Vizinhos

2 Clarissa


“My love is as a fever, longing still

For that which longer nurseth the disease,

Feeding on that which doth preserve the ill,

The uncertain sickly appetite to please.”

— Sonnet CXLVII, William Shakespeare.


Eu sabia que era um erro — desde o início.

Mas algo em mim, algo que já nasceu fraturado, encontrou consolo na ferida dele.

Não por redenção.

Mas porque, às vezes, a dor reconhece a si mesma e se deita ao lado do que a devora.



Clary


Encaro a janela da sala de aula com os olhos quase fechando de sono. Gotas de chuva escorrem pelo vidro — nada de incomum aqui em Bristol. A única coisa que consigo enxergar através da tempestade forte que cai lá fora, e da neblina cinzenta, são as bandeiras da universidade, encharcadas e tremulando pesadamente. O gramado está completamente ensopado, assim como a escadaria da entrada, que normalmente está repleta de alunos de todos os lugares — até mesmo de outras faculdades.

As torres antigas da universidade, com seus detalhes góticos e a pedra desgastada pela passagem dos anos, parecem ainda mais misteriosas, quase fantasmagóricas, à medida que o nevoeiro as envolve, como se quisesse escondê-las do olhar. A arquitetura da cidade — as linhas retas e angulares dos edifícios modernos misturadas com as formas irregulares e históricas das construções mais antigas — se perde em um fundo difuso, como se flutuassem em um espaço entre o real e o imaginário.

O Sr. Ford está tão ocupado tagarelando sobre Albrecht Dürer e o Renascimento nórdico que não percebe minha falta de atenção. Ele parece ser a única pessoa a achar o assunto remotamente interessante, já que a maioria dos outros alunos dorme sobre as mesas, usa fones de ouvido enquanto encara os celulares ou mexe nos computadores de última geração.

Apesar de ser uma grande fã do Renascimento, admito que estou cansada demais para sequer fazer anotações. Fui dormir tão tarde lendo os artigos para o último trabalho da matéria que acabei me atrasando. Acordei às oito da manhã com a buzina nada sutil do meu vizinho e tive que sair correndo de casa, com os sapatos e um café — que meu pai sempre deixa pronto antes de ir para o hospital — nas mãos. Sorte que nossa vizinha de oitenta e poucos anos, a Sra. Chapman, provavelmente é surda demais para se incomodar com o barulho, e a grande maioria das casas na nossa rua está vazia, em parte devido ao preço exorbitante do aluguel e também à distância do centro da cidade.

Apesar disso, o nosso bairro arborizado é o refúgio perfeito para os dias de descanso pós-plantão do meu pai e para o estilo de vida tranquilo que sempre valorizei. Com meu irmão mais velho fora da cidade e a morte da nossa mãe, a casa parece grande demais para nós dois, mas ninguém ousa mencionar uma mudança. Não quando isso significaria deixar para trás as lembranças que construímos ali — as lembranças dela. O jardim que já não floresce como antes, a fonte onde costumávamos observar os pássaros, as folhas alaranjadas que cobrem a rua no outono, as fotos nas paredes do corredor, a lareira onde nos reuníamos para assistir filmes no inverno... Na nossa família, carregamos as dores e os problemas até que se tornem um fardo impossível de suportar. Até que nos envolvam de tal maneira que não nos resta escolha a não ser enfrentá-los. Por enquanto, o clima estranho e a saudade ainda parecem ser uma opção melhor do que abrir mão da casa onde crescemos, como se ela fosse a única coisa que ainda mantivesse tudo no lugar.

— Você pode parar? — ralho, desgrudando os olhos do lado de fora para encarar minha dupla.

Pelos últimos cinco minutos, Sam atira bolinhas microscópicas de papel, como confete, na minha cabeça — extremamente entediado de ouvir sobre o assunto do nosso artigo final.

Sim, nosso.

Depois de anos fazendo todo tipo de malabarismo acadêmico para trabalhar sozinha, Lockwood apareceu encantando a todos — inclusive ao Sr. Ford, que ficou muito satisfeito ao incluí-lo na minha pesquisa.

"Já estava mais do que na hora. Além do mais, o currículo dele é impressionante. Tenho certeza que o trabalho de vocês será um dos melhores." Foi o que ele disse, enquanto me dispensava, após muitos lamúrios de insatisfação da minha parte.

Me sacudo, irritada, vendo os micro papéis presos nos meus cabelos e no meu moletom caírem no chão como flocos de neve. Sam também parece estar tendo dificuldade em se concentrar hoje, tendo tirado o dia para me encher o saco de diferentes maneiras.

Mas, se for para ser honesta, Lockwood é o que torna as minhas semanas mais intensas, mais vivas. Mais interessantes. Mesmo quando me esforço para afastá-lo, ele insiste em estar presente, oferecendo ajuda nas pequenas coisas, como se fosse simplesmente natural. Da faculdade às compras, ou até mesmo procurando Robert — meu gato — pelas ruas do bairro. Apesar do ar de quem tem tudo sobre controle, há uma fragilidade silenciosa em seus gestos, uma que só aparece quando estamos sozinhos, fazendo coisas do cotidiano. Ainda não aprendi muito bem a lidar com ele, então, na maioria das vezes, apenas me deixo levar.

