Vizinhos

3 Clarissa


“When my love swears that she is made of truth,

I do believe her, though I know she lies…”

— Sonnet CXXXVIII, William Shakespeare.


Eu escolho acreditar, porque a mentira me oferece mais consolo do que a verdade nua e fria.

A maioria dos amores sobrevive melhor na ilusão.


Clary


A semana sem Lockwood se arrasta como uma eternidade.

Ele não aparece nas aulas de Literatura. Não manda mensagens, não me segue pelos corredores, não oferece carona.

Era isso que eu queria, certo? Eu deveria sentir alívio. Sam é um labirinto, e eu já me perdi demais nele. Mas, quando a gente se afasta de algo que nos consome, o que sobra é um vazio imenso — um buraco profundo que eu não sei como preencher.

E é exatamente assim que me sinto: vazia.

Solitária.

Estava tão distraída com a presença constante dele, que não fazia ideia do quanto ele faria falta.

Mesmo com Emy tagarelando incessantemente no meu ouvido, mesmo indo ao pub com ela e os nossos colegas, mesmo trocando algumas palavras com os outros durante as aulas… nada consegue preencher a lacuna que Lockwood deixou. Nada tem intensidade suficiente para isso.

Talvez eu realmente seja quebrada por desejar algo tão incerto e confuso. Me pergunto se esse sentimento vai passar, ou se seria melhor apenas aceitá-lo de uma vez.

Estou me negando — me escondendo, como diria Lockwood — ou apenas fazendo o que é certo?

Já nem sei mais.

— Clarissa — meu ex-namorado, Peter, me cumprimenta ao se sentar à minha frente na cafeteria da universidade.

Não faço ideia do motivo, mas também não me surpreende. Sempre que pode, ele dá um jeito de reaparecer na minha vida, como se se recusasse a ser esquecido.

— Fodido — respondo, sem levantar os olhos do meu livro, enquanto mastigo um pedaço do meu sanduíche.

— Fico feliz em saber que não guarda ressentimentos — ele tamborila os dedos na mesa, irônico.

Mesmo sem olhar, posso apostar que seus cabelos castanhos estão milimetricamente arrumados e que sua postura entrega o quanto ele é arrogante.

— Você me traiu quando a minha mãe tinha acabado de morrer — observo, virando uma página do livro. — Não vou me esforçar para perdoá-lo. Tenho coisas mais importantes para gastar minhas energias.

— Tipo o médico galês babaca? — Peter sugere, me fazendo finalmente levantar o olhar para encará-lo.

— O que você tem a ver com isso? — fecho o livro, irritada. — Aliás, o que você quer?

Meu ex-namorado suspira, impaciente.

— Avise ao seu amigo que é melhor procurar outro ginásio, se quiser evitar problemas — sibila, os dentes absurdamente brancos à mostra.

Ele tenta parecer inabalado e casual, mas tenho certeza de que está se corroendo de ódio por dentro. Peter é do tipo egocêntrico o bastante pra achar que tudo é uma provocação pessoal. Não deve ter levado muito bem o fato de Sam fazer boxe na mesma academia.

Solto uma risada sarcástica.

— Tá me achando com cara de pombo-correio? — arqueio as sobrancelhas. — E, se está tão incomodado assim, por que não avisa você mesmo? Aposto que o Sam levaria numa boa — bufo, dando um gole no meu café.

Então é por lá que Lockwood tem andado. Não sei o que fazer com essa informação, mas ela me conforta. Pelo menos, sei que ele está bem.

— Estou tentando ser um cara legal. — Peter estreita os olhos para mim.

— Deve ser difícil pra você — reflito. — Vou pensar no seu caso.

Ele sorri de um jeito que me dá vontade de jogar o café nele. Aquele sorrisinho torto que ele sempre usava quando queria fingir que ainda tínhamos alguma coisa.

— Você sempre foi melhor comigo quando estava com raiva — ele comenta, inclinando-se levemente sobre a mesa, a voz baixa, quase íntima demais para um ambiente tão público. — Dá até saudade.

Reviro os olhos, mas ele continua.

— Sabe, Clarissa… se fosse comigo, você nunca teria ficado vazia assim.

Meu corpo trava por um segundo. Ele não deveria saber, mas sabe. Peter sempre foi bom em ler pessoas — não por empatia, mas por superioridade.

