Vizinhos
5 Lockwood
“Cupid laid by his brand and fell asleep:
A maid of Dian’s this advantage found,
And his love-kindling fire did quickly steep
In a cold valley-fountain of that ground;
Which borrowed from this holy fire of Love,
A dateless lively heat, still to endure,
And grew a seething bath, which yet men prove
Against strange maladies a sovereign cure.
But at my mistress’ eye Love’s brand new-fired,
The boy for trial needs would touch my breast;
I, sick withal, the help of bath desired,
And thither hied, a sad distempered guest,
But found no cure, the bath for my help lies
Where Cupid got new fire; my mistress’ eyes.”
— Sonnet CLIII, William Shakespeare.
A febre começou nos olhos dela.
Eu procurei a cura no lugar errado.
Agora carrego essa doença no peito – e o calor nunca mais cessou.
Lockwood
Não consigo calar essa voz na minha cabeça que repete, em loop, que talvez tudo isso tenha sido uma ideia de merda. E é claro que foi. Não há como negar. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso diria o mesmo. Mais uma das decisões impulsivas nascidas do meu cérebro fodido, viciado, um cérebro que transforma qualquer delírio em proposta válida se isso me trouxer uma gota de alívio. Qualquer fagulha de prazer, qualquer merda que me distraia da dor. É o cérebro de um dependente, um escravo.
No momento em que tomei a decisão, parecia lógico. Simples. Como se fosse uma escolha racional. Talvez até… necessária. Uma forma de retomar o controle ou, quem sabe, de sentir alguma coisa além desse vazio constante. Mas agora, não consigo escapar do ciclo. Criei a armadilha, caí nela e agora sou apenas um corpo se debatendo nas correntes do próprio desejo.
Estou preso entre o que pensei que queria e o que, de fato, nunca tive coragem de admitir. Entre o impulso de dominar e a necessidade insana de me entregar. Tento me convencer de que tudo depende da força de vontade, mas a verdade é mais cruel. É físico. É psíquico. É visceral. E cada tentativa de recuar me torna ainda mais fraco, ainda mais enredado nessa teia.
Nela.
Na porra da sua boca, no cheiro que me persegue, nos cabelos que parecem feitos pra me enforcar. No corpo perfeito que se tornou minha droga preferida. Nas sardas que eu poderia contar uma por uma, de tanto que já a observei. Acho que estou doente. E o pior? Parte de mim acha que essa doença foi a melhor coisa que me aconteceu em anos.
Aqueles olhos dourados… Eles veem. Mesmo sem saber. Como se enxergassem através de tudo. De mim. Ela é uma criatura fascinante. Um enigma. Cada traço do rosto dela parece ter sido moldado pra expor o caos humano com uma beleza obscena.
Clarissa.
Ela tem algo dentro dela que quase ninguém nota — mas eu vi. Um peso antigo. Uma tristeza que não sai dos olhos. Um abismo que pulsa atrás do sorriso contido. Aquela garota carrega a morte nos ombros, mas continua dançando. Sozinha. E eu vi isso antes mesmo de me aproximar. Muito antes. Quando ela ainda era apenas uma imagem na tela, um nome em um relatório, um fantasma em uma casa que não era minha.
E então virei especialista. Li tudo. Vi tudo. Estudei cada passo, cada padrão. Fiquei à espreita. E o que começou como missão se transformou em compulsão. Num vício. Algo que não consigo controlar, nem mesmo quando tento com todas as forças.
Ela se tornou o meu inferno particular. A minha condenação. E eu sei, com uma clareza dolorosa, que já não posso fugir. Porque ela é parte de mim agora. E tudo que eu faço — mesmo os erros — eu faço achando que, no fundo, é para o melhor. Mesmo quando me arrependo, mesmo quando sinto a culpa roer meus ossos, parte de mim acredita que foi necessário. Que se não tivesse feito, teria sido pior.
Uma semana. Foi só isso. Uma semana longe dela e quase enlouqueci. Depois que ela decidiu — decidimos — manter distância, tentei me convencer de que seria possível. Que eu poderia aguentar. Mas cada minuto longe foi como um corte novo, um lembrete da minha fraqueza.
