Vizinhos

4 Clarissa


“Thine eyes I love, and they, as pitying me,

Knowing thy heart torments me with disdain,

Have put on black and loving mourners be,

Looking with pretty ruth upon my pain…”

— Sonnet CXXXII, William Shakespeare.


Os olhos dele me devoram como se lamentassem o próprio desejo.

E eu deixo.

Porque o toque que machuca também pode ser o único que me faz sentir viva.



Clary

Uma semana depois


— Vocês deveriam pedir alguma coisa para comer hoje à noite. Ouvi dizer que abriram um restaurante indiano aqui perto e que a comida é muito boa — sugere meu pai, entrando apressado na cozinha, já com sua típica bolsa dos plantões pendurada no ombro.

Saber que ele ficará fora por um tempo é até um alívio.

Quando ele não está, a casa fica mais tranquila, mais leve. Não é como se houvesse uma bomba-relógio pronta para explodir a qualquer momento.

— Tenho certeza de que Lockwood vai ter algo bem interessante para comer hoje à noite — Emy comenta, ao meu lado, de forma que só eu consiga ouvir.

Faço uma careta, um misto de divertimento e repreensão, balançando a cabeça negativamente. Meu pai, concentrado em encher seu copo de café, está de costas para nós, do outro lado do balcão, tão absorto em sua tarefa que nem percebe nossa troca de palavras.

— Emy tem um show para ir — respondo, com indiferença. — E eu, um evento no Museu.

— Parece interessante — ele comenta, distraído, enquanto tampa sua bebida quente. — Bom dia, meninas. Até depois — diz, sem esperar uma resposta, antes de se virar para nos encarar com seus olhos intensamente azuis e um sorriso simples, saindo em seguida, para fora da cozinha.

Acho que, agora, somos colegas de casa. E, talvez, seja melhor assim.

No fundo, meu pai sempre esteve mais ocupado com suas próprias falhas e desejos do que com qualquer outra coisa. Ele se afasta emocionalmente, se refugiando no trabalho ou em qualquer distração que o impeça de olhar para dentro de si mesmo. E, mesmo quando está em casa, sua presença é um vazio. Não há amor ou calor ali. Apenas uma frieza constante, um desinteresse que transborda no jeito como ele me trata. Mesmo depois da morte da minha mãe, ele nunca se preocupou em saber se eu estava bem ou o que eu pensava e sentia. O que ele queria era que eu ficasse quieta, sem incomodá-lo, sem exigir demais. Sou apenas mais uma parte do cenário, alguém que deve existir dentro dos limites que ele impôs. Não sou mais que um detalhe.

Emy suspira ao meu lado, sentada em uma banqueta. Seus cachos escuros estão bagunçados, presos em um coque alto, e o pijama largo de ursinhos, combinando com o meu, completa o nosso look de um sábado — finalmente — livre.

— Sabe o que isso me lembra? — Emy arqueia as sobrancelhas, repentinamente animada, me encarando com os olhos arregalados. — Ele, provavelmente, vai ficar fora por dias... Se estiver indo para Londres, talvez até por uma semana — ela me cutuca nas costelas.

Nas últimas semanas, Emy tem tentado me convencer a dar uma festa de Halloween. Normalmente, comemoramos em algum pub de qualidade duvidosa, mas este ano queríamos investir mais na programação.

O problema é que eu detesto bagunça. E odeio ainda mais quando ela não é minha. Com a casa quase vazia e inabitada, a desordem se resume a alguns pelos de gato no sofá ou nas poltronas. O chão de pedra está sempre impecavelmente polido, as cortinas permanentemente fechadas, a pia quase nunca tem louça, e, muito menos, coisas espalhadas pelos cômodos. Os únicos ambientes realmente usados são os quartos no segundo andar, onde eu e meu pai dormimos. O resto da mansão poderia facilmente ser um museu: grande, silenciosa e intocada.

— Com uma condição — começo, já sabendo que vou me arrepender disso.

Mas por que não mudar um pouco as coisas?

Imagino a casa toda decorada, com aquele clima sombrio, luzes baixas e, quem sabe, uma playlist para criar uma vibe diferente. Só de pensar em receber gente, em fazer algo fora do comum, já sinto um friozinho na barriga.

— Se for sobre a bagunça, saiba que não existe quase nada no mundo que dinheiro não resolva — Emy interrompe, levantando a mão em protesto. — E, para nossa sorte, o seu pai é um homem bastante trabalhador.

Rico. Ela quis dizer "rico".

Dou um gole no café, refletindo.

Não precisa ser nada extravagante, nem sair do meu estilo. Uma festa simples, com amigos próximos, uma decoração sofisticada e fantasias divertidas seriam mais do que o suficiente.

— Tudo bem. Mas você organiza — concordo, vendo Emy bater palmas de animação. — Eu forneço o local e, claro, minha gentileza em passar o cartão de crédito.