— Eu não to vazia, otário, e vê se cai fora logo — minto, firme, mas minha voz sai baixa demais.

— Claro que tá — Peter responde, com aquela segurança nojenta que sempre me irritou. — Tá se afogando no silêncio daquele médico metido a enigma. Eu te conheço. Você precisa de alguém que esteja ali. Que não fuja quando as coisas ficam feias.

— Tipo você, que fugiu direto pra cama da primeira vagabunda que achou disponível? — disparo, encarando-o. A acusação o faz enrugar os lábios, mas ele tenta manter o charme.

— Eu era um idiota — admite, com um suspiro exagerado. — Mas você também não é a mesma de antes. Tá mais… intensa. Mais bonita, se é que isso é possível.

— Tenta outra. Essa não cola mais — digo, me levantando com calma, guardando o livro na mochila.

— Não precisa fugir, Clarissa — ele diz, ficando de pé também. — Não foi só sexo entre a gente. Você sabe disso. Ainda dá tempo de… tentar de novo.

— Eu queria não ter tentado da primeira vez. — Dou uma risada seca, sem humor. — Se acha que vai rolar alguma coisa de novo, sugiro que reveja os seus conceitos sobre mim.

Ele não responde de imediato. Só me observa com uma intensidade desconfortável, como se quisesse arrancar uma reação mais branda.

— Quando o Lockwood te deixar em pedaços — Peter diz, finalmente, com aquela voz baixa e amarga — eu vou estar aqui. Você sabe que vai acabar voltando.

— Vá à merda, Peter.

Viro as costas antes que ele diga mais alguma coisa, o coração batendo rápido com a lembrança de um dos piores dias da minha vida.

O salão da casa ainda cheirava a flores velhas e incenso. Gente demais. Vozes demais. Eu só queriasilêncio. Mas é claro que o Peter não conseguia entender isso.

— Você estava sendo fria e injusta comigo — ele disse, a voz baixa, mas carregada de impaciência. — Eu tentei estar aqui, Clarissa. Eu estava aqui.

— Não. Você não estava. — Meu tom saiu mais firme do que eu esperava, mesmo com o peito apertado. — Você não estava quando eu precisei. Quando ela estava no hospital. Quando eu implorei por ajuda.

Peter fechou os olhos, respirou fundo, e eu quase acreditei que ele sentia culpa. Quase.

— Eu não sabia o que fazer — ele murmurou. — Você estava… fechada. Distante. Eu só queria… me sentir vivo.

Não era possível que eu estivesse ouvindo aquilo.

Não podia ser real.

— Então você resolveu foder outras pra ver se se sentia melhor? — minha voz falhou, mas o sarcasmo foi minha armadura.

Ele ficou em silêncio. E, pra mim, essa foi a confirmação mais cruel de todas. A única que eu precisava depois de meses suspeitando.

Babaca egoísta de merda.

— Não foi bem assim…

— Foi exatamente assim. Eu estava ocupada demais cuidando da minha mãe, mas não sou idiota! — Gritei, e tinha quase certeza de que os meus gritos eram audíveis na sala. Mas eu não me importava.

Peter caminhou até mim, as mãos estendidas, como se o toque dele pudesse, de alguma formaapagar o estrago.

— Eu cometi um erro. Mas foi só uma vez. Eu estava confuso, perdido…

— Eu estava perdida, Peter! — Explodi, sentindo o peito arder. — E você era a única coisa que eu tinha. A única!

Ele pareceu encolher, mas não recuou.

— Eu amo você, Clarissa. Ainda amo. A gente pode…

— Suma da minha frente antes que eu acabe com você, Peter. — Foi a única coisa que consegui sibilar antes de cair no choro. Mas eu não iria deixá-lo ver a minha derrota. Não completamente.

Virei de costas e saí pela porta da cozinha como um furacão, lágrimas borrando a minha visão. Meu pai me viu indo em disparada para o quarto, mas, como sempre, ele não demonstrou nenhuma preocupação no semblante frio. Nem mesmo em um dia como aquele. Apenas deu um gole na sua taça de vinho.

Outro filho da puta insensível.

Subi as escadas com as pernas tremendo, me perguntando o que eu podia ter feito pra merecer tudo aquilo. Essa avalanche de coisas ruins que parecia determinada a me soterrar. Essa solidão repentina e avassaladora.

