Vizinhos
12 Lockwood
"O! never say that I was false of heart,
Though absence seem’d my flame to qualify,
As easy might I from my self depart
As from my soul which in thy breast doth lie:
That is my home of love: if I have ranged,
Like him that travels, I return again;
Just to the time, not with the time exchanged,
So that myself bring water for my stain.
Never believe though in my nature reigned,
All frailties that besiege all kinds of blood,
That it could so preposterously be stained,
To leave for nothing all thy sum of good;
For nothing this wide universe I call,
Save thou, my rose, in it thou art my all."
– Sonnet CIX, William Shakespeare.
Eu tentei partir.
Mas deixar você seria o mesmo que deixar a única parte de mim que ainda pulsa.
Andei por lugares, toquei outras bocas, fingi novas peles — e nenhuma era casa.
Você é. Sempre foi.
E nada do que eu faça apaga isso.
Lockwood
Manter distância do problema — e, ao mesmo tempo, me manter perto o suficiente para respirar o mesmo ar — tem se tornado insuportavelmente difícil. Principalmente quando o problema tem lábios que imploram por pecado e seios que desafiam toda a lógica.
Mas seria covardia reduzir Clary a isso.
Há algo nela que vai além da carne. Uma presença que silencia o caos dentro de mim. Ela é o centro involuntário da minha paz. A ausência dela escancara um vazio antigo, um espaço que ninguém mais consegue ocupar. E a cada dia longe, a lacuna cresce. Como se a parte que encontrei nela fosse a única parte minha que faz sentido.
Antes de Clary, minha vida era um ciclo de pequenas guerras — todas travadas dentro de mim. Sabia que algo estava errado, mas não sabia o quê. Então ela apareceu. E, com aquele olhar de quem já sobreviveu a muita coisa sem dizer uma palavra, me desmontou.
A paz dela não é silenciosa. É resistente. Firme. Uma paz que desafia a tempestade. Até a minha.
Quando estou com ela, vejo meus próprios cacos encontrarem encaixe. Como se as nossas dores se reconhecessem, se entrelaçassem. Ela me fez acreditar que existe redenção nas coisas reais, nas imperfeições, no que sangra.
Mesmo sem poder confessar tudo, sei que ela me vê. Pela inteligência, pela resistência. Pela solidão que ela camufla tão bem. E, talvez, por isso mesmo, eu só queira protegê-la. A necessidade de blindá-la de tudo é visceral. Instintiva. Quase animal.
Quero envolvê-la. Esconder aquele corpo frágil — que de frágil não tem nada — nos meus braços. E, ao mesmo tempo, quero fodê-la até que ela esqueça o nome.
Esse contraste me enlouquece. Porque Clary fala absurdos com aquela boca cor de pecado, como se desafiasse o próprio controle que me esforço tanto pra manter. Aquela cena na banheira — ainda que tenha me destroçado por dentro — me fez lembrar do motivo da minha escolha. Aaron. O acordo. A maldição.
Prefiro a tortura de amá-la em silêncio do que o risco de ser a causa da ruína dela. Mesmo que isso a faça me odiar. Clary me odiar torna as coisas… mais fáceis. Nunca fáceis o suficiente, mas menos impossíveis.
Aaron jamais nos deixaria em paz.
E, honestamente, não faço ideia do que ele seria capaz. Não quero descobrir.
Quando vejo Emily nos corredores da faculdade, me aproximo como quem não quer nada — mas a pergunta já está me queimando por dentro.
— Você pode, pelo menos, me dizer o que aconteceu com o rosto da Clary?
Ela me olha com um desprezo que quase me dá vontade de rir. Caminhamos lado a lado. O silêncio entre nós vibra.
— O gostoso com quem ela tava transando pegou pesado. — ela diz, entediada.
A mentira é tão grotesca que parece uma provocação. O sangue ferve. Não pelo tapa — mas pela imagem. Clary com outro. A ideia dela em mãos que não são minhas.
— Sei que você me odeia, mas… eu me importo com ela. — digo, com a voz baixa, seca. — Se você me disser a verdade, prometo me afastar.
Mentira.
Emily para. Diante da sala. Livros apertados contra o peito.