É só mais um gasto que meu pai nem vai notar, e, honestamente, não sinto nem um pingo de culpa por isso. Ele sempre tem tudo o que precisa e nunca questiona o que faço quando não está por perto. Nunca parece se importar.

— E a sua fantasia! Não inventa de aparecer sem uma, ou vou ser obrigada a te expulsar da sua própria casa — minha melhor amiga acrescenta, apontando o dedo de forma acusadora para mim.

— Feito — respondo, dando um gole no café.

Acaricio o pelo branco e macio do meu gato, Robert, que sobe na bancada, interessado nos ovos mexidos. Terminamos de comer enquanto Emy tagarela sobre ideias de fantasias e decorações. Ela fala com tanta naturalidade sobre tudo isso que começo a me empolgar também. A ideia de fazer algo simples, mas com o toque certo, parece bem melhor do que eu imaginava.

Quando ela sobe para organizar suas coisas antes de ir embora, lavo a louça para evitar que se acumule. Limpo o fogão mais por hábito do que por necessidade. Passo pano nas bancadas com o desinfetante que peguei dos materiais hospitalares do meu pai e estou prestes a procurar algo mais para esfregar, imersa no meu modo "higienizador", quando a campainha toca.

Saio da cozinha e me dirijo à sala. Assim que encosto na imensa porta de madeira polida e me preparo para olhar pelo olho mágico, sinto um aperto involuntário no peito ao ver meu vizinho — absolutamente lindo, como sempre — do outro lado. Seus cabelos escuros estão agora um pouco mais longos, suas feições perfeitamente proporcionais, os enormes cílios pretos emoldurando os olhos cor de avelã, e a boca e as bochechas tingidas de rosa pálido, típicas do frio… E, claro, o semblante indecifrável que ele sempre carrega. Inexpressivo.

— Belo pijama — ele me cumprimenta, arqueando uma sobrancelha escura, quando nos encaramos.

Ele simplesmente permanece ali, parado, tão calmo, com o olhar fixo em mim, mas há algo no jeito que me observa que me faz sentir como se minha pele estivesse se aquecendo.

— Posso arranjar um pra você também — sugiro, estreitando os olhos para a sua ironia e me encolhendo mais dentro do macacão gigante ao sentir o frio cortante vindo do lado de fora.

Sam não parece incomodado, com seu sobretudo preto de lã batida e as mãos apoiadas casualmente nos bolsos. Seus cabelos escuros caem um pouco sobre a testa, desarrumados da forma mais irritantemente sexy e descontraída.

Depois de uma semana inteira sem nos falarmos, apenas nos observando de longe, sinto meu coração acelerar. O silêncio entre nós dois parece ter criado um vazio, algo difícil de preencher. Ao olhar para ele, percebo cada detalhe, como se fosse a primeira vez: o brilho nos olhos, o jeito despreocupado de se mover, e aquele sorriso que sempre mexe comigo, mesmo que ele não perceba.

Sinto um nó no estômago. É como se a distância de uma semana tivesse intensificado tudo – as palavras não ditas, as emoções guardadas. Cada vez que nossos olhares se cruzam, é como se ele estivesse tentando ler algo em mim que nem eu mesma entendo direito. Me sinto vulnerável, exposta, como se ele soubesse mais sobre mim do que deveria. Minha respiração fica mais curta, e meu corpo parece agir antes da minha mente.

— Vim saber se ainda vai querer ir ao Museu hoje à noite — Lockwood diz, em tom baixo, quase indiferente.

O que é irônico, visto que é ele quem está plantado na minha porta. Não consigo levar sua fachada de frieza a sério. Talvez seja a maneira como Sam me olha, como se eu fosse o centro de um segredo que ele ainda não decifrou, ou o jeito como ele aproveita todas as oportunidades de me ver em meio à sua rotina agitada. Só sei que a sensação é desconcertante e, ao mesmo tempo, excitante.

— Você poderia ter me mandado uma mensagem — observo, trocando o peso de um pé para o outro.

Uma parte de mim quer voltar a falar com ele como antes, mas outra parte está ansiosa demais, com medo do que essa proximidade repentina pode desencadear. A sensação de que algo está prestes a acontecer paira no ar, e eu não sei se quero ou se tenho medo disso.

— Sim — Sam concorda, quase com um grunhido, tirando as mãos dos bolsos e me puxando para si.

A sensação do toque dele me atordoa por um instante, como se minha pele tivesse absorvido o frio lá fora e ele fosse a única fonte de calor capaz de me devolver à realidade. Ele me puxa com uma suavidade que contrasta com a intensidade dos seus olhos, e, por um momento, o mundo parece desaparecer. Tudo o que eu consigo sentir é o peso da sua presença, a pressão do seu corpo contra o meu e a sensação de que estou prestes a me perder, mas ao mesmo tempo, não quero que isso acabe.