Naquele dia, algo dentro de mim morreu junto com a minha mãe.

A inocência.

A esperança.

E, principalmente, a ilusão de que Peter algum dia seria meu porto seguro.

Ou de que eu sequer teria um.


(…)



A luz do abajur é suave, dourada. Quase acolhedora, se não fosse pelo cansaço que pesa nos meus ombros. Estou deitada de lado, os cabelos ainda úmidos da ducha rápida que tomei, e o celular preso entre o ombro e a bochecha.

— Então ele só apareceu do nada, assim? — a voz de Emy vibra no meu ouvido, carregada de indignação.

— Do nada — confirmo, apertando o travesseiro contra o peito. — Sentou na minha frente como se fosse um amigo de infância. Como se… como se nada tivesse acontecido. Dá pra acreditar?

— Babaca. Arrogante. Psicopata emocional. Você quer que eu diga todos os adjetivos ou vai me interromper?

— Pode continuar. Tá me fazendo bem.

Ela suspira, e eu escuto o som de alguma coisa sendo estourada do outro lado da linha. Pipoca. Emy sempre come pipoca quando está nervosa por mim.

— E ele ainda teve a audácia de falar do Lockwood?

— Disse que eu deveria avisar a Sam pra arranjar outro clube de boxe. Que “tá tentando ser legal”. — Faço aspas com os dedos, mesmo sabendo que ela não pode ver.

— Uau. Dois egos do tamanho de um campo de futebol brigando por território. Que romântico.

Reviro os olhos.

— Eu ri na cara dele. Literalmente. Mas, Emy… — minha voz sai mais baixa, quase um sussurro — até ele sabe que Lockwood tem me evitado.

Do outro lado, o silêncio é imediato.

— Ele falou isso? Que o Sam tá sumido?

— Não com essas palavras. Mas ele sabe. — respiro fundo

— Clary… olha, com todo respeito, mas você tá aí sofrendo por um cara que só sabe fazer pose de bad boy e sumir quando a coisa aperta.

— Você não entende.

— Não, eu entendo sim. E é exatamente por isso que eu não gosto dele. O Peter é um idiota, mas pelo menos a gente sabe o que esperar. O Lockwood te enrola, te confunde, e ainda some como se tivesse esse direito.

Fecho os olhos, deixando que as palavras dela fiquem em suspensão por alguns segundos. O quarto está quieto, exceto pelo som do vento lá fora e da minha respiração um pouco descompassada.

— Mesmo assim… eu…

— Eu sei. E é isso que me deixa puta. Porque você merece mais do que migalhas de atenção de um cara que não sabe se quer ficar ou fugir.

— Ele não me prometeu nada, Emy.

— E ainda assim levou tudo, né?

Silêncio. Ela acertou mais do que gostaria de admitir.

— Você precisa dormir. Amanhã a gente conversa. Com calma. E, por favor, não vá atrás de ninguém. Nem do Peter, nem do Lockwood.

— Tá. Boa noite, Em.

— Boa noite, amiga, amo você.

Desligo o telefone com um pequeno sorriso triste.

A madrugada engole o silêncio do quarto.

A luz do abajur está apagada, e só a penumbra da rua invade pelas frestas da cortina. Eu deveria estar dormindo, mas o sono não vem. Não desde que ele sumiu.

Maldito, inconstante, enraizado em mim de um jeito que eu não consigo arrancar.

Me viro na cama, inquieta. Meus dedos afundam no lençol ao meu lado — o lado vazio — e uma onda quente percorre meu corpo, densa e impaciente. Puxo o tecido da calcinha para o lado, como quem cede a um vício, e deslizo a mão para dentro.

Ele vem à minha cabeça de imediato. A maneira como fala meu apelido, grave, rasgando o ar como uma promessa. O toque firme na minha cintura, os lábios famintos no meu pescoço, o olhar que me despia com mais precisão do que qualquer mão…

Deixo escapar um suspiro ofegante.

A madrugada é um espelho do meu peito: silenciosa, escura, cheia demais de coisas que não têm nome.

Viro de lado mais uma vez, o lençol embolado entre as pernas. Meus olhos estão abertos, fixos no teto invisível, e cada segundo que passa sem notícia dele parece mais um grão de sal numa ferida aberta.

Sam Lockwood.

