Vizinhos

10 Lockwood


“Mad in pursuit and in possession so;

Had, having, and in quest to have, extreme.”

— Sonnet CXXIX, William Shakespeare.


Eu já a tive, e ainda assim a desejo como se nunca tivesse tido.

Cada centímetro dela vive faminto sob a minha pele — não como lembrança, nem como fantasia, mas como fome.

E eu enlouqueceria mil vezes mais só para provar essa loucura de novo.


Lockwood

Gales, 24 anos atrás.


Eu me lembro do cheiro do chá preto queimando na cozinha. A chaleira apita, insistente, mas minha mãe não se move. Ela está parada diante da janela, como se enxergasse algo além do quintal, além da névoa de Gales.

Eu tinha três anos. Aaron, dez anos mais velho, já entendia o que eu não podia. Estava sentado no tapete, com o corpo rígido e os olhos presos ao carpete verde musgo, como se tentar não chorar fosse sua nova missão.

Eu brincava com um carrinho azul. Empurrava pelas frestas do assoalho, fazendo sons com a boca, até que as sirenes de verdade chegaram.

Três batidas secas na porta. Depois, a presença de dois homens de uniforme, pesados demais para aquele fim de tarde. Um deles tinha o queixo contraído, o outro segurava um chapéu entre as mãos. O som que minha mãe fez não parecia vir dela. Era algo ancestral, como o rasgo de uma terra antiga.

Meu pai não voltaria para casa. O carro dele fora encontrado às margens de uma estrada estreita, depois de uma perseguição que deu errado. Policiais investigativos não costumam morrer assim — foi o que ouvi anos depois.

Mas, naquele dia, tudo o que entendi foi que meu carrinho azul parou de fazer sentido. E que Aaron, mesmo com só treze anos, prometeu em silêncio que cuidaria de tudo. De mim. Da nossa mãe. Do lugar vazio na cabeceira da mesa.

O homem que entrou não pediu desculpas. Tinha neve nos ombros e um chapéu gasto nas mãos. A voz dele era baixa, áspera, impessoal. Disse que foi um acidente. Que não houve dor. Que o corpo seria trazido até a manhã seguinte.

Minha mãe encostou a mão na boca. Nenhum som saiu. Aaron ficou imóvel, como se soubesse que qualquer gesto quebraria o que restava de estrutura em volta de nós. E eu… eu só olhei. Sem entender tudo, mas entendendo o suficiente.

Foi naquele instante que aprendi o que é ausência.

Ela não grita. Não chega como tempestade. Ela apenas entra — como neve derretendo sobre o chão, e ninguém pode fazer nada além de sentir o frio.

Os dias seguintes pareceram todos iguais. A casa cheirava a sopa fria, velas pela metade e flores que apodreciam antes de serem trocadas. Pessoas iam e vinham, deixando sussurros atrás das portas e olhares que evitavam o nosso.

Eu passava horas no colo de alguém — às vezes de uma vizinha, às vezes de um estranho com cheiro de cigarro e roupa engomada. Minha mãe se movia como um fantasma entre os cômodos. Falava pouco. Comia menos. Às vezes, eu a via de costas, sentada no chão do quarto, abraçada ao casaco do meu pai.

Aaron tentava manter tudo funcionando. Ele fazia torradas queimadas, me ajudava com o banho, me colocava na cama antes que a noite engolisse o resto. A infância dele acabou sem anúncio. E eu fui o peso que ele carregou desde então.

Na terceira semana, a casa ficou ainda mais silenciosa. Me lembro da luz acesa por dias no corredor do andar de cima. Do jeito que Aaron me afastou da escada. Ele parecia maior do que era. Forte, como um muro.

Ele me disse que havia um problema com a mamãe. Que eu devia ir brincar no quintal até ele chamar. A voz dele não tremia, mas os olhos… nunca esquecerei.

Mais tarde, ouvi o som das sirenes outra vez. Os vizinhos cochichavam no jardim. E o corpo da minha mãe foi levado envolto em branco.

Ela se foi num fim de tarde como o do meu pai. Silenciosa. Sozinha. Dentro do quarto que antes era dela e dele. Aaron foi quem a encontrou. E foi ele quem impediu que eu subisse. Que eu visse. Que eu soubesse cedo demais o que é perder duas vezes.

Por muito tempo, eu achei que ela tinha dormido e esquecido de acordar. Aaron nunca contou a verdade. Nem precisou. O silêncio dele dizia mais do que qualquer palavra.

