — sem desviar os olhares, até que o professor finalmente nos interrompe. Sempre fui muito observadora e, com o tempo, percebi que a maioria das pessoas se incomoda ao ser analisada. No entanto, o garoto continua me encarando, sustentando minha curiosidade sem demonstrar um pingo de timidez ou insegurança. Na verdade, ele não demonstra nada. Em vez disso, emana um magnetismo silencioso. Seu olhar é profundo, os olhos castanhos quase hipnotizantes, como se guardassem segredos fascinantes. Embora seja fácil se perder na admiração por sua aparência, o que ele me transmite — por algum motivo — é que há algo mais profundo e, talvez, não tão belo, por trás. A sensação é... desconcertante.
— Que entusiasmo, hein? Uau. Mal posso esperar para vê-los trabalhando juntos. Só espero não morrer de tédio antes — o Sr. Ford ironiza, arrancando algumas risadinhas da turma, enquanto passa para entregar suas folhas com as exigências do artigo final.
Antes que Sam Lockwood se vire novamente para frente, vejo uma covinha aparecer em sua bochecha direita, quando ele sorri de lado, algo zombeteiro e, ao mesmo tempo, intrigante.
— Acho que seremos bons amigos. — A voz dele, provocadora e cheia de segundas intenções, me deixa desconfortável.
Arqueio as sobrancelhas, sem entender se o comentário foi sarcasmo ou o quê. Não sei o que pensar.
— Eu tomaria cuidado. Ouvi dizer que Blackwell morde — o professor brinca, alheio a tensão entre nós, rindo enquanto guarda as últimas folhas. A turma começa a dispersar e, por algum motivo, a ideia de que isso está longe de ser uma simples coincidência me incomoda. — Até semana que vem — ele acrescenta rapidamente, com um aceno, enquanto os murmúrios dos estudantes começam a se espalhar pelo ambiente.
Demoro a guardar o meu material, na intenção de não esbarrar com Lockwood nos corredores e evitar uma conversa casual, mas sinto os seus olhos fixos em mim, enquanto fecho a minha bolsa. Ele sequer tenta disfarçar, esperando pacientemente, quase de forma provocativa, como se soubesse que não quero papo, mas ainda assim estivesse disposto a me forçar a isso. Lockwood continua me olhando, como se me desafiasse a não parecer desconcertada com o seu comportamento irritante. Sinto um frio na espinha, uma mistura de curiosidade e apreensão.
Estou acostumada a observar, não a ser observada.
Vejo, de relance, sua silhueta alta e imponente, parada ao lado da mesa onde estivera sentado minutos antes. Seu corpo é visivelmente atlético e bem definido, e as roupas pretas e sofisticadas, com um caimento perfeito, parecem escolhidas com um cuidado quase estratégico. Ele parece ter uma habilidade natural de se vestir de forma discreta, mas ainda assim conseguir capturar atenção sem fazer esforço algum.
— Não vai querer uma carona pra casa? — pergunta, quando as últimas pessoas, além de nós dois, saem pela porta da sala, deixando-nos sozinhos no ambiente agora quieto e vazio.
Quase engasgo com a minha própria saliva, surpreendida pela oferta. Ele parece se divertir com isso, um sorriso travesso brincando em seus lábios. Fico sem saber o que responder, sem querer parecer afetada, mas também sem querer aceitar sua proposta duvidosa e inesperada. O olhar dele, provocador e atento, só aumenta a tensão do momento.
— Que? Ah, não, obrigada, eu moro perto daqui e... — começo, tentando encontrar uma desculpa convincente antes que Lockwood perceba minha hesitação.
— Não mora, não. Você mora na casa em frente à minha — ele me interrompe, arqueando as sobrancelhas de maneira meio arrogante. Sam Lockwood levanta o pulso esquerdo para dar uma olhada no seu relógio aparentemente caro e troca o peso de uma perna para a outra, parecendo ter algum compromisso. Mas ele não se move nem um centímetro.
Só pode ser sacanagem.