O nome dele queima na minha língua. A ausência dele é física — lateja nos meus ossos, pulsa entre as coxas.

Eu odeio que ele tenha esse poder. Odeio mais ainda o fato de que, mesmo me deixando, ele ainda mora em cada parte do meu corpo.

Minhas mãos se movem sozinhas. Primeiro nos braços, depois nos quadris, e por fim, escorregam por baixo da blusa larga que uso como pijama. Os dedos roçam os seios, lentamente, como se eu tentasse lembrar do toque dele. É quase uma tortura.

Fecho os olhos.

Meu corpo responde ao pensamento como se fosse real.

Os dedos descem, atravessando a barriga com delicadeza até encontrarem o calor entre as pernas. Eu me mordo pra não fazer mais barulho.

A saudade dele é doentia. E é nesse desejo solitário, nessa entrega amarga, que Sam vive dentro de mim.

Outro toque. Mais fundo. Mais lento.

Até que algo muda.

Não no meu corpo. No quarto.

O ar parece mais denso. Há um movimento no silêncio — sutil, mas presente. O som do assoalho cedendo, um passo contido.

Congelo.

Meu coração dispara. A adrenalina me percorre antes mesmo de eu conseguir olhar.

E então escuto:

— Continua.

A voz dele. Rouca. Grave. E completamente diferente de qualquer memória.

Me viro num sobressalto, puxando o lençol contra o corpo, mesmo com a respiração entrecortada e o desejo latejando entre as pernas.

Ele está ali. Na sombra do quarto.

Lockwood.

— O que você tá fazendo aqui? — minha voz falha, sem acreditar completamente que isso é real. — Está ficando louco? Como…?

Ele caminha até a cama em silêncio. Os olhos brilhando, mesmo no escuro. O peito subindo e descendo rápido, como se estivesse lutando contra alguma coisa dentro de si.

— Eu nunca sumi, Clarissa. — sua voz agora é um sussurro.

Meus lábios se entreabrem, o coração batendo num ritmo insano.

— Desde quando…? — começo, mas não consigo terminar.

Eu continuo deitada, os lençóis puxados até a cintura, o corpo quente e pulsando por dentro. Minha mão ainda está próxima demais da intimidade e ele sabe. Ele viu.

E não disse nada. Ainda.

— Vai fingir que não estava pensando em mim? — Lockwood pergunta, a voz baixa, densa, quase um gemido contido. — Que não sussurrou meu nome enquanto se tocava? Safada.

— E se estivesse? Você tem algum direito sobre isso? — ergo o queixo, desafiando, mesmo com o coração martelando nas costelas.

Ele dá um passo à frente. Depois outro.

— Não, Cherry. Mas tem uma coisa sobre mim que você parece ter esquecido… — ele se inclina, os dedos roçando de leve no meu tornozelo exposto, subindo em um caminho lento pela minha perna — Eu não sou bom em ficar longe do que é meu. Já te disse isso.

Arfo.

Ele não sobe mais. Para no meio da coxa, a mão quente demais, firme demais.

Sam arrasta o dedo devagar, do meio da coxa até a lateral do quadril. Ele se abaixa e a ponta do seu nariz roça meu joelho, subindo mais, como se estivesse sentindo o cheiro da minha saudade.

— Você me quer. — sussurra. — Até quando me odeia. Principalmente quando me odeia.

— Isso não é verdade. — minto, mal reconhecendo minha própria voz.

Ele sorri de novo. Aquele sorriso cínico e letal.

— Quer que eu prove?

— Nem ouse.

— Então por que não para de me olhar assim? — ele se aproxima mais, apoiando um dos braços ao lado da minha cabeça na cama. Seu rosto agora está a milímetros do meu. — Por que não me empurra?

Minhas mãos vão até o peito dele. Eu deveria empurrar. Deveria mandar ele embora, xingá-lo por invadir o meu quarto como um completo doente mental.

Mas tudo que faço é agarrar o tecido da camisa dele entre os dedos e puxa-lo para mais perto.

Devagar. Como se não tivesse mais forças pra resistir.

Ele respira contra minha boca. Quente. Ofegante.

Seus lábios roçam os meus, mas ele não beija. Não ainda.

Lockwood sabe me provocar.

Ele desce para o meu queixo, depois pelo maxilar, até a curva do pescoço.

— Se você não me quer, me diz pra parar. — ele murmura, os lábios agora perigosamente perto dos meus seios.

