Vizinhos

13 Clarissa


“Mine eye and heart are at a mortal war,

How to divide the conquest of thy sight;”

– Sonnet XLVI, William Shakespeare


Às vezes, sinto que meu corpo caminha para um lado e minha alma para outro.

Como se o que eu vejo e o que eu sinto nunca concordassem entre si.



Clary


Vê-lo ali parado, me observando através da janela enquanto eu tocava piano, mexeu comigo de um jeito que não esperava. O rosto de Sam — lindo como sempre — estava machucado, com a lateral marcada por sangue seco escorrido do corte na sobrancelha. Sua boca também estava partida, e um hematoma começava a se formar abaixo de um dos olhos.

Senti o coração acelerar, impulsivo, querendo correr até ele para ajudá-lo. Querendo confortá-lo. Cuidar dos seus ferimentos com uma urgência que mal reconheci em mim. Eu não deveria sentir esse aperto no peito, essa vontade desesperada de ser a pessoa que ele procura quando tudo desmorona. Mas, mesmo assim, não consigo afastar esses sentimentos. Eles estão aqui, como uma tempestade silenciosa dentro de mim.

Por mais que eu tente negar, a verdade é que Sam me afeta de uma forma que não sei controlar.

A sensação de impotência, de não poder fazer nada por ele, deixa um gosto amargo na boca enquanto o observo se afastar, sem sequer me olhar de verdade.

Seguro o livro nas mãos, apertando-o com força. O toque suave da capa de Os Sofrimentos do Jovem Werther é quase reconfortante — como se fosse um pedaço dele, um presente deixado para mim. A capa clássica, com detalhes dourados, é linda.

“Não é tão bom quanto uma visita ao Museu de Arte, mas acho que você vai gostar.”

Foi o que Sam escreveu na primeira página. Sua letra confusa, inconfundível para mim. Apesar de tudo, não consigo evitar um sorriso.

Me jogo no sofá da sala. Enquanto folheio as páginas, minha mente vagueia entre as palavras e os sentimentos de Werther, tentando espelhar minhas próprias dores na intensidade dele. Há algo de profundamente íntimo na maneira como ele se entrega à paixão e à tristeza — e não posso deixar de pensar que, talvez, Sam queira me dizer algo com as angústias de Werther.

Ou talvez eu esteja só inventando. Talvez ele tenha apenas gostado do livro.

Sinto uma ansiedade leve, um tipo de expectativa que mistura o prazer da descoberta com o medo de encarar o que talvez eu ainda não esteja pronta para entender. Mas, ao mesmo tempo, o gesto é doce. Quase melancólico. O livro é um elo, uma ponte invisível entre nós. Uma forma silenciosa de compartilhar sentimentos que não precisam ser ditos.

Será que, de alguma maneira, Sam está tentando dizer algo sobre si mesmo? Ou sobre a forma como me vê? É como se o presente fosse uma metáfora. Um pequeno mistério envolto em papel e palavras. E sinto que, ao mergulhar nas páginas, talvez esteja desvendando algo do próprio coração dele.

Mais tarde, enquanto me arrumo para jantar com Atlas, não consigo tirar isso da cabeça.

Me encaro no espelho do quarto antes de sair: o vestido preto de veludo, com seu toque luxuoso e sedoso, abraça minhas curvas com uma perfeição quase irreal, destacando minha silhueta de forma elegante e sensual. A saia curta e rodada dá um movimento quase teatral — como se eu estivesse pronta para dançar ou fazer a gravidade se curvar ao meu charme.

As meias-calças pretas, opacas, adicionam um toque de mistério, enquanto o salto vermelho-vinho dá um contraste audacioso e sofisticado, combinando com meus lábios. Meus cabelos caem em ondas ruivas sobre os ombros pálidos, salpicados de sardas. Me sinto sexy. Sofisticada. Exatamente como pretendia.