Depois que minha mãe foi enterrada, ninguém soube muito bem o que fazer conosco.

Não tínhamos avós vivos. Nenhum parente próximo o bastante para querer dois órfãos — um adolescente de treze anos e uma criança que ainda fazia xixi na cama quando sonhava com portas fechadas. Fomos levados para uma cidade menor, a algumas horas dali, para morar com tios que eu mal conhecia. Eles não choraram no funeral. Não fizeram perguntas. Só assinaram os papéis e nos colocaram no banco de trás do carro como quem leva bagagem esquecida.

A casa deles era fria, com relógios que pareciam bater mais alto do que o necessário. Tias e tios que falavam pouco e mandavam muito. Tudo ali era sobre obediência. Silêncio. Regra. Castigo.

Eles nos davam tarefas demais, comida de menos. Eu me lembro de esfregar o chão da cozinha enquanto ouvia as risadas dos filhos deles assistindo TV na sala. Aaron cortava a grama, lavava o carro, passava horas de castigo com os joelhos no arroz cru quando alguma coisa dava errado. E sempre dava. Nunca éramos bons o bastante. Sempre havia algo fora do lugar, e por isso, eles gritavam. Batiam. Humilhavam.

Não gosto de lembrar, mas lembro mesmo assim. A vara de madeira encostada atrás da porta. O cheiro do porão onde nos trancavam. As palavras que eu nem entendia direito, mas que doíam mesmo assim.

Aaron nunca reclamava. Nunca chorava. Foi como se algo nele tivesse endurecido no dia em que encontrou nossa mãe no quarto. Ele deixou de ser menino ali. Virou uma coisa silenciosa. Dura. Distante.

Ele me protegia quando podia. Tomava culpa por coisas que eu fazia. Colocava o corpo na frente. Às vezes, ficava entre mim e as palavras duras — outras vezes, entre mim e os cintos.

Não posso culpá-lo por nada do que veio depois. Mesmo quando tudo ficou pior. Mesmo quando ele se tornou alguém que às vezes me assusta.

Porque eu era só uma criança. Mas ele… ele era só um garoto tentando manter dois mundos inteiros em pé, depois de ver os dois desabarem.

Eu carregava traumas demais para alguém de três anos. Mas Aaron… carregava o peso de uma vida inteira. E ninguém o ensinou como fazer isso sem ruir.

Na escola, a gente era só “os irmãos órfãos”.

Diziam baixinho, mas todo mundo sabia.

Os que moravam com parentes distantes. Os que nunca sorriam nas fotos. Os que usavam roupas herdadas e olhavam de lado quando o assunto era “família”.

Não importava o quanto a gente fingisse normalidade — o silêncio da nossa casa vinha grudado nas nossas costas como uma sombra que não se tira com banho.

Conforme fui crescendo, percebi que os olhos da minha tia começaram a pesar mais do que os castigos.

Ela me olhava de um jeito estranho, como se esquecesse que era adulta — que era casada, que era minha parente. Os toques demoravam mais que o necessário. As mãos nas minhas costas escorregavam até a cintura. Os beijos no rosto vinham com a respiração quente demais, demorada demais.

No começo, achei que era coisa da minha cabeça. Mas não era.

Ela gostava de me chamar para ajudá-la na cozinha, sozinha, quando a casa estava silenciosa. Gostava de encostar, de comentar como eu estava “virando um rapaz”, como meu cabelo parecia com o do pai. Como meus olhos eram bonitos, tristes, “de filme”.

Eu sentia nojo. Uma repulsa que me travava o estômago e me fazia evitar os espelhos. Como se o corpo que crescia em mim fosse algo errado, sujo, que eu não tivesse pedido. Raiva também. Um tipo de ódio mudo que crescia por dentro e não tinha onde ir. E vergonha. De existir. De respirar do lado dela.

Aprendi a sair dos cômodos em silêncio. A não ficar sozinho. A me encolher em mim mesmo para não ser visto. Como se me esconder pudesse apagar aquilo. Como se o corpo que crescia sem me perguntar pudesse deixar de ser uma armadilha.

Aaron nunca soube. Ou talvez soubesse e fingisse não ver. Ele já não falava muito naquela época. Só fumava, lia livros sobre guerra e dormia pouco.