— Ela escorregou. — solta, irritada. — E por que, exatamente, você acha que aconteceu alguma coisa?
— Porque conheço Clarissa melhor do que você imagina. — respondo, frio.
— Não conhece. Se conhecesse, não teria feito o que fez. — rebate. — Você acha que é o único que se importa, mas só aparece quando já tá tudo fodido. Acha que é algum tipo de herói trágico?
— Eu nunca disse isso. — respondo, travando o maxilar. — Só sei reconhecer a dor quando vejo. E eu vi.
Ela me encara, os olhos brilhando, duros.
— E o que você vai fazer com isso, Sam? Vai bancar o justiceiro? Vai resolver com mais violência? Porque, adivinha — ela já vive cercada disso. Mais uma explosão sua e ela desmorona.
— Eu não sou o problema aqui. — digo, tentando manter o controle. — O problema tá dentro daquela casa. E você sabe disso. Só tá fingindo que não.
— Eu não tô fingindo! Eu convivo com isso há anos! — a voz dela se eleva. — Sabe quantas vezes eu quis denunciar aquele homem? Quantas vezes eu pensei em tirar a Clary de lá? Mas ela nunca deixa. Ela normaliza. Ela protege. Como você. Só que você protege do jeito errado.
— E qual é o jeito certo, então?
Emily hesita. Respira fundo.
— Ficar. Ouvir. Não assustar mais ainda. Ser abrigo, não tempestade.
Fico em silêncio. Ela não tá errada. Mas isso não torna mais fácil.
— Eu sei como é crescer com medo. — digo, baixo. — Acordar com o som de portas batendo, andar nas pontas dos pés, sempre esperando o momento em que tudo vai explodir. Não é um palpite. É memória.
Ela me olha, surpresa.
Emily amolece. Um pouco. A tensão entre nós muda de tom.
— Você parece ela às vezes. — diz, sem ironia. — Esse olhar de quem não sabe se quer colo ou distância.
— Eu quero ela. Só isso. Mas querer não significa poder.
Silêncio.
— Se você quebrar ela, eu juro que quebro você. — ela diz, finalmente.
— Pode tentar. Mas já tô em pedaços faz tempo.
— Foda-se.
— Vai pra tua aula.
Emily solta um suspiro raivoso e entra na sala sem olhar pra trás.
Meus dedos tremem quando saio para o estacionamento. O cigarro é uma desculpa barata para não explodir. Fumaça não substitui a raiva. Só disfarça.
A imagem dela ferida, encolhida em algum canto da casa, me dilacera. Imagino o cheiro do sangue. O som do silêncio. O medo. Aqueles olhos dourados sem brilho.
E tudo o que eu quero é fazer esse desgraçado pagar.
Mas em vez disso, entro no carro. E dirijo até o pub.
Preciso de algo mais forte que nicotina.
Cada vez que a imagem do sofrimento de Clary atravessa a minha mente, meu corpo se enche de uma tensão brutal, como se o ódio estivesse prestes a transbordar. Imagino os momentos em que ela ficou sozinha, impotente, com medo — e isso me rasga por dentro. Sinto a angústia dela como se fosse minha. Cada golpe que imagino ela levando é um golpe que eu próprio recebo.
O que mais me corrói é a impotência. Saber que não posso agir, que não posso entrar naquela cena e impedir o que está acontecendo. Me tortura pensar que a dor dela passa despercebida. Algo dentro de mim se quebra toda vez que a vejo se fechando, silenciando tudo o que vive — como se aquilo fosse normal, como se ela tivesse aprendido a aceitar.
Essa visão me arrasta para um abismo de raiva, e nem exalar fumaça é suficiente para conter o que me queima por dentro. Não chega nem perto de aliviar.
Imagino o pai dela. Aquele homem repulsivo. A frieza nos olhos, o poder nas mãos. Charles Blackwell sempre me pareceu uma criatura cruel, mas nunca imaginei que sua crueldade transbordasse para dentro da própria casa. Para a própria filha.
Sinto o peso das minhas limitações como uma âncora me puxando para o fundo. O medo de fazer algo errado. De colocar Clary em ainda mais risco. De ser parte do problema.