Eu sabia que a antiga casa dos Leighton, abandonada há tempos, havia sido ocupada recentemente, mas não fazia ideia de que o meu novo vizinho, além de ter a aparência de um anjo caído — belo de forma cruel — também faria literatura estrangeira com o Sr. Ford. Muito menos que ele seria a minha dupla até o final do semestre.
Sério? Muita coincidência.
Suspiro, confusa e derrotada.
Mas Lockwood ainda me olha. Tento decifrar o que está por trás desse olhar silencioso, quase enigmático. Não é um olhar qualquer; é como se ele estivesse capturando cada detalhe meu, absorvendo minha presença de uma maneira intensa, e eu não consigo entender o que ele pensa, o que ele realmente quer com essa aproximação inusitada. Algo nele é desconcertante, como se tivesse surgido do nada para perturbar minha vida calma e controlada.
— Ah, você é o novo morador — comento, um pouco desconfortável pela mentira que acabei de contar. — Como sabe que sou sua vizinha? — pergunto, semicerrando os olhos, na esperança de mudar o foco da conversa.
Ele continua me encarando em silêncio, sem pressa de responder. A sensação é desconcertante, mas, ao mesmo tempo, uma curiosidade crescente surge. Em vez de desviar o olhar, mantenho o contato, sentindo seus olhos percorrerem meu rosto e, descaradamente, pousarem sobre meus lábios, arrastando-se por eles, demorando-se bons segundos, antes que Lockwood finalmente quebre o silêncio novamente.
— Te vi por lá — ele diz, dando de ombros, com um gesto casual que contrasta totalmente com sua atitude intensa. — Vai aceitar a carona ou não, Cherry? — pergunta novamente, sem perder o tom de provocação, que já me parece estranhamente familiar. Lockwood cruza os braços fortes em frente ao peito, recostando-se preguiçosamente na porta da sala. Ele parece não se importar em ser insistente, me fazendo duvidar muito que aceitaria um "não"como resposta.
Meu coração acelera sem explicação. Essa interação está longe de me deixar tranquila, mas não posso evitar me sentir... atraída, de alguma forma. Sim, as minhas mãos suadas só confirmam esse pensamento absurdo.
Meu Deus, é o fim da picada.
— Cherry? — arqueio as sobrancelhas, incrédula com a intimidade que ele demonstra, considerando que, literalmente, acabamos de nos conhecer. — Isso é um apelido? – paro à sua frente.
Espero que ele me dê passagem, me recusando a perder a postura. Lockwood dá de ombros novamente e, com um sorriso sutil, pega uma mecha do meu cabelo ruivo entre os dedos, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fico imóvel, tentando disfarçar o coração descompassado no peito, enquanto processo o que está acontecendo. O que mais mexe comigo, no fundo, não é o apelido, e sim o jeito como ele me olha. Como se, de alguma forma, já tivesse me desvendado por completo. Como se já soubesse tudo sobre mim.
Não sei se gosto muito disso.
— Achei adequado — Sam pontua, com uma tranquilidade desconcertante, divertimento brilhando em seus olhos escuros. — Não gostou? Posso pensar em outros.
Ele abre a porta para mim e gesticula educadamente. Respiro fundo e sigo para fora da sala. Franzo o cenho, achando essa situação toda um tanto quanto... intrigante. Só consigo rir internamente do quão ridículo é tudo isso e, ao mesmo tempo, me sinto... fascinada?
Porra, sequer sei direito o que sinto.
— Então, você é o tipo de cara que coloca apelidos em todo mundo? — retruco, bufando, em uma tentativa de descontrair.
— Não. — Lockwood responde, sem fazer questão de me dar mais explicações, enquanto me segue pelo corredor.
De onde esse esquisito surgiu?
— Sua família conhece os Leighton? — pergunto, querendo entender o que os fez alugar a mansão depois de tanto tempo.
— Não. Vim para Bristol sozinho.
— A casa estava fora de questão há anos… — pontuo, desconfiada. — E é enorme. — Franzo o cenho. Não vejo porque alguém alugaria um lugar tão grande para morar sozinho.
— Acho que dei sorte, então. — Sam sorri, um tanto distante, mais como um ponto final no assunto do que um gesto amigável, e segue andando rápido ao meu lado.