Saí de casa assim que consegui. Passei no vestibular de primeira, com uma bolsa. Me mudei para longe, para o outro lado do país. Não levei nada comigo, só uma mochila, uns livros e a promessa silenciosa de que nunca mais voltaria ali.

Escolhi medicina porque queria entender o que fazia as pessoas quebrarem. Psiquiatria porque eu precisava, de algum jeito, descobrir se era possível consertar o que foi torcido por dentro — em mim e nos outros.

Sempre fui inteligente. Estudar era a única coisa que me dava algum controle. O único lugar onde o mundo fazia sentido. E, durante um tempo, achei que bastava isso para me salvar. Que bastava isso para me manter inteiro.

Mas existem rachaduras que não somem só porque a gente fecha os olhos. Algumas só crescem, em silêncio, esperando a hora certa para abrir.

E quando Clary olhou para mim, naquela banheira, e me perguntou qual era o meu jogo…

Nem eu soube responder.

Porque não era um jogo. Nunca foi. Era só o reflexo daquilo que ficou em mim depois de tudo: a falta, o medo, o desejo de ser visto — mas de longe.

Ela me olhava como se tentasse decifrar uma língua antiga. E talvez fosse isso mesmo. Porque tudo em mim vem de um tempo quebrado. De uma casa que cheirava a mofo e sabão barato. De castigos em silêncio. De mãos que apertavam demais.

De uma infância que me ensinou a esconder o que eu sentia.

Clary viu isso. Viu o que ninguém nunca viu.

E ainda assim ficou.

Mas às vezes eu acho que, se ela soubesse de tudo… Talvez não tivesse ficado.

Foi Aaron quem começou.

Já éramos adultos quando ele voltou a falar no assunto — com mais frequência, mais fixação. Às vezes parecia que só restava isso nele: a necessidade de entender por que nosso pai havia morrido daquela forma tão… repentina.

Ele passou meses relendo papéis antigos, procurando brechas nos registros oficiais. E encontrou.

Incongruências. Datas que não batiam, exames ausentes, lacunas absurdas em um laudo que deveria ter sido detalhado.

E bem ali, no rodapé do documento, o nome: Dr. Charles Blackwell.

O pai de Clarissa.

Foi a partir daí que tudo ganhou outra proporção.

Investigamos juntos — como se aquilo nos mantivesse vivos, alertas. Descobrimos que Blackwell não estava sozinho. Que havia outros.

Um grupo silencioso, funcional, preciso. Médicos que falsificavam obituários e laudos por dinheiro.

Vítimas trocadas, causas ocultadas, identidades apagadas. Tudo para acobertar interesses maiores: tráfico de órgãos, assassinatos encomendados, histórias que jamais chegariam à superfície.

E suspeitamos que nosso pai seja uma dessas histórias.

Morto para calar. Silenciado em nome de algo que nunca soubemos ao certo.

Aaron quer justiça. Ou vingança.

Eu… eu encontrei Clarissa.

E nunca mais fui capaz de deixá-la em paz.

Stalkear Clary virou parte da minha rotina antes mesmo de eu perceber. Nas fotos de família, nas redes, nas entrevistas acadêmicas em que ela falava sobre arte e vazio.

Era como escovar os dentes. Como respirar.

Era doentio, eu sei. Mas havia uma lógica silenciosa naquilo tudo. Como se conhecê-la por fragmentos me permitisse montá-la dentro de mim.

E, no fundo, eu achava que ela também carregava rachaduras. Rachaduras parecidas com as minhas.

No início, era apenas parte da coleta de informações. Mas quanto mais eu lia sobre ela, mais eu esquecia o que estava procurando.

E começava a ver o que não devia.

Eu sabia os horários dela, os lugares que frequentava, os livros que pegava na biblioteca da universidade.

Estudava suas fotos de exposições antigas, lia os artigos que escrevia, ouvia a voz dela em entrevistas estudantis com a sensação de que já éramos próximos — mesmo sem nunca termos trocado uma palavra.

Ela era filha do homem que falsificou a verdade.

Mas também era… ela.

E foi nesse erro — nesse desvio — que minha obsessão nasceu.

Segui seus passos pelas ruas de Bristol antes mesmo que ela soubesse meu nome. Li cada artigo, cada ensaio, cada rascunho que ela publicou em fóruns acadêmicos. Pesquisei seus horários, seus professores, seus lugares preferidos. Fui atrás de cada rastro online, cada foto, cada traço da vida que ela tentava esconder.