Às vezes, bebemos no pub perto da universidade após as aulas. Ele até já tentou me ensinar a jogar sinuca — sem muito sucesso. Sempre nos divertimos com Emy e outros colegas em comum, embora minha melhor amiga não seja muito fã do nosso relacionamento confuso e casual. Para ela, isso cheira a tragédia.

Talvez seja verdade, mas Lockwood consegue me fazer esquecer, ao menos por alguns instantes, a solidão que, nos últimos anos, tem se instalado dentro de mim. Ele se interessa até pelas partes que tento esconder, aquelas que são mais difíceis de aceitar. Sam não apenas vê minha tristeza não dita, mas de alguma forma a entende, como se soubesse que ela faz parte de quem eu sou no momento e, ainda assim, isso não me tornasse menos interessante nem fosse capaz de me afastar dele. Poder ser eu mesma, sem máscaras, me faz querer estar perto, mesmo sabendo que nem essa sensação consegue apagar completamente o vazio que ainda preenche meu peito.

— Podemos ir embora? — Lockwood murmura, a voz grave e tensa, com aquele sotaque galês que, de algum jeito, me faz tremer. — Se eu ouvir mais uma palavra em italiano, acho que vou ter um attacco — ele diz, sua ironia evidente.

— E ainda nem começamos a escrever — observo, quase em um suspiro, concordando.

Cruzo os braços, me acomodando mais profundamente na cadeira, como se tentasse me distanciar fisicamente dessa aula.

— Lockwood. Blackwell. Eu sei que vocês dois são gênios do Renascimento, mas, se conseguirem parar de reclamar por um minuto e deixar que eu ensine algo ao resto da classe, seria ótimo — o Sr. Ford comenta, sarcástico como sempre. Suas palavras provocam uma certa irritação em mim, mas é Lockwood quem responde.

— À vontade — ele diz, a voz baixa e um tanto provocativa.

E então, como se fosse um jogo privado entre nós dois, Sam desliza a mão por debaixo da mesa e a repousa suavemente sobre a minha coxa. O gesto é tão simples, tão sutil, e no entanto, é suficiente para fazer algo dentro de mim se contorcer, uma mistura de desejo e frustração, tudo se chocando de uma vez só.

Os dedos dele são longos e frios, pressionando minha pele de maneira tranquila, mas com uma intensidade crescente. Não posso evitar o calor que começa a se espalhar pelo meu corpo, nem a forma como meu coração dispara por um momento. Eu sei que Lockwood está me observando, seus olhos escuros fixos em mim, como um convite silencioso, tentador e perigoso. Ele quer que eu o siga, quer que eu ceda. Ignoro o peso da sua presença, forço minha mente a se concentrar na aula, mas cada movimento seu é um desafio à minha tentativa de resistência.

Arranco a sua mão de cima do tecido fino da meia calça, mas Sam, teimoso, coloca-a de volta – dessa vez, enfiando-a por baixo do meu vestido, e arrancando um ruído baixo de reprovação dos meus lábios. Fecho as pernas com força, cravando as unhas no antebraço forte dele para impedir os seus dedos de trilharem o caminho até a minha calcinha. Lockwood solta um suspiro baixo, claramente insatisfeito, e começa a balançar a perna nervosamente, a frustração evidente em seus gestos.

— Qual é o seu problema hoje? — Sussurro para ele, com os dentes cerrados, tentando disfarçar a minha irritação e o modo como um simples toque seu foi capaz de me deixar desconcertada.

A inquietação de Sam é incomum. Na verdade, ele é o completo oposto disso — tão calmo, tão controlado, que, às vezes, sua serenidade calculada chega a ser confundida com arrogância.

— Nada demais — Lockwood responde, no mesmo tom angustiado, me fazendo arquear as sobrancelhas. Ele está mentindo, mas não consigo sequer imaginar o porquê.

Observo-o por alguns segundos. Sam está mais pálido do que o normal, o maxilar apertado, os olhos fixos em algum ponto distante, mas não no professor. Não está prestando atenção à aula, parece completamente perdido em seus próprios pensamentos, tentando se afastar de algo que claramente o incomoda. Quando sua mão sobre minha coxa começa a suar, eu sinto um aperto no peito.

— Sam — tento chamar sua atenção, mas minha voz sai mais baixa do que o esperado, quase como se eu tivesse medo da resposta.

Lockwood se volta para mim, os olhos castanhos se demorando quase imperceptivelmente no meu rosto. Por mais que ele tente manter a compostura, a ansiedade é visível, como uma sombra que o acompanha. É o tipo de olhar que demonstra preocupação, mas de forma sutil, quase imperceptível, como se estivesse tentando manter tudo sob controle.

— Eu só preciso de um cigarro — ele diz de repente, sua voz se tornando mais fria e distante, como costuma acontecer de vez em quando.

