Vizinhos
8 Lockwood
“Love is my sin, and thy dear virtue hate,
Hate of my sin, grounded on sinful loving.
Thou mayst be false, and yet I know it not.
By self-example mayst thou be denied.”
— Sonnet CXLII, William Shakespeare.
Ela dança como se não existisse dor.
Como se nunca tivesse chorado por ninguém.
Nem por mim.
E eu a desejo com a fome de quem nunca aprendeu a se saciar.
Lockwood
Durante os dias em que estive longe, minha mente — incansável e doente — se fixou em uma única imagem: aqueles olhos dourados, como dois pedaços de sol derretido. Capturando toda a luz do mundo, refletindo-a de volta para mim com uma intensidade quase sobrenatural. Clarissa parece mágica. Não há outra explicação plausível. Deve ser algum tipo de feitiço — e eu, o tolo que caiu nele.
Sou prisioneiro de algo que nunca vi, que nunca senti. E a chave da minha liberdade… está nos lábios dela. No contorno dos seus seios. Na curva dos quadris. Tenho certeza de que fui enlaçado por uma maldição, porque sem ela, tudo perde o eixo. A realidade fica opaca. Viver como um ser humano normal — funcional — se tornou impossível. Estou à deriva, controlado por uma obsessão que me destrói.
Durante a semana, Clary se infiltrava nas frestas da minha vida. No silêncio do fim da noite. No cheiro perdido em um lençol. Em uma música qualquer que, de repente, fazia meu peito apertar. A saudade vinha como uma brisa melancólica, suave no início, até crescer e dominar tudo — como uma onda prestes a me afogar.
Será que agora ela vai me odiar?
Esse pensamento me atravessava feito uma lâmina fina. Eu sabia que não conseguiria encará-la como se nada tivesse acontecido. Sabia que a amiga dela me viu no Thekla. E mesmo que não tivesse… seria óbvio. O jeito como meu corpo responde a ela, mesmo ausente, é impossível de disfarçar.
Tentei me convencer por dias de que era o melhor. Que deixar para trás o que está condenado era a única saída. Mas a ausência dela não me trouxe alívio — só vício. E vergonha.
A vontade de estar dentro dela, de mergulhar no seu corpo como quem busca redenção, me consumia. Me torturava. Me tornava patético. Tive que me aliviar sozinho como um adolescente, porque a simples lembrança da sua boca ao redor do meu pau me deixava em frangalhos.
E o mais cruel de tudo é que a dor que ela me causa continua sendo a minha única forma de prazer. A lembrança do seu gosto. Do seu som. Do seu corpo pedindo por mais. Mais de mim.
Há algo de perversamente satisfatório em saber que, mesmo quebrado, mesmo falho, mesmo arrastando segredos como correntes nos tornozelos — ela ainda me deseja.
Não pela imagem que finjo sustentar. Mas por mim. Por esse caos mal disfarçado.
Ela olha para mim como se soubesse que há algo errado — e ainda assim, escolhe se aproximar.
Isso me devora. Me exalta.
Porque não existe prazer maior do que ser querido por quem conhece a sua escuridão… e ainda assim acende fósforos para enxergá-la melhor.
Gozei pensando em Clary — e em como a pressionaria contra a parede se ela estivesse comigo naquele chuveiro. Suas pernas ao redor da minha cintura, minhas mãos cravadas em sua bunda ridiculamente linda, enquanto eu a tomaria com força, repetidas vezes, até ela implorar por mais. Lembrei da forma como seu peito, pescoço e rosto coram quando ela está perto do clímax. Dos seus beijos famintos. Da maneira como me provoca só para ver até onde vai o meu controle — como se dançasse sobre uma linha invisível entre o prazer e o perigo.
Maldita, safada, perfeita.
Passei a semana contando os segundos para Aaron sair da cidade. Dividir o pequeno apartamento com ele foi uma tortura. Dormindo desconfortavelmente no sofá, e mesmo assim, parecendo disposto a ficar para sempre.
Não achei que matar aulas de literatura fosse me afetar tanto, até sentir falta da rotina que construí ao redor de Clary. Estar com Aaron me fazia sentir como alguém que volta de uma longa viagem e percebe que já não pertence mais à própria casa.
Agora, com o coração disparando pela simples possibilidade de vê-la, sei que não vou conseguir esperar. Não vou conseguir fingir casualidade pelos corredores da universidade. Nem que seja para receber seu desprezo, ouvir seus xingamentos — preciso dela.
Preciso das malditas migalhas.
E vê-la ali, com a festa acontecendo bem diante dos meus olhos, torna tudo pior.
Nem fodendo. Não quero mais esperar. Preciso vê-la. Preciso daqueles cabelos flamejantes. Preciso ouvir sua voz.
Será que está com alguém?