E ela está ali. Na casa da frente. Tão perto que posso ouvir seus passos, sentir seu perfume pela janela aberta. E não posso tocá-la. Não posso tê-la. E isso… isso me destrói.
Sou um homem dividido entre o instinto de protegê-la e o pavor de que ele descubra. Porque se Aaron souber quem ela é… não vai parar. Vai matá-la. Vai fazer isso só pra me ver sangrar. E eu não conseguiria viver com isso.
Eu poderia sumir. Poderia desaparecer. Sair da vida dela agora, antes que seja tarde demais. Antes que meu irmão perceba. Mas eu não consigo. Porra, eu não consigo. Cada tentativa de cortar esse laço só o fortalece. Ela me molda. Me consome. Me transforma.
E por isso estou aqui, empacotando qualquer merda inútil numa mala. Como se montar um apartamento falso no centro da cidade fosse me tornar menos vulnerável. Como se isso enganasse alguém. Como se não fosse óbvio que meu verdadeiro lar, minha prisão, é aqui – nesta casa, nesta rua, nesta porra de cidade onde tudo gira em torno de Clarissa.
Estou mentindo pra todo mundo. Principalmente pra mim. E a verdade é que essa obsessão não tem cura. Só tem fim. E ele está cada vez mais perto.
Apesar de ter aliviado a minha abstinência de Clarissa, a noite passada com certeza vai se transformar em tortura após alguns dias longe dela.
Só de lembrar, já começo a latejar dentro das calças, e preciso me ajeitar para evitar uma ereção maldita.
Me esforcei para vê-la feliz por mais tempo do que o meu pau conseguiria aguentar fazê-la — oferecendo uma quantia absurda por convites que sequer estavam à venda.
E provei a velha verdade: todo mundo tem seu preço.
Contemplar aqueles olhos sagazes brilharem com interesse em seu habitat natural — dentro do museu — enquanto ela segurava uma taça de vinho e esquadrinhava a nova exposição, curou algo dentro de mim também.
Como se fazê-la esquecer dos seus tormentos me trouxesse alívio. Mais que isso: satisfação.
Um sentido para a minha existência vazia.
Quando seus olhos se fixavam em uma obra particularmente impactante, seu rosto se iluminava.
Cada movimento dela naquele vestido azul profundo parecia uma dança contida, tão natural quanto respirar — mas carregada de uma inteligência rara, como se a arte fosse uma linguagem secreta que ela entende fluentemente.
E eu sei que entende.
Para ela, a arte é espelho, refúgio e válvula de escape.
Sua expressão se tornava serena e introspectiva, como se cada obra a tocasse de forma pessoal.
Às vezes, seus lábios se curvavam num sorriso leve, como se reconhecesse algo ali que também habita o próprio coração.
Outras vezes, seu olhar ficava distante — absorvendo a dor, a beleza e o sofrimento que as peças carregavam.
A noite não poderia ter terminado melhor.
Depois de termos fodido — por menos tempo do que eu gostaria — naquele banheiro enorme, quase não conseguimos chegar ao quarto dela a tempo.
Eu já estava prestes a rasgar aquela calcinha ridiculamente fina no carro mesmo, antes de pararmos em frente à sua casa.
Arranquei aquele vestido por cima da cabeça dela como se minha vida dependesse disso — e, no momento, acreditei que realmente dependia.
Ver seu corpo nu fez todos os meus demônios internos se agitarem de fome.
A pele macia de Clary, ainda quente da nossa proximidade, brilhou sob a luz fraca do quarto, como se estivesse esperando por mim.
Eu podia sentir cada respiração dela se misturando com a minha, o ar se tornando mais espesso, carregado de algo impossível de conter.
Minhas mãos, ansiosas, traçaram cada curva, cada linha do seu corpo.
Mesmo que eu tentasse me controlar, a necessidade de tê-la mais perto, mais fundo, se tornava insuportável.
Os olhos dela, carregados com aquela mistura de desejo e incerteza, encontraram os meus.