Sinto uma pontada no peito quando vejo o olhar dele, o jeito como a preocupação se esconde nas sombras do seu rosto. Não posso negar que isso mexe comigo. Sam pega o seu casaco preto, que estava jogado sobre a cadeira, e se dirige até a porta sem dar uma palavra, saindo da sala e deixando-me ainda mais confusa com a situação.

Não consigo imaginar o que possa ser tão importante a ponto de tirar Lockwood do sério. Nesses últimos seis meses em que convivemos, acho que nunca o vi desse jeito. A inquietação cresce em meu peito, um nó que não consigo soltar. Ele não está bem, e por algum motivo, isso me afeta mais do que deveria.

O Sr. Ford me observa do centro da sala, com um olhar curioso por trás dos seus óculos de armação prateada. Os outros alunos, como sempre, parecem alheios, mais preocupados com seus próprios mundos do que com o que acontece ao redor.

Dou de ombros para ele, me levantando da cadeira.

— Vou dar uma olhada — murmuro, sem emitir som, apenas movendo os lábios.

Caminho apressadamente pelos corredores vazios da universidade, os meus passos ecoando nas paredes antigas, até alcançar a escadaria de pedra que leva aos arcos entalhados na saída do prédio.

O ar frio me atinge de imediato.

— Sam! — exclamo, quase correndo para alcançá-lo. — Se for sumir, preciso das minhas coisas que estão no seu carro.

Ele não responde. Sem pensar, agarro a manga do seu sobretudo de lã quando chegamos ao pé da escada, puxando-o na minha direção. Sam se volta para mim lentamente, seus olhos fixos nos meus, o olhar penetrante e implacável. Ficamos assim, em silêncio, sem que ele pisque, como se o tempo tivesse parado por um instante, e a tensão entre nós se alastrasse, criando uma espécie de distância que parece impossível de atravessar.

Lockwood não tem nenhuma expressão no rosto que possa ser decifrada. A frieza daquela máscara que ele carrega me faz questionar o que se passa dentro dele. Não há calor, nem raiva, nem curiosidade — nada. Só um vazio. É como se, por trás da expressão inerte, houvesse um enigma, uma camada que ele não permite que ninguém atravesse. Tento encontrar algum sinal, algum traço de emoção, mas é como tentar ler um livro cujas páginas estão em branco. Ele me observa e, ao mesmo tempo, me impede de decifrá-lo, criando um espaço entre nós que eu não consigo preencher.

Sam apenas me olha nos olhos, estático, vazio.

— Eu só preciso de um minuto. Volte para a aula. — Lockwood responde, seco.

Ignoro-o, um tanto acostumada com suas mudanças repentinas de humor. Parecemos ter aprendido a lidar um com o outro melhor do que o esperado.

— Não. — pego a sua mão e puxo-a para mim. Está suada e gelada. — O que houve?

— Dá um tempo, Clarissa. — Sam fala, ríspido, puxando a mão de volta.

Dou risada, mas não é uma risada amigável. Estou ficando de saco cheio de ser deixada do lado de fora. De nunca realmente saber o que está acontecendo com ele, quando o próprio Lockwood tem atitudes, no mínimo, questionáveis. Ele age de maneira tão imprevisível — invadindo meu quarto, me seguindo por aí ou simplesmente desaparecendo quando bem entende — e sempre com essa postura arrogante, como se tivesse o direito de fazer tudo isso.

— Espero que você seja mais legal com seus pacientes, Sam, mas duvido muito. — estalo a língua, sarcástica. — Não é à toa que usam camisas de força. Sem dúvidas, para aguentar suas consultas.

Nesse momento, seus olhos diante de mim são frios, quase indiferentes, como se eu fosse apenas uma distração inconveniente de algo muito mais profundo. Às vezes, sinto que Lockwood faz isso de propósito — diz palavras cruéis ou me trata com uma frieza calculada, como se estivesse ciente de cada gesto. Ele muda sem aviso, como se estivesse fora de si, e o que sobra entre nós é um vazio pesado. O silêncio que cresce entre nós, a distância que se reflete em seus olhos, e a forma como ele se afasta, sem uma palavra, sem um olhar. Desde o dia em que nos conhecemos, do dia em que ele praticamente chutou todas as portas para entrar na minha vida, Sam sempre foi uma fortaleza — uma barreira impenetrável, algo que jamais consegui atravessar completamente, não importa o quanto tentasse.

Então, acho que apenas parei de tentar.

— Talvez — Lockwood começa, a irritação agora evidente em sua voz, enquanto se aproxima, seu rosto quase colado ao meu. — Eu devesse arranjar uma para você também. E uma mordaça. Quem sabe assim, você pararia de encher o meu saco? — sussurra, me fazendo rir mais uma vez. Embora seja raiva, pelo menos, faço-o demonstrar algo — e, por mais que seja negativo, é infinitamente melhor do que o vazio que Lockwood tenta impor entre nós.

— Uma mordaça, é? — provoco, arqueando as sobrancelhas. — Sinceramente, achei que você tinha planos melhores para a minha boca, Lockwood.

