Vizinhos

11 Clarissa


“Then can I drown an eye, unused to flow,

For precious friends hid in death’s dateless night,

And with old woes new wail my dear time’s waste;”

— Sonnet XXX, William Shakespeare.


Algumas dores não gritam. Esperam em silêncio, como quem sabe que cedo ou tarde seremos obrigados a escutá-las.



Clary


Nick vai embora só à noite, depois de jantarmos pizza e assistirmos a um reality que virou a mais nova obsessão da Emy — uma competição artística caótica onde um grupo de “visionários” vive trancado numa casa tentando criar a “obra definitiva”, enquanto lida com egos inflados, crises existenciais e… uma jacuzzi.

— Isso aqui é um experimento artístico ou um culto? — Nick pergunta, já na segunda fatia de pizza, franzindo a testa ao ver um dos participantes pintar um quadro inteiro usando apenas os pés.

— É arte. Você não entenderia. — Emy retruca com a boca cheia de refrigerante, os olhos vidrados na tela como se estivesse vendo a final de um campeonato mundial.

— Isso é lavagem cerebral. E em tempo real. — ele comenta, mas não sai do sofá nem por um segundo.

Eu estou espremida entre os dois, com um cobertor sobre as pernas e um pote de sorvete no colo, tentando não derrubar chocolate nas almofadas enquanto rio de canto.

— Olha esse diálogo! — Emy aponta para a TV. — Ele acabou de dizer que a performance dela é “uma metáfora visual para o abandono afetivo do século XXI”.

— Isso ou ele só não sabe pintar pessoas. — Nick responde, sem desviar os olhos da tela.

Solto uma gargalhada abafada com a colher ainda na boca.

— Vocês são uns ignorantes. — Emy joga uma almofada no Nick, que pega no reflexo e devolve com precisão cirúrgica, acertando a testa dela com uma pontaria que só se adquire em guerras de travesseiro.

Por alguns minutos, tudo é leve. As risadas, as vozes sobrepostas, o som exagerado da trilha do reality e o cheiro de pizza fria preenchem a sala como um alívio inesperado. A bagunça é reconfortante. A familiaridade entre nós é tão natural que ninguém precisa fingir nada.

Nick se estica no tapete depois de comer demais, uma mão sobre a barriga, a outra segurando o controle.

— Se eu morrer de tanto carboidrato, quero que escrevam na minha lápide: “Ele só queria mais uma fatia”.

— Só se a gente conseguir enfiar você no caixão depois de tanta pizza — comento, olhando para ele com uma sobrancelha arqueada.

— A gente pode cremá-lo. Mais prático. — Emy acrescenta, séria.

— Se for no forno a lenha, aproveitem para assar uma pizza em homenagem — Nick completa, e nos três caímos na gargalhada.

O tempo passa sem que a gente perceba — entre piadas idiotas, migalhas de pizza no sofá e comentários absurdos sobre o reality, a noite se esgueira como se quisesse nos proteger do resto do mundo. E, por algumas horas, funciona. É fácil esquecer o que dói.

Enquanto Nick calça os tênis e Emy briga com ele por deixar a caixa de pizza aberta, percebo o quanto essa bagunça improvável me faz bem. Sinto falta disso — do caos confortável, das provocações, da sensação de que, aqui, tudo ainda pode ser simples.

Antes de partir, Nick fez questão de me ajudar a tirar o curativo e remover os pontos secos — algo em que, infelizmente, nos tornamos experientes graças aos “ensinamentos” do nosso pai. Sempre ocupado, sempre impaciente demais para lidar com o básico, ele nos deixava resolver sozinhos o que deveria ter sido cuidado.

A cicatriz na minha bochecha, embora ainda sensível ao toque, está mais discreta do que eu esperava. Quase translúcida, se destaca em contraste com minha pele clara. Observo meu reflexo no espelho com um tipo estranho de satisfação. O cansaço é evidente no rosto, mas me esforço para parecer normal — como se vestir uma rotina pudesse camuflar o que acontece por dentro. Sorrio levemente, mas o sorriso não chega aos olhos.