E então fico ali, me corroendo, imaginando o que ela deve estar passando — ou pior, o que já passou. Tentando mensurar uma dor que me é insuportável até mesmo em pensamento. A raiva me consome, como se cada lembrança fosse uma lâmina afiada cortando minha alma.
Filho da puta. Desgraçado. Eu vou matá-lo.
Depois de tudo, ele merece morrer.
Mas, em vez disso, entro no carro. Dirijo até o pub como um viciado atrás da próxima dose. Preciso de algo forte. Algo que dilua essa raiva que ameaça me afogar.
O lugar está abafado, com o cheiro de álcool, suor e fumaça pairando no ar. Conversas, risadas, música — tudo soa distante. Um pano de fundo irrelevante para a tempestade que me atravessa.
Me sento no balcão. Músculos tensionados, mandíbula cerrada, como se eu fosse explodir a qualquer segundo. A pressão é tanta que respirar parece um esforço inútil. Peço uma cerveja.
E então, como se o universo decidisse testar meus limites, ouço uma voz atrás de mim.
— Lockwood! Não parece muito feliz. Ela já começou a te dar nos nervos? — o ex da Clary bate no meu ombro, a voz impregnada de sarcasmo.
Peter.
Nos conhecemos da residência. Um ano mais novo. E dez vezes mais idiota. Está acompanhado de dois amigos que o observam de longe, se divertindo com a provocação.
— Não tô num bom dia. — começo, com a voz baixa, apoiado no balcão. Dou um gole na cerveja. — E tô precisando aliviar a tensão. Se eu fosse você, não mexeria comigo.
Um aviso claro.
Ele sorri. Aqueles dentes exageradamente brancos. A sobrancelha arqueada num gesto que pede um soco.
— Clarissa não tá te aliviando o suficiente, é isso? — zomba. — Sei como é. Todo mundo me julga por ter comido outras, mas ninguém sabe o que era aguentar os lamúrios dela. Meses ouvindo a mesma ladainha, depois que a mãe…
Ele não termina.
Minha respiração pesa. A raiva não explode — ela incendeia.
Me lanço pra cima dele, os punhos cerrados, tomado por uma fúria cega que precisava sair de algum jeito.
O bar vira um borrão. Os corpos batendo no chão de madeira, os gritos, os risos, os empurrões. Tudo distante. Tudo irrelevante.
Só existe o impacto dos meus golpes. O suor escorrendo na testa. O calor no rosto. A raiva me conduzindo.
Não penso. Ajo.
Cada soco descarrega um pouco do caos dentro de mim. Cada grito é uma válvula de escape.
Já estou quase apagando Peter quando um dos amigos dele me acerta um chute nas costelas e me arranca de cima dele.
Mesmo isso é melhor do que o silêncio.
Mesmo apanhar é melhor do que não sentir nada.
O outro me agarra pela camisa, socando meu rosto. Sinto o sangue quente escorrer, mas não há dor — só adrenalina.
Empurro um deles contra o balcão, acerto dois socos. O som do osso quebrando me dá certo alívio.
Outro me prende num mata-leão. Peter se levanta, me acerta no abdômen.
Perco o ar por um segundo. Grunho.
Me solto, cotovelo no rosto de quem me segurava. Avanço em Peter, empurro-o contra uma mesa.
— Clarissa bate mais forte que você. — cuspo, pronto para acabar com ele.
— Já chega! Saiam do meu pub agora! — a mulher mais velha por trás do balcão, com cara de quem já viu de tudo, aparece com um taco de beisebol nas mãos. — Você fica. Só sai depois que eles forem embora. Não quero briga na rua também.
Peter está sangrando. O nariz torto, o canto da boca rachado, uma expressão entre o choque e o orgulho ferido. E mesmo assim, ele ainda tenta sustentar aquele ar de superioridade, como se tivesse vencido alguma coisa. Ele cospe no chão e ri. Ríspido. Quase provocativo.
— Você é patético, Lockwood.
Fico parado. Ainda ofegante. Sinto o gosto metálico na boca, o calor da adrenalina pulsando sob a pele. Mas meus olhos não saem dele.
— Não vim atrás de você — digo, e é verdade. Ele foi só mais uma consequência. — Apesar de que olhar pra sua cara já me dá vontade de te enfiar a porrada, Ashford… E quando tu abre a boca, aí eu lembro que merecia o dobro.