Arquejo de dor ao sentir a sua mão firme se fechando ao redor dos cabelos da minha nuca e uma onda de calor percorre meu corpo. O toque é firme, possessivo, e me faz perder o fôlego, mas também desperta uma tensão insuportável, como se ele soubesse exatamente onde me fazer ceder e onde me fazer resistir – me enchendo de ódio.

É como se Sam dobrasse todas as minhas apostas, sempre batendo de frente comigo, sacando os meus jogos e se recusando a perder.

— Sempre tão espertinha — ele sussurra, um sorriso malicioso curvando os cantos dos lábios, agora bem próximos aos meus. — A mordaça definitivamente resolveria isso. E, quanto aos meus planos... seria bastante útil para eles também.

As palavras são um desafio e uma promessa ao mesmo tempo. Sinto a tensão se acumular em meu peito, um nó apertado entre o desejo e a raiva, uma mistura desconcertante de excitação e resistência. Por um lado, há algo em sua voz que desperta um calor pulsante, um desejo incontrolável de ceder à provocação, mas, ao mesmo tempo, a natureza do que ele diz me arrepia de forma quase dolorosa, como se estivesse me empurrando para algo do qual eu deveria fugir. Eu tento ignorar o tremor na minha respiração, o incômodo crescente que se espalha por mim, mas é impossível negar a atração que Lockwood exerce sobre mim. É uma luta interna entre querer mais e querer parar, entre ser consumida e manter algum controle.

De repente, ele me solta com um movimento abrupto, como se a proximidade tivesse se tornado insuportável. A pressão das suas mãos desaparece tão rapidamente quanto surgiu, e o calor que Sam deixa em minha pele se apaga, dando lugar a um vazio inesperado. Eu fico ali, imóvel por um momento, tentando entender o que acabou de acontecer. Ele se afasta, sem dizer uma palavra. A confusão, o desejo, a irritação... tudo parece se misturar, como uma tempestade que passou, mas que deixou um eco.

Contraio o maxilar, já me preparando para dar meia-volta, quando, antes de alcançar a saída, Lockwood hesita. De repente, ele se vira e avança em minha direção com passos rápidos e decididos. Não há tempo para processar os sinais; antes que eu possa reagir, ele me puxa para perto, sua mão firme na minha cintura, e seus lábios encontram os meus com uma intensidade que chega a doer. Meu corpo enrijece em surpresa, mas logo relaxa e se aquece, instigado pelo toque familiar.

Sua boca pressiona a minha de forma brusca, exigente, um misto de urgência e desafio. A sensação é quente, quase insuportável, e, ao mesmo tempo, algo em mim se rebela contra o toque, querendo afastá-lo. Mas não consigo. Cada movimento dele é impositivo, forçando-me a ceder a algo que eu não deveria. Há algo inebriante na forma como ele me beija, como se estivesse me consumindo sem deixar espaço para resistência. Meu corpo responde, mas minha mente luta contra o prazer, contra o desejo que Lockwood desperta. O beijo é uma batalha silenciosa entre a atração e a raiva que me consome por senti-la.

— Não vá embora sem mim, Blackwell. — Lockwood sussurra na minha boca, agora entre um selinho e outro, colocando uma mecha ruiva dos meus cabelos atrás da orelha e segurando o meu rosto entre as suas mãos longas.

Meu coração bate mais rápido, como se quisesse escapar do peito, e não consigo me mover, não quero me mover.

Merda.

Puxo-o para mais perto, agarrando a parte de trás do seu sobretudo. Ele esfrega o nariz no meu rosto, seus lábios tocando minha bochecha, meu maxilar, depois deslizando até o meu pescoço. Cada beijo é suave, mas carregado de um desejo abafado, fazendo com que eu o aperte contra mim, lutando contra a vontade de não voltar para a aula.

De não atestar o quanto Sam me domina.

Isso é ridículo.

— Vá à merda — respondo, um pouco rouca.

Ele solta uma risada abafada, um som vazio, enquanto se despede com um beijo rápido e suave na minha bochecha. É tão fugaz e desconcertante que mal tenho tempo de compreender. Fico ali, imóvel, o corpo ainda marcado pela ausência dele. O frio que chega de repente é como uma sombra, uma lembrança do que ele representa.

Vejo-o se afastando pela porta, desaparecendo na névoa espessa do gramado.

Mas que porra?

Sinto como se estivesse caminhando para um buraco sem fundo, onde cada passo me leva a um ponto de não retorno. Sei que o que nos une é frágil, complicado, mas algo em mim ainda insiste em continuar. Lockwood, de alguma forma, sempre me puxa de volta para si, como se a falta dele fosse mais insuportável do que o caos que criamos juntos.

Como se, mesmo conhecendo o abismo, eu não pudesse resistir ao impulso de mergulhar cada vez mais fundo.

