Vizinhos
9 Clarissa
“Be wise as thou art cruel; do not press
My tongue-tied patience with too much disdain…”
— Sonnet CXL, William Shakespeare.
Há amores que queimam. Outros apenas congelam.
O seu fez os dois — e eu aprendi a sangrar em silêncio.
Clary
A sensação de ressaca no dia seguinte é um conjunto de desconfortos físicos e mentais que me acomete assim que abro os olhos, depois de dormir por horas a fio, entre pesadelos e resmungos. Meu corpo está completamente desregulado, como se gritasse por socorro. A dor de cabeça é a primeira a se manifestar — uma pressão intensa, latejante, como se alguém estivesse apertando meu crânio com as próprias mãos.
Já é fim de tarde quando finalmente desço as escadas, vestindo uma roupa de correr — a única coisa que talvez consiga melhorar meu estado, embora seja a última na minha lista de vontades. O cheiro de comida vinda da cozinha me causa náuseas. Meu estômago se revira imediatamente.
Nick está lá, mexendo em alguma coisa no fogão, de costas para mim.
— Finalmente, a Bela Adormecida acordou — ele brinca, sem me olhar, e leva o prato até a pia para lavar. — Recebi o pessoal da limpeza hoje de manhã. Como pode ver, a festa foi oficialmente exorcizada.
Dou uma olhada rápida ao redor. Tudo está impecável. Nenhum vestígio do caos da noite passada. Nenhum sinal da humilhação que passei com Thomas. Nenhuma lembrança visível do modo como Lockwood me olhou. Como me tocou.
Meu corpo esquenta só de lembrar.
— Obrigada. Você é demais — murmuro, caminhando até a geladeira. Pego uma garrafa d’água, engulo uma aspirina e alcanço uma banana da fruteira. — Se eu não estivesse morrendo de ressaca, até sugeriria uma ida ao pub pra colocar o papo em dia.
Nick não responde de imediato. Apenas se encosta na bancada e me observa em silêncio, como se estivesse estudando cada movimento meu.
— Poderia começar me contando como conseguiu isso daí — ele diz por fim, arqueando uma sobrancelha e apontando para o curativo no meu rosto.
Toco a lateral da bochecha com cuidado.
— Vou tirar hoje.
— Devo me preocupar com algum dos seus dois namorados? — Ele força um sorriso de canto, mas a piada vem com rigidez.
— Eu não tenho dois namorados — retruco, estreitando os olhos. — Na verdade, não tenho nenhum. E não precisa se preocupar com as minhas escolhas românticas. Só com o único homem da minha vida que eu nunca escolhi.
Nick desvia o olhar, como se precisasse conter alguma coisa que começa a borbulhar dentro dele. Passa a mão pelos cabelos e solta um suspiro comprido.
— Já falei pra você sair de casa. Você tem a faculdade, sim, mas pode alugar algum lugar. Eu te ajudo. Depois, vem pra Londres comigo, se quiser. Não precisa continuar aqui, Clarissa.
— Eu sei que você quer me proteger, Nick. E eu agradeço. De verdade. Mas não é tão simples assim.
— É exatamente simples. Você só não quer ir. E eu entendo. É difícil deixar os destroços quando a gente passou a vida aprendendo a morar neles.
Minha garganta aperta.
O brilho protetor nos olhos dele me desarma. Mas há uma sombra também — uma frustração que ele não consegue esconder. Uma raiva por não ter controle sobre o que acontece comigo. Por não poder estar aqui o tempo todo.
— Ele estava melhor… — começo, sabendo que estou pisando em gelo fino.
— Ele não mudou — Nick me corta com firmeza. — E não vai mudar. Nunca precisou mudar, por que mudaria agora?
Ele se aproxima, devagar, como se eu fosse um animal ferido prestes a fugir. Seu olhar desvia para o curativo, e por um momento ele parece conter o ar nos pulmões.
— Como foi? — pergunta baixo. — Como isso aconteceu?
Hesito. E então, quase num sussurro:
— Ele estava estressado. Arremessou um copo.