— Você veio até aqui só pra me torturar, é isso? — sibilo, impaciente, latejando de desejo.

Lockwood sorri contra a minha boca, um sorriso lento, carregado de algo mais sombrio e íntimo.

— Normalmente… quando não consigo cair no sono, eu só fico parado ali — ele aponta com o queixo para o pequeno sofá encostado no canto escuro do quarto — e observo você dormir. Tão linda. Me traz paz.

Minha respiração falha.

Louco. Acho que ele é realmente louco.

— Mas hoje — ele aproxima a boca do meu ouvido, a voz rouca, quase um grunhido — você me tirou do sério, Cherry. O que estava fazendo, hm? Sentiu tanto a minha falta que precisou se satisfazer sozinha? Egoísta. O que eu faço com isso aqui? — Lockwood empurra a sua ereção contra mim.

Ele morde de leve minha mandíbula, descendo devagar até o pescoço.

Sam afasta o lençol de uma vez, jogando-o para o lado com uma autoridade que não aceita recusa. Fico exposta sob ele — as pernas entreabertas, a camiseta fina grudando nos meus seios e o desejo estampado nos olhos.

— Ainda não arranjei um substituto — provoco, mesmo com o corpo em chamas. — Gostou de me ver tocar o que não é mais seu?

Ele dá um meio sorriso, mas não responde de imediato. Em vez disso, desliza os dedos pela lateral da minha coxa, subindo devagar, os olhos grudados nos meus.

— Você insiste em fingir que ainda é dona de si. Mas o seu corpo não mente. — Lockwood murmura.

Os dedos dele chegam até minha calcinha, que já está úmida, rendida. Ele esfrega o tecido contra mim, firme, e me arranca um gemido que tento conter com os dentes cravados no lábio inferior.

— Você quer que eu pare? — Sam pergunta, a boca roçando meu maxilar. — Não vou parar, mas gostaria de saber. — um sorrisinho.

Silêncio.

— Foi o que eu pensei — e com um único movimento, ele empurra a minha calcinha de lado, os olhos faiscando. — Pode me xingar depois. Pode me odiar amanhã. Mas agora… você vai implorar por mim.

Lockwood desliza um dedo dentro de mim com uma lentidão torturante. Depois dois. Explora cada movimento como se estivesse me estudando de novo, como se quisesse me fazer lembrar que ninguém nunca vai me tocar como ele.

— Você é um filho da puta doente — arfo, irritada com o fato de não conseguir sequer manter a minha palavra diante de Sam.

Mas meus quadris reagem sozinhos, buscando mais, e ele geme baixo, satisfeito.

— Você está tão molhada — ele murmura, a voz entre dentes. — Quase me faz esquecer que tentou fugir de mim. Achei que fosse mais inteligente que isso.

— Eu não tentei… — começo a responder, mas ele curva os dedos dentro de mim e tudo que sai da minha boca é um suspiro entrecortado.

Ele tira a camisa com impaciência, revelando o abdômen marcado e a pele quente. Meus olhos descem até a linha do cós da calça jeans que ele abre com um puxão, e por um segundo, Sam para, me encarando de cima.

Lockwood é uma visão que beira o pecado.

Cada linha do seu corpo parece esculpida à mão, como se tivesse sido criado pra provocar. Os ombros largos, os braços marcados por músculos definidos, prontos pra me segurar, me virar, me prender. O peito é firme, salpicado por uma trilha de sardas discretas.

Mas o que mais me desmonta são os olhos — escuros, intensos, devorando cada pedaço de mim como se eu fosse a última coisa viva no mundo. E aquele leve sorriso torto, como se soubesse exatamente o efeito que tem em mim. Como se já tivesse vencido.

— Vai continuar fingindo que não me quer? — pergunta, a respiração pesada.

— Vai continuar fingindo que consegue resistir a mim? — retruco, mordendo o lábio inferior.

Ele solta uma risada rouca.

— Nunca fingi, meu amor.

Então ele se posiciona entre minhas pernas, os olhos cravados nos meus. Puxa a cueca pra baixo num movimento lento, libertando-se — duro, quente, impossível de resistir.

Num impulso firme, Sam me preenche por completo, soltando um gemido rouco contra minha pele.