— Lockwood... — murmuro, a voz falhando um pouco.

Me derreto vergonhosamente ao seu toque, esquecendo do frio ao sentir uma de suas mãos compridas na minha lombar, enquanto a outra acaricia a minha bochecha. Ele leva a boca até a minha, parecendo ter estado pensando muito nisso, desejando muito isso. Aproveito para passar os dedos pelos seus cabelos macios, sem conseguir conter os meus movimentos. Sam aprofunda o beijo em aprovação, agarrando o meu rosto com as duas mãos. A sua língua faminta explora a minha boca com intensidade.

— Achei que tivéssemos um trato — arfo, tentando escapar dele por um instante, mas Lockwood é implacável. Com um movimento quase predatório, ele coloca a mão em minha garganta, me puxando de volta para si com uma facilidade assustadora.

Seu cheiro é inebriante, os seus movimentos são precisos e firmes, sua pele é macia. Arrepios percorrem o meu corpo quando algo dentro de mim se contorce, ansiando por mais daquilo, por mais dele, bem na hora em que ouvimos Emy.

— Poderiam, pelo menos, esperar a hora do jantar — retruca, atrás de mim.


(...)


Passo o dia em casa, tentando manter o foco na universidade e afastar — com o pouco de bom senso que ainda me resta — os pensamentos sobre o meu vizinho. Não é fácil. O que começou como toques furtivos entre dois corpos que se encontraram por acaso, agora parece escalar com uma velocidade que me assusta um pouco.

Desde quando eu passei a contar os dias até um sábado à noite? Sempre foi só mais um intervalo tedioso entre leituras densas e relatórios acadêmicos, sem qualquer expectativa. E desde quando comecei a me importar se a calcinha combina com o sutiã? Não que isso vá fazer diferença — tenho certeza de que Lockwood está mais interessado em tirá-los do que em analisá-los.

A verdade é que, por mais que a vontade de vê-lo seja urgente, quase febril, há algo em mim que se contrai toda vez que penso nele. Um tipo de alerta silencioso, insistente, que sussurra que isso não vai terminar bem.

Desde o começo, tudo pareceu rápido demais. Intenso demais. Sam chegou com uma confiança absurda, como se já soubesse exatamente onde queria se encaixar na minha vida — e, pior, como se eu fosse parte de um plano que só ele conhecia. Não sei explicar. E talvez seja justamente isso que mais me inquieta: a sensação de que fui escolhida antes mesmo de ter a chance de entender por quê.

Claro, talvez seja só o eco do passado. Ser traída após quatro anos de namoro muda a forma como você enxerga as coisas. A confiança nunca volta do mesmo jeito. Tento me convencer de que é só isso. Que estou apenas me protegendo.

Qualquer desculpa serve, desde que me permita continuar sentindo o gosto daqueles lábios famintos.

Mais tarde, ao entrar no carro, o olhar dele percorre cada centímetro do meu corpo com uma calma tão provocante que me faz corar. Não é que eu não saiba que sou bonita. É só que ainda não me acostumei com a forma como Sam faz questão de me lembrar — sem dizer uma palavra.

— Estou começando a me arrepender de não termos ficado em casa — ele diz, sério, sem desviar os olhos da estrada.

Escolhi um vestido azul-marinho de veludo que, com o devido senso de vaidade, admito: me favorece. O tecido escuro e lustroso contrasta com o laranja vibrante dos meus cabelos, que caem em ondas soltas sobre os ombros. A silhueta é justa na medida certa, recortada com elegância, terminando nos tornozelos. O decote ombro a ombro deixa à mostra minhas clavículas salpicadas de sardas e o colar que minha mãe me deu quando entrei na faculdade — um dracma de ouro maciço, da Grécia antiga, pendendo delicadamente no centro do meu peito.

— Você também não está nada mal — comento, tentando não me demorar demais nos detalhes.

Sam está… descomunal. Parece ter saído direto de um editorial vintage de moda masculina europeia. O cabelo preto, meio desalinhado em um topete imperfeito, parece cuidadosamente descuidado. O blazer escuro veste-o com uma precisão quase obscena, como se tivesse sido feito sob medida — e, honestamente, talvez tenha sido. Há algo nele que transborda poder, como se estivesse sempre à vontade, mesmo quando tudo em volta pede formalidade.

Luto contra o impulso de me inclinar e beijá-lo, não por falta de vontade, mas para evitar borrar o batom.

Ou tirar a calcinha.

— Apenas algumas taças de vinho, e depois podemos ir embora — ele diz, a voz mais baixa agora. — Tenho pensado em maneiras muito mais interessantes de passar a noite com você do que em um coquetel no museu.

Ele não parece estar brincando. Nem por um segundo.