Nick cerra os punhos ao lado do corpo. Seus olhos, normalmente vivos, parecem opacos agora. Cheios de uma impotência que o devora.
— Poderia ter sido uma faca, Clarissa — ele diz, a voz carregada. — Poderia ter sido um dente quebrado. Ou pior.
— Foi só um incidente — murmuro, desviando o olhar. — Ele mal fica em casa. Só dorme. Está apático, distante.
— Isso não é paz. É trégua. E trégua nenhuma vale sua integridade física. Ele é um babaca. E você sabe disso.
Respiro fundo, tentando conter o peso que se acumula em mim desde ontem. Desde sempre.
— Lockwood… — Nick começa, mas para no meio. Passa a mão no rosto. — Antes de ir embora, ele quis saber o que aconteceu com você. Com o seu rosto. Eu não soube o que dizer. Me senti um idiota.
Minha espinha congela.
— Não se preocupe com Lockwood. Nem com o meu rosto. E, por favor, não fala nada pro nosso pai. Só vai piorar.
— Eu não quero vê-lo. Nem ouvir a voz dele. Vou embora antes que ele chegue, porque se eu olhar na cara dele hoje, Clarissa… eu não sei se consigo evitar fazer uma merda.
Ele está tremendo. As mãos fechadas em punhos. A mandíbula contraída.
A boca dele se abre pra dizer algo mais, mas eu não deixo.
— Depois que eu voltar da corrida, a gente pede algo pra comer. Posso chamar a Emy. Que tal? — Tento mudar de assunto, como quem acende uma luz num quarto escuro.
Ele não responde. Só me observa enquanto saio da cozinha.
E eu não olho pra trás.
Porque, sinceramente, não sei se aguento ver o rosto do meu irmão implorando por mim quando nem eu sei mais como me salvar.
O final de tarde em Bristol chega como uma pintura viva: tons de dourado e âmbar escorrem pelas fachadas vitorianas, tocando as janelas altas, os vitrais e os portões de ferro com uma delicadeza quase melancólica. As folhas tingidas de vermelho, laranja e amarelo rodopiam ao vento, cobrindo as calçadas com um tapete crepitante. Há uma calma estranha no ar — bonita demais para ser confiável.
Dou uma última olhada no celular, o polegar pairando sobre o nome de Thomas. Cogito enviar uma mensagem, talvez um pedido de desculpas, mas acabo apagando o que digitei. Ele não respondeu. E, honestamente, não posso culpá-lo.
Enfio os fones nos ouvidos, dou play.
You leave in the morning with everything you own in a little black case…
A voz do Bronski Beat me acompanha enquanto começo a correr. Cada passo ecoa no asfalto molhado, e a batida eletrônica se mistura ao som abafado da minha respiração.
Run away, turn away, run away…
À medida que avanço pelas ruas, a beleza do entardecer começa a escurecer. Algo muda.
O céu, antes lilás e tranquilo, agora parece mais pesado. As sombras das árvores se alongam de forma incomum, como se me cercassem. Uma brisa gelada sobe pela espinha. Não há ninguém na rua, mas minha pele arrepia como se alguém estivesse me observando.
Não olho para trás. Não consigo. O medo é quase físico.
As janelas das casas estão fechadas. As cortinas balançam, mas não vejo movimento. Apenas aquela sensação incômoda de ser seguida. De que o próprio fim do dia carrega olhos.
Acelero o passo. Meu peito aperta. O som de um galho se partindo às minhas costas me faz tropeçar, quase caio. Me obrigo a continuar.
Está tudo na sua cabeça. Está tudo na sua cabeça.
Mas não adianta. O medo tem corpo agora. Forma. Presença.
É só quando vejo a entrada da Biblioteca Central que meu corpo, instintivamente, vira para lá. As escadas de pedra, a porta imponente, a arquitetura antiga me acolhem como um abrigo sagrado. Seguro o corrimão como se ele pudesse me ancorar no presente.
Lá dentro, o saguão é silencioso, amplo, com colunas de madeira escura, vitrais coloridos e uma luz suave que parece aliviar meus nervos.