Há um descompasso entre o que vejo e o que sinto. As sardas, os olhos dourados, os traços delicados parecem sustentar uma versão de mim que já não reconheço por completo. É como se houvesse algo escondido sob a superfície, pulsando. Um fogo contido, pronto para consumir tudo. As minhas íris brilham com uma ferocidade inquieta, refletindo a tempestade que tento conter — e que, talvez, me contenha.

Não há doçura aqui. Só a força bruta de alguém tentando domar os próprios impulsos. Meus músculos estão tensos, em guerra com algo que nem sei nomear. As sardas, antes charmosas, agora parecem tatuagens de inquietação. E meu cabelo ruivo, antes leve e solto, está emaranhado, rebelde — como se tentasse escapar da ordem que tento impor à minha imagem.

Não estou mais “perfeita”. Meu reflexo parece feroz, os traços suavemente desfeitos por uma luta silenciosa. A tristeza que tento suprimir se mistura com algo mais primitivo, indomável. Uma versão minha que está farta de se conter. Fico ali por um longo momento, encarando aquela imagem no espelho. Tentando entender quem é essa pessoa. Mas o que vejo não é alguém que eu queira mostrar ao mundo.

Estou à beira de explodir, mesmo que ainda tente desesperadamente manter o controle. Tento me encaixar nas expectativas que criei para mim mesma, mas o que o espelho me devolve é a verdade: sou caos e beleza, força e vulnerabilidade. Uma mulher que está prestes a se deixar levar. Talvez parar de lutar contra isso seja o começo.

O fim de semana, embora caótico, terminou com um gosto inesperadamente doce, graças ao convite de Atlas para o café ao lado da biblioteca. Eu estava cansada demais para pensar, mas depois de horas rindo e conversando com leveza, me senti… mais leve também. Como se o peso dos últimos dias tivesse, por um instante, escorregado dos meus ombros.

Foi quase fácil esquecer que Lockwood desapareceu. Esquecer que ele dormiu com outra, quebrando o pacto não verbal que nunca chegamos a firmar. Pela primeira vez, passei horas sem pensar nele. Nada como uma boa distração.

Exatamente o que eu buscava com Thomas — o que acabou sendo um fracasso constrangedor. Nem cogito mais o ex-futuro emprego, depois da desgraça que foi a festa de Halloween.

Mas ali, naquele café com Atlas, me senti suficiente. Me senti bonita, mesmo de ressaca e com roupas de treino. Me senti interessante, inteligente. Me senti eu. Como se, ao não tentar ser nada, tivesse finalmente sido algo. Foi tudo tão improvável. Especialmente depois de fugir correndo pelas ruas como uma maluca paranoica, me escondendo de um perseguidor que talvez nem existisse.

Talvez eu esteja mesmo surtando. Só que… Atlas.

Havia algo nos olhos dele. Na calma que transmitia. Na forma como deixava tudo fácil. Conversar com ele era como respirar — simples, leve, natural. Ele foi atencioso, divertido, quase gentil demais para ser real. Hoje, passei o dia sorrindo por lembrar de um comentário bobo que ele fez sobre o nome do café.

Pelo menos até a aula de literatura.

— Já decidiu o tema ou essa mentezinha diabólica só serve pra pensar em formas de tornar a minha existência ainda mais miserável? — Lockwood pergunta ao se jogar na cadeira ao meu lado, com a voz carregada de sarcasmo.

Não viemos juntos para a faculdade hoje. Pela primeira vez em muito tempo, dirigi sozinha — coisa que evito desde que bati o carro em um ciclista e fui alvo das piadas do Nick por dois anos.

A sala de literatura é ampla, de pé-direito alto, com janelas imensas que deixam a luz atravessar e espalhar-se sobre as paredes de pedra escura. Cortinas pesadas estão puxadas de lado, revelando uma vista serena do campus. Um lugar que deveria inspirar calma — mas não quando ele está aqui.

Cruzo os braços, rígida. Não vou me mover. Não vou reagir.