— O convite foi seu — rebato, tentando manter um mínimo de compostura enquanto ignoro o arrepio que sobe pela minha coluna.

— Achei que ninguém fosse valorizar tanto esses ingressos quanto você — responde, ainda com os olhos no trânsito, como se o que acabara de dizer não fosse exatamente o tipo de coisa que nos faz repensar a rota inteira da noite.

Já está escuro lá fora, mas as ruas continuam pulsando. Carros, ônibus, pedestres e ciclistas formam um formigueiro caótico à medida que nos aproximamos do centro de Bristol. As fachadas iluminadas se misturam à arquitetura antiga da cidade, onde o passado dialoga com o presente. As ruelas estreitas, muitas vezes silenciosas, têm um ar solitário, mas guardam uma energia latente — quase como um segredo prestes a ser descoberto. O cheiro de comida vindo dos restaurantes e caminhões de comida de rua adiciona um toque acolhedor à noite. O som de conversas ao longe, familiar e constante, embala a cidade como uma música de fundo.

Chegamos ao Museu da Cidade e Galeria de Arte, uma construção imponente em pedra bege, com colunas monumentais e esculturas clássicas na fachada. A entrada, marcada por um arco de pedra, revela a arquitetura neoclássica que mistura elegância e grandiosidade.

Sam desce primeiro, contorna o carro para abrir minha porta e entrega a chave ao manobrista do evento. Quando perguntei como conseguiu os convites para a inauguração do novo acervo, ele apenas deu de ombros, murmurando: “Tenho meus contatos.”

O típico charme desconcertante de sempre.

À noite, o hall do museu adquire uma atmosfera envolvente e misteriosa. A luz quente das arandelas realça o mármore claro do chão e os detalhes ornamentais do teto, criando um jogo de sombras que parece dançar sobre as superfícies. As colunas que antes pareciam meramente clássicas agora exalam dramaticidade. Tudo parece sussurrar história e sofisticação.

Enquanto a noite avança, o frio de outubro se infiltra por entre as portas de vidro, fazendo com que eu estremeça ligeiramente dentro do vestido — me recusei a estragar o look com um casaco. A brisa gelada da rua se dissipa assim que entramos, substituída por um calor suave, quase cerimonial, que percorre os corredores altos.

Sam apoia uma das mãos em minha lombar, guiando-me com naturalidade. Seus dedos estão quentes, firmes. O teto do museu, abobadado e colossal, parece se estender infinitamente, como se fosse capaz de conter todas as histórias já contadas — e aquelas ainda por contar.

O som ambiente é comedido: uma música suave ao fundo, intercalada por risos contidos, murmúrios e o tilintar ocasional de taças. O evento acontece em um dos salões mais elegantes, onde as obras de arte parecem observar os convidados discretamente, como parte do cenário.

Perto do bar, três barmen preparam coquetéis artesanais com movimentos precisos. O cardápio, exposto em uma pequena lousa dourada, oferece opções clássicas com toques inusitados.

— Não posso dizer que estou radiante em encontrá-los aqui… mas vocês dois parecem ter saído diretamente da Vogue — diz uma voz familiar, me arrancando dos pensamentos.

O Sr. Ford, nosso professor de literatura estrangeira, está à nossa frente, sorrindo com aquele ar gentil e irônico que aprendi a reconhecer nas aulas. Ele segura uma taça de vinho branco com a naturalidade de quem já esteve em muitos eventos como este. Seu terno cinza, de corte clássico e preciso, é simples, mas carrega um refinamento sutil. Os mesmos óculos de sempre repousam sobre o nariz, reforçando sua expressão de inteligência calma — quase como se nada, nem mesmo a noite, o surpreendesse de verdade.

— Não adianta fingir que não sou sua aluna preferida, professor. Já está mais do que óbvio — digo, oferecendo-lhe um sorriso leve, um tanto provocador.

O Sr. Ford solta um riso baixo, que faz tremer levemente o líquido dourado em sua taça.

— Ah, Blackwell… sempre tão modesta — comenta, arqueando uma sobrancelha acima da armação dos óculos. — Mas admito que há algo em suas interpretações que me intriga. Você lê nas entrelinhas como poucos. Talvez porque você própria viva nelas.

Lockwood, parado ao meu lado, ainda sem dizer uma palavra, estende a mão em cumprimento. O aperto entre os dois é firme, breve — e, por algum motivo, mais silencioso do que deveria.

— Vou pegar nossas bebidas — ele murmura no meu ouvido, antes de desaparecer entre os convidados, com uma naturalidade desconcertante.

Observo-o se afastar.

Seu porte atlético é evidente mesmo sob o blazer escuro, e ele caminha com aquela segurança que não precisa ser anunciada. Seus ombros largos e o modo como atravessa o salão, desviando das pessoas com gentileza mecânica, revelam um tipo de graça contida. Há algo felino em seus gestos. Algo… deliberado. Como se estivesse sempre se movendo com um propósito que ninguém mais conhece.