A sensação me atravessa como fogo: crua e insuportavelmente deliciosa. Meu corpo o recebe como se tivesse sido feito pra isso.

Lockwood começa a se mover, lento e profundo. O olhar cravado no meu, como se cada estocada fosse uma confissão.

— Então é isso que você quer? — ele pergunta, a voz falhando de prazer. — Achei que não estivesse mais afim, sua mentirosa.

— Quero que você cale a boca — suspiro, enterrando as unhas nos seus ombros fortes. — Para de choramingar como um bebê e me fode, Sam.

Lockwood obedece. Mas do jeito dele.

O ritmo acelera, a intensidade cresce, e logo nossos corpos se movem em um desespero quase primitivo. Ele arranca a minha blusa, se livra do resto das suas roupas e me vira de lado. Sam me puxa pela cintura, mordendo as minhas costas enquanto me fode intensamente. As mãos dele exploram cada parte minha como se marcassem território.

E eu deixo. Não só deixo, como anseio por mais.

Lockwood se move dentro de mim como se quisesse arrancar tudo que ficou preso entre a gente — toda raiva, toda saudade, toda frustração.

As mãos dele apertam minha cintura com força, puxando meu quadril contra o dele com uma necessidade que me faz arfar. Os gemidos escapam entre os dentes cerrados, o suor deslizando pela pele quente.

— Você não faz ideia do quanto eu senti sua falta — ele sussurra contra minha nuca, a voz grave, falha, arranhada. — Eu sonhei com isso. Com você.

— Então me mostra — provoco, a voz embargada de prazer. — Mostra o quanto sentiu minha falta.

Sam me vira de costas e se enfia de volta, mais fundo, mais intenso, como se cada investida fosse uma punição deliciosa.

— Eu te imaginei tantas vezes assim — ele murmura entre os beijos que arrastam por minha clavícula, pela curva do meu pescoço, pela minha boca entreaberta. — Me chamando. Implorando. Me querendo.

— Sam…

As mãos dele deslizam pela minha cintura, firmes, possessivas — e então ele me puxa, me vira com facilidade para si.

— Não vá embora de novo. — Ele geme baixo e pressiona a testa contra a minha, os olhos fechados por um segundo. — Você me destrói, Clarissa.

Eu toco o rosto dele, puxo sua boca de volta pra minha. O beijo agora é mais urgente, desesperado. Ele me levanta, me faz sentar em seu colo. Me encaixo de novo, gemendo contra seus lábios enquanto cavalgo no ritmo que ele dita com as mãos firmes em minha cintura.

Lockwood é uma visão quase irreal — forte, suado, completamente entregue ao prazer que escorre entre nós. Seus olhos escuros são como buracos negros, puxando tudo que sou para dentro desse caos feroz e inevitável que só existe quando estamos juntos.

— Fala de novo — ele pede, a testa colada na minha. — Fala meu nome.

— Sammy… — suspiro, e ele arfa como se o seu apelido saindo dos meus lábios fosse mais do que prazer. Fosse redenção.

Meus movimentos se tornam erráticos. O clímax se aproxima como uma onda gigante prestes a me engolir inteira.

Ele sente. Ele sabe. Ele me conhece.

— Goza pra mim — Lockwood ordena, os olhos nos meus, e é tudo que preciso.

Meu corpo explode. Arquejo inteira, o prazer me rasgando por dentro com uma força quase violenta. Seus quadris se movem com precisão, e os olhos dele não desgrudam dos meus. Ele me observa como se eu fosse o centro do universo, como se nada além da minha reação importasse.

— Gostosa do caralho.

Sam geme junto, me agarrando com mais força enquanto também se desfaz, enterrado em mim, o corpo todo tenso, o rosto escondido no meu pescoço.

— Não para — peço, a voz rouca, falhada, ainda rebolando em cima dele. — Sam. Mais. — Mal consigo formular uma frase.

Lockwood me encara como se eu tivesse acabado de libertar alguma coisa nele. Algo bruto, faminto, incontrolável.

— Mais? — ele repete, com um meio sorriso torto. — Você não faz ideia do que tá pedindo, Clarissa.

— Está cansado? — desafio, segurando seu rosto entre as mãos. Lindo. Dolorosamente lindo.

Algo muda no olhar de Sam. Escurece.

Num segundo, ele me deita de novo, os olhos percorrendo meu corpo como se quisesse devorá-lo inteiro.