Lockwood me encara com um sorriso maldoso dançando nos lábios, como se estivesse se divertindo com a minha frieza.

É a primeira vez que nos vemos desde a banheira. Mas sei que nenhum de nós vai tocar no assunto. Está claro o acordo silencioso entre nós — manter as aparências. Finja que nada aconteceu. Mas ele não resiste a brincar com os limites.

— Dolce Stil Novo e a Representação do Amor na Pintura Medieval e Renascentista. — respondo, seca, calculada. Que ele entenda: o que vem a seguir não será leve.

— Horrível. — ele diz, como se cuspisse a palavra. — Tema de menininha.

Ele se estica na cadeira com displicência, provocando com cada gesto, cada palavra. A raiva cresce em mim, quente e surda.

— Sinta-se à vontade para trocar de grupo. — rebato com um sorriso tão falso que até eu sinto o gosto amargo dele.

— E te dar essa satisfação? — ele estala a língua e se recosta ainda mais, exibindo a postura relaxada de quem sabe o poder que tem.

Há algo nele que parece impossível de desviar o olhar. Seus cabelos negros, ligeiramente desordenados, caem com leveza sobre a testa, a face meio sombria em contraste com os olhos — de um tom raro de avelã, misturado com nuances de verde e dourado. Quando ele me encara, há algo mais no fundo dos seus olhos que me prende. Uma mistura de desejo e rancor. Como se soubesse algo que eu ainda não entendi. Como se soubesse que estou em um campo minado, e ele está ali, observando, esperando pela minha reação.

É um olhar perigoso. Um olhar que provoca e embriaga, fazendo meu coração acelerar sem que eu sequer perceba. Ele me testa, como sempre. Me faz querer dar mais do que posso, apenas para ver até onde consigo ir antes de quebrar.

Volto a encarar a tela do meu notebook, tentando me afastar daquilo, para não me perder em um jogo que sei que ele está jogando.

— Satisfação é a última coisa que você tem me dado — retruco, minha voz mais baixa agora, tentando manter o controle. Cada palavra, uma tentativa de não me entregar à explosão de raiva que se acumula dentro de mim. Não quero mostrar que ele está me afetando, mas meu corpo já trai meus pensamentos.

Sam se inclina para sussurrar no meu ouvido.

— Posso resolver isso em cinco minutos, se quiser ir comigo até o carro — ele propõe, a voz baixa e rouca, o hálito quente fazendo cócegas no meu pescoço e me arrepiando até os ossos.

Eu podia sentir o cheiro de Sam — um misto de tabaco e algo amadeirado — e, por um momento, me peguei desejando sentir mais.

— Você não dura tudo isso — provoco, sem conseguir me conter.

Sam solta uma risada divertida, esquecendo-se por alguns segundos do seu mau humor.

— Melhor começar a escrever, Blackwell, ou vamos acabar perdendo o foco — ele comenta, sem tirar os olhos de mim. O tom de sua voz é baixo, quase um sussurro, mas com uma autoridade que parece me envolver. — E pare de fazer isso também, ou eu vou acabar perdendo o foco — acrescenta, sua atenção fixada em mim, nos lábios que mordo involuntariamente.

A sala está tranquila, o som das teclas dos laptops e o murmúrio suave das conversas criando uma atmosfera descontraída, mas tudo ao meu redor parece se distorcer. As pessoas, as vozes, o espaço… tudo some até que só ele permanece. O olhar de Sam ainda me queima, uma chama invisível que me arrasta para mais perto do que não devo querer. O ambiente parece pesar, carregado com algo que nem sei como definir, mas que me aperta o peito. Cada palavra, cada movimento dele me arrasta para dentro do abismo de algo desconhecido, algo que me assusta, mas, ao mesmo tempo, me seduz.