— Interessante… — o Sr. Ford comenta, com os olhos ainda voltados para Sam. Sua expressão é neutra, mas os olhos, atentos demais para ser apenas curiosidade. — Espero que ele te ajude mesmo na construção do artigo. Ao menos… academicamente.

Dou uma risada abafada, tentando manter o tom leve, mas há algo no modo como ele disse aquilo que faz meu sorriso vacilar por um instante.

— Por que essa observação? — pergunto, cruzando os braços, divertida, mas alerta.

Ele sorri, sem responder de imediato, levando a taça novamente aos lábios.

— Só achei curioso. Jovens tão… introspectivos quanto ele costumam ter muito a dizer. Só preferem não dizer nada. — Ele faz uma breve pausa, como quem mede as palavras com cuidado. — E há silêncios que dizem mais sobre alguém do que discursos inteiros. Cuidado para não confundir profundidade com mistério.

O comentário me pega de surpresa. Fico em silêncio por um momento, observando Sam ao longe, no bar, esperando os barmen finalizarem os drinks.

— Sempre tão filosófico, professor — digo por fim, mas sem muita convicção.

— Velha mania de quem já viu gente demais esconder coisas debaixo de palavras bonitas — ele diz, agora sorrindo de forma quase indulgente. — De todo modo, o vinho está bom, e você está deslumbrante. Aproveite a noite… com discernimento — acrescenta, como quem entrega um conselho disfarçado de elogio.

Antes que eu possa responder, ele se despede com um leve aceno de cabeça e desaparece entre os convidados, me deixando com uma sensação difícil de nomear — como se tivesse plantado algo que ainda vai crescer dentro de mim.

Sam retorna pouco depois, com duas bebidas em mãos. Whisky com gelo para ele, vinho tinto para mim. Me entrega a taça e seus olhos se detêm nos meus lábios por um segundo longo demais, como se quisesse me memorizar por partes.

O toque de seus dedos nos meus, breve e inevitável, é quente. Mas, agora, a lembrança das palavras do professor ainda pulsa na minha mente, misturando-se ao vinho e à crescente dúvida que insisto em ignorar.

— Você vai me matar com esse vestido — Lockwood estala a língua, uma falsa reprovação nos lábios.

Chego mais perto, incapaz de me conter, e sussurro, bem próxima aos seus lábios:

— Imagine sem.

Ele solta um riso baixo, gutural, mas não diz nada. Seus olhos respondem por ele.

A noite flui como vinho bom — densa, envolvente, perigosa. Rimos, conversamos, passeamos pelas galerias, bebemos, nos misturamos aos convidados com a leveza de quem sabe que carrega seu próprio universo. É uma dança silenciosa entre nós, um jogo de provocações disfarçadas. O mundo lá fora desaparece. E aqui dentro, cada gesto entre nós parece uma promessa — o toque casual no ombro, os sussurros ao pé do ouvido, os olhares demorados que dizem mais do que qualquer palavra.

A tensão cresce. Está em cada centímetro que falta para que nossas peles se toquem, em cada respiração que se encontra perto demais. Quando ele se aproxima, o corpo a centímetros do meu, sinto meu coração acelerar. Ele me observa de um jeito que não é apenas desejo — é estudo, é posse.

Conheço alguns nomes influentes do meio artístico, como o dono de uma galeria importante. Estou na quinta — ou sexta? — taça de vinho. Meus sorrisos estão mais soltos, minha voz mais leve, e quando ele me oferece uma entrevista, agradeço, empolgada.

— Eu sei bem o tipo de “entrevista” que ele quer de você — Sam bufa, irritado, observando o homem se afastar. — Desgraçado.

Dou uma risada sincera, quase sem controle. Mas não consigo parar de olhar para ele.

O rosto de Sam é de uma simetria inquietante, como se tivesse sido esculpido por mãos que sabiam exatamente o que queriam. A mandíbula firme, os lábios bem delineados, os olhos profundos, quase hipnóticos. Há algo na forma como ele se move, se impõe e ao mesmo tempo se esconde, que faz com que tudo ao redor pareça mais opaco.

— Não seja hipócrita, Sammy — provoco, mordendo o lábio ao dizer seu apelido.

Ele me encara com sua postura impecável, olhos escuros fixos nos meus, intensos, lentos, perigosos. Quase predatórios.

O museu parece maior agora. Mais silencioso. As sombras se alongam, espessas.

Sam não fala.

E eu também não.

Caminhamos em um compasso lento, quase ritualístico. Em silêncio. Sincronizados.

Por um instante, observo nosso reflexo nos vidros escuros da ala central. Há algo antigo na imagem. Como se fôssemos figuras arrancadas de uma fotografia em sépia, vagando entre os séculos.