O pensamento me atravessa com violência. É raiva — pura, crua, descontrolada. Começa pequena, como uma fisgada aguda no estômago, e logo se espalha como fogo, pressionando cada músculo por dentro, como se algo tentasse rasgar minha pele de dentro para fora.
Está quente demais sob o casaco. Estou suando.
Foda-se.
É tudo que consigo dizer, esmagando o cigarro sob a sola da bota. Um gesto inútil. Já estou me movendo, antes mesmo de entender. Já estou indo até ela.
A rua está silenciosa, exceto pela música abafada vindo da casa. Cada passo meu ecoa com uma certeza: estou indo até Clary. Não importa o que aconteça.
Preciso dessa loucura. Dessa proximidade. Mesmo que me destrua.
A festa está em pleno andamento. E o que me chama atenção de imediato é a sofisticação. Não é uma comemoração qualquer — é um feitiço disfarçado de evento. Música baixa, velas acesas, luzes âmbar que fazem a casa parecer um refúgio encantado.
As risadas, os murmúrios, o som de taças se tocando — tudo parece me convidar para dentro.
E quando atravesso a porta, meus olhos a procuram sem hesitar.
O salão está tomado por figuras mascaradas, como personagens saídos de um conto gótico. Mulheres em vestidos longos de veludo e seda, homens de época, elegantes e ameaçadores.
Mas eu só quero ver uma.
A minha maldição.
Clarissa.
Todos parecem bêbados e despreocupados.
Inclusive Clarissa.
Sinto uma pontada no peito quando a vejo.
Porra.
Ela parece ter saído de um sonho — ou de um antigo mito grego. Uma deusa imortal, inalcançável, com uma beleza que beira o sobrenatural. Seus cabelos ruivos, intensos como chamas ao pôr do sol, caem em ondas soltas ao redor do rosto. Pequenas flores entrelaçadas entre os fios a fazem parecer algo nascido da própria terra, como se a natureza tivesse se ajoelhado para enfeitá-la.
Seus olhos… malditos olhos dourados. Brilham como dois pequenos sóis. Têm profundidade, têm luz. Como se guardassem eras de sabedoria e um amor eterno. Ela dança com um brilho genuíno neles — e esse brilho parece transformar tudo ao redor.
Cada movimento seu é uma fusão de suavidade e firmeza. Sua pele reluz sob a iluminação âmbar, destacando-se contra o branco puro do vestido de cetim, que eu arrancaria com os dentes, se pudesse.
O tecido abraça cada curva sua com uma sensualidade sem esforço, como se tivesse sido moldado a partir do próprio corpo dela. O cetim brilha a cada passo, deslizando pelos ombros e marcando sua silhueta com precisão quase cruel.
Quando Clarissa gira, o vestido se move com ela, revelando sutilmente os seios perfeitos — os meus seios — livres, orgulhosos. Seus pés descalços tocam o chão com a leveza de uma brisa.
Meu pau lateja. Involuntariamente. Desesperadamente.
Ela dança como se não houvesse ninguém observando. Como se o mundo inteiro tivesse sumido e só restasse ela, música e prazer. Sua confiança é sufocante. Seu sorriso, genuíno. É como se o céu e a terra tivessem se alinhado só para vê-la naquele momento.
O jeito como ela move os quadris… porra. É uma dança de pura sedução — e o pior é que ela nem tenta. Clarissa não precisa se esforçar para ser o centro. Ela é o centro. A própria essência do desejo.
Me perco nela por tempo demais. E só percebo o vulto se aproximando quando ele já está perto demais.
Um idiota qualquer. Uma sombra irrelevante. Um inseto prestes a bater no para-brisa do meu carro.
Clary, alheia à ameaça, entrelaça os braços com uma graça irritante. Toca o pescoço dele como se fosse eu. E o gosto amargo toma minha boca.
Filho da puta.
Vejo os dois rirem. Vejo ela se aproximar. E meu corpo inteiro trava. Meu sangue ferve.
Dou um passo. Pego um drink qualquer. Engulo. Me forço a ficar imóvel. Mas meus olhos não conseguem desgrudar.
Então ele a beija.
Ridículo. Fraco.
Sem fome, sem força. Sem metade do desejo que eu despejaria ali, agora, se estivesse no lugar dele.
Mas eu olho. Observo. Como uma sombra que ninguém vê. Como uma maldição silenciosa.
Meu maxilar dói. Estou roendo os dentes. Mas não desvio.
Viro outra bebida. Depois mais uma. E outra. Tentando apagar o incêndio dentro de mim — sem sucesso.
Então Clarissa o puxa. Com raiva. Com fúria. Como se o quisesse.
E isso… isso me destrói.
Ela exige. Não pede. Domina. Seus olhos se fecham, e a expressão em seu rosto é crua. Carente.