— Se você chama morar a trinta minutos daqui de "sorte"... Então, sim. — Retruco, tentando controlar a língua para não parecer intrometida, mesmo com ele não tendo se importado muito em fazer o mesmo.
— É um bom bairro. — Lockwood comenta, quase como se estivesse fazendo um elogio vazio. — Calmo. Bonito. Agradável.
— Caro. — acrescento. Se não fosse pelo meu pai, eu nunca seria capaz de bancar algo nem parecido com a casa em que moramos.
Ele dá de ombros, a expressão indiferente.
— A maioria das coisas boas são.
Há uma certa familiaridade no modo como Lockwood age — como se já tivéssemos nos conhecido antes, como se ele sempre tivesse estado ali, ao meu lado, nas sombras do cotidiano. Ao mesmo tempo, algo nas suas atitudes faz com que uma voz interna sussurre que ele está jogando algum tipo de jogo comigo. Um jogo que ainda não decifrei. Não tenho ideia do que ele quer, mas alguma coisa me puxa para mais perto. Algo no fundo da minha cabeça diz para não dar esse passo, para não cair nesse papo. E ao mesmo tempo, outra parte de mim não consegue resistir à tentação.
— Eu preciso esperar uma amiga — digo, sentindo a presença imponente de sua silhueta ao meu lado, enquanto seus passos largos fazem com que eu pareça apressada ao tentar acompanhá-lo. Lockwood caminha com uma confiança inegável, cada movimento seu transbordando uma calma autoritária, como se soubesse exatamente para onde está indo e o que está fazendo.
A universidade é antiga, com infinitos corredores em pedra bege que se assemelham a um labirinto e muitas escadarias amplas. Quase como uma enorme catedral reutilizada, com outras construções menores acopladas como anexos. Os prédios têm uma arquitetura imponente, com corredores largos e altos, cheios de detalhes em pedra, que remetem ao clássico estilo britânico, com arcos, colunas e vitrais. Os tetos são altos, dando uma sensação de grandeza avassaladora. O eco das vozes e dos passos ao longo dos corredores é um lembrete sutil de quantas gerações de estudantes já passaram por aqui. Por toda parte, há uma sensação de atividade constante. O campus é multicultural, ouvindo-se várias línguas diferentes enquanto seguimos até a saída principal.
— Diga a ela que tem cinco minutos, Blackwell, não tenho o dia todo. — o meu novo vizinho retruca, em tom um tanto autoritário, tirando uma carteira de cigarros do bolso. Ele coloca um entre os lábios, enquanto descemos os degraus da escadaria da frente. — Te espero no estacionamento… Cherry. — ele se vira pra mim por alguns segundos, antes de sair pela enorme porta em arco, desaparecendo do lado de fora, por entre as pessoas dispersas pelo jardim da frente.
Me pego observando-o, tentando decifrá-lo — reparando nos detalhes do jeito como ele fala, nas palavras que escolhe, nos gestos que faz. Uma curiosidade crescente surge da sensação de que, apesar de Sam Lockwood agir como se já fôssemos velhos conhecidos, eu nem sei quem ele é.
Talvez seja o sorriso enigmático que ele solta de vez em quando, ou a forma como se aproxima, como se sempre tivesse feito parte do meu círculo íntimo. Esse jogo de expectativas e percepções cria uma sensação estranhamente instigante, que me faz querer entender mais sobre o meu novo vizinho – mesmo que eu não queira admitir isso nem para mim mesma. Há muito tempo não sinto esse tipo de ânimo, uma sensação que parece quase estranha, mas, ao mesmo tempo, inebriante. Não é difícil me permitir ser envolvida por ela.
Fico ali, imóvel, os pensamentos se emaranhando em minha mente sem que eu consiga direcioná-los. É como se Lockwood tivesse lançado uma semente de dúvida no fundo da minha cabeça, algo insignificante a princípio, mas agora ela começa a germinar.
Sequer sei ainda qual é o jogo dele, mas acho que já estou convencida a jogar.
(...)