Ele veste preto da cabeça aos pés. O casaco, o coturno. Combina com ele como a noite combina com o céu.

As luzes da ala principal estão apagadas, exceto por feixes de LED embutidos no chão, realçando esculturas específicas. Passamos por Afrodite e Eros. Eu a conheço bem.

— Olha só — digo, diminuindo o passo. — Eros tenta alcançar os lábios da mãe. Mas Afrodite segura o braço dele.

Ele para ao meu lado, observa.

— Muitos acham que ela quer proteger o filho da paixão. Mas… — dou de ombros. — Sempre achei que ela quer, na verdade, impedi-lo de sentir.

Sam não diz nada, mas seus olhos continuam presos à escultura. Sinto seu silêncio como se fosse mais uma camada da obra.

— A ironia é que, quanto mais você tenta conter o desejo, mais ele cresce — comento, quase sem pensar.

— Não é ironia — ele diz, sem desviar o olhar. — É maldição.

Paro. Me viro para ele.

— Você acredita nisso?

— Não em deuses — responde. — Mas em maldições, sim.

Seus olhos voltam para os meus. Há calor neles, e também algo mais escuro. Algo antigo.

Não digo nada. Apenas continuo andando. Ele me segue. Os passos dele parecem mais próximos, mais firmes. Como se o ar entre nós estivesse rarefeito.

Até que ele para.

Me viro devagar.

Sam está diante da escultura de Hipnos.

O deus do sono.

Uma peça helenística. Asas abertas. Rosto sereno. Quase doce. E, de algum modo, profundamente inquietante.

— Bonita, não? — comento, me aproximando.

— Sim — ele murmura. — Mas ninguém presta atenção nela de verdade. Todos olham pro rosto do deus e ignoram o que está escondido.

— Escondido? — arqueio uma sobrancelha.

— Atrás. As asas… são feitas de folhas de papoula.

Ele me encara.

— A planta que dá origem ao ópio.

Um arrepio me percorre. Tento suavizar.

— A escultura representa o sono. O descanso.

— Também representa o vício — ele rebate, com voz baixa. — A fuga da realidade. A sedução daquilo que parece doce… mas destrói.

Sua voz é firme, mas há algo quebrado nela. Um cansaço escondido entre as sílabas.

— Então é por isso que você gosta dela? Porque é perigosa?

Sam dá um passo à frente. Não encosta em mim. Mas não precisa.

— Porque é honesta — diz.

Fico sem palavras.

Porque entendo o que ele quis dizer.

É uma confissão.

Mas disfarçada, como tudo nele.

E eu sou boa em ouvir o que não é dito.

Sou guiada pelo braço, sem realmente me importar para onde vamos — até perceber que ele me conduziu para dentro de um dos banheiros da galeria. O espaço está vazio. Ele tranca a porta atrás de si com um clique seco, e é como se o som selasse algo inevitável.

A maioria dos convidados já foi embora, mas ainda estou com a taça de vinho na mão. Me volto para o enorme espelho diante de nós e, por um segundo, apenas observo.

Meus lábios, manchados de vinho tinto, têm a cor do vício. Meus cabelos, como chamas, contrastam com o azul escuro do vestido justo que realça minhas curvas. O reflexo me agrada. Me sinto desejável. Selvagem. Talvez seja o efeito do álcool, talvez a forma como ele me observa — como se eu fosse um segredo antigo, finalmente revelado.

— Cherry — ele diz, entre dentes, sua voz grave vibrando com algo primal. Toma meu rosto entre os dedos, como se o mundo estivesse prestes a desmoronar e só eu pudesse segurá-lo. — Preciso de você.

Não há mais espaço para hesitação.

O beijo acontece como uma ruptura. Como uma liberação de tudo o que estava contido. O gosto dele invade minha boca, e a tensão da noite se dissolve em cada toque, cada mordida, cada suspiro abafado entre nossos corpos.

Minhas costas colidem com a bancada de mármore. Larguei a taça em algum lugar — não me lembro onde, nem importa. Suas mãos me exploram como se tivessem memorizado o caminho, como se eu fosse um mapa que ele já decorou, mas ainda assim insiste em redescobrir.

Meus dedos se entrelaçam aos fios macios de seu cabelo. Ele solta um gemido grave, de aprovação, de necessidade. Cada ruído seu parece acender algo dentro de mim. Como se ele estivesse faminto. Como se eu fosse exatamente o que ele não podia mais evitar.

— Sam — arfo, entre beijos, tentando resgatar um fiapo de razão. — Alguém pode… saber que estamos aqui.

Ele ignora. A boca percorre meu maxilar, meu pescoço, a curva do ombro, a borda dos seios expostos pelo decote. Seus lábios queimam.

— Ótimo — murmura, a voz impregnada de ciúmes. — Espero que aquele filho da puta saiba.