E, por um instante, tudo ficou quieto.
Como se o mundo lá fora tivesse sumido — como se, naquele quarto, fôssemos as únicas almas vivas.
Mas havia algo mais. Algo sombrio.
Eu sabia que, a cada segundo, cavávamos um buraco mais fundo.
E o pior é que eu queria.
Queria vê-la inteira nas minhas mãos.
Queria consumi-la até que não restasse mais espaço para nada além de nós dois.
A dor, a luta interna, tudo parecia insignificante quando a sentia contra mim.
Quando via como ela se entregava.
Eu sabia que ela não deveria estar ali.
Por mais que tentasse me enganar, aquilo era um erro.
Mas havia algo em seu olhar que me desarmava por completo.
Ela me desafiava.
Me pedia para perder o controle.
Para mergulhar com ela em algo mais escuro. Mais perigoso.
E, em resposta, eu não me segurei.
Eu não queria.
A sensação de tê-la ali, tão vulnerável, tão disposta, era a única coisa que importava naquele momento.
Eu já estava além do limite, além do ponto de retorno.
Cada toque meu a fazia tremer — e, a cada tremor, minha fome aumentava.
Eu queria mais.
Mais do que ela poderia me dar.
Mais do que eu poderia oferecer.
Mas, enquanto me perdia nela, uma parte de mim sabia que isso não podia durar.
Algo dentro de mim gritava para que eu a deixasse ir, para que a protegesse da tempestade que carrego.
Mas a outra parte…
A outra parte só queria devorá-la.
Enterrá-la em um abismo do qual ela não fosse capaz de escapar.
E, no fundo, eu sabia que, ao fazer isso, não só a destruiria — mas me destruiria também.
Estar dentro de Clarissa.
Devorá-la por inteiro.
Ouvir suas súplicas por mais.
Segurá-la em meus braços e lhe oferecer prazer.
Essas se tornaram as únicas coisas capazes de calar todas as vozes do meu ser.
A parte difícil é impedir o abismo por trás da máscara que mantenho de emergir.
É ocultar a tempestade interna que me acompanha — e temer que a fachada sólida que construí ao longo dos anos desmorone.
Suspiro, me perguntando por quanto tempo precisarei ficar fora.
Por quanto tempo ele estará na cidade.
Termino de carregar o carro, fecho o porta-malas e dou uma última olhada ao redor, como se estivesse me despedindo — mesmo que apenas por enquanto.
O dia amanheceu cinzento, com nuvens espessas cobrindo o céu como uma manta de lã suja, abafando a luz e deixando tudo com um ar lúgubre.
O ar úmido está impregnado com o cheiro de terra molhada e folhas secas.
Levo a mão ao bolso do casaco e encontro a velha carteira de cigarros — aquela que Clary sempre faz questão de dizer que detesta, mas que, para mim, traz certo conforto em momentos de ansiedade.
Acendo um, dou uma tragada e solto a fumaça devagar, observando a casa dela logo à frente, umas duas propriedades abaixo.
A fachada vitoriana, feita de tijolos vermelhos, exibe um desgaste suave, como se o tempo tivesse esculpido um certo caráter na construção.
O telhado de ardósia, escuro e levemente coberto por musgo, se curva com elegância entre as árvores que cercam a propriedade.
As janelas altas, com molduras de madeira esculpida, estão fechadas.
E Clarissa ainda deve estar dormindo pacificamente lá dentro.
Nua, exausta e deliciosa.
Enrolada nos cobertores do exato jeito que a deixei mais cedo.
Esse pequeno gesto — o de sair sem acordá-la — me exigiu uma força de vontade do caralho.
Tudo que eu queria era acordá-la com a minha boca entre suas pernas e passar o resto da manhã satisfazendo cada uma de suas vontades.
Fazendo-a gemer meu nome até perder a voz.
Só de pensar nela, nos seus lábios perfeitos, nas sardas em seus seios, tenho que ajeitar meu pau, que começa a endurecer dentro da calça.
Jogo o cigarro no chão, apagando-o com a sola da bota, antes de entrar no carro e seguir em direção ao apartamento no centro da cidade.