Lockwood se mudou para a casa do outro lado da rua há uns seis meses. Não que a minha vida fosse perfeita antes de conhecê-lo, longe disso, na verdade. No entanto, o meu novo vizinho não é a melhor companhia que alguém poderia arranjar; disso, eu tenho certeza. Mas seu ar de quem tem tudo sobre controle e seu empenho selvagem em destruir as barreiras que fiz questão de criar entre nós dois acabaram me conquistando. Depois de tudo, o turbilhão de sentimentos entre a gente é a única coisa capaz de me fazer sentir algo. Apesar da beleza digna de um anjo caído e das suas habilidades com a boca, que sempre me fazem questionar até a mais sensata das decisões, o meu novo vizinho tem certos comportamentos que me deixam intrigada. Ele é um enigma perfeito, impossível de decifrar e, ao mesmo tempo, impossível de resistir. A verdade sobre Lockwood é simples: ele não precisa fazer sentido para me dominar, porque, por mais que eu tente, não consigo fugir de querer entender esse quebra-cabeça caótico e instigante. Não posso evitar jogar o jogo, mesmo sabendo que estou perdendo. Como diz um livro que costumo ler, aparentemente, "o mundo não é uma fábrica de realização de desejos."

Essa situação, nossa relação, é uma teia de enigmas em que me encontro presa. Cada olhar, cada gesto, parece esconder algo que se recusa a ser desvendado. Me vejo tentando entender os fragmentos que ele me oferece, mas cada resposta é um vazio ainda maior, um abismo profundo que engole minhas certezas. Sinto-me impotente, uma espectadora de algo que me arrasta, sem que eu consiga ao menos compreender a origem dessa força. E, ainda assim, sou incapaz de afastar o olhar. Lockwood é tão intoxicante que não posso — e não quero — escapar. O desejo de saber o que se esconde por trás de sua fachada fria me consome. Cada dia sem respostas me enfraquece, mas também me prende mais, como uma marionete dançando ao ritmo de um jogo cruel que ele parece dominar com perfeição.

Além de amigos, há algo mais — uma atração intensa, difícil de nomear, mas impossível de ignorar. O tempo que passamos juntos, a troca de olhares, as palavras carregadas de um humor sutil e aquele par de braços fortes, tudo isso me arrasta para um abismo do qual não sei se quero escapar. Não há dúvidas em minha mente: o sentimento é mútuo. Já perdi a conta das vezes em que o flagro me observando, seus olhos vagando sobre mim com uma concentração quase obsessiva, como se eu fosse o enigma mais fascinante em seu laboratório pessoal, um corpo a ser dissecado, uma mente a ser desvendada. Cada olhar seu me despedaça e arrepia por dentro, e, no entanto, sou incapaz de resistir.

Sam me observa em silêncio, como se cada gesto meu fosse uma peça de um quebra-cabeça que ele ainda tenta montar. Ele me assiste prender os cabelos, seus olhos fixos em meu pescoço, carregados de um desejo obsceno. Lockwood me assiste estudando como se acreditasse que eu fosse a pessoa mais inteligente do mundo. Ele me analisa enquanto faço as coisas mais simples, como beber uma cerveja ou preparar um chá. Suas palavras são raras, mas aqueles olhos dizem tudo. Algo naquelas profundezas me prende, algo que é ao mesmo tempo fascinante e perturbador.

Mas sei, no fundo, que Lockwood não é alguém com quem eu deveria me envolver. Não que eu esteja buscando provar algo, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da vida onde, pela primeira vez, tudo parece se encaixar, embora de forma um tanto distorcida e inquietante. Superei — ou, talvez, aprendi a sobreviver à dor do luto, desde que minha mãe se foi. Esqueci meu ex-namorado traidor e conquistei as notas suficientes para alcançar o mestrado, o que, de algum jeito, me dá uma sensação de estabilidade em meio ao caos.

Agora, me sinto caminhando sozinha, reconstruída, tentando manter minha independência emocional, embora ela pareça frágil, como uma fachada que poderia desabar a qualquer momento. Mas, no fundo, a solidão é a única coisa constante que realmente conheço. Ela me acompanha como uma velha amiga, suas sombras se estendendo por todos os cantos da minha vida.

Tenho medo de que o meu vizinho destrua tudo com seu temperamento imprevisível. Minha vida é como uma coleção de jarros de porcelana, delicadamente organizados, cada um com seu lugar exato, e ele... ele chega, sem pedir permissão, pisando em cada um deles, quebrando-os sem sequer perceber a fragilidade de tudo o que construí. Lockwood é algo sombrio e irresistível que, em vez de me repelir, me puxa para mais perto, como se a ameaça fosse parte de um jogo que só ele conhece as regras, mas que estou disposta a jogar mesmo assim.

Eu tento manter minha distância, evitar complicações, e ficar longe de qualquer coisa que ameace minha paz. Longe do desastre. Longe do imprevisível. Longe de tudo o que poderia destruir a fina fachada de controle que construí para mim mesma.

Longe da diversão, como diria Sam.