O centro do meu corpo pulsa à menção dele. À forma como ele transforma o ciúmes em posse, e a posse em desejo.

Solto um gemido quando ele me vira de costas, posicionando-me diante do espelho outra vez. Nossos reflexos se encaram. Ele puxa meu cabelo com uma das mãos, fazendo meu pescoço ceder, expondo minha garganta. A outra mão repousa firme na minha cintura. Posso sentir sua excitação contra mim — não há mais disfarces.

— Assim vou perder a entrevista de emprego — murmuro, entre riso e gemido, quase sem ar.

Ele estala a língua, desaprovando. Um som baixo, ameaçador.

Ergue meu vestido até a cintura. O ar frio atinge minhas pernas, causando arrepios. Meu coração parece um tambor, ritmado pelo caos e pela luxúria.

Quero isso. Quero ele. Quero o caos que ele traz. Porque nele, eu me sinto viva. Finalmente viva.

— Não me provoque, Blackwell — ele sibila no meu ouvido, a voz rouca, carregada de promessas sombrias. — Alguém com certeza vai ouvir se eu decidir te encher de tapas.

Meu corpo inteiro reage. Estremeço. O chão parece instável, mas os braços dele me sustentam com firmeza, como grades que me mantêm em pé.

E então, a mão dele desliza por dentro da minha calcinha.

É como cair e flutuar ao mesmo tempo.

Um alívio. Uma tortura.

Porra.

Estou vergonhosamente pronta para ele, e sinto meu corpo queimar de anseio ao ouvir o som gutural de aprovação que Sam emite ao perceber isso também. Ele enfia os dedos em mim com firmeza, arrancando um soluço rouco do fundo da minha garganta. Tudo em mim se contrai, implorando por mais. Por ele. Pelo toque, pela presença, pela compulsão enlouquecedora que só ele é capaz de causar.

O que a gente tem… é uma droga.

Viciante. Destrutiva. Irresistível.

Sinto-o absurdamente rígido contra a minha bunda, mesmo através da calça de alfaiataria que ainda o separa de mim. Lockwood enterra o rosto na curva do meu pescoço e se movimenta com mais intensidade dentro de mim, cobrindo meus lábios com os seus para abafar meus gemidos descontrolados. Seus dedos deslizam para dentro e para fora da minha intimidade, molhada e pulsante, enquanto meus pensamentos viram fumaça.

Só pode ser o vinho. Só pode.

— Filha da puta… você é um absurdo — Sam arfa, puxando mais o meu vestido para cima, empurrando minha calcinha até que fique embolada nas minhas coxas trêmulas.

Estou desesperada por ele. O meu ventre lateja em expectativa, como se meu corpo inteiro gritasse pela presença dele. Apoio as mãos suadas na pia de mármore, o coração batendo como um tambor descompassado. Não me importo que estamos no museu. Que alguém possa ouvir. Que a porta esteja trancada. Que tudo isso seja loucura.

O mundo pode ruir lá fora. Eu só quero ele. A pele dele contra a minha. Os olhos dele nos meus. Essa tensão, essa combustão, essa necessidade de esquecer tudo e me perder.

Não preciso de promessas. Nem explicações.

Só preciso tê-lo. Aqui. Agora. Só preciso que ele seja meu.

E é exatamente isso que ele faz.

Sam abre o zíper da calça e desliza por trás, agarrando a minha bunda com um apetite quase selvagem. Quando me penetra, um soluço escapa da minha garganta, acompanhado de um estremecer de prazer.

— Porra… Sam… — suspiro, trêmula, quando ele segura meu pescoço com força.

— Puta merda, Clarissa… — ele geme no meu ouvido, sua voz rasgando minha sanidade.

De repente, minha bunda arde com um tapa tão forte que ecoa pelo banheiro. Fico imóvel por um segundo, encarando a marca vermelha dos dedos dele na minha pele. Nossos olhares se cruzam no espelho, e os olhos de Sam estão tomados por algo sombrio. Sei que esse tapa não foi nem metade do que ele gostaria de fazer comigo. Ele está se segurando — seus próprios demônios à beira de transbordar.

O aperto dele em mim é de um desespero insaciável. Um braço firme no meu pescoço, o outro me envolvendo pela cintura, me mantendo presa enquanto se move, rápido, ritmado, faminto. Nossos corpos se encontram com violência e necessidade, criando uma sinfonia de respirações trêmulas, sussurros e batidas descompassadas.

Olho para o espelho, e a imagem refletida parece de outra mulher. Uma versão minha em chamas. Os olhos semicerrados, o cabelo bagunçado, a boca entreaberta pelo prazer. Sam está atrás de mim como uma força da natureza. Impulsivo. Visceral. Quase selvagem.

— Nós não deveríamos estar fazendo isso — arquejo, mais para mim mesma do que para ele, sem conseguir abrir os olhos.