Avanço entre as estantes, tentando me distrair. O cheiro de papel, tinta e poeira me acalma. Meus dedos tocam as lombadas dos livros como quem procura algo familiar, algo seguro. Estou tentando respirar normalmente de novo.
O ar é calmo, o som suave de páginas viradas e o leve murmúrio de outros visitantes tornam o ambiente ainda mais acolhedor. Me perco na imensidão daquelas estantes, meu foco agora inteiramente nas palavras e no prazer da descoberta literária.
Estou tão concentrada que, de repente, o som de uma voz masculina, baixa e suave, me faz dar um pulo, quase derrubando o livro que escolhi pegar.
– Encontrou o que estava procurando? – pergunta o rapaz, com um sorriso discreto, mas encantador, nos lábios.
Me viro abruptamente, o coração disparando com o susto, e meus olhos se fixam nele por um segundo. Ele está parado à minha frente, de pé entre as prateleiras.
O rapaz tem cabelos castanhos, ligeiramente bagunçados, que caem suavemente sobre a testa, e seus olhos verdes me observam com um brilho curioso, quase como se soubesse exatamente o que está se passando em minha mente. Ele tem uma expressão tranquila, mas há algo cativante em sua postura, algo que parece quase... despretensioso, mas, ao mesmo tempo, cativante de uma maneira que não conseguiria descrever.
Ainda tentando controlar a batida acelerada do coração, dou um pequeno sorriso nervoso e tento me recompor.
– Ah... não, só olhando. – respondo, a voz um pouco mais alta do que o normal, o que me faz sentir ainda mais desconfortável.
O que deu em mim hoje?
O rapaz, percebendo meu desconforto, ri baixinho, um som suave que parece se espalhar pelo ambiente silencioso da biblioteca. Ele faz um gesto com a mão em direção aos livros, como se me convidasse a continuar explorando.
– Os livros têm essa maneira de nos pegar de surpresa, não é? A gente se perde neles e, de repente, algo ou alguém aparece.
Olho para ele por um momento, tentando recuperar a compostura, ainda um pouco surpresa por sua presença inesperada.
– Sim... é... acho que eu estava um pouco distraída. – digo, com um sorriso tímido.
O rapaz me observa por mais um segundo, como se estivesse tentando entender algo em meu olhar, e então diz, de maneira descontraída:
– Eu também gosto de me perder entre as páginas aqui. Às vezes, é o único lugar onde a mente realmente pode descansar.
Há algo no jeito dele que é, ao mesmo tempo, descontraído e encantador, e a maneira como ele fala me faz sentir como se estivéssemos sozinhos — como se a biblioteca inteira fosse agora um cenário particular onde estamos dividindo um momento.
Ainda sem saber muito o que fazer com a surpresa, olho para o livro em minha mão e, então, para ele novamente. Mas não consigo deixar de perceber o sorriso simpático que ele tem, o olhar tranquilo que parece tão à vontade, contrastando com o turbilhão que sinto dentro de mim.
O ambiente ao redor parece, por um instante, mais calmo. As estantes, as sombras suaves, a luz filtrada — tudo isso ainda está aqui, mas agora o meu foco está no rapaz, que me observa com um interesse curioso, como se a conversa já tivesse começado há muito tempo, embora não tenhamos dito mais do que poucas palavras.
– Clary. – pigarreio.
– Atlas. – ele estende a mão, e eu aceito o seu aperto firme e amigável.
— Nome incomum.
— O suficiente pra fazer você lembrar — ele diz, mas não compreendo exatamente o seu tom.
— Você fica sempre aqui, esperando para assustar alguém? – pergunto casualmente, provocativa, voltando a olhar os livros.
Posso ver Atlas estreitar os olhos e dar um sorrisinho.
– Não, mas não resisto a garotas bonitas que parecem ter acabado de ver um fantasma. – Atlas dá de ombros. – Você entrou correndo, vim ver se estava tudo bem. – acrescenta, ainda me observando fixamente.