Vê-lo de novo faz com que eu me sinta como se estivesse dividindo minha lealdade. Como se estivesse vivendo uma mentira, criando um abismo de vazio e desconexão entre nós. Sou um traidor.
Depois de tudo — depois de anos tentando ajudá-lo a superar, anos estudando para encontrar a melhor forma de minimizar os danos causados, acompanhando seu caso de perto — me sinto um maldito traidor, mesmo sem fazer nada de errado. Não consigo evitar o peso da culpa esmagando meu peito, um nó que não se desfaz. Mas, como sempre, só me resta engolir e seguir. O problema é que o vazio é profundo demais e parece que, quanto mais eu tento correr dele, mais ele me puxa para dentro.
As coisas eram tão diferentes há alguns meses. Agora, ao reparar em sua aparência comum — que esconde uma personalidade marcada por algo como crueldade fria — vejo indiferença estampada nos olhos verdes que herdou da nossa mãe. Pelo menos, dos que me lembro de ver em fotos. Seu olhar vazio parece perfurar minha alma, uma lâmina disfarçada de expressão desinteressada, fria e sem remorso.
Seu rosto, de traços simples, não revela o turbilhão interno que o consome há anos. Que também deveria me consumir. Mas acho que eu era novo demais. A morte dos nossos pais não só lhe arrancou a inocência, mas também lhe deu uma força feroz, uma vontade inabalável de sobreviver a qualquer custo. Ele virou algo sombrio, e eu… fui arrastado para essa escuridão como uma marionete presa a um fio que nunca se rompe.
A crueldade que Aaron desenvolveu não é irracional, é estratégica. Ele nunca age por impulso — cada movimento é calculado, sempre com um objetivo em mente. Seus passos são meticulosamente planejados, como se o mundo fosse um tabuleiro de xadrez e ele fosse o único jogador. Joga sujo, mas com um sorriso travesso nos lábios, como se fosse o dono do jogo. E, desde que me lembro, isso nunca mudou.
Embora viva como qualquer outra pessoa, sei o motivo de suas relações serem sempre tão superficiais. Ele não deixa ninguém se aproximar, ninguém tem acesso verdadeiro a ele. Não há tempo para intimidade, nem paciência para se permitir amar ou ser amado. Sua mente está em outro lugar — na expectativa constante que paira sobre sua vida como uma sombra persistente. Ele vive para um único propósito, e todos ao seu redor são meras peças descartáveis em seu caminho.
É como se o presente fosse apenas um intervalo entre o agora e o que ainda está por vir. Entre o que ele tem e o que realmente busca. Ele não é humano — nem mais, nem menos. Ele é a solidão disfarçada de homem.
Meu irmão mais velho se tornou obcecado, vivendo numa realidade própria, às vezes de forma assustadora. Acabamos nos afastando. Nossa relação se desgastou, marcada por desentendimentos e surtos. A distância não rompeu nosso vínculo, mas o transformou em algo cauteloso. Ele virou uma sombra que me acompanha a cada passo. E não posso evitar a sensação de que, de alguma forma, Aaron está sempre me observando.
Por isso, escolhi a psiquiatria. Para acompanhá-lo, mesmo de longe. Para fazer minha parte sem ser consumido por ela. Estudar, entender a mente humana, suas falhas e complexidades.
Penso em Aaron com frequência. Pergunto-me como ele está, se precisa de algo… mas prefiro manter a distância. Falo mais com seu médico do que com ele próprio. Dr. Chambers é uma das poucas pessoas a quem meu irmão parece minimamente ouvir. É uma espécie de âncora. Se é que ainda posso chamá-lo assim. Não que isso importe. Quando vejo Aaron, sei que a guerra interna continua corroendo sua alma. E, de certo modo, posso me ver nele, como se nossas cicatrizes fossem gêmeas — e eu apenas estivesse tentando fugir delas. Mas o que acontece com ele, de alguma forma, acontece comigo também.