Mas não dele.
Dela.
Dela comigo.
É o meu toque que ela precisa. É o meu nome que deveria estar nos lábios dela.
Sou eu quem a domina. Eu sou a porra do furacão no meio da tempestade dela.
E ela ainda não entendeu isso. Ainda não percebeu que nenhum outro vai chegar perto do que eu desperto nela.
Ninguém.
Sou o único capaz de fazê-la perder o controle que tanto tenta manter.
E essa verdade — tão cortante, tão absurda — é o que me faz perder o que restava de sanidade.
Vejo apenas Clarissa.
Sinto apenas Clarissa.
E quando a dor explode, quando o instinto grita, sei que estou prestes a fazer alguma coisa que não tem volta.
Só para acabar com essa cena.
Só para arrancar aquele maldito sorriso do rosto dele.
Só para lembrar a Clary que ainda estou aqui.
Talvez eu seja um filho da puta. Mas não me importo.
Ao vê-los se afastando em direção ao bar no canto da sala, me aproximo. Clarissa está suada, sua pele exposta e sedosa brilhando sob as luzes — quase implorando pelo meu toque. Ela prende os cabelos ruivos, ainda adornados com flores, no alto da cabeça. Suas sardas, como constelações em carne viva, são a coisa mais sensual que já vi. Desaparecem pela fenda do vestido logo acima da bunda — que agora me dá vontade de bater até não sentir mais a mão.
Nem sequer olho para o cara. Encosto perto dela, mal contendo o desejo ao sentir o calor do seu corpo tão próximo do meu. Mesmo que sejam apenas segundos, se tratando dela, qualquer tempo é suficiente para atiçar meus monstros famintos.
E eles sempre pedem mais.
Clary se apoia no balcão, as costas expostas num caminho livre, delicioso e convidativo para a minha língua. Preciso do gosto dela de novo. Estou com sede.
Lambo a extensão suada da sua coluna, da lombar até a curva do pescoço, me deliciando com o arrepio que percorre seu corpo ao meu toque. Depois sussurro:
– Bela festa, Cherry. Só faltou o meu convite. Quem é o seu novo amigo?
Ela se vira. O olhar é uma explosão de incredulidade e raiva. Os olhos dourados, intensos e penetrantes, cravam uma flecha no meu peito. Por um instante, me pergunto se entendi as consequências do que acabei de fazer. Ela congela, o corpo rígido, e eu vejo sua respiração pesada, os lábios entreabertos tentando conter a avalanche de sentimentos. Sua pele pálida começa a ficar vermelha — um tom quente que sobe pelo colo, pescoço, bochechas, queimando de dentro pra fora. E tudo isso me fascina.
O poder que tenho sobre ela.
Mas há algo mais. Uma fisgada de culpa. Como se eu tivesse cruzado um limite que nem eu deveria ousar.
Mas não temo. Nunca temi.
E sei que ela também não vai.
A tensão entre nós é densa, quase palpável. Ela me encara com uma mistura de desafio e repulsa — como se me quisesse fora da vida dela, mas ao mesmo tempo não pudesse ignorar a força que ainda nos prende.
Linda. Exatamente como quando transamos.
Acho que é por isso que vê-la estressada faz o meu pau endurecer.
– Quem deixou você entrar, otário? – Clary rosna, a voz carregada de fúria, os olhos lançando faíscas. Seu rosto é veneno puro. Mas há algo, em meio a esse ódio, que só me atrai mais. É uma chama que queima tudo ao redor — inclusive nós.
Parece que os acontecimentos do final de semana se espalharam rápido. Ela não está surpresa. Só irritada.
Mas não era isso que eu esperava.
Eu queria dúvida nos olhos dela. Queria incerteza. Talvez até um pouco de medo.
– Não vi nenhum segurança na porta – respondo, com um sorriso torto, saboreando o descontrole dela. Ver como sua raiva se mistura com a vulnerabilidade é um prazer que não sei explicar.
Talvez isso me torne egoísta. Mas é um prazer sombrio, saber que sou capaz de provocar isso nela.
E, ao mesmo tempo, me dá um frio na espinha. Como se eu estivesse brincando com fogo e ainda não soubesse até onde ele pode me queimar.
– Sai. Agora. – ela ordena, a voz rouca de frustração. Seus olhos estão escuros como uma tempestade prestes a desabar. E, mesmo assim, essa raiva… é uma isca. Uma provocação que me arrasta pra mais perto.
– Primeiro, precisamos conversar. – digo com calma, como quem já conhece os caminhos da fúria dela. Me aproximo devagar, como se o tempo não importasse. Passo os dedos por uma mecha solta do seu cabelo, tocando sua pele de leve, na lateral do rosto. O gesto é suave, mas a intenção é clara.
Quero que ela sinta.