– Se me achou bonita hoje, vai me adorar quando não estiver de ressaca. – retruco, tendo plena ciência dos meus cabelos desgrenhados, das olheiras abaixo dos olhos e do curativo horroroso na bochecha.
Atlas solta mais uma risada descontraída.
Olho para ele, sentindo uma conexão instantânea — não só pela aparência, mas pela maneira como ele parece tão à vontade, como se estivesse aqui apenas para tornar o momento mais interessante e agradável.
– Está dizendo que quer me ver mais uma vez? – Atlas arqueia as sobrancelhas.
Seu tom é gentil, mas provocativo, deixando claro que está interessado.
– Talvez. – dou de ombros, enquanto andamos por entre as prateleiras.
Ok, isso é bem inesperado.
— Eu estava distraída. Correndo. Meio perdida. — Hesito por um segundo. Não quero parecer paranoica. Mas também não quero mentir completamente. — Tive uma sensação estranha. Sabe quando parece que tem alguém te seguindo, mas você olha e não tem ninguém?
— Sei — ele responde rápido demais. — Já aconteceu comigo. E não é só paranoia, a cidade tem esse… jeitinho às vezes.
Fico encarando ele por um instante. Tem algo no tom da voz dele, na leveza com que fala sobre isso, que me faz relaxar.
— Acho que você pode estar precisando de uma pausa. Ou de café.
Sorrio, surpresa pela sugestão tão direta.
— Café ajuda em tudo. Ressaca, inclusive — comento, tocando de leve no curativo no meu rosto.
Atlas me observa por um segundo, inclina um pouco a cabeça.
— Festa pesada?
— Digamos que foi… intensa.
— Então vai gostar do Small Street Café. Fica aqui perto. Eles têm livros nas paredes, música baixa, café forte. E bolos absurdamente bons.
Rio, um pouco mais relaxada agora.
— Está tentando me convencer?
— Está funcionando?
Faço uma pausa dramática, finjo pensar.
— Talvez. Mas só se prometer não me seguir até em casa depois.
— Eu prometo… por enquanto — Atlas diz, já caminhando em direção à saída. — Vem?
Aceito. Contra todas as minhas defesas e com um certo incômodo que escolho ignorar, sigo aquele estranho encantador para fora da biblioteca.
O Small Street Café é exatamente como ele descreveu: luz baixa, cheiro de café fresco, bolos artesanais sobre o balcão. Escolhemos uma mesa perto da janela, e sento de frente pra ele, tentando entender o que exatamente estou fazendo ali.
Atlas me observa de novo. Sem pressa.
— Ainda com medo?
— Menos. Talvez seja o cheiro de café. Ou o fato de que você parece inofensivo.
— As aparências enganam — ele diz, com um sorriso enigmático.
A conversa segue com uma naturalidade inquietante. Falamos sobre livros, autores, músicas. Atlas tem opiniões afiadas, e um jeito calmo de escutar. Mas há algo nos silêncios dele, na forma como às vezes parece me estudar, que me faz questionar cada resposta que dou.
A garçonete aparece com duas canecas fumegantes. A dele vem com espuma até a borda; a minha, com canela polvilhada e uma fatia generosa de bolo escuro num prato de louça bege.
— Isso parece crime — comento, olhando para a calda escorrendo pelas laterais.
— E é — ele diz, pegando a xícara. — Mas um crime do qual eu sou cúmplice com gosto.
Dou uma risada curta. Ainda estou tensa por dentro, mas há algo na presença dele — um silêncio confortável, talvez — que começa a quebrar a rigidez da minha coluna.
— Então… — ele começa, mexendo o café com a colher pequena. — Você sempre corre por aí como se estivesse fugindo de um apocalipse zumbi? Ou hoje foi especial?
— Hoje foi… um pouco especial. — Respondo, tentando manter o tom leve. — Tinha gente demais em casa ontem. E barulho demais na minha mente. Achei que correr fosse acalmar alguma coisa.
— Acalmou?
— Talvez. — Dou um gole no café. — Ou só cansou o suficiente pra eu fingir que acalmou.