O restaurante tem um ar sofisticado, com luzes baixas, velas acesas sobre cada mesa e uma trilha instrumental que preenche o silêncio entre as conversas. As paredes são cobertas por obras contemporâneas que fingem ter mais significado do que realmente têm, e o garçom nos trata como se fôssemos importantes. Atlas parece à vontade nesse cenário. Sorri para todos, elogia o ambiente, comenta o vinho com a segurança de quem já leu o rótulo antes.

Atlas parece confortável. E bonito. Ele elogia o lugar, comenta o cardápio, faz piadas sobre a pronúncia dos pratos em francês.

— Não sei se fico mais perdido com o sotaque do garçom ou com esse menu pretensioso — ele diz, rindo.

Eu rio de leve, educadamente. Ele é simpático. Atencioso. Inteligente, até. Mas tudo nele soa limpo demais. Calculado demais. Como se estivesse se esforçando para criar o clima ideal de um encontro, mesmo que nada nele pareça espontâneo.

— O vinho está bom? — ele pergunta.

— Está, sim. Suave — respondo, antes mesmo de provar.

Ele me observa como se esperasse mais da resposta, mas apenas sorri e volta a falar sobre um livro que está lendo. Tento prestar atenção. De verdade. Mas minha mente divaga. A imagem de Sam volta como uma batida fora do tempo — o sangue seco na sobrancelha, o olhar carregado, a voz rouca. A forma como me olhou, parado diante da janela, como se eu fosse a única coisa que ainda fazia sentido no mundo dele.

Atlas continua falando, agora sobre arte moderna, mas tudo que ouço é um ruído abafado. Tento sorrir nos momentos certos. Tento parecer presente. Mas cada segundo parece mais difícil.

— E você? Tem pintado ultimamente? — ele pergunta, gentil.

— Um pouco… menos do que gostaria — respondo, mexendo distraída na borda da taça.

Ele concorda com a cabeça, faz um comentário sobre inspiração e rotina, algo que normalmente me interessaria. Mas há algo em sua fala que soa decorado. Como se ele soubesse o que dizer para agradar — e dissesse mesmo assim, sem acreditar de verdade.

— Você está linda hoje — ele diz, depois de uma breve pausa.

Agradeço com um sorriso discreto, mas minha pele não reage. Nenhum arrepio. Nenhum calor. Nada.

É como se tudo estivesse sendo visto de longe. Como se eu estivesse assistindo a mim mesma sentada àquela mesa com um estranho que quer muito parecer íntimo. E, por mais que eu tente, não consigo sentir absolutamente nada.

— Eu nunca sei se devo fingir que entendi ou só apontar qualquer coisa no cardápio — ele diz, rindo, enquanto observa a lista com o cenho levemente franzido. — Acho que acabei de pedir algo que inclui fígado de pato.

— Foie gras? — pergunto, tentando soar casual.

— Isso mesmo. Soa chique, mas parece nojento.

— É nojento — comento, e ele ri outra vez, satisfeito.

Acho que esse é o problema. Atlas parece satisfeito com qualquer resposta. Com qualquer versão de mim que eu ofereça. E por algum motivo, isso me incomoda mais do que deveria.

— E você? Vai de quê?

— Ainda não sei. Talvez o peixe. — Minto. Já escolhi, mas não tenho energia pra discutir comida.

— Boa escolha. Peixes são subestimados — ele diz, abrindo o guardanapo sobre as pernas com elegância.

A conversa segue, leve demais. Ele fala sobre um podcast que está ouvindo, sobre um documentário que assistiu recentemente. Fala bem. Fala certo. Mas tudo em Atlas parece vir de um lugar muito bem ensaiado.

— Eu vi que o museu vai abrir uma exposição nova na próxima semana — ele comenta. — Achei a sua cara. Pintores do século XIX com uma pegada meio romântica. Você deveria ir.

— Talvez eu vá — respondo, sem muito entusiasmo.

— Eu posso te acompanhar, se quiser.

Sorrio por educação, mas não confirmo nada. Ele percebe, mas não insiste.

— Você está distante hoje. Tudo bem?

Levanto os olhos, surpresa com a pergunta. Ele me observa com um olhar gentil, genuinamente interessado.