O calor da minha mão é um lembrete. Um desafio. Algo que ela não consegue ignorar, por mais que tente.
Não consigo conter meus movimentos. Não sei nem o que exatamente quero dizer. Só sei que preciso afastá-la daquele cara.
Preciso beijá-la. Lamber seus peitos. Bater na bunda dela até deixá-la marcada.
Gozar dentro dela.
É mais forte do que eu.
Ela dá um tapa na minha mão, se afastando. E é quando vejo.
O curativo bege na sua bochecha.
Algo em mim trava. Uma sensação amarga sobe pela garganta.
Aquele pedaço de pele coberto… tão frágil, tão errado.
Me dá vontade de arrancar o mundo do lugar.
– Foi uma ótima noite, eu já estava de saída, de toda forma… – o cara, que agora reconheço do museu, fala com voz mansa. Tentando manter a compostura, mas está claro que está desconfortável. Ele também me reconhece. – Espero que resolva as suas… questões. – murmura para Clary, me lançando um olhar curioso.
Trinco o maxilar.
– Você não precisa ir, ele não deveria estar aqui… – Clary tenta se justificar, segurando a manga ridícula da fantasia de Drácula dele.
Eu poderia rir, se não fosse o peso esmagador no meu peito.
O sujeito é patético. Um brinquedo barato.
Uma caricatura.
Mas ainda assim, ele está ali. Próximo demais dela.
E isso é intolerável.
A música pulsa. As luzes piscam frenéticas. As sombras dançam pelas paredes e corpos. As pessoas riem, dançam, se perdem na festa.
Mas tudo o que eu vejo é Clarissa.
E o maldito idiota ao lado dela.
O resto se dissolve.
O cenário vira borrão.
Agarro a taça de champanhe da mão dela e viro de uma vez, o líquido amargo queimando na garganta, misturado à raiva que me consome.
Eu sei que é estúpido.
Sei que estou prestes a perder o controle.
Mas é impossível ignorar essa fome animalesca.
A necessidade brutal de fazer alguma coisa.
A tensão dentro de mim cresce. Sinto o desejo de quebrar o idiota, de arrancá-lo dali, de pegar o que é meu. Talvez socar a cara dele não resolva nada, mas com certeza aliviaria um pouco dessa dor profunda que mal consigo controlar.
— Não quero me envolver em complicações. Mas está tudo bem. Você tem o meu número, me liga quando estiver… livre — o otário diz, pegando a mão dela e depositando um beijo, a voz suave e vacilante, como se estivesse tentando convencer a si mesmo de que estava no controle.
Eu bufo, irritado, e um calor ácido sobe pela minha garganta. Cada gesto dele, cada palavra, me faz querer arrancá-lo de perto dela. Já o vejo como uma ameaça, um estorvo que não deveria nem estar ali, em pé, tocando Clary.
Ela parece desistir, derrotada, os ombros caindo ligeiramente enquanto o observa se afastar, sumindo na multidão, provavelmente indo em direção à porta de saída. A cena me provoca uma mistura de satisfação amarga e frustração. Seria mentira dizer que não me sinto um pouco aliviado, um pouco vitorioso. Mas a dor em meu peito não diminui. Porque, no fim, a única coisa que importa é que ela me rejeita. E essa sensação é mais forte do que qualquer alívio momentâneo.
Mas esse alívio é curto. Muito curto.
Emy, com sua atitude desafiadora e olhos de fogo, avança em nossa direção, sua presença forte como um furacão. Tenho certeza de que, se ela tivesse um trator, não hesitaria em me atropelar. Seu olhar afiado atinge em cheio, e o sarcasmo e a raiva em suas palavras são palpáveis.
— Que merda é essa? Quem te chamou aqui, seu fodido? — ela esbraveja, tão surpresa quanto Clary estava quando cheguei. A raiva dela não me surpreende. — Acho melhor você cair fora ou eu…
— Emy. Não estrague a festa. Deixa pra lá — Clary interrompe, a voz agora mais calma, mas com aquele tom de quem não quer dar o braço a torcer. Tenta controlar a situação, mas sua raiva ainda está ali, pulsando nos olhos e no corpo. — Apenas ignore-o — diz, virando-se para mim com uma fúria que mal consegue esconder, antes de tomar a taça de champanhe da minha mão. — Se você quebrar alguma coisa, quebro a sua cara, filho da puta.
A voz dela se torna mais ameaçadora, e ela faz questão de deixar claro o quanto está disposta a lutar, mesmo que as palavras saiam com um tom quase calculado.
Ela me deixa, esbarrando propositalmente no meu ombro — um movimento quase desprezível, que não me faz nem cócegas, devido à nossa diferença de estatura. E, apesar do gesto parecer insignificante, a sensação de que ela tenta me afastar me atinge com uma intensidade feroz.