Essa vida em suspensão é a única que faz sentido para Aaron. E talvez seja a única coisa que o mantém de pé. À medida que o tempo passa, ele continua vivendo para o mesmo propósito: o seu maior fardo, mas também sua força. Ele é como um monstro que cresce no silêncio, alimentando-se do que restou da própria humanidade. E o que mais me assusta é perceber que talvez eu também carregue esse monstro dentro de mim.
Não posso fugir de quem sou.
— Comprei ingressos pro Thekla — meu irmão comenta, casual, jogando a jaqueta ao meu lado no pequeno sofá bege — nada parecido com o Chesterfield da mansão dos Leighton. — Foi uma semana do caralho, mas consegui o histórico de mais pacientes deles. Preciso analisar tudo. — Ele se recosta na bancada de pedra que divide a cozinha americana da sala, cruzando os braços sobre o peito. — Mas, antes, quero relaxar um pouco.
Sua agitação é visível.
— Achei que não gostasse de festas — observo, arqueando as sobrancelhas, enquanto estico as pernas e apoio os pés na mesa de centro. Embora pequeno, o apartamento é planejado para oferecer conforto.
— Viver naquele fim de mundo cercado de ovelhas é cansativo. Faz tempo que não vejo um rabo de saia — Aaron retruca, e eu solto uma risada baixa. — Tô precisando comer alguém.
— Aposto que sim — provoco, desviando o assunto, sabendo bem onde essa conversa pode chegar.
Aaron sempre teve inveja de mim.
De como as coisas não me destruíram da mesma forma que o destruíram. De como eu sempre consegui mulheres com facilidade, entrei na faculdade, me formei médico.
Eu sei que ele não escolhe sentir isso. E eu não me importo. Mas evito alimentar esse sentimento — não quero piorar as coisas.
— Meu irmãozinho sempre um passo à frente — zomba, me encarando com diversão e uma raiva contida nos olhos esmeralda. — Alguma específica? Ou ainda está se satisfazendo por aí? Ouvi dizer que Bristol tá cheia de bocetas internacionais.
— Nada demais — respondo, indiferente, dando de ombros, mesmo que ele não me veja. — Já convivo com malucas o suficiente no hospital. Não preciso de mais uma no meu pé.
Aaron volta do banheiro com o cabelo ajeitado e exalando seu perfume caro. Ele gosta de ser notado. De falar, receber olhares, criar uma imagem que o faça sentir-se melhor.
Acho que, por isso, sempre fui mais reservado. Deixava que ele recebesse toda a atenção, me sentindo culpado, tentando compensar algo que nunca foi culpa minha.
Ficava invisível. E, mesmo assim, bastava alguém demonstrar um mínimo de apreço por mim para que ele se irritasse.
Agora, ele parece cansado, mas aquela malícia está sempre ali — espreitando por trás do sorriso casual que não chega aos olhos.
— Saímos em vinte minutos. Não temos tempo pra Cinderela se arrumar — determina, indo até a geladeira.
Ele pega duas cervejas que eu trouxe da mansão e joga uma para mim. Seguro no ar, sem muita vontade de beber, mas aceitando o gesto. Pelo menos, serve para distraí-lo.
— O que há de errado com você, irmão? — pergunta, me observando como se tentasse decifrar um enigma. — Tá tenso. Tenso demais pro seu próprio bem.
— E você tá agitado demais — retruco, sem vontade de me expor. — Nada demais.
Aaron se aproxima. Por um segundo, me pergunto se ele sabe. Se sente o que está acontecendo.
Se sente que tem algo diferente.
A lembrança de Clarissa me invade como um golpe. A saudade aperta o peito. E o pensamento de Aaron descobrindo o que estou fazendo com ela… é uma lâmina prestes a cortar tudo.
— Você tá quieto hoje — ele observa, os olhos carregando curiosidade, mas há algo mais. Uma necessidade. Algo que talvez nem ele saiba que está tentando arrancar de mim. — Sabe o que eu acho? Que você tá me escondendo alguma coisa.
Sinto o estômago revirar.
— Deixa de paranoia — digo, desviando o olhar. — Tá vendo coisa onde não tem.