Pelo menos, é isso que tento dizer a mim mesma. Mas, no fundo, sei que estou apenas criando uma barreira, uma muralha feita de medos e inseguranças, e que, ironicamente, só prova o quanto já estou fodida nesse jogo. O quanto ele, Sam Lockwood, tem o poder de virar meu mundo de cabeça para baixo. Seus olhos, sua presença, tudo nele tem a capacidade de derrubar as paredes que cuidadosamente erigi ao longo dos anos.

Sempre que penso na nossa situação, algo na minha mente dispara como um alarme, um presságio de que o final já está escrito — trágico, e dolorosamente óbvio. Lockwood é o último homem com quem eu deveria estar, seja dividindo artigos científicos ou indo para a cama. Talvez seja o fato de que, exatamente como tudo que tento evitar, Sam é imprevisível, e essa imprevisibilidade, em sua essência, me atrai como uma chama perigosa à qual não posso resistir.

Às vezes, me flagro presa em seus olhos, observando-me com uma intensidade que vai além do simples interesse. Não é um olhar vazio, mas um questionamento silencioso, como se ele estivesse tentando entender cada pedaço de mim, cada movimento que faço. Sam não se contenta com a fachada que criei, ele sempre parece querer saber o que realmente se passa por trás dessa máscara de indiferença que me esforço tanto para manter.

E, no entanto, às vezes, Lockwood some por dias. Desaparece em um silêncio que me consome mais do que eu gostaria de admitir. E me pergunto: será que ele percebe o efeito que tem sobre mim? Será que ele se importa? Ou será que eu sou a única afetada nessa história?

Não sei a resposta. Não sei sequer se estou buscando uma. Talvez seja essa atração incompreensível, essa curiosidade que me arrasta a cada encontro, a cada palavra trocada, a cada silêncio entre nós. E, de certa forma, isso me incomoda. Me incomoda pensar no poder que ele tem sobre mim, no quanto ele pode mudar tudo sem que eu perceba ou dê permissão. Eu não queria que ele tivesse tanto controle sobre meus pensamentos, mas não posso negar: sua presença já está gravada em minha mente, em cada canto, em cada suspiro.

"Não pense demais, Clarissa." Tento me convencer, mas é impossível. Eu sou boa em evitar, mas com ele, as regras são diferentes. Ele me desafia, me tira do lugar confortável onde me escondo. Me faz querer mais do que apenas ser uma espectadora na minha própria vida. E isso, essa sensação de estar vulnerável, me assusta de uma maneira que eu não sei lidar.

Porque, no fundo, eu sei. Ele não é simples. E eu também não sou. Me aproximar de Lockwood é uma aposta arriscada, e a possibilidade de ser quebrada novamente é uma sombra que paira sobre mim. Eu já passei por tantas perdas que, de algum modo, elas ainda estão aqui, guardadas como cicatrizes que nunca desaparecem por completo. Eu tento ser forte, tento seguir em frente, mas cada novo passo me arrasta de volta para aquele lugar de incerteza, onde sei que as coisas sempre acabam se desfazendo.

O medo de ser decepcionada é uma constante. Mas também é real. A vida me ensinou que a felicidade é efêmera, que tudo pode desmoronar a qualquer momento. Olho para Sam, e me vejo dividida entre o desejo de arriscar e a necessidade de me proteger. Eu quero sentir, quero viver algo mais do que a solidão que me acompanha, mas ao mesmo tempo, não sei se consigo enfrentar outra decepção. O que aconteceria se eu me entregasse? Se deixasse o medo de lado e permitisse que ele fosse parte de mim, por mais doloroso que fosse? Não sei se tenho coragem de dar o salto e encarar as consequências de uma escolha que não posso prever.

Eu gostaria de ser capaz de simplesmente sentir, de viver sem medo. Mas não sei como dar o primeiro passo. O que existe entre Sam e eu é intenso, cheio de possibilidades, mas também de incertezas que me paralisam. Eu não sei. Só sei que algo precisa ser resolvido. Porque, ao olhar para Sam, sei que não posso continuar me escondendo para sempre. E, enquanto isso, vou me permitindo sentir, aos poucos, me entregando à intensidade desses momentos que, entre nós, têm o poder de me transformar.


(...)


— Acho que deveríamos dar um tempo... nisso. — encaro Sam, antes de abrir a porta do carro para descer. Passei o caminho inteiro tomando coragem para tocar no assunto, deixando para o último segundo.

Estamos parados em frente à minha casa. As árvores, altas e densas, se estendem sobre a calçada, criando um teto verde que filtra a pouca luz das lâmpadas distantes. As mansões ao redor são imponentes, suas fachadas sombrias e elegantes, com detalhes em ferro forjado e janelas grandes, algumas parcialmente iluminadas, outras totalmente apagadas. O silêncio é pesado, quebrado apenas pelo som suave do motor e o farol do carro iluminando um caminho estreito.

— O que? — sua pergunta soa mais como incredulidade do que como uma dúvida. Ele sabe muito bem do que estou falando.

O clima entre nós tem andado meio estranho.

— Acho que deveríamos... ser só amigos. — explico, mesmo assim, encarando seus olhos escuros, agora repletos de indignação.

— Não seja ridícula, Blackwell. — Sam bufa. — Quer que eu pinte as suas unhas também? — sugere, sarcástico como sempre.