Fico parado, observando a cena, o coração batendo descompassado enquanto a raiva e a frustração se misturam no peito.
— O quê? Você acha que aquela… coisa vai fazê-la feliz? — arqueio as sobrancelhas, tentando descontrair, mas a ironia escorre pela minha voz como veneno.
— Você, com certeza, não vai. Babaca — Emy retruca, o olhar ainda queimando em mim antes de virar as costas e se afastar, me deixando sozinho novamente, como se fosse exatamente onde eu deveria estar.
Sento no enorme sofá, agora estrategicamente posicionado para dar espaço à pista de dança improvisada, a cerveja nas mãos funcionando mais como um disfarce para a tensão elétrica que corre por minhas veias. Cada gole é um esforço para ignorar o que pulsa em mim — uma raiva crescente e uma fome que não consigo saciar. Não posso. Não ainda.
Os minutos passam como uma eternidade enquanto meus olhos não deixam de seguir Clary, que tenta, em vão, esconder a tensão no ar. Ela interage com os convidados, mas a cada sorriso, a cada movimento, sua máscara parece mais frágil. Sei que está ciente de mim, do meu olhar, da minha presença. E, ainda assim, insiste em se perder entre os outros.
Mas é mentira. Uma mentira que ambos sabemos.
Ela não pode me ignorar. Não quando a atração é tão palpável, tão densa que quase me sufoca.
A cada risada que escapa da boca dela, o desejo em mim só aumenta. O calor que sinto não vem da cerveja, mas de algo muito mais profundo. Algo que me consome. Ela tenta se esconder na multidão, mas não há como escapar. Meus olhos seguem seus movimentos, observando cada gesto, cada palavra trocada, como se ela estivesse me chamando, desafiando-me a fazer algo. E eu sei que é uma provocação. Sinto isso. Como se cada olhar lançado na minha direção fosse uma promessa silenciosa — de que ela está prestes a ceder. Não fisicamente. Ainda. Mas emocionalmente.
Duas ou três mulheres se aproximam, tentando me distrair com conversas casuais. Sentam-se ao meu lado, risadas altas demais, palavras vazias tentando preencher o espaço entre nós. Mas é inútil. Tudo distante. Nada do que elas dizem realmente me alcança. Meu pensamento está preso nela. Em Clary. Em como ela desliza pelo ambiente, os cabelos flamejantes brilhando sob as luzes, a curva do pescoço convidando ao toque, os lábios selados… por enquanto.
Minhas mãos apertam a garrafa com força. O vidro frio contra a pele, mas não há nada frio em mim. Há fogo. Um fogo crescente que só vai se apagar quando ela estiver ao meu alcance. Quando parar de brincar com essa distância. Porque, no fundo, estamos mais perto do que ela pensa.
O olhar dela, fugaz, mas constante, diz tudo. Ela sabe que, em algum momento, não haverá mais escapatória. Por mais que tente se distrair, é a mim que deseja.
Me sinto como um animal em cio, febril, impaciente, com cada músculo do corpo tenso, como se algo dentro de mim estivesse prestes a explodir. O desejo é primitivo, urgente. E não há nada que eu possa fazer para abafá-lo. Cada respiração me lembra o quanto estou fora de controle. E é essa perdição que me excita ainda mais.
Inquieto, passo pelas pessoas como uma sombra, ignorando tudo ao redor. Cada som, cada palavra, cada risada, tudo parece distante, como se eu estivesse em outro mundo. Um mundo onde só existe ela.
Subo as escadas de madeira. Elas rangem sob meus pés. A casa está quieta na parte de cima, mas o caos dentro de mim só cresce. O cheiro familiar da madeira escura e do carpete velho me envolve, lembranças de outros momentos aqui — mas tudo era diferente.
O quarto de Clary é um reflexo da sua personalidade criativa e intelectual. As paredes têm um tom neutro, criando um ambiente calmo e sofisticado. Mas estão longe de ser monótonas: quadros e gravuras de artistas clássicos e contemporâneos ocupam o espaço — alguns em molduras douradas, outros minimalistas, todos com um toque refinado.
Perto da janela, há uma prateleira com livros de arte, história e filosofia. São edições bem cuidadas, mas algumas já gastas, marcadas pelo uso. O ambiente é mal iluminado, com cortinas leves de linho que deixam a luz do luar entrar suavemente. O chão, coberto por um carpete em tons terrosos, completa a sensação aconchegante.
O mobiliário parece escolhido a dedo por Clary: uma mesa grande e organizada, com cadernos de anotações, canetas e uma xícara ainda pela metade. Um espelho com moldura refinada ocupa uma das paredes. A cama, grande e confortável, está coberta por lençóis de linho branco. Ao lado dela, uma mesinha com livros empilhados, uma vela aromática e um pequeno vaso de plantas. Clary é meticulosa e exigente com tudo à sua volta — mais uma forma de fingir controle sobre o que pode.