Peter dá um passo à frente, mancando como se estivesse tentando disfarçar. Mas eu vejo. Eu noto cada microexpressão, cada hesitação. Ele fala alto, talvez para convencer os outros — ou a si mesmo.
— Você é mesmo um idiota. — ele cospe no chão, limpando a boca com a manga. — Sabe o que me impressiona? É a sua cara de pau de aparecer todo estragado na frente dela como se fosse o herói fodido da história.
Meus punhos se fecham de novo. Mas não avanço. Ainda não.
— Não fode. Você não sabe de nada, imbecil. Mal consegue escrever o próprio nome em um prontuário.
— Eu sei o suficiente. Sei que ela te quer do jeito mais triste possível. — A voz dele fica mais firme, mais amarga. — E você se aproveita disso.
A menção a Clary me desfaz por dentro. Mas ele continua.
— Ela não é pra você. Nunca foi.
Respiro fundo. Um passo. Só um. E ele já recua quase imperceptivelmente.
— E ela é pra você, então? Porque o desprezo que vejo nos olhos de Clary quando você chega… parece mais com uma resposta de estresse pós-traumático do que qualquer resquício de afeto.
— Pelo menos, eu não sou doente, Lockwood. — Ele cospe as palavras. — Eu não olho pra ela como se fosse minha maldita redenção. Você olha. Você precisa dela pra não desabar. Isso não é amor. É um vício. É doença.
— Cuidado com o que fala, filho da puta — minha voz sai baixa, mas cortante.
Ele sorri. O rosto inchado, o olho ficando roxo.
Silêncio.
— Escuta bem. Se você aparecer no ginásio de novo… eu te coloco pra fora. Com as próprias mãos. Tá ouvindo?
Não me contenho. Rio. Um riso lento, venenoso, que sobe pela garganta feito fumaça.
Quem esse merda pensa que é?
Quando estou prestes a avançar novamente, a voz rouca da senhora com o taco de beisebol na mão nos interrompe:
— Ô, seus dois filhos da puta! Acham que tão onde? Em filme de briga de rua?
Viramos para ela ao mesmo tempo. A dona do pub — uma mulher com mais idade e zero paciência — aponta para a porta com a mão no quadril e uma expressão muito insatisfeita.
— Já tão grandinhos demais pra sair se esmurrando por causa de garota. E vocês dois? Bonitões imprestáveis? Vão ficar aí olhando? — Ela aponta para os amigos de Peter. — Se quiserem se matar, vão fazer isso longe do meu bar. Se sujarem minha porta de sangue de novo, eu mesma enfio os dois no lixo, entenderam?
Peter abaixa os olhos. Eu só solto um suspiro e viro o rosto, sentindo um gosto de ferro na língua e o nome dela ainda latejando dentro do peito.
Me afasto, com as mãos erguidas, sinal de rendição. Respiração acelerada. Batimentos no limite.
Mas, por dentro, uma pontinha de satisfação. Eles estão ensanguentados, ofegantes.
E só então percebo que sou o quarto otário nessa história.
Solto um gemido ao me sentar de novo na banqueta, a dor nas costelas gritando quando levo a cerveja à boca. Os lábios partidos queimam ao toque do álcool.
Vejo os três idiotas saindo do pub.
E, quando o silêncio volta, é ela quem retorna à minha mente.
Clary.
A vontade de vê-la agora é tão intensa quanto a raiva que me consumia minutos atrás.
Termino a cerveja e sigo pra casa, limpando o rosto com a manga do suéter escuro. Não o suficiente pra evitar olhares estranhos quando entro no carro.
No banco do carona, o exemplar de Os Sofrimentos do Jovem Werther repousa desde que terminei de ler. Peguei para dar a ela. Clary adora os clássicos.
Pego uma caneta no porta-luvas e escrevo na primeira página:
“Não é tão bom quanto uma visita ao Museu de Arte, mas acho que você vai gostar.”
Não assino. Ela vai entender.
Dirijo até sua casa. Estaciono em frente.
O caminho até a porta principal é ladeado por uma cerca de ferro fundido, decorada com arabescos simples que, com o tempo, ganharam um toque de melancolia. O jardim, antes florido, agora dá lugar a arbustos resistentes, marcados pelo início do inverno. Um banco de ferro descascado repousa sob uma árvore nua, como se fosse o único observador da estação.