— Estou, sim. Só um pouco cansada — digo, evitando a verdade. Porque a verdade é que eu não estou aqui. Ou, pelo menos, não por inteiro.

— Posso te distrair um pouco, se quiser. Posso contar alguma história absurda da minha infância — ele sorri, brincando. — Uma vez me tranquei dentro de uma máquina de lavar. Longa história.

— Essa eu quero ouvir.

Ele começa a contar, com detalhes e pausas estratégicas. Ele sabe entreter. Tem carisma. E eu me esforço para corresponder. Mas, mesmo enquanto rio da história ridícula, há um ruído constante por dentro. Um nome que não consigo calar.

Sam.

O jeito como ele me olha, como se me enxergasse sem esforço. O silêncio dele pesa mais do que qualquer riso.

— Você está com esse olhar… — Atlas comenta de repente, recostando na cadeira. — Como se estivesse em outro lugar. Posso perguntar onde?

Minha taça de vinho ainda está meio cheia. Giro o líquido com cuidado, sem encará-lo.

— Acho que estou só… distraída. Tem muita coisa na minha cabeça ultimamente.

Ele assente, compreensivo.

— Eu entendo. Mas sabe, Clarissa… pode confiar em mim. Se quiser falar, qualquer coisa, eu tô aqui. De verdade.

Levanto o rosto. O olhar dele é sincero. E isso quase me faz sentir pior.

— Obrigada — murmuro.

Atlas sorri e volta ao cardápio.

— Bom, descartando o fígado de pato, vou de risoto. O mais seguro.

— Corajoso da sua parte achar que risoto é sempre seguro.

— Ok, pode ser perigoso também — ele admite, rindo. — Mas pelo menos não tem partes internas de animais.

Ele tenta. Eu tento. Mas tudo parece delicadamente fora do lugar. Como uma peça de cristal sobre uma superfície instável. Bonita, bem posicionada, mas à beira de quebrar.

Depois da sobremesa, o garçom retira os pratos com eficiência ensaiada, e Atlas recosta levemente na cadeira. Ele observa meu rosto com uma calma que parece estudada, como se calculasse o momento certo para dizer o que quer.

— Está tarde, mas… ainda é cedo demais pra terminar a noite — ele comenta, casual, com os dedos deslizando pelo aro da taça de vinho. — Se quiser, a gente pode passar lá em casa. Tenho um vinho melhor que esse. E uma playlist decente, prometo.

Dou um sorriso educado, mexendo na pulseira do pulso como se ela tivesse ficado desconfortável de repente.

— Acho que vou pra casa. Estou cansada. Semana longa.

— Claro, claro — ele diz rápido, mas o sorriso dele não desarma completamente. — Só pensei que poderia ser bom relaxar um pouco. Nada demais. Só… conversar.

Assinto, mas não respondo. Evito o olhar dele por alguns segundos, dobrando o guardanapo com cuidado no colo. Há algo na forma como ele insiste, ainda que sutil, que me dá a sensação de estar sendo empurrada com gentileza para um lugar onde não quero estar.

— Talvez outro dia — digo, mantendo o tom leve, quase despreocupado. — Hoje eu só quero minha cama e um banho quente.

Atlas ri, mas não há humor de verdade no som.

— Justo. Mas eu sou mais divertido que uma banheira, aposto.

O comentário é brincalhão, quase bobo, mas por um segundo algo no sorriso dele parece menos espontâneo. Um brilho estranho passa pelo olhar — rápido demais pra decifrar, mas suficiente pra me deixar alerta.

— Duvido — respondo, tentando quebrar o clima, pegando a bolsa no encosto da cadeira. — Minha banheira tem um histórico excelente.

Ele se levanta junto comigo, ajeitando o blazer. Ainda está sorrindo, mas o silêncio entre nós parece diferente agora. Menos leve.

— Eu te levo até em casa, se quiser — ele oferece.

— Prefiro caminhar um pouco — minto. — A noite está bonita.