Se ela soubesse que entrei naquela universidade com um nome limpo e um coração sujo de intenções, que me infiltrei no cotidiano dela como quem ocupa um corpo que não lhe pertence... Não sei o que aconteceria. E não sei se estou disposto a descobrir.

Clarissa veria o que realmente sou — não o vizinho novo, mas o erro antigo. Um erro que escolheu existir perto dela.

Por vontade. Por vício. Por fraqueza.

Eu me encantei porque vi algo de mim nela. Uma fenda. Uma solidão que ninguém mais parecia notar.

O modo como ela desviava o olhar, como demorava pra responder, como se carregasse o peso de um mundo que ninguém queria enxergar.

Era como se… a dor dela tivesse a mesma temperatura da minha.

E eu reconheci isso antes mesmo de entender o que estava sentindo. No começo, tentei ignorar. Disse a mim mesmo que era só uma coincidência, uma distração passageira.

Mas não consegui.

Ela começou a ocupar tudo.

A porra toda.

Não saía da minha cabeça.

Fodeu a minha mente.

Eu anotava o horário em que Clary saía da aula, os caminhos que escolhia ao voltar pra casa. Lia e relia tudo que ela escrevia, até decorar seus padrões de pensamento, suas metáforas. Seguia os rastros dela como quem tenta resolver um crime sem nunca admitir que o cometeu.

E à noite…

À noite, eu sonhava com ela.

Às vezes, acordava suando, a boca seca, a respiração falha.

Outras vezes… não dormia.

Só ficava ali, me tocando, imaginando como seria tocar ela.

Como seria a pele. O som da voz sussurrada. O gosto.

Como seria invadir aquele mundo que parecia tão trancado por dentro.

Me revirava na cama, com o lençol grudado no corpo, suado, duro. Bastava um sonho com ela. Às vezes nem era um sonho completo — só uma imagem, um fragmento do rosto dela entre luz e sombra, a curva da boca entreaberta, o som do riso abafado.

E pronto.

Eu ficava latejando. O pau pulsando como se tivesse vida própria, exigindo alívio.

Não acendia a luz. Só ficava ali, no escuro, a respiração pesada, o corpo tenso, a mão firme tentando acabar com um pouco daquele sofrimento. Me tocava devagar no início, como se o controle servisse de alguma coisa. Mas era só fechar os olhos e imaginar ela por cima de mim, nua, arfando, as pernas tremendo ao redor da minha cintura, que tudo desandava.

Imaginava como seria segurar os quadris de Clarissa com força, fazer ela rebolar no meu pau até perder o fôlego. Como seria ouvir os gemidos baixos, sentir as unhas nas minhas costas, o gosto da pele quente, úmida, o perfume se misturando ao suor.

Imaginava a boca dela me engolindo inteiro. O olhar indecente enquanto fazia isso.

Eu queria foder Clary como um maldito animal.

Sem romantismo, sem cuidado, sem pausa. Só pele, suor e instinto. Queria ver ela de joelhos, com as mãos na parede, arfando, implorando por mais mesmo sem saber o que exatamente estava pedindo. Queria marcar o corpo dela com a minha boca, com meus dedos, com meus dentes — deixar hematomas nas coxas, nas costas, no pescoço. Fazer ela lembrar de mim até nos lugares onde ninguém mais poderia ver.

Queria segurar os pulsos dela acima da cabeça, empurrar até o fundo, forte, rápido, sujo, sem piedade — e ouvir o som que ela faria. Ver o jeito que os olhos fechariam quando eu invadisse cada espaço que ela tenta manter fechado.

Queria que ela perdesse o controle comigo. Que gritasse meu nome com a voz embargada de prazer e raiva. Queria que ela me odiasse por fazer isso com ela — e ainda assim voltasse, noite após noite, como se fosse inevitável.

Porque é.

Porque o que eu sinto por ela não é suave.

É necessidade.

É fome.

E eu nunca quis ser gentil.

Quis ser o caos que ela tenta esconder.

Quis fazer ela sentir com o corpo inteiro.

Quis destruir qualquer outro homem que ela já tenha tocado — até que só sobre eu.

Dentro dela.

Contra ela.

Por cima dela.

Até ela esquecer o próprio nome.

E só lembrar do meu.

E quando gozava — forte, sujo, desesperado — não era alívio. Era frustração. Porque, por mais que minha mão apertasse com força, nunca era o suficiente. Nunca seria.