— Então... de onde você é, mesmo? — Emy indaga, sentada no banco de trás. — Esse seu sotaque é galês? — continua, enquanto o meu novo vizinho, por outro lado, não me parece tão interessado em responder suas perguntas incessantes. Ficamos em silêncio, sem música.
Desconfortável, eu diria.
Sam dirige com uma calma inquietante, quase como se o volante fosse uma extensão natural de seus movimentos. Seu olhar, fixo à estrada à frente, é profundo e inexpressivo, como se estivesse em outro lugar, um tanto distante.
— Oeste. — A resposta sai quase sem emoção, como se ele estivesse respondendo a uma pergunta sobre o clima, enquanto lança um olhar pelo retrovisor, algo entre impaciência e frustração.
— Da cidade? Do país? — Emy insiste, sem notar a tensão no ar, ou talvez não se importando. Conhecendo-a, sei que a segunda opção é a mais provável. Emy nunca parece desconfortável com nada. — "Oeste" é muito vago, sabe?
Eu respiro fundo e tento não rir da cena.
— Por que não colocamos uma música? — sugiro. Não espero por uma resposta. Apenas aperto o botão para ligar o som, e a tela do painel se acende. O celular de Sam já está conectado. — Chris Isaak. — observo, surpresa e um tanto satisfeita.
O meu vizinho tira os olhos da rua por um instante e me observa pelo que me parece a milésima vez em pouquíssimas horas. O seu semblante inexpressivo se desvanece por um momento, substituído por algo mais suave, mais atento. Seus olhos, antes distantes e impassíveis, agora estão fixos em mim, como se, por um momento, ele estivesse absorvendo cada detalhe da minha presença ao seu lado. O olhar é quase hipnótico — não invasivo, mas certamente cheio de uma curiosidade profunda, como se tentasse ler cada pensamento e emoção meus sem dizer uma palavra sequer.
Logo em seguida, ele dá um sorrisinho, como se tivesse pensado em algo engraçado, e balança a cabeça. A covinha direita aparece novamente. Lockwood passa a mão pelos cabelos extremamente escuros, colocando-os de volta para trás, de maneira despojada. Isso, somado ao seu longo casaco preto de aparência caríssima, ao seu sorriso felino e ao seu rostinho angelical, com certeza são fatores que tornam difícil decifrar se o meu novo vizinho é uma pessoa realmente interessante ou somente… agradável aos olhos.
— Essa é, literalmente, a única música boa dele — Emy observa, interrompendo o que quer que esteja acontecendo silenciosamente entre nós dois. — Tipo um... Jean-François Millet dos cantores — acrescenta, com um sorriso presunçoso que posso enxergar mesmo de canto de olho. — Viu? Eu escuto o que você diz. — Ela rebate para mim, provando um ponto recorrente na nossa amizade.
— Essa foi uma boa analogia — reconheço, não conseguindo evitar uma risada baixa, mas genuinamente divertida. — Emy faz Engenharia de Software, e eu, História da Arte — explico para Lockwood, que está estranhamente calado até agora. Suas sobrancelhas se arqueiam levemente, como se estivesse prestes a dizer algo, mas é Emy quem, impaciente como sempre, quebra o silêncio.
— E você? — ela pergunta, sua curiosidade evidente.
Olho para ele, também interessada nas resposta.
— Sou residente de psiquiatria. — Lockwood responde, e, por um segundo, fico sem palavras. Mais uma surpresa do meu novo vizinho. — Literatura é um hobby. — Ele acrescenta com um tom leve, como se fosse a coisa mais natural do mundo, antes de ajustar o volume da música de forma quase definitiva, como se, com isso, estivesse encerrando a conversa. O gesto é tão sutil quanto um aviso, mas é difícil não notar.
Percebo o olhar dele, fixo e inegavelmente curioso, me atravessando algumas vezes durante o trajeto até em casa. Tento fingir que estou completamente absorvida pela letra da música, mas é impossível ignorar a sensação de calor subindo pelas minhas orelhas. Ser observada dessa maneira, sem saber exatamente o que ele está pensando, faz o meu coração descompassar, saltando em ritmos erráticos. Tento manter a postura, mas minha pele, traidora, não mente: a vermelhidão começa a tomar conta de mim, subindo do pescoço até as minhas bochechas. Cantarolo baixinho, mais por nervosismo do que por prazer, os olhos perdidos na paisagem, tentando desesperadamente esconder o desconforto crescente.