Robert, o gato branco, domina o espaço com sua presença tranquila. Está enrolado no sofá de veludo no canto, e se espreguiça ao me ver entrar. Aos poucos, me afeiçoei a essa bola de pelos irritante, depois de tantos dias ajudando Clarissa a encontrá-lo pelas ruas.
Acaricio o queixo do gato com uma das mãos, a outra ainda segurando a cerveja. Ele ronrona baixinho, aceitando o carinho com prazer — de um jeito bem diferente da dona.
Tiro o casaco e me jogo no sofá, ao lado de Robert. Não ouso deitar na cama com minhas roupas sujas — por respeito, talvez. Um respeito que, ironicamente, não sei se ela teria por mim. O gato sobe no meu peito, como se já me considerasse território dele. Sigo acariciando-o de forma distraída. Mesmo sem Clary, o ambiente — que exala cada fragmento dela — é reconfortante.
Algumas horas se passam na penumbra do quarto, e estou quase pegando no sono quando Clary finalmente entra, batendo a porta atrás de si e soltando um suspiro pesado. Está exausta. Sua bateria social, que nunca foi muito grande, já deve estar zerada.
— Mas que porra… — ela começa, surpresa ao me ver ali. — Achei que tivesse dado o fora. Não toque no meu gato.
Ela caminha até mim e retira Robert do meu colo como se ele fosse só mais um objeto. — Não vou discutir com você, Lockwood — acrescenta, já indo em direção ao banheiro.
Antes que bata a porta, já estou lá, impedindo-a de se trancar.
— O que aconteceu com o seu rosto? — pergunto, notando novamente o curativo discreto. O silêncio a segue como uma sombra. — Vai só me ignorar? — insisto, forçando a porta a permanecer aberta entrenós.
Sou pelo menos quinze centímetros mais alto. Preciso olhar para baixo para encará-la. Mesmo depois de horas de festa, suor, bebida e dança… Clary continua linda. Linda de um jeito fisicamente doloroso.
Maldita.
— Sim — ela responde, simples, rendida, desistindo de fechar a porta.
Estou prestes a dizer algo, mas esqueço completamente o que era ao vê-la tirar a roupa. Como se eu não estivesse ali. O vestido branco de cetim escorrega pelo seu corpo com uma fluidez quase cruel.
Porra.
Engulo em seco, imóvel, observando-a abrir a torneira da banheira. Usa apenas uma calcinha de renda branca — completamente transparente. Os seios perfeitos e livres, pedindo para serem beijados. A curva do quadril implorando por um aperto firme, capaz de deixar marcas. As costas pontilhadas de sardas — uma visão etérea.
Adentro o banheiro, minha presença parecendo preencher o local pequeno e minimalista. Minhas roupas pretas contrastam com o ambiente, com ela, com sua delicadeza, com sua beleza.
Pareço uma assombração comparado a Clary.
– Não quer conversar? – sussurro, tentando encontrar algo coerente para dizer, tentando me lembrar de como formular uma frase.
Minha excitação começa a me incomodar de verdade. Começa a doer. Já estou hipnotizado. Solto um grunhido ao vê-la retirar a calcinha, indiferente a mim.
Maldição dos infernos.
Essa mulher parece querer me matar da pior maneira possível.
– Não. Só espero que tenha valido a pena, imbecil – ela retruca, tentando passar por mim para alcançar algo na pia, quando agarro seu pescoço, respirando com certa dificuldade, sem conseguir pensar em mais nada, sentir mais nada a não ser o anseio de tê-la para mim.
Agora.
Levo a boca bruscamente até a de Clary, puxando-a para mim e empurrando-a contra a pia de mármore. Seu corpo se enrijece, e ela tenta se afastar, com um grunhido, me empurrando. Agarro sua bunda com força, incapaz de conter minhas mãos, incapaz de conter meus dedos – que tentam alcançar a fenda entre suas pernas.
– Não me toque, seu desgraçado – ela rosna, mas enfio o rosto na curva do seu pescoço, ofegante, necessitado de mais. Muito mais.
– Vá atrás da vagabunda que levou para a cama – Clary tenta se virar, mas seguro seus pulsos finos entre nós dois.
– Não acredito que está chateada… – provoco, sorrindo ao ouvir o ciúmes em sua voz. – Eu nem lembro o nome dela. Não se compara a você, Cherry. – retruco, tentando beijá-la novamente.