— Minha coisinha perfeita e selvagem. Vai se arrepender disso — ele murmura, antes de se abaixar e cravar os dentes na curva do meu pescoço, forte o suficiente pra me fazer gemer alto, mas não o bastante pra me machucar de verdade. Não ainda. Sei que Sam está se contendo.

Cada pedaço de pele exposta é dele agora. Lockwood desce pela minha barriga, pelos quadris, abre minhas pernas de novo, com as mãos firmes, e me encara, com fome.

— Deliciosa — ele diz, antes de descer a boca e me fazer choramingar.

A língua dele me enlouquece, lenta no começo, depois mais intensa, como se quisesse arrancar outro clímax à força. E ele consegue. Eu arquejo, tremo, grito o nome dele com a voz arranhada, sentindo tudo de novo.

Mas ele não para. Me vira de bruços com firmeza, me ergue pela cintura e me toma por trás com um gemido baixo e gutural que me arrepia inteira.

As estocadas são mais fortes agora, ritmadas e intensas, como se ele estivesse me esculpindo de dentro pra fora. Uma mão segura minha cintura, a outra aperta minha nuca contra o travesseiro.

— Olha pra você — ele rosna. — Toda marcada. Toda minha.

Os dedos dele deixam vergões quentes na minha pele. Os dentes deixam rastros. Os quadris batem contra mim num ritmo insano.

E eu só sei implorar por mais.

Mais.

Mais.

Mais dele.

Mais de tudo que eu neguei.

Porque cada parte do meu corpo agora carrega a assinatura de Sam Lockwood.

E não existe volta.

Suas mãos grandes deslizam pela curva da minha bunda, apertam, marcam.

E então vem o primeiro tapa.

Estala no ar como um trovão, ecoando pelo quarto abafado.

— Porra — ele geme, enterrando-se mais fundo, preenchendo dolorosamente cada centímetro meu. — Você é uma desgraçada, Clarissa. Está acabando com a minha vida.

Outro tapa. Mais forte. Ardido.

Eu arquejo, a sensação misturando dor e prazer de um jeito absurdo.

— Bem vindo ao clube — minha voz falha, a respiração curta.

— Isso é pelo jeito que você geme o meu nome — ele rosna, a boca colada na minha orelha. — Como se eu ainda fosse seu, mesmo depois de ter me dispensado.

Mais um tapa.

Meus joelhos falham, mas Lockwood não me deixa cair. Não me dá descanso. Ele segura firme e puxa meu quadril de volta para si, como se quisesse me deixar em pedaços.

— Isso é por me deixar sozinho, por fingir que podia me apagar da sua vida — outro tapa, mais forte, me fazendo morder o lábio até sentir o gosto metálico de sangue. — Mas você não consegue, consegue, Cherry? Você ainda é minha.

O som do corpo dele batendo no meu ecoa pelo quarto, obsceno e hipnotizante. Eu gemo seu nome, perdida, implorando por mais mesmo sem conseguir formar palavras.

Eu me arqueio mais, ofereço tudo, porque nesse momento, não existe mais medo. Não existe mais nada — só ele, me preenchendo por inteiro, dominando cada centímetro do meu corpo como se estivesse marcando território.

— Sim — confesso, entre um gemido e outro, sentindo meu corpo inteiro se entregar. — Sempre fui.

Ele agarra meu cabelo, me puxa bruscamente pra trás, só o suficiente pra ver meu rosto virado de lado.

— Repete.

— Não.

Mais um tapa. Muito forte. Exigente.

— Repete.

— Sou sua, Sam. — choramingo — Quero você, seu desgraçado.

Ele geme, como se aquelas palavras fossem o estopim. O fim da linha.

E então ele goza mais uma vez, com um gemido rouco contra minha pele, os quadris ainda se movendo até o fim, me preenchendo até o último impulso. Os dedos cravados na minha cintura, a respiração pesada, descompassada.

Ficamos assim por um tempo, ofegantes, suados, grudados um no outro como se o mundo lá fora tivesse parado.

Como se nada mais importasse.

— Se você invadir o meu quarto de novo… eu juro que acabo com você. — Pauso por um segundo, tentando recuperar o fôlego, com um meio sorriso nos lábios, enquanto encaro o teto.

— Se for acabar comigo desse jeito, vou passar a vir todas as noites.