Ele assente, como quem entende mais do que diz.
— Posso te contar um segredo? — ele diz, apoiando os cotovelos na mesa, com o rosto meio inclinado.
— Vai depender do nível do segredo.
— Não é tão grave. É só… — ele faz uma pausa dramática — que eu também corro. Mas só quando tô prestes a explodir. Ou quando não sei o que fazer com as coisas que tão me comendo por dentro.
— Ah. Um corredor existencial.
— Exato. Mas eu sou mais dramático. Coloco fones de ouvido e ouço aquelas músicas que parecem trilha sonora de filme melancólico francês.
— Tipo Smalltown Boy?
Ele me encara por um segundo. Sorri devagar.
— Você é melhor do que imaginei.
— E você é mais previsível do que achei.
A provocação fica no ar por um instante, e algo nele parece se descontrair. Um tipo de admiração brinca nos olhos dele, como se estivesse me estudando — mas sem pressa.
— Sabe, Clarissa… você tem cara de quem pensa demais.
— Isso não é um elogio.
— Depende. Pra mim é. Gosto de gente que sente as coisas por dentro, mesmo quando tenta disfarçar por fora.
— Isso soa perigosamente como flerte disfarçado de análise psicológica.
Ele ri, um som rouco e breve.
— Eu nunca disfarço flertes. Seria um desperdício.
— Então é isso que você tá fazendo?
Ele apoia o queixo na mão e me observa. Um instante longo demais.
— Talvez.
— E você? Sempre aparece do nada para salvar garotas correndo pelas ruas?
— Só quando é inevitável.
— E o que torna algo inevitável?
Ele sorri, mas não responde. Apenas olha pra mim como se a resposta estivesse no meu rosto.
Então começa a rir sozinho.
— O que é tão engraçado? — pergunto, meio desconfortável.
— É que… você me lembra alguém. — Ele sorri, mas o olhar escurece um pouco, como se a lembrança fosse mais pesada do que queria admitir.
— Quem?
— Meu irmão mais novo. — Atlas dá um gole no café.
Fico em silêncio. Não era a resposta que eu esperava.
— Isso deveria ser um elogio?
— Não sei. — Ele apoia o queixo na mão novamente, pensativo. — Ele também tinha esse jeito… meio inquieto. Como se estivesse sempre tentando fugir de alguma coisa que nem sabia o nome.
— E ele conseguiu?
— Fugir? — Atlas desvia o olhar por um instante, como se tivesse esquecido que eu estava ali. — Acho que não. Mas aprendeu a se esconder bem o suficiente pra parecer inteiro.
— E você? Também aprendeu?
Ele sorri com a boca, mas não com os olhos.
— E quem disse que eu sou do tipo que se esconde, Clarissa?
Atlas diz meu nome como se provasse algo — como se já o tivesse repetido tantas vezes na cabeça que agora saía natural. Eu não me lembro de ter dito pra ele.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Mas não é um silêncio confortável. É denso. Como se tivesse peso. Como se alguma coisa estivesse suspensa entre nós, prestes a cair.
Atlas continua me observando, com aquela intensidade calma que, aos poucos, começa a me incomodar. Como se ele estivesse estudando cada pequeno movimento meu, cada pausa na respiração, cada piscada. Como se estivesse procurando alguma coisa.
Meu corpo ainda está aqui, mas minha mente começa a recuar devagar, como quando se entra num quarto que parece vazio, mas tem algo fora de lugar.
É sutil. Um arrepio leve na nuca. A impressão de que já ouvi aquele tom de voz antes. Que já conheço aquele olhar. Mas não conheço. Não conheço nada nele — e talvez seja isso que me deixa tensa.
E é aí que algo dentro de mim se contrai, quase imperceptível.
Porque por um segundo… só um segundo… ele me lembra Sam.
Não na aparência. Não na voz.
Mas naquele tipo de silêncio carregado que vem antes de alguma coisa acontecer. Na maneira com que o olhar parece atravessar camadas, como se enxergasse além do que eu mostro. Como se estivesse testando até onde pode ir.
Foi assim com Sam também. No início.