— Bom, para o Dolce Stil Novo, o amor é quase transcendental. Sinto que essa ideia de amor puro e idealizado aparece nas obras renascentistas também, tipo na forma como os artistas tentavam capturar a “beleza eterna”, como na Anunciação, de Fra Angelico, por exemplo — começo, sem desgrudar os olhos do computador, enquanto procuro pelas imagens para mostrar a Lockwood, que apenas me observa, calado. — A maneira como o amor no Dolce Stil Novo vai além da carne, se tornando quase uma obsessão pela beleza espiritual da amada, reflete muito essa busca da arte renascentista por algo mais sublime, mais “divino”. Quando olhamos para as obras de Botticelli, tipo O Nascimento de Vênus, percebemos essa idealização da mulher como um ser etéreo, quase celestial. É o amor representado como uma busca por perfeição. E é isso que torna o movimento tão fascinante. O Dolce Stil Novo praticamente “previu” a transição para a arte renascentista. O amor, na poesia de Dante e Petrarca, não é apenas um tema, mas uma força transformadora que se reflete na arte.

Lockwood gira distraidamente uma caneta entre os dedos longos, o som suave da caneta rolando sobre a mesa quebrando o silêncio entre nós.

— A arte medieval ainda estava muito ligada à religiosidade, mas a Renascença trouxe uma revolução na forma como o amor era representado, não mais só como devoção ou moralidade, mas como algo que transcendia o físico — ele complementa, os olhos brilhando levemente, como se já soubesse onde a conversa estava indo.

Eu o encaro, comprimindo os lábios, tentando não me deixar levar pela natural facilidade com que ele se impõe. Ele é inegavelmente fascinante, sem parecer fazer esforço algum para isso.

Suspiro, frustrada por um momento.

— Isso — pigarreio, concordando. — Achei que seria um tema bonito. E já tinha escolhido antes de você aparecer — acrescento rapidamente, sentindo a necessidade de me justificar.

— Antes de eu aparecer e despertar esse seu lado cruel que você tenta disfarçar? — Sam arqueia as sobrancelhas, provocativo. — Sorte sua que eu até gosto de coisas de menininha — ele pontua, me fazendo soltar uma risada involuntária, já que sua imagem diz exatamente o contrário da afirmação.

Ele é como uma figura saída de um sonho inquietante, um paradoxo de beleza e melancolia. E aqui, na penumbra da sala, o meu vizinho parece mais um espectro do que uma pessoa. Sua presença silenciosa domina o ambiente, como se fosse um ser de outro mundo, esperando para ser reconhecido ou, talvez, ignorado.

Cada movimento seu, desde o modo como passa os dedos pelo cabelo até a maneira como olha ao redor, tem a mesma serenidade assombrosa de quem já viu o fundo do abismo e, de alguma forma, sobreviveu a ele.

Algo em sua postura, tranquila e ao mesmo tempo firme, transmite a sensação de que Sam já enfrentou suas batalhas e, talvez, tenha saído mais forte delas. Seu olhar é profundo, como se carregasse histórias não contadas em cada centímetro de sua alma.

Histórias que ele nunca quis compartilhar, mas que não pude deixar de perceber.

Lockwood é o tipo de pessoa que não precisa gritar para ser notado. Sua inteligência não é arrogante, mas há nela uma sabedoria silenciosa que me faz questionar de onde veio. Sua capacidade de ler as pessoas, entender seus medos e desejos, é quase sobrenatural, e isso o torna ainda mais enigmático — como uma caixa de segredos.

Acho que me encantei por estar tentando sobreviver ao meu próprio abismo, e pensei que, talvez, ele tivesse as respostas de que eu precisava.

Apesar de não ter acontecido há tanto tempo assim, olhando para trás, o nosso primeiro beijo parece ter sido há séculos. As coisas eram tão… diferentes. Mais leves. Mais inocentes.

Era um fogo que acalmava e esquentava — não essa chama consumidora que agora existe entre nós.

Não esse “tudo ou nada”.

Lembro-me de esbarrar com ele no pub, após passar o dia inteiro procurando por Robert, o meu gato, pelo bairro. Eu provavelmente estava com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar por não tê-lo encontrado, quando Lockwood se aproximou, com uma garrafa de cerveja na mão, e disse, casualmente:

– Eu também choraria se tivesse aula de Política com aquela bruxa.