Porque o que eu queria era ela.

Tentei me distrair com outras, saciar a minha fome de maneiras menos doentias, mas também não funcionou.

Porque eu podia estar fodendo qualquer uma, podia estar enterrado até o fim dentro de outro corpo — mas era o dela que meu inconsciente implorava. Era o dela que minha mente projetava, mesmo com os olhos abertos. Mesmo com as mãos puxando cabelos que não eram dela. Com dedos cravando em quadris que não se encaixavam nos meus como o dela encaixaria.

Nada preenchia. Nada satisfazia.

Porque não adiantava quantas bocas me chupavam, quantos corpos se contorciam por mim — nenhuma gemia daquele jeito contido que só ela tem. Nenhuma tremia quando eu apertava o pescoço. Nenhuma tinha aquela porra daquele olhar que parece ao mesmo tempo pedir socorro e implorar por mais.

Elas queriam meu corpo.

Clary tem a minha alma.

E é por isso que nenhuma outra serve.

Acordar sem Clary era a pior parte.

E quanto mais eu tentava afastar esse desejo, mais ele tomava forma.

Até virar necessidade.

Até virar plano.

Foi assim que começou. Não com um tropeço, mas com uma decisão. Vê-la de longe deixou de ser suficiente.

Não bastava saber como ela pensava — eu precisava ver como ela se movia. Precisava ouvir sua risada de perto, sentir seu cheiro, descobrir como era o timbre exato da sua tristeza.

Precisava tocá-la.

Foi por isso que aluguei a casa em frente. Gastei toda a minha reserva do seguro de vida que o meu pai me deixou. Passei a viver sozinho em uma porra de mansão velha com mil quartos vazios – um reflexo de como eu me sentia sem ela.

Foi por isso que entrei na mesma universidade. Foi por isso que dei um jeito de pegar exatamente a mesma matéria de literatura que Clary — mesmo odiando qualquer coisa relacionada a isso.

Cada movimento meu era premeditado, mas parecia inevitável. Como se eu tivesse sido escrito para orbitá-la. Como se, de algum modo doentio e inevitável, eu estivesse apenas seguindo o destino.

E quando a vi de perto pela primeira vez, ali, sentada na terceira fileira…

Puta que pariu.

Soube que não teria volta.

O cabelo ruivo preso de um jeito desleixado, com alguns fios escapando e roçando a base do pescoço. A pele como porcelana, salpicada por sardas que me fizeram pensar em pecado antes mesmo de ouvir sua voz.

E os olhos.

A porra daqueles olhos dourados.

Que pareciam antigos demais pra alguém tão jovem. Como se ela tivesse visto o mundo desmoronar algumas vezes — e ainda assim continuasse erguida, meticulosamente composta, com a coluna reta e o caderno aberto como se estivesse ali só por obrigação.

Ela parecia calma.

Mas eu vi. Vi a tensão nos ombros, a maneira como mordia a tampa da caneta quando achava que ninguém estava olhando.

Vi o esforço em manter tudo sob controle.

E talvez tenha sido aí que eu soube.

Que ela era exatamente o que eu não podia ter.

E por isso mesmo, exatamente o que eu ia querer até enlouquecer.

Precisava me livrar de Aaron.

Porque eu sabia — desde o início — que se ele descobrisse Clarissa, ele a transformaria em alvo.

Ele parecia cada vez mais obcecado com a ideia de vingança. Como se respirar não fosse suficiente se o mundo ainda estivesse em dívida com ele. Com a gente.

Mas Aaron nunca quis justiça.

Quis sangue. Quis culpa. Quis ver alguém pagar — com carne, com dor, com gritos. Aaron precisava de um culpado.

E encontrou.

Encontrou no sobrenome dela.

Ele transformou a dor em raiva. E a raiva… em plano.

Pra ele, não era sobre justiça.

Era sobre fazer alguém pagar com a mesma moeda. Sobre devolver a destruição na mesma medida — ou pior.

E mesmo que eu tentasse negar, parte de mim entendia.

Porque quando tudo que você amava é arrancado sem explicação, a única coisa que resta é querer ver o mundo que sobrou queimar.