Um olhar que dizia: eu já te vi por dentro — mesmo quando ele mal sabia meu nome.
Engulo seco e desvio o olhar, como se isso pudesse me proteger de alguma coisa que ainda nem aconteceu.
Mas já aconteceu antes.
E, de algum jeito, meu corpo lembra disso antes da minha mente.
— E você? Mora aqui faz tempo? — pergunto, mexendo distraidamente no guardanapo.
Uma tentativa de aliviar o clima.
— Cheguei há pouco. Sozinho. A cidade ainda parece meio nova, sabe?
— Bristol é… estranha pra mim — comento, mexendo devagar na borda da xícara. — Tem dias que eu acho que conheço cada esquina dessa cidade melhor do que a mim mesma. E mesmo assim, às vezes tudo parece tão diferente.
— Diferente como?
— Como se eu estivesse andando pelos mesmos lugares de sempre, mas com outra pele. Como se a cidade tivesse mudado só porque eu mudei. Ou talvez porque certas coisas ficaram quietas por tempo demais.
Ele me observa em silêncio, sem interromper.
— Tem lugares aqui que eu evito. Outros que eu sempre volto, mesmo sem motivo. Como se eles me lembrassem quem eu era antes das coisas ficarem… esquisitas.
— E o que te faz voltar?
— Acho que a esperança de reconhecer alguma parte minha que ainda faça sentido.
Atlas assente.
Fico em silêncio por alguns segundos depois de falar. O som da rua lá fora parece distante, abafado. E tudo o que eu acabei de dizer… soa íntimo demais.
Por que estou falando tanto? Com alguém que eu mal conheço?
Talvez seja justamente por isso. Porque ele é um estranho — alguém que não carrega nenhum pedaço do meu passado, nenhuma memória distorcida, nenhuma expectativa. Ele pode ouvir sem comparar. Sem julgar.
Ou talvez seja o jeito como ele me escuta. Como se entendesse antes mesmo de eu terminar a frase. Como se soubesse exatamente o que dizer — ou o que não dizer.
É perigoso. Mas, por algum motivo, reconforta.
— Vim pra Bristol faz alguns meses — Atlas diz, depois de um gole no café quase frio. — Achei que mudar de cidade fosse clarear algumas coisas. Mas, no fundo, acho que só queria ficar mais perto do meu irmão.
— E funcionou?
Ele dá um meio sorriso, mas não parece feliz.
— Não exatamente. Ele anda… distante. Mesmo estando perto. Sabe aquela sensação de que alguém que você conhece bem de repente virou um estranho?
Assinto devagar.
Essa está na lista de sensações ruins que conheço muito bem.
— Mas ele ia gostar de você — Atlas continua, com um olhar que me atravessa como uma lâmina disfarçada em gentileza. — Você tem o tipo de presença que ele tentaria ignorar só pra não se entregar logo de cara. Mas não conseguiria.
— Isso é bom ou ruim?
Ele dá de ombros, com um sorriso enviesado.
— Isso é só verdade.
— Ele mora com você?
— Sozinho. Sempre foi meio… reservado. Mas ultimamente, parece outra pessoa. Tentei me aproximar, entender, mas ele se fecha ainda mais.
— Deve ser difícil — murmuro.
Atlas assente, sem disfarçar o peso nos olhos.
Ele continua me observando, como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça invisível com as coisas que digo — ou deixo de dizer.
Atlas mexe na borda da xícara, como se ponderasse algo, antes de perguntar:
— E você? Tem irmãos?
— Tenho — digo, olhando para a rua além da janela. — Nick. É meu irmão mais velho.
— E vocês se dão bem?
Dou uma pequena risada.
— A maior parte do tempo, sim. Ele é teimoso, fala demais, se mete onde não foi chamado… mas é o tipo de pessoa que sempre está lá quando você precisa.
Atlas faz um gesto breve com a cabeça, pensativo.
— Parece alguém importante pra você.
— Muito.
A conversa cai num silêncio leve, confortável. Nem bom, nem ruim.
Só… presente.
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