Dei uma risadinha triste e sem graça, esperando Emy trazer as nossas bebidas, mas ela estava muito ocupada conversando com o nosso amigo barman na outra ponta do balcão. Pelos gestos exagerados, provavelmente, falando mal dos outros frequentadores assíduos do pub.

Sam não se intimidou com a minha falta de resposta, apenas continuou ali parado, sua figura alta e imponente, nas roupas pretas de sempre, contrastando com o resto do ambiente. Dessa vez, sem o casaco, seus antebraços fortes estavam visíveis, as mangas do suéter puxadas até os cotovelos.

Ele apoiou a cerveja no balcão, ao meu lado, e eu senti o meu corpo esquentar com a ansiedade característica que a sua proximidade me causava. Ultimamente, era sempre assim.

Lockwood me olhava sem pressa, sem fazer alarde, mas com uma atenção tão intensa que parecia que o tempo ao meu redor desacelerava só para me torturar. Havia uma suavidade em seu olhar, quase uma mistura de curiosidade, apreciação e desejo.

O meu coração começou a bater tão rápido, que fiquei desconcertada.

– Perdi o meu gato. – falei, finalmente, querendo preencher o silêncio e quebrar a tensão explícita entre nós.

Era como uma linha tênue prestes a se romper a qualquer momento, mas que, por enquanto, nos mantinha em um estado de espera nervosa e elétrica.

– Vou encontrá-lo para você amanhã. – Sam disse, calmo, sem me perguntar mais nada ou exigir nenhuma explicação mais detalhada da situação.

Ele passou o polegar pela borda da garrafa antes de tomar um gole. Um silêncio confortável se instalou entre nós, quebrado apenas pela música ao fundo. Então, do nada:

– Você sabia que gatos enxergam cores diferentes de nós? – ele perguntou, sem tirar os olhos de mim.

Arqueei uma sobrancelha, surpresa com a mudança repentina de assunto.

– Não… mas eu deveria saber. Biologia é parte do meu curso, tecnicamente. – tentei acompanhar, curiosa.

– Eles veem menos tons de vermelho e verde, e percebem melhor o azul e o roxo. – explicou, com aquele tom sereno e envolvente. – Talvez por isso o Robert sempre pareça confuso com o tapete da sua varanda.

Soltei uma risadinha, genuína dessa vez.

– Isso explica algumas coisas. Talvez ele só esteja escondido porque finalmente se cansou da minha decoração.

– Ou talvez esteja numa crise existencial felina. – Lockwood completou, com um sorriso discreto nos lábios.

A leveza entre nós durou alguns segundos. E eu quase desejei que durasse mais. Era fácil conversar com ele quando a tensão não estava nos consumindo como agora.

– E você? O que anda estudando? – perguntei, tentando manter o clima.

– Estávamos discutindo trauma e memória na última aula. – respondeu, observando meu rosto com atenção. – Como o cérebro às vezes apaga eventos inteiros pra proteger a gente… ou finge esquecer só pra esconder do resto do corpo.

Engoli em seco.

– Parece… pesado.

– É. Mas é fascinante. – Ele inclinou a cabeça de leve. – Você gostaria. Tem algo artístico nessa tentativa do cérebro de recriar o real a partir dos pedaços.

– Como a pintura depois de uma tragédia.

– Exatamente.

Por um momento, ficamos ali, apenas nos olhando. A leveza da conversa deu lugar ao silêncio carregado de antes, agora ainda mais tenso por trás da proximidade.

Sam se aproximou. Sua presença emanava um tipo de energia que me atraía sem que eu soubesse exatamente o porquê. Ele sempre estava por perto, mas nunca tão próximo quanto agora, a centímetros de mim.

Tão sólido.

Tão real.

Apesar da adrenalina, não me movi.

Nossos olhares se encontraram em um instante, e o mundo ao redor pareceu se dissipar por um segundo. Ele estava ali, parado, com aquele olhar intenso, como se pudesse ver mais do que eu queria mostrar. Na verdade, como se pudesse ver exatamente tudo que eu queria esconder.