Desde o dia em que nosso pai foi enterrado naquela cova rasa, ele carregava a ruína como se fosse um fardo enfiado à força nas costas. E talvez tenha sido mesmo. Porque ninguém naquela porra de cidade se importou. Ninguém perguntou como estávamos. Ninguém socorreu a nossa mãe quando ela parou de comer. Ninguém segurou a mão do meu irmão quando ele teve que carregar um menino de três anos no colo pra dentro da casa dos tios, porque a nossa casa já não existia mais.

Os anos que vieram depois só acentuaram o que já era um veneno.

Os nossos tios eram frios. Religiosos demais. Severos demais. Amargos de um jeito que nem o tempo adoça. Aaron cresceu engolindo culpa e silêncio. Foi privado de tudo: liberdade, afeto, verdade. Apanhou por responder, por existir, por me proteger. Ele se moldou na raiva. No ressentimento. No desejo de controle.

Aquela casa não curou porra nenhuma. Ela só escancarou as feridas. E ele entendeu que, se não podia mudar o passado, então destruir o que restou dele era o mínimo.

Sempre foi assim, desde o dia em que encontrei ele encolhido na porta do quarto da nossa mãe. Com os olhos abertos demais e as mãos manchadas com o que restava da infância dele.

Aaron era frio, meticuloso, brilhante.

Mas acima de tudo, perigoso.

E alguma coisa dentro dele partiu tão fundo que nunca mais se recompôs.

Apesar de me proteger, Aaron também sempre quis o que era meu. Quis o cuidado que me deram quando ele já tinha aprendido a sobreviver sem. Quis a infância que eu tive, mesmo quebrada — porque foi melhor do que a dele. Quis ser o filho que dormia sem pesadelos, o irmão que recebia olhares de pena e não de exigência. Quis o brilho que eu carregava nos olhos antes de tudo desabar.

Aaron nunca disse isso em voz alta. Nunca precisou.

Mas eu sempre soube que ele queria ser como eu. Trocar de lugar comigo. Porque, apesar de tudo, eu fui o que saiu “menos quebrado”. O mais fácil de engolir. Eu não carregava as cicatrizes no rosto. Eu sabia calar na hora certa.

E as mulheres… elas olhavam pra mim. Procuravam meus olhos. Me queriam.

Aaron via isso e se corroía em silêncio.

Ele me observava com aquele desprezo disfarçado de superioridade, como se achasse que eu era fraco por sentir demais, por não ceder ao mesmo rancor.

Mas, no fundo, ele odiava o fato de que eu conseguia ser desejado. Que eu podia seduzir, encantar, tocar.

Que eu era inteligente o suficiente pra abrir portas — e bonito o bastante pra que nem todas me perguntassem o que havia do outro lado.

Ele queria o que eu tinha. Ou o que achava que eu tinha.

E agora…

Se soubesse que encontrei Clarissa, que me apaixonei por ela...

Não imagino do que seja capaz. Não imagino como, mas tenho certeza que daria um jeito de incluí-la em seu acerto de contas.

Simplesmente porque ela é minha. Porque eu a escolhi.

Aaron não era confiável. Não vi alternativa senão me esconder.

Esconder Clary.

Mesmo quando minha vontade era gritar o nome dela por todos os cantos.

Mesmo quando queria dividir com Aaron cada mínimo detalhe que aprendi sobre ela — o modo como mordia o lábio inferior quando pensava, o cheiro do café que ela tomava, a música que ouvia quando achava que ninguém estava ouvindo.

Mesmo quando o vício se tornou um labirinto do qual eu não queria escapar.

Eu a mantive em segredo.

Para protegê-la dele.

Para protegê-la de tudo — inclusive de mim.

Porque Clarissa é o que há de mais raro na minha vida. Um tesouro escondido no caos, uma coisa bonita demais para ser minha — mas que, mesmo assim, me escolheu.

Ela é a única coisa verdadeiramente valiosa que já me aconteceu. A única que não veio com sangue, silêncio ou dor como preço.

E talvez por isso o medo seja tão constante.

Medo de perdê-la.

Medo de que ela veja demais.

Medo de que, ao olhar de perto, perceba que as rachaduras que tento esconder não são apenas rachaduras. São abismos enormes que nem eu sei se consigo escapar.

Eu a quero tanto.

Mais do que é seguro querer qualquer coisa nesse mundo.

Mas a cada passo que dou em direção a ela, sinto o chão sob meus pés se desfazer. Como se continuar ao lado dela fosse o mesmo que puxá-la para a minha ruína.

Não sei como manter essa relação sem colocá-la em risco.

Sem colocar tudo em risco.