— Estou falando sério, Sam. Não estou mais afim. — minto, cerrando os dentes.

Sei que ele é teimoso, então preciso encontrar um jeito de facilitar as coisas para mim. Lockwood sabe ser incrivelmente persuasivo quando quer.

— Você não está mais afim? — Sam repete, sua voz rouca quase fria, com um tom de zombaria. Ele olha para mim com um sorriso torto, tentando esconder a dor que, de alguma forma, consigo ver em seus olhos. Apesar de tudo, acho que passamos a nos conhecer muito bem. — Eu sei exatamente o que você quer dizer, e não é isso.

Tento manter a calma, mas a pressão no peito é quase insuportável. No fundo, sei que não dá pra continuar assim por muito mais tempo. Mas, ao mesmo tempo, sinto todo o peso do que estamos vivendo – o desejo, a atração que não conseguimos controlar, e, de algum jeito, o fato de que o que estamos fazendo está me destruindo aos poucos.

— O que é, então, Dr. Lockwood? — pergunto, com uma pontada de ironia, sentindo meu sangue ferver. Ele, mais uma vez, parece saber de tudo. Sam está sempre um passo à frente e isso mexe com os meus nervos.

Ele nem se abala com a minha provocação. Em vez disso, responde com calma, como se fosse óbvio:

— É bem simples, na verdade. Você está surtando porque não está no controle, Clarissa.

— Quem disse que eu não estou no controle? — sibilo, tentando disfarçar a frustração. — Estou tomando essa decisão, não estou?

— Está? — Lockwood se inclina para perto de mim, sua mão buscando o ponto familiar na minha nuca.

— Não tem mais nada entre nós, Sam. — afirmo. — Se você não pode ser meu amigo... — Ele me puxa para si com certa urgência ao ouvir o que acabei de dizer.

— Eu sou seu amigo. — Lockwood sussurra na minha boca. — Amigos se conhecem muito bem, sabem do que o outro precisa… E eu… eu te conheço melhor do que ninguém, Cherry. Talvez, até do que você mesma. — ele praticamente ronrona — Sei do que você gosta. — Sam desce os lábios até a pele exposta do meu pescoço, causando um curto circuito na minha mente, que parece embaralhar todos os meus argumentos. — Não sei? — pergunta, esperando pela minha confirmação, enquanto distribui beijos abaixo da minha orelha e pela minha mandíbula que me fazem ter que conter um suspiro.

Agarro os seus cabelos escuros na tentativa de fazê-lo parar, de afastá-lo, mas isso só parece incentivá-lo ainda mais. Sam morde o meu pescoço, cravando os dentes com força na minha pele, sua intensidade familiar me arrancando um gemido de dor... e excitação.

Maldito.

— Não. — é a única coisa que consigo fazer a proeza de dizer, trêmula.

— Mentirosa. — ele sussurra, provocativo. — Gostosa, covarde e mentirosa. Isso que você é, Clarissa. — Estou prestes a xingá-lo, quando Sam pega a minha mão e leva até a sua calça. Os meus dedos percorrem toda a extensão grande e extremamente dura dele, que grunhe no meu ouvido. — Por acaso parece que eu quero ser só a porra do seu amigo?

— Vá à merda — não sei de onde tiro forças, mas finalmente me afasto, mesmo com tudo dentro de mim pulsando de desejo.

Ele estala a língua, agarrando o meu rosto com força. Nos encaramos por alguns segundos, e não sei dizer o que se passa por trás da escuridão de seus olhos, até ele deslizar o polegar pelo meu lábio inferior e murmurar:

— Eu deveria foder essa boca maldita aqui mesmo apenas pela sugestão absurda. — Engulo em seco — Amigo. — ele ri de forma baixa e amarga, o som reverberando dentro do carro, como se cada palavra minha tivesse um peso que ele não consegue carregar. Seu tom demonstra uma raiva contida, mas a dor também está lá, misturada, como se ele estivesse tentando engolir algo que o tirasse do sério. — Queria poder te ajudar, Cherry, mas não vai ser tão fácil fugir de mim. — Lockwood sibila.

O nó no meu estômago aperta, mas eu tento manter a compostura. Não posso me deixar abalar, não agora. Cada palavra dele é como uma faca afiada, cortando lentamente a decisão que tomei. Sam sabe exatamente onde me apunhalar. Sabe que a dúvida está crescendo em mim, mesmo que eu tente escondê-la.

— Não estou fugindo de você. — minha voz sai mais firme do que eu realmente me sinto. — Só estou tentando evitar que isso acabe de uma maneira ainda pior.

Ele não desvia o olhar, como se estivesse me analisando, como se estivesse tentando entender se eu realmente estou falando sério ou se ainda posso ser convencida.

— E quem disse que isso vai acabar? — Lockwood pergunta. Não consigo sequer decifrar o seu tom.

Bufo.

— Eu estou dizendo. Cansei de ser deixada do lado de fora, quando você sempre faz questão de invadir a minha vida, Sam.