A música do bar agora era um mero plano de fundo, distante. Hot Blooded, de New Constellations — ironicamente perfeita para a trilha sonora do momento.

Os olhos de Sam eram profundos, impenetráveis, mas havia algo ali que me atraía de forma irresistível, algo em sua postura impecável, no seu controle sobre todas as situações, que me fazia desejá-lo profundamente.

E então, em um movimento sutil, Sam tocou a minha bochecha, me fazendo quase derreter por dentro com esse simples gesto. O contato, leve, foi o oposto do seu próximo movimento: retirar a cerveja da minha mão e colocá-la de volta no balcão.

Era impossível ignorar a tensão, o magnetismo que nos envolvia. Com um sorriso suave, ele se inclinou ligeiramente para frente, seus lábios absurdamente próximos aos meus, o ar carregado de uma promessa silenciosa.

Antes que eu pudesse dar qualquer resposta, Lockwood avançou, fechando a distância com uma firmeza, uma vontade, que me fez perder o fôlego. Me peguei retribuindo o beijo na mesma intensidade, perdendo todo o autocontrole que tinha me esforçado para manter durante as últimas semanas.

E ele pareceu aprovar, soltando um grunhido que me percorreu por inteira.

O beijo foi demorado e intenso, como se Sam estivesse, finalmente, liberando aquilo que ambos havíamos desejado em silêncio, como se o momento fosse a consequência de um longo caminho de aproximações, olhares furtivos e toques quase acidentais.

Mas agora não havia mais espaço para hesitação ou fingimento.

Senti uma corrente elétrica por todo o meu corpo, uma mistura de prazer e medo, como se cada parte de meu ser estivesse sendo puxada para ele de uma forma que me fazia esquecer até mesmo de respirar. De tudo que não fosse aquela necessidade urgente de tê-lo mais para mim. Mais perto. Mais firme. Por mais tempo.

O toque das mãos de Sam em minha pele parecia tanto uma carícia quanto um aperto, como se ele estivesse segurando algo que poderia escapar, mas que não queria largar. Foi ali, naquele instante, que todos os meus medos, os fantasmas do passado, os desejos não ditos, as dúvidas e inseguranças surgiram novamente, sem aviso.

Senti o calor da ansiedade, mas também a necessidade urgente de me perder naquele momento, de me entregar completamente. A química entre nós não era apenas física, era visceral, um fogo que queimava tanto as minhas boas quanto as minhas piores versões — aquelas que sempre tentei manter ocultas.

Pude sentir tudo o que ele também escondia em si, suas feridas e sua fome, suas expectativas e frustrações, como se aquele beijo fosse um portal que nos unisse em nossas partes mais cruas, mais autênticas. Havia algo selvagem em Sam, algo que ele mantinha preso e que, agora, parecia escapar sem qualquer remorso.

Agarrei os seus cabelos escuros, tentando respirar, mas ele se recusava a desgrudar os lábios dos meus, o gosto da cerveja compartilhada ainda em nossas bocas. Lockwood fez algo dentro de mim se contorcer ao me explorar com tanta intensidade. Ele me apertava contra si, uma mão no meu rosto e a outra na minha lombar.

O seu cheiro era embriagante, e senti calafrios quando Sam beijou também o meu maxilar, a minha orelha, a curva do meu pescoço… O seu corpo forte, firme e sólido parecendo se encaixar perfeitamente no meu.

Quando, finalmente, nos afastamos, senti um vazio inesperado. Como se parte de mim tivesse ficado naquela boca experiente, naquela língua habilidosa, naquele aperto faminto.

O meu vizinho não disse sequer uma palavra, apenas me observou com mais fascínio estampado nos olhos escuros.

E ainda assim, algo me dizia claramente que não haveria mais volta.

Cresci com o som suave das teclas do piano preenchendo a casa. Desde pequena, parecia que as notas saíam direto da minha alma, como se o instrumento fosse uma extensão natural de mim. Meus dedos dançavam pelas teclas com a leveza de quem já pertencia àquele mundo, e minha mãe, com os olhos brilhando de orgulho, sempre assistia das laterais — como se fosse uma espectadora privilegiada de uma obra de arte em constante evolução.