E ainda assim…

Não consigo parar.

A vida inteira foi só um buraco — um vácuo sem nome onde tudo que entrava apodrecia ou ia embora. Nunca tive nada. Nada que ficasse. Nada que me olhasse como se eu fosse mais do que um erro. Cresci no silêncio, na ausência, na porra da falta. E carreguei isso em cada célula, em cada escolha errada, em cada noite vazia que tentei preencher com qualquer coisa que doía menos. Mas então veio ela.

Clarissa.

Tão viva, tão inconscientemente cruel, tão linda na forma como nunca percebe o estrago que faz. E, de repente, tudo o que eu nunca tive, tudo o que eu nunca fui, encontrou nela uma razão doentia pra existir.

Ela virou o centro da minha obsessão, do meu desespero, da minha vontade de rasgar o mundo só pra vê-la ficar. Como se fosse a única coisa capaz de fazer essa vida de merda — minha vida de merda — valer alguma coisa. A única que eu quero. A única que eu preciso.

A única que, se eu perder, leva tudo junto.

Antes de Clarissa, tudo era vazio e raiva. Eu andava por aí como quem procura briga com o mundo, como quem nasceu pra sangrar ou fazer sangrar.

Transar era só mais uma forma de sobreviver. Eu me enfiava em corpos como quem tenta escapar de si mesmo. E elas vinham fácil — me queriam pelo que viam: o corpo forte, os braços que sabiam prender, a voz que sabia mandar. Eu era o tipo de homem que sabiam que podia dominá-las com uma mão só. E elas gostavam disso.

Havia um certo alívio em ser desejado. Mesmo que fosse só pela carne, pela força, pela forma como eu sabia foder sem hesitação. Algumas imploravam. Outras tremiam. Todas se rendiam. E, por um tempo curto demais, aquilo preenchia alguma coisa. Um silêncio. Uma ausência. Um grito abafado.

Mas depois vinha o gosto amargo. Sempre vinha. O desprezo. Não por elas, mas por mim. Por saber que nenhuma daquelas bocas sabia o meu nome de verdade. Que nenhum daqueles toques chegava perto do que eu queria arrancar de dentro de mim. Elas eram distrações. Remédios baratos pra uma doença que eu carregava no osso.

Nada daquilo me salvava. Só me deixava mais fundo. Mais sujo. Mais puto.

Com Clarissa é diferente. Sempre foi. Desde o começo. Ela se entrega, mas nunca por completo — e é exatamente isso que me destrói. O jeito como ela me olha e depois desvia, como se tivesse receio do que vê em mim… ou do que isso desperta nela. E, ainda assim, volta. Sempre volta. Como se, no fundo, ela soubesse que somos feitos da mesma merda: estilhaços tentando se encaixar.

As partes dela que não se mostram, as que ela tenta esconder, são as que mais me atraem. As partes quebradas. As partes sujas. As que gritam em silêncio. Porque, de algum modo doentio, elas se encaixam nas minhas. Como se ela fosse a única mulher capaz de suportar o que existe aqui dentro sem desmoronar.

Quando ela me toca… o resto desaparece. As vozes, os gritos do passado, a bile que escorre da memória. Tudo silencia. Tudo some.

O gosto da pele dela — baunilha e medo. A textura das coxas apertando minha cintura. A forma como os seios se erguem quando ela geme baixo, mordendo o lábio como se estivesse tentando segurar o prazer. A forma como ela arqueia o corpo, mas ainda hesita. Sempre hesita. Como se estivesse à beira de cair em mim… mas sem saber se vai sobreviver à queda.

E eu quero que ela caia. Quero foder essa hesitação até que desapareça. Até que ela não saiba mais onde termina e onde eu começo. Até que ela me deixe marcar cada maldita parte do corpo dela — com língua, dentes, mãos, gozo.

Ela é a única coisa real. A única que consegue apagar tudo. A única que me faz esquecer que eu sou feito de cacos e ódio. Quando estou dentro dela, não sou nada além de carne e vício. Não sou ninguém. E é exatamente aí que encontro alguma paz.

Ela tenta esconder. Finge que é feita de luz, de controle, de moral. Mas eu vejo. Eu sempre vi.

Vejo quando ela prende a respiração ao ser tocada, como se quisesse recuar… mas o corpo trai. Quando eu empurro ela contra a parede e ela geme antes mesmo de eu tocá-la de verdade. Quando ela diz que não, mas aperta as pernas ao ouvir minha voz baixa no ouvido, dizendo que vou destruí-la devagar.