Mas ele não se convence. Aaron não desiste fácil.
— Tô mesmo? — ele sorri, mas o sorriso não toca os olhos. — Anda meio sumido, irmão. Tá aprontando pelas minhas costas? Tem alguma coisa acontecendo?
Ele está tocando em algo mais profundo. Mas não posso deixá-lo ver. Não agora.
Não enquanto tudo ainda está tão vulnerável.
— A única coisa acontecendo é que tô mais cansado do que você imagina — respondo, tentando manter a calma. — Duvido que estaria todo sorridente se passasse horas e horas enfiado num hospital com um bando de malucos.
Ele não parece convencido, mas, por ora, deixa o assunto de lado.
Viramos algumas garrafas antes de sair. Conversas superficiais entre atualizações da vida, rugby e mulheres. Sua expressão ainda meio carregada, mas ele apenas solta um suspiro e vira de costas.
— Vamos — diz, pegando a chave do carro. — Você não pode ficar se afundando em suas merdas o tempo todo.
Antes de sair, penso nela.
Clarissa está cada vez mais em minha mente.
A vontade de abandonar tudo por ela é absurda. Mas, por enquanto, tenho que jogar o jogo de Aaron.
Com a mente cheia de dúvidas e adrenalina correndo nas veias, sigo meu irmão até a saída.
Ao chegar no cais, sinto a energia viva do ambiente.
A música eletrônica pulsante e o cenário do navio se combinam para criar uma atmosfera diferenciada. O Thekla, situado às margens do rio Avon, com sua fachada imponente e o som alto vindo de dentro, já começa a esquentar o clima desde a entrada.
É um ambiente underground e íntimo, mas ao mesmo tempo grandioso. As luzes são baixas e a névoa de fumaça no ar dá um toque misterioso e quase mágico. A entrada é um corredor apertado que, conforme avançamos, vai revelando o palco principal da festa. A estrutura do navio, com seu formato de casca e paredes metálicas, faz com que o som se espalhe de maneira envolvente por todo o ambiente.
– Isso é uma festa. – Aaron grita, para ser ouvido através da música.
Seu porte um pouco menor e menos atlético que o meu, e carrega uma postura tranquila, que transmite confiança – mas não de forma arrogante. Ele não se destaca pela musculatura ou por gestos exagerados, mas tem uma presença que impõe respeito. Algo no seu comportamento predatório.
Já estamos com mais cervejas nas mãos, enquanto rodamos pelo lugar. Ele decide se aproximar de duas mulheres, entrando na pista de dança como se já estivesse ali o tempo todo, com uma naturalidade calculada. Quando o meu irmão mais velho se inclina levemente para conversar com uma delas, o sorriso no canto de seus lábios é discreto. Aaron é charmoso, deixando transparecer exatamente o que quer. E elas gargalham em aprovação ao que quer que tenha dito.
Me mantenho um pouco distante, observando.
A festa está no seu auge. As luzes piscam em ritmos frenéticos, a música eletrônica reverbera pelo espaço apertado e as pessoas estão completamente entregues à dança. O calor do ambiente é palpável, mas é a energia contagiante da pista de dança que faz o lugar parecer mais vivo a cada minuto.
Corpos suados se esfregam uns nos outros como se o calor físico fosse uma fuga possível. O cheiro é uma mistura de perfume barato, álcool, e alguma coisa mais crua — desejo, talvez. Ou carência.
O álcool corre nas minhas veias, e com ele vem uma sensação de desinibição, como se, por um momento, tudo aquilo que parecia insuportável pudesse ser apagado com o próximo gole. Há um alívio, uma sensação de liberdade temporária, onde nada importa tanto assim — as preocupações, as frustrações, os pensamentos pesados — tudo se dissolve lentamente.
Não quero pensar nela.
Uma mulher morena com piercing no septo me puxa pela camisa, sem dizer uma palavra, os olhos delineados de preto brilhando sob a luz estroboscópica. Ela dança próxima demais, o quadril colado ao meu. Coloco uma das mãos na sua cintura por instinto, mas meus pensamentos estão longe. Mesmo assim, deixo.