Ele não responde imediatamente. O silêncio entre nós é pesado, quase tangível, e eu posso sentir a tensão crescendo, o ar se tornando denso e quente, apesar da noite fria lá fora. Sam olha para mim com intensidade, os olhos fixos nos meus como se tentasse decifrar cada pensamento, cada sentimento, cada dúvida que está se passando dentro de mim.

— Escuta, não estou tendo um bom dia e...

— Suspeito que essa também seja uma informação a qual não tenho acesso, apenas lido com as consequências. — retruco, interrompendo-o. — Você sempre sabe de tudo, Sam, com certeza já decifrou qual é o problema, só não está disposto a solucioná-lo. Então, vamos apenas levar as coisas numa boa, ok? — sugiro, tentando parecer indiferente, mas a tensão na minha voz denuncia o quanto estou nervosa. — Vai ser melhor para nós dois.

Lockwood me encara com um olhar frio, mas sua expressão muda de forma sutil, os músculos da mandíbula se contraindo. Ele sabe que não estou sendo completamente honesta. Tento manter a compostura, mesmo sentindo que ele está me observando, esperando por qualquer sinal de fraqueza.

Quando, finalmente, Sam se pronuncia novamente, sinto um nó no meu estômago.

— Se você quiser evitar problemas tanto quanto diz, sugiro não aparecer com outro na minha frente, Cherry. — a ameaça nas palavras é clara, mais uma vez me fazendo perceber o controle que ele exerce sobre tudo. A maneira como Sam diz meu apelido, quase como um aviso, me traz uma sensação incômoda no peito, como se o ar tivesse ficado mais denso.

Apesar disso, uma parte de mim — uma parte muito quebrada de mim — encontra, de algum modo, uma estranha satisfação na possessividade dele. Como se Sam fosse a única pessoa capaz de realmente me querer, de fazer questão de estar ao meu lado e de cuidar de mim, ainda que de uma forma distorcida e distante do ideal.

Eu engulo seco, tentando não demonstrar que suas palavras me afetam mais do que deveriam. Também não sei se estou preparada para vê-lo com outra, nem sequer cheguei a pensar nisso, mas mantenho a minha determinação.

— Eu não sou sua. — minha voz sai mais firme do que eu esperava, uma mentira bem ensaiada. Eu sempre fui dele, desde o primeiro dia em que aceitei jogar esse jogo. E ele sabe disso. Lockwood sempre soube exatamente como me fazer ceder, como me puxar de volta para ele, mesmo quando eu tentava fugir — dele e de mim mesma.

Sam ri, mas é uma risada sem humor, um som áspero que me faz sentir ainda mais ansiosa. Ele se inclina para frente no banco do carro, seus olhos escuros fixos nos meus, como se estivesse pesando minhas palavras, calculando minha resistência.

— Discordo. — diz, sua voz suave, quase doce, mas há um veneno sutil em cada palavra. — Mas me diga, Cherry... até quando você vai continuar mentindo para si mesma? Fingindo que pode controlar tudo ao seu redor, se escondendo do mundo? — Um estalo de língua, provocante. — Eu sei quem você é. Vi, senti e provei quem você é. E não te quero apesar disso... Eu te quero exatamente por isso.

O silêncio se arrasta entre nós, denso e opressor. Sam sabe o que dizer para me deixar sem palavras. Eu posso tentar resistir, mas sei que ele não vai me deixar ir tão facilmente. Ele criou as regras desse jogo, e eu... só tento sobreviver a ele.

— Não importa... — começo, mas paro, sem saber como preencher o vazio entre nós.

A verdade é que, por mais que eu queira seguir em frente, aquela maldita parte de mim ainda anseia por ele. Ainda anseia ser consumida pelo turbilhão de sentimentos que nos envolve, ainda anseia por aquelas mãos firmes no meu corpo, por aquele olhar predador e obsessivo. Lockwood pode ser o caos em pessoa, mas uma coisa ele nunca foi: confuso quanto ao que sente por mim. Quanto a isso, ele nunca deixou margem para dúvida — e abrir mão disso é o que me destrói por dentro.

Sam percebe a hesitação no meu olhar e se recosta no banco, seu rosto agora mais sério, mais intenso.

— Não mesmo. Eu não vou deixar você ir. Você sabe disso, não sabe? — a pergunta não é um pedido de resposta, mas uma afirmação. Ele está sendo completamente honesto. — Queria poder te ajudar, Cherry, mas ambos sabemos que não sou louvável o suficiente para isso. E esse foi o exato motivo que te atraiu para mim.

Eu não respondo. Não saberia o que falar. Apenas desço do carro, ouvindo o som da porta batendo. O ar frio da noite me envolve, mas o nó na minha garganta me faz hesitar por um segundo. Cada passo que dou parece mais pesado que o anterior, mas eu preciso seguir em frente. Mesmo que ele ainda esteja ali, atrás de mim, tentando me puxar de volta para essa teia de mentiras e desejos que criamos.



Notas finais
Me deem um feedback, por favorzinho, ajuda muito :) Obrigada!