Clarissa tenta se conter. Finge que é boa. Mas há uma fome nela. Um desespero que espelha o meu. E eu quero isso. Quero cavar cada pedaço sujo que ela tenta enterrar, arrancar os véus um por um até que ela não tenha mais pra onde correr. Até que ela me mostre tudo que o mundo mandou ela esconder.

Eu toco onde dói. Eu beijo onde arde. Eu afundo nela até que os olhos se reviram, até que ela diga meu nome como se fosse um grito de socorro e uma rendição ao mesmo tempo. Quero vê-la quebrar — não por prazer, mas por liberdade.

Quero que ela saiba que mesmo nas partes mais escuras, eu vou estar lá. Que mesmo quando ela se odiar, eu vou amá-la com os dentes cravados na carne.

Sei que ela tem medo de se perder em mim. Mas a verdade é que já se perdeu. E tudo que eu quero é que ela pare de lutar. Que me deixe lamber as feridas. Que me deixe vê-la suja, desnorteada, desfeita… porque é aí que ela é mais linda. Quando está crua. Sem escudos. Sem mentira.

Toda minha.

E quando ela estiver assim — nua de alma e de pele, com as pernas abertas e os olhos molhados — eu vou dizer que ela é perfeita. Porque ela é. Até mesmo em sua escuridão. Principalmente nela.

Ela não grita. Não se quebra na frente de ninguém. Carrega tudo por dentro — como se engolisse cada trauma, cada cicatriz, cada abandono… e transformasse em silêncio.

E isso me fode mais do que qualquer crise, mais do que qualquer lágrima. Porque eu vejo. Eu sei.

Ela foi ferida. Repetidamente. Por quem devia protegê-la, por quem devia amá-la. E mesmo assim… ela levanta. Passa batom. Prende o cabelo. Vai à aula como se não estivesse se despedaçando por dentro.

Clarissa tem mais força do que eu jamais tive. Porque ela aprendeu a engolir o próprio inferno com a coluna ereta e a voz firme. E, ainda assim, ninguém vê. Nenhum filho da puta percebe.

Mas eu vejo. Eu vejo tudo.

Vejo como ela sorri quando devia estar gritando. Como ela caminha como se não estivesse sangrando por dentro. E essa fachada que ela construiu — fria, delicada, quase intocável — é mais perfeita do que qualquer máscara que eu já tentei usar.

Ela é o retrato da sobrevivência. Só que bonita demais, controlada demais, ferida demais.

E talvez seja por isso que eu a queira tanto. Porque, por trás de tudo que ela esconde, há algo que só eu reconheço: um caos parecido com o meu.

Só que ela, ao contrário de mim, ainda luta pra não deixar isso vazar.

E isso me deixa de joelhos.

Clarissa vive tentando manter tudo no lugar. Cada passo dela é calculado, cada palavra medida, cada coisa dobrada no armário como se a ordem externa pudesse conter o caos interno. Ela precisa disso — da rotina, dos horários, da lista de afazeres escrita à caneta azul com caligrafia perfeita.

Ela organiza a vida como quem tenta conter um terremoto com fita adesiva.

Mas comigo…

Comigo ela treme.

E é aí que eu a quero.

Não tem nada mais viciante do que ver aquela fachada perfeita desmoronar sob meu toque. A menina certinha, que dobra meias por cor e posiciona os talheres milimetricamente na mesa, gemendo alto com a boca colada na minha, puxando meu cabelo com força, me arranhando como se não houvesse amanhã.

Ela tenta resistir no começo. Sempre tenta. Me olha com aquele ar de quem ainda está no controle. Mas basta uma mão minha apertando a cintura dela, meus dedos deslizando por dentro da calcinha, minha boca entre as pernas — e pronto.

A lógica dela derrete.

E eu adoro isso. Adoro ver os olhos dela saírem do foco, a respiração falhar, os joelhos cederem. Adoro fazer com que ela implore, mesmo odiando o fato de precisar de mim desse jeito.

Ela é viciada em controle.

E eu sou o vício que faz tudo isso ruir.

Quando ela goza, não é só prazer — é rendição. É ela me dizendo, sem palavras, que por um segundo sequer não foi perfeita, não foi forte, não foi meticulosa.

Foi só minha.

E isso é tudo que eu quero.