Meus pensamentos perdem a forma. A razão vira um sussurro abafado por essa urgência absurda. Cada célula do meu corpo vibra. Meus sentidos estão todos sintonizados nele. No som que ele faz, no jeito como me toca, na forma como me possui.

Nada mais importa.

— Uma semana… sem essa boceta — Sam ofega, estocando com força. — Eu não conseguia pensar em mais nada, Clarissa. Pelo amor de Deus, eu juro que tentei…

Ele agarra meus cabelos para alcançar meus lábios novamente. Me morde o ombro, me marca com os dentes. Eu solto um gritinho, completamente entregue. Sou dele, e ele sabe disso. Está escrito no suor que escorre das nossas peles, nas mãos dele que se cravam em mim como se eu fosse sua âncora.

Sam enfia dois dedos na minha boca, segurando meu queixo com brutalidade e adoração, tudo ao mesmo tempo, enquanto continua a me foder. Me preenche até o fim, cada estocada mais profunda que a anterior.

— Não pare… — arquejo, me pressionando ainda mais contra ele.

— Não pararia nem que você me implorasse — ele rosna, os lábios na minha orelha, enquanto seus dedos encontram novamente o centro entre as minhas coxas.

Explodo.

Sou tomada por uma onda quente e fulminante, um arrepio que toma todo o meu corpo. Meus joelhos fraquejam, mas ele não deixa que eu caia. Suas mãos suadas me seguram com força. Me sustentam.

— Sammy… — gemo, e sinto seu corpo tensionar atrás de mim. Ele solta uma série de palavrões abafados e me empurra para frente, sua respiração descompassada explodindo no meu ouvido.

Ele goza dentro de mim, com estocadas finais e desesperadas, seu nome escapando dos meus lábios como um feitiço.

— Minha — ele arfando, beijando meu rosto. — Você é minha.

Ainda me penetrando, ele se move algumas vezes, como se quisesse selar aquilo dentro de mim. Depois se inclina e sussurra, com a respiração irregular:

— Agora vista essa calcinha bonita… sem se limpar. E se aquele filho da puta falar com você de novo… mostra pra ele o que acabei de fazer.

Ele me vira, acariciando minha bochecha com uma ternura inesperada.

— Louco — sussurro, o coração batendo desgovernado.

— Por você, sim, Cherry.

Mas é no silêncio que vem depois que a culpa começa a me corroer.

Quando o calor diminui e a respiração tenta voltar ao normal, me sinto invadida por um arrependimento que não sei como nomear. Não por ele, não exatamente. Mas por mim. Pela forma como me entrego, como me perco, como me esqueço de tudo o que deveria importar no instante em que ele me toca.

Lembro da conversa com o professor mais cedo.

Das palavras de incentivo, da forma como ele falou do meu potencial, da vaga que o estranho me ofereceu naquela galeria.

Por alguns minutos, eu fui outra. Alguém promissora. Alguém capaz. Alguém com a vida organizada. Alguém com um futuro.

E agora estou aqui, trancada num banheiro, com as marcas dele pelo meu corpo e o gosto da vergonha subindo pela garganta.

E o pior de tudo? É que eu sabia.

Sabia que isso ia acontecer. Sabia que bastava ele me olhar, falar meu nome daquele jeito, e tudo desmoronaria de novo.

E mesmo assim eu vim. Mesmo assim eu deixei.

Porque eu não só sabia, como era exatamente o que eu queria.

Sou uma otária. Tenho vontade de rir de mim mesma, mas o riso viraria choro.

Como posso ser tão estúpida? Como posso ser tão fraca a ponto de esquecer tudo — tudo — só porque ele encosta em mim?

Tenho raiva. Muita raiva.

Dele, sim. Mas principalmente de mim. Porque eu podia ter parado. Podia ter dito “não”. Podia ter lembrado quem eu era antes disso.

Mas não. Eu só consigo ser essa versão arruinada e patética de mim mesma, que implora por um olhar, por um toque, por um resto do que ele finge me dar.

É como se meu corpo o reconhecesse antes mesmo que a minha mente tenha chance de reagir.

E eu odeio isso. O quanto preciso dele. O quanto desejo algo que me destrói aos poucos.

O quanto abandono tudo por migalhas da presença dele.

Não há explicação lógica para esse vício. Nem justificativa moral.

Só há o caos que ele provoca e a culpa que me esmaga depois.

Mas, mesmo agora, com as pernas trêmulas e o coração ainda acelerado, eu sei que se ele me pedisse de novo… eu cederia.

E isso me faz me odiar ainda mais.












Notas finais
Oiiii, amigas! (anos depois rsrsrs – é o meu jeitinho) Um aviso: esse capítulo será editado em breve, ele é bem mais longo, mas queria atualizar logo, tava ansiosa <3