"The world was on fire and no one could save me but you
It's strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that I'd meet somebody like you
And I never dreamed that I'd lose somebody like you"
Estamos quase chegando em casa quando percebo uma bolota branca e felpuda empoleirada no alto da enorme cerejeira do jardim, logo em frente à janela do meu quarto, que está aberta. Suas patas pequenas e ágeis se ajustam com dificuldade aos galhos finos, enquanto Robert, meu gato, observa atentamente a vastidão do chão abaixo, coberto por folhas douradas e flores cor-de-rosa espalhadas, criando um contraste delicado com o céu cinza. Fixo o olhar na cena, a quietude e a beleza da imagem me tomando, como se fosse parte de um quadro.
Talvez eu a pinte algum dia.
A nossa vizinhança é deslumbrante e bem arborizada, com uma enorme floresta de carvalhos e pinheiros se estendendo por trás do bairro. A neblina suave envolve as casas como um manto, esmaecendo as bordas e dando à cena uma qualidade etérea, como se a rua fosse quase uma pintura, distante do caos do centro da cidade. As mansões vitorianas, grandes e elegantes, estão alinhadas ao longo da rua de pedra, cada uma com seu estilo único, mas todas compartilhando uma aura de nobreza decadente. O cimento envelhecido, coberto de musgo em alguns pontos, e as fachadas de tijolos vermelhos com detalhes em ferro forjado sugerem que, embora majestosas, essas casas têm histórias de tempos passados.
As árvores altas e entrelaçadas formam uma verdadeira cúpula natural sobre a rua, suas copas densas quase se tocando, criando uma sombra constante, mesmo durante o dia. Cabelos de hera crescem nas paredes de algumas casas, envolvendo-as suavemente, como se a natureza estivesse devagar tomando de volta o que uma vez foi seu. Em cada esquina, os troncos grossos e retorcidos de árvores antigas contrastam com a simetria das mansões, dando à rua um toque de magia.
No fim da rua, a floresta começa a se erguer, uma mancha escura e densa que se estende além do alcance da vista. As árvores da floresta parecem quase convidativas, com seus galhos nus e sinuosos que se estendem como dedos para o céu, mas também emanam um certo ar de isolamento. Há uma sensação de algo inexplorado, algo não dito, como se a floresta fosse a fronteira entre o que é conhecido e o que permanece em segredo.
No entanto, há uma beleza estranha e profunda nessa quietude — uma sensação de que a vida continua, mas de uma forma sutil e silenciosa, como um sussurro perdido na brisa.
É uma rua bela e melancólica.
— Não acredito que esse idiota conseguiu ficar preso a dois metros de distância de casa. — suspiro, observando Robert.
— Você deveria fechar a janela. — Lockwood sugere, olhando para cima, para o meu quarto, assim que estaciona em frente à casa. A cortina de linho branco dança suavemente ao vento, parecendo viva, como se tivesse vontade própria.
— Está quebrada. — estalo a língua para o seu comentário óbvio, desafivelando o cinto apressadamente para buscar o meu gato. — Obrigada pela carona, Sam Lockwood. Nos vemos por aí. — acrescento, pressionando os lábios, sem saber bem o que mais dizer. Abro a porta do carro para sair.
— Até mais. — Emy completa, parando ao meu lado na rua. Ela parece tão silenciosamente intrigada quanto eu. Tenho certeza de que está se segurando para não me cutucar, e que vamos passar, pelo menos, os próximos trinta minutos falando sobre meu novo vizinho e analisando cada detalhe da nossa interação com ele.
— Segunda, às sete e meia. Vê se não se atrasa, Clarissa Blackwell. — Sam devolve, sua expressão ainda estampando um tipo estranho de divertimento, como se ele soubesse de algo que ainda não sei.