Ao ouvir isso, Clary fica furiosa, esquecendo por um instante sua promessa de me ignorar. Ela não consegue se conter, soltando uma de suas mãos, que voa com tudo na lateral do meu rosto, produzindo um estalo abafado. Sinto minha cara arder com o tapa, mas isso só instiga ainda mais algo dentro de mim. Completamente nua e enfurecida, Clarissa me excita mais do que pensei ser possível. Poderia virá-la contra essa pia agora mesmo e fodê-la até que me implorasse para parar.
Solto uma risada, segurando seus pulsos teimosos novamente.
– Era pra eu me sentir melhor, seu merda? – ela brada, os seios roçando minha camisa preta. – Acha que sou tão patética assim? – continua, se desvencilhando do meu aperto quando me distraio ao observá-los. – Se tocar em mim de novo, eu juro, acabo com você, Lockwood – ameaça, apontando o dedo na minha cara, marcada pelo tapa.
E ela parece estar falando sério. Não parece a fim de jogar.
Tento acalmar os ânimos, mas não consigo ir embora. Continuo ali, parado no meio do banheiro, enquanto Clary entra na banheira, seu corpo agora todo vermelho pelos meus apertos e pela ira por mim. Sinto meu pau latejando na cueca, duro como pedra, implorando por ela.
– Sabe… – Clarissa quebra o silêncio, recostando-se na banheira e fechando os olhos, como se tentasse relaxar. – Estava precisando muito aliviar a tensão, mas você estragou meus planos – ela provoca, e eu sei exatamente que está se referindo ao babaca da festa.
– Duvido que ele fosse aliviar alguma coisa – bufo, tentando não ficar irritado com seu joguinho sacana.
Mas a imagem de Clary fazendo sexo com outro cara aparece na minha mente, por pouco não me tirando do sério. Me aproximo da banheira, o maxilar doendo novamente.
– Então, vou ter que dar um jeito sozinha, se não se importa – ela me ignora, soltando um suspiro suave ao mover os dedos para baixo, por baixo d’água.
Filha da puta.
– Você quer que eu me humilhe? – questiono, indignado e incrédulo, me sentando na borda da banheira para apreciá-la.
Seus mamilos estão enrijecidos. A vagabunda com certeza está se deliciando com meu sofrimento.
– Não. Não iria querer você nem que se humilhasse. Não sei por onde esse pau andou – Clary me provoca, mais uma vez.
Agarro-a pelos cabelos da nuca, trazendo seus lábios bem próximos aos meus. Clarissa solta uma mistura de gemido e protesto, seu hálito quente no meu rosto quase me fazendo abrir a calça e colocar essa boquinha maldita para fazer algo muito melhor do que me irritar.
– Você sabe que consigo te fazer gozar sem precisar usá-lo – rosno, perdendo um pouco a paciência.
Largo-a bruscamente, antes que cometa alguma atrocidade. Ela me observa, uma ferocidade contida em seus olhos dourados, enquanto se recompõe. Talvez eu a tenha subestimado. Clarissa não vai ceder. Não até estar no controle.
– Jura? É isso que me diz depois de sumir e enfiar em qualquer uma? Depois de me deixar sozinha, por dias, sem uma explicação, sem uma porra de uma mensagem? – Ela levanta um pouco o tronco, os olhos incendiados, os cabelos molhados colando no colo. Linda. – Você se esconde, Sam. Corre sempre que sente alguma coisa. E aí volta querendo me foder como se nada tivesse acontecido.
– Eu não corri de você… – minto. Ou talvez seja uma meia-verdade. Porque fugir dela foi a única forma de mantê-la a salvo. Se soubesse metade do que carrego nas costas, ela me odiaria. Ou pior — sumiria da minha vida.
– Ah, que conveniente. – Clary revira os olhos. – Quer que eu sinta pena agora?
– Não. Quero que me entenda.
– Eu entendi. Entendi todas as vezes que você sumiu. Entendi quando percebi que não sou suficiente pra te manter por perto. – ela responde, a voz embargada, mas firme. – Ou pra sequer ter uma explicação do porque. E você sabe o que é pior? Não foi só ciúmes. Foi me sentir… descartável.
Ela não faz ideia. Não entende que, às vezes, sumir era a única escolha. Que toda vez que me aproximo demais, a merda se acumula. Não é sobre outra mulher, não é sobre sexo. É sobre tudo que escondo. Tudo que envolve o meu irmão, o nosso passado. Tudo que, se vier à tona, destrói não só a mim… mas a ela também.
– Cherry… – murmuro, mas ela ergue a mão, me silenciando.
– Não me chama assim. Não tenta consertar agora. – Ela respira fundo, como se estivesse lutando para manter o controle. – Se você quisesse só sexo, havia outras formas de deixar isso claro. Mas você dizia coisas… – sua voz vacila – me olhava como se… como se eu fosse o centro do seu mundo.
Porra.
– Você é. – interrompo, ríspido, tentando manter a voz firme, mesmo com a garganta fechando.