Ela ri, joga o cabelo para o lado e encosta a boca no meu ouvido.
– Você tem cara de problema.
– E você tem cara de que gosta disso.
Ela me beija como se quisesse apagar qualquer traço de pensamento da minha mente. Mas eu só fecho os olhos e deixo acontecer, tentando transformar essa conexão vazia em anestesia. O beijo é intenso, descompassado, cheio de dentes e álcool.
– Está com alguém? – ela pergunta, com um sorriso lascivo.
– Estou tentando esquecer.
Ela parece gostar da resposta, como se isso a tornasse mais desejável. E talvez torne. Por alguns minutos, finjo que sim.
Aaron reaparece e me arrasta para o bar. As mulheres o seguem, como se estivessem hipnotizadas pela sua aura de controle. Ele se diverte, provocando uma, sussurrando algo no ouvido da outra, enquanto me lança olhares de quem sabe exatamente o que estou tentando fazer aqui.
– Vai se distrair. – Ele diz, me dando uma cotovelada no braço enquanto olha para a garota. – Vai fundo.
Eu dou um sorriso vazio e mais um gole da minha cerveja, sentindo o gosto amargo misturado com a sensação de que estou me afundando mais a cada momento.
Logo depois, outra garota aparece — loira platinada, olhos de um azul quase falso, corpo moldado por academia e cirurgias. Ela se aproxima com a segurança de quem está acostumada a ser o centro da atenção.
– Posso te dar um beijo? – Ela pergunta, a voz um pouco arrastada pela bebida, mas com um brilho insatisfeito na expressão. Eu a olho sem muita reação, mas faço um movimento com a cabeça para que ela se aproxime.
Quando seus lábios tocam os meus, uma parte de mim se pergunta por que estou fazendo isso. Mas logo a sensação de anestesia toma conta e, por um momento, tudo o que eu sei é o calor do corpo dela, o cheiro forte do perfume, o som da música e a doce ilusão de que estou vivendo no momento, esquecendo tudo.
Mas não estou.
Estou mais consciente do que nunca.
Cada toque dela só me lembra o que eu queria estar sentindo com outra pessoa.
A garota se afasta, sorrindo, como se tivesse vencido algo. E, por um breve segundo, me sinto vazio.
– Você está se divertindo. – Ela diz, tocando levemente meu peito enquanto observa minhas reações. Mas eu não estou. Eu só quero parar de pensar.
Aaron aparece atrás de mim, dando um tapinha nas minhas costas. Ele parece mais relaxado, mais à vontade, como se já estivesse se adaptado à festa.
– Boa jogada, Dr. Lockwood – Ele zomba, mais uma vez, os olhos brilhando com uma intensidade que me deixa inquieto.
Eu só respiro fundo e tento focar novamente no momento, deixando que a sensação de desgaste se dissolva lentamente com outro gole. Mas, por dentro, sei que estou mais perdido do que nunca. E Aaron parece notar.
– Vai se afogar nisso, mas não vai te salvar. – Ele rebate, sua voz carregada de cinismo. – Vai continuar com esse buraco dentro de você, essa merda que nunca vai desaparecer. Eu vejo isso em você, sabe? Eu sei exatamente o que sente.
Fecho os olhos, tentando afogar suas palavras, afastar a dor que ele tão bem conhece. Um gole a mais, talvez o suficiente para me esquecer, para me perder no vazio.
– Já bebi o suficiente, acho. – Minha voz sai rouca, quase inaudível, como se eu estivesse tentando convencer a mim mesmo.
Aaron ri, baixo e seco, sua presença imponente ao meu lado.
– Você acha que vai resolver alguma coisa, irmão? Nada disso vai funcionar. Vai se afundar cada vez mais, mas você sabe que vai voltar para a merda de sempre.
Eu fico em silêncio. Não há como responder a isso. Em vez disso, me concentro no copo, no ato de beber, como se cada gole fosse apagar a culpa, a raiva, o desejo imenso de que as coisas fossem diferentes.
Ele faz uma pausa, os olhos verdes observando-me com um brilho frio.