Eu me sentia especial. Talentosa.

O piano era mais do que uma paixão; era a forma como me conectava com o mundo — e com ela. Tocávamos juntas em tardes serenas de domingo, quando tudo parecia calmo. Mas quando a tragédia bateu à porta e minha mãe se foi, uma sombra se instalou em tudo. Não sei se foi ali que tudo começou a dar errado ou se sua ausência apenas mudou a forma como eu via as coisas.

Não sei se os problemas surgiram… ou se eu me tornei o próprio problema.

Talvez tenha sido um pouco dos dois.

O que antes era puro e prazeroso se tornou um peso. O piano, reflexo da nossa alegria e criatividade, virou uma lembrança dolorosa de tudo que perdi. De uma vida que parece ter existido há séculos. Do Nick em casa — me irritando e me divertindo na mesma medida —, do nosso cachorro salsicha, Junior, que fazia questão de acordar todo mundo até que alguém o levasse para passear; das refeições elaboradas da minha mãe; do bom humor mais frequente do nosso pai.

Depois que ela se foi, tudo isso desapareceu rapidamente. Como acordar de um sonho bom e sentir a realidade se instalar — cada vez mais dura. Junior também morreu. Nick saiu de casa para estudar em Londres. Meu pai parou de se importar — ou parou de fingir que se importava. Fui traída pelo meu ex-namorado, a única pessoa com quem achei que podia contar.

Por meses, os teclados ficaram em silêncio. Empoeirados. Como se o próprio instrumento também lamentasse.

Mas, de alguma forma, por algum motivo, me vejo sentada diante dele outra vez. A minha mão direita, hesitante, pressiona uma tecla. O som ecoa pela sala como uma porta que se entreabre. No início, tudo soa tenso, desajeitado — como se o piano tivesse me esquecido ou se tornado um estranho. Mas algo dentro de mim, talvez um sopro de coragem, me faz continuar.

Começo com músicas simples, aquelas que me lembram tempos felizes. Quando tudo parecia mais fácil.

E, aos poucos, redescubro o prazer de sentir as teclas sob os dedos, de respirar no ritmo da música. Cada nota é um passo contra o medo. Um pequeno ato de resistência à dor que insiste em me dominar — mesmo quando digo a mim mesma, talvez da forma errada, que está tudo sob controle.

O piano, que antes era símbolo de perda, começa a se tornar um meio de reencontro. Pela primeira vez em muito tempo, sinto que posso recuperar uma parte de mim que pensei ter desaparecido para sempre.

A luz suave da tarde entra pela janela e espalha-se pelas teclas como um convite ao movimento. Fecho os olhos. E, por um instante, permito-me apenas sentir. O piano não é mais um fardo. É uma forma de expressão. Uma válvula de escape. As notas se entrelaçam numa melodia doce e vulnerável. Cada som um suspiro de libertação.

“Patience”, do The Lumineers, sempre foi a minha preferida.

Enquanto toco, lembro que não preciso ser perfeita para ser suficiente — nem para mim mesma. Não preciso controlar tudo. As falhas, as imperfeições, fazem parte da beleza. E, assim, vou me libertando da prisão invisível que construí ao longo dos anos. Cada nota é um pequeno ato de coragem. De aceitação. As emoções guardadas no fundo de uma gaveta imaginária — os medos, as inseguranças — começam a se dissolver. E eu deixo que se vão, sem apego. Como se pudesse respirar de novo.

Quando termino, o silêncio que vem depois é reconfortante. Mesmo com as lágrimas que escorrem silenciosas pelas minhas bochechas e pingam nas teclas.

Não há mais busca por controle. Só o prazer de ser. De sentir. E, finalmente, de me permitir ser livre.

De sentir. E deixar ir.

Estou prestes a tocar outra música quando meu celular vibra com uma mensagem de Atlas:

“Quer sair comigo ou vai me fazer inventar uma desculpa mais criativa do que da última vez?”

Sorrio.