Ela ri. Uma risada seca, amarga, que corta.
– Somos dois mentirosos, então. A diferença, é que eu só minto para mim mesma. Porque não me fala qual é a sua? Qual é o seu jogo, Sam, de verdade?
Eu sempre soube que esse momento viria. Desde o primeiro dia em que a olhei nos olhos, soube que existia um prazo de validade entre nós. Como uma bomba-relógio escondida sob camadas de desejo, mentira e silêncio. E, mesmo assim, eu fiquei. Mesmo assim, me aproximei, toquei, beijei, fodi… amei. Porque não consegui evitar. Porque o tempo ao lado dela parecia mais importante do que o fim inevitável que me espera.
Mas não posso contar. Não posso dizer o que me fez sumir, o que me fez correr. Porque se Clarissa souber a verdade… se souber o que estou escondendo, o que estou protegendo — ou a quem estou protegendo — ela vai me odiar. Vai me enxergar como eu realmente sou. E não estou pronto pra ver esse olhar nos olhos dela.
Então eu minto. Me calo. A deixo acreditar que foi apenas sexo, fuga, covardia. Porque a verdade… a verdade custaria muito mais. E eu estou tentando, desesperadamente, adiar esse final. Fingir que ainda há tempo. Fingir que ainda posso tê-la por mais um pouco. Só mais um pouco.
– Não é um jogo, Clarissa. – digo, sem encará-la, com a mandíbula travada. – E mesmo se fosse… eu já teria perdido.
Dou uma risada sem humor, o peito queimando. – Às vezes a gente mente não pra enganar, mas porque não sabe como dizer a verdade sem destruir tudo.
– Vá à merda com as suas respostas enigmáticas, Lockwood. Estou me cansando.
– Queria que as coisas fossem diferentes. — sussurro, mais para mim mesmo do que para ela.
Mas não podem ser. Não com tudo que sei. Não com a maneira que escolhi entrar na vida dela. Não com a sombra do meu irmão pairando sobre mim. Clary não entenderia. E eu não sobreviveria se visse os olhos dela se apagarem por minha culpa.
Ela me encara por um longo momento. Em silêncio. A água da banheira se move lentamente com seus pequenos gestos, o vapor subindo entre nós como um véu morno.
– Está me desconcentrando – ela retruca, voltando a se encostar, de olhos fechados, enquanto usa os dedos.
Fico ali, paralisado, como se fosse atraído por um magnetismo sombrio, incapaz de desviar o olhar dela, mesmo com todo o meu orgulho gritando. Assisto-a gemer com fascínio, como se uma força invisível me mantivesse preso àquela realidade cruel.
A respiração de Clary fica mais pesada, entrecortada, os lábios perfeitos entreabertos, me fazendo apertar a borda da banheira com tanta força que os nós dos meus dedos ficam completamente brancos.
Há algo torturante e extenuante nesse olhar fixo sobre ela — uma prisão mental e emocional que impede qualquer movimento meu, como se a própria visão de Clary ali fosse uma experiência única, insustentável e, ao mesmo tempo, irresistível.
Ela está reclinada na banheira, submersa até os ombros em água morna e suave, que parece abraçar seu corpo perfeitamente esculpido. Seus cabelos ruivos, vibrantes e ondulados caem como uma cascata ao redor do rosto e pescoço, com mechas um pouco molhadas. Clary parece completamente imersa no que está fazendo, com um leve sorriso nos lábios, como se estivesse saboreando a brincadeira.
Vadia cruel.
O contorno do seu corpo é impecável, os seios cheios, a barriga delicada, as pernas esguias que costumam se apertar ao meu redor enquanto transamos.
Esse momento parece durar uma eternidade, e não poder capturar seus gemidos com meus lábios é a pior das torturas. Tudo que eu mais queria era fazê-la gozar para mim, senti-la quente e molhada no meu pau, preenchê-la por completo, meter com tanta força que não haveria um centímetro sequer de distância entre nós. E quando ela se cansasse, eu a seguraria com prazer, me deliciando em fazê-la tremer.
Clary morde o lábio inferior, suspirando alto e agarrando um peito com a mão.
Puta merda.
Estou prestes a avançar em sua boca, completamente enlouquecido, quando ela geme:
– Thomas…
É como se, em um piscar de olhos, o mundo tivesse se desfeito. O momento, se desmanchado, derretido e escorrido pelo ralo. É como um corte profundo que me atinge de maneira inesperada e cruel.
Desgraçada.
O ódio que surge repentinamente não é racional, não é algo que possa justificar. Sei que ela está querendo me sacanear, mas é visceral, uma raiva pura e descontrolada que brota do nada, quase como uma chama que incendeia um campo seco ao mínimo contato.
Posso ouvir a risada de Clary quando me levanto, saindo pela porta como um trovão.
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