– Eu já te disse antes… A única coisa que pode realmente fazer você se sentir completo é resolver isso. Esse vazio só vai desaparecer quando você acertar as contas com quem realmente merece.
– Mas a vingança não vai me salvar. – minha voz sai arrastada, carregada de dúvida.
Aaron dá um sorriso escuro, cheio de malícia.
– Talvez não te salve, mas ao menos vai te dar algo. Vai te dar propósito. E depois… depois você verá.
A pista de dança parece girar. As pessoas riem alto demais. Eu vejo o contorno de mais corpos, mais bocas, mais olhos famintos. E tudo me parece distante.
Uma loira de olhos azuis, com uma risada doce demais para ser sincera, se aproxima de mim, seu perfume invasivo quase me sufocando.
– Você parece perdido. – Ela começa, passando as mãos pelo meu braço de forma provocante, os olhos fixos nos meus. – Mas não se preocupe, estou aqui para te tirar disso.
Eu olho para ela, uma risada abafada saindo involuntariamente. Ela é bonita, claro, mas meu pensamento está em outro lugar. Não a vejo. Não realmente. Mas ela é quente e tem uma boceta entre as pernas, isso é o suficiente.
– Pode ser… – Respondo, minha voz rouca, sem emoção. – Não estou aqui para salvar ninguém, e não me importo de ser distraído.
Ela sorri, se aproximando mais ainda, tocando meu rosto com a ponta dos dedos, como se fosse uma caçada em que ela já sabe que ganhou. Eu dou um passo à frente, forçando um sorriso para dar a ela o que quer. Não sou o tipo de cara que vai resistir. Não agora.
– Eu também gosto de me perder. – Ela diz, com um tom de desafio, antes de me puxar pela camisa, o olhar ardente.
Mas ela não sabe… Eu não a vejo. Não vejo ninguém. Só vejo o que quero esquecer.
A beijo com uma urgência impessoal, cada movimento mecânico, tentando afogar qualquer vestígio de pensamento sobre ela. E, por um instante, acho que estou fazendo isso.
A última lembrança clara que tenho é de estar conversando muito próximo aos lábios da mulher. Dela me dizendo o quanto sou gostoso e o quanto adoraria que eu a levasse embora. São como pedaços desconexos de uma cena em uma tela embaçada. Seu perfume enjoativo, sua risada irritante, sua expressão carente por atenção.
Os únicos indícios, fora os flashes fragmentados, de que levei alguém para a cama, são os copos na mesa de cabeceira, os lençóis completamente amassados e a camisinha usada no chão do quarto.
Não faço a mínima ideia de como ou quando ela foi embora, só sei que não foi tão satisfatório quanto eu esperava.
Quanto ela.
Não, não chegou nem perto.
Só serviu para me fazer perceber que aquele alívio era superficial, um paliativo temporário que, na verdade, apenas acentuou o buraco no meu peito, deixando um gosto amargo. O alívio se dissolve, e o vazio volta, mas de uma forma mais nítida, mais presente, me deixando enjoado.
Tudo continua aqui, apenas mais claro, mais exposto, mais real. Sinto vontade de gargalhar da minha própria estupidez.
Estou atolado nessa merda e não vejo uma saída.
Mas pelo menos — tento me convencer disso — ela está a salvo.
Longe de mim.
Fiz o que precisava ser feito. A empurrei com força suficiente para que ela me odeie, ou ao menos desconfie o bastante para não se aproximar mais. Foi cruel, eu sei. Foi sujo. Mas foi necessário.
Ela não tem ideia do que eu carrego. Do que meu irmão é capaz.
E se sentir repulsa de mim for a única forma de protegê-la, então que me despreze. Que me apague da memória.
Mesmo que tudo em mim, em silêncio, implore por mais um olhar dela.
Mesmo que minha própria carne sinta falta do toque. Mesmo que meus pensamentos se debatam como um animal enjaulado pedindo para voltar.
Não importa.
Ela está segura.
E, no fim, isso tem que ser o suficiente.
Mesmo que doa pra caralho.
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