As janelas altas têm cortinas pesadas que se movem com a brisa gélida.
Me abaixo, deixo o livro sobre o capacho.
E, ao me levantar, um movimento através da janela da sala me paralisa.
Ela está em casa.
Me aproximo devagar, como se algo invisível me puxasse.
E então a vejo.
Clary está sentada ao piano, os dedos deslizando pelas teclas com uma delicadeza que me tira o fôlego. Mesmo abafada pelo vidro espesso, a melodia parece me atravessar. Como se fosse uma lembrança de outra vida.
Ou uma promessa que nunca ouvi tão claramente antes.
A luz suave da tarde escorre pelos fios ruivos de Clary, que caem em ondas delicadas sobre os ombros. Posso ver cada mecha cintilando, como se a própria essência dela fosse feita de uma beleza etérea, impossível de tocar.
Seus olhos estão fechados enquanto ela toca, e sinto um aperto no peito ao tentar imaginar o que se passa em sua mente. Seu corpo esguio, perfeito em cada linha e curva, se move com a leveza de quem não apenas domina o piano — mas se confunde com a própria melodia.
Fico ali, imóvel, absorvendo cada movimento com uma intensidade que beira a dor.
É como se Clary fosse um sonho que eu nunca teria coragem de quebrar.
Uma visão distante demais para alcançar, e ainda assim, tão perto — tão real — através da frágil barreira do vidro.
Até que ela me vê.
Ela se levanta de repente, os dedos abandonando o piano com um susto silencioso. Seus passos são leves, apressados. Clary se aproxima da janela, os olhos dourados fixos em mim com uma intensidade impossível de ignorar.
Sem pensar, ela a abre. O vento frio invade a sala e acerta seu rosto corado, deixando seus cabelos em redemoinho ao redor.
A voz dela vem firme, chocada:
— O que aconteceu com o seu rosto?
— Só vim deixar um livro. — respondo, só então me dando conta do estado em que estou.
— Sam! — ela exclama, justo quando me viro para ir embora.
O som do meu nome em seus lábios me paralisa.
— Entra. — ela diz, quase num sussurro, abrindo a porta da frente.
Meu coração afunda.
Balanço a cabeça em negativa.
Nós dois sabemos que isso é uma péssima ideia — embora por razões bem diferentes.
— Estou bem. — afirmo. E, em parte, é verdade.
Mesmo que parte de mim deseje, com força, ser cuidado por ela — sei que a maioria do sangue nem é meu.
Vão sobrar alguns cortes, talvez uns hematomas.
Nada que se compare à vontade insana de tocá-la.
Ela dá um passo à frente. Seus cabelos ondulam com o vento, e há algo em seu rosto — uma preocupação genuína, delicada — que faz seus olhos dourados parecerem ainda mais profundos.
Há algo vulnerável no modo como ela me olha. Algo que escancara sua tentativa de se conectar comigo.
Com a minha dor.
E eu entendo.
Não preciso perguntar por quê.
— Por favor, entra logo. Tá frio. — ela murmura, se abaixando para pegar o livro do capacho.
Ela usa uma calça de moletom escura, simples, confortável. Ainda assim, o tecido molda seu corpo com perfeição.
A camisa branca é de alguma banda esquecida, o logo já desbotado. Mas, nela, até isso parece ter charme.
Há um contraste hipnotizante entre o desleixo casual e o magnetismo natural do seu corpo.
Clary é feita de sutilezas — curvas discretas, gestos suaves, beleza que escorre de dentro pra fora sem que ela sequer perceba.
Vejo seus mamilos endurecidos sob o tecido fino da camiseta, e um arrepio de desejo me atravessa como uma corrente elétrica.
Faz tanto tempo.
Tanto.
Parece ter se passado uma vida desde a última vez em que a tive por perto. Desde a última vez que pude chamá-la de minha.
— Estou bem. — repito, mais seco agora. Limpo a garganta, forçando as pernas a se moverem.
Dou as costas.
Cruzo a rua.
Para casa.
Não olho para trás.
Não quero ver a expressão no rosto dela.
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