Há algo singular na maneira como seus olhos encontram os meus. É como se, apesar de mal nos conhecermos, ele tivesse uma gentileza que não combina com o sorriso malicioso nos lábios. A forma intensa e quase possessiva como Sam me observa, é tão inesperada. Ele é provocativo, mas de maneira suave, como se estivesse se divertindo com essa situação toda, sabendo que consegue me deixar à vontade e ao mesmo tempo desconcertada.
Com os lábios comprimidos em uma linha fina e várias perguntas surgindo na mente, fico em silêncio. Não consigo sequer pensar em uma desculpa boa o suficiente para dispensá-lo. Afinal, eu deveria dispensá-lo, certo? Mas não digo nada.
Fecho a porta do carro e ajeito a bolsa sobre o ombro, por cima do casaco. Observo o carro seguir até o final da nossa rua sem saída, perto da floresta, e parar em frente à antiga casa dos Leighton — desocupada há anos. Desde que se mudaram para a Flórida, os donos nunca permitiram que mais ninguém morasse lá.
Fico parada na calçada, os olhos fixos na casa antiga, quase imponente. A mansão, com seus muros de pedra desgastados e janelas emolduradas por cortinas pesadas, tem um ar de outro tempo, como se tivesse sido esquecida pela cidade, mas de algum modo ainda ali, intacta, testemunhando as décadas passarem. Algo na forma como ela se apresenta me dá a sensação de que guarda segredos, como se o tempo dentro dela seguisse um ritmo diferente.
Examino o meu novo vizinho sair do carro: o sobretudo de lã batida perfeitamente ajustado, os sapatos pretos limpíssimos, os cabelos recém cortados... absurdamente lindo. Engulo em seco quando, antes de girar a maçaneta para entrar em casa, ele vira a cabeça em direção a mim, parecendo também não conseguir conter o olhar. É uma sensação de pendência, de estar no limiar de algo que ainda não pode ser totalmente compreendido. A interação, por mais descontraída que pareça, me desafia a entender a verdadeira dinâmica entre nós, e essa incerteza, essa busca por respostas, me mantém querendo mais e mais, sem saber onde exatamente isso vai levar.
— O seu novo amigo é uma delícia. Por sinal, o que foi isso? Quando? Como? Quem é ele? — Emy me bombardeia com suas perguntas, me tirando dos devaneios, enquanto finalmente destranco a porta de casa.
— Ele não é meu amigo. — imito-a, semicerrando os olhos. — É a minha nova dupla de literatura. E meu novo vizinho, pelo visto.
— Bom, é óbvio que ele está totalmente afim de não ser seu amigo.
Bufo, soltando uma risada inexpressiva.
Por um momento, me pergunto se a sensação que tenho é apenas fruto da minha imaginação ou paranóia, mas não consigo afastar a impressão de que, de alguma forma, tudo isso parece ser parte de algo maior, algo que ainda não consigo entender completamente. Dou um último olhar para a casa do outro lado da rua, tentando afastar os pensamentos insistentes. Mas a sensação de que Lockwood é parte de um enigma ainda não resolvido permanece comigo.
— Ele é meio...
— Estranho? Totalmente. — Emy concorda, parecendo ler os meus pensamentos. — Mas também é bem gostoso e deve ter uns dois metros de altura, acho que vale à pena dar uma chance. — Ela acrescenta. Tenho certeza que a minha melhor amiga já fez uma lista mental completa de prós e contras de Sam Lockwood em menos de uma hora.
— Eu não sei. Isso tem cara de problema.
— Exatamente por isso que você não vai resistir — Emy retruca, antes de seguirmos para dentro. — Ainda mais pegando carona com o problema, estudando com o problema e morando ao lado do problema. Eu te conheço, Clarissa Blackwell.
Dou risada.
— E você reparou nos bíceps do problema? — acrescento, mordendo o lábio inferior.
Emy concorda com a cabeça.
— Aposto que ele tem um problemão no meio das pernas também.
Caímos na gargalhada.
Algo em mim me diz que, mais cedo ou mais tarde, essa história vai me consumir. E, por mais que eu tente negar, parte de mim está começando a achar que talvez eu não queira que ela termine tão cedo.
Fale com o autor