Atlas hesita, apenas por um segundo. Mas é o suficiente para me deixar com a sensação de que ele não gosta de ouvir “não”.

— Tudo bem — ele cede, enfim. — Só me avisa quando chegar. Eu me preocupo.

— Pode deixar.

Nos despedimos com um beijo leve no rosto. E mesmo o toque breve parece durar tempo demais.

Enquanto caminho pela rua, o salto ecoando no calçamento úmido, percebo que minha pele continua em silêncio. Nenhum arrepio. Nenhuma vontade de voltar atrás.

A única coisa que sinto é um alívio quieto. Como se tivesse me afastado de algo que ainda não sei nomear — mas que, por algum motivo, me deixa inquieta.

“Por favor, me diga que temos algum lugar pra beber hoje”, digito pra Emy, rezando por um alívio rápido.

“Deu sorte. Te pego em 30 minutos”, ela responde. Um sorriso escapa dos meus lábios sem que eu consiga impedir.



(…)


A Motion parece um lugar fora do tempo. Como se, ao atravessar a porta, a realidade ficasse suspensa do lado de fora. A entrada não chama atenção, nada de glamour — na verdade, é meio escondida, entre docks e armazéns numa zona industrial. Mas talvez esse seja justamente o charme: parece um segredo, um recanto subterrâneo guardado no coração da cidade.

Passamos por uma rápida triagem de segurança e recebemos um selo no pulso. Um corredor escuro nos engole. Luzes de néon suaves e grafites começam a surgir nas paredes, criando um caminho torto, quase psicodélico, enquanto a batida da música vai crescendo, cada vez mais próxima, mais pulsante.

Quando entramos no salão principal, a transformação é imediata. O teto é alto, as paredes de tijolos expostos misturam o rústico ao industrial, e o som… o som parece vir de todos os lados, vibrando sob a pele. As luzes piscam em sincronia com a música — flashes vermelhos, azuis, roxos, cortando a fumaça que flutua no ar. Um espetáculo sensorial.

A multidão é diversa, frenética, livre. Ninguém parece se importar com nada além da batida. Me sinto um pouco deslocada com meu vestidinho de veludo e salto vermelho, mas rapidamente percebo que ninguém repara. E, se repara, não liga.

Apesar do som ensurdecedor, a voz da Emy me alcança cheia de xingamentos abafados. Ela aponta irritada pra alguma direção, e meu estômago afunda antes mesmo de olhar. Já sei quem é.

Lockwood.

Está jogado num dos sofás do lounge, afastado da pista, parecendo alheio ao caos em volta. Seus olhos me encontram no instante em que os meus o encontram. O olhar é duro. Mas não desvia. Vagueia lentamente pelas minhas pernas cobertas de meia-calça, e eu sinto a pele queimar sob aquele exame frio, quase cruel.

Ao lado dele, alguns conhecidos da faculdade e três garotas. Uma loira, especialmente sorridente, ri alto e toca o ombro dele com intimidade demais. Sam não reage. Nem sequer olha pra ela. Parece entediado, anestesiado, como se estivesse em outro lugar. Em outra noite.

As marcas da briga ainda estão visíveis — olho roxo, lábio cortado. Cruelmente bonito. Um lembrete de que ele carrega a violência no corpo.

Viro o rosto.

– Vamos beber alguma coisa enquanto esperamos os seus nerds? – proponho, tentando soar leve, mesmo com o peito apertado.

Emy assente, distraída, e seguimos até o bar.

O bar da Motion é um espetáculo à parte. Fica num canto do salão, com balcão de metal e madeira desgastada, iluminado por néons que oscilam entre o púrpura e o vermelho. É caótico e vibrante, mas de um jeito acolhedor, quase íntimo.

– Dois shots pra começar – sugere Emy.

– Cada uma – complemento, precisando urgentemente daquela sensação de “foda-se” que só o álcool traz.

Ela ergue as sobrancelhas, mas concorda. Brindamos e viramos os shots de uma vez.

– Vai com calma, ruivinha – diz o bartender, piscando pra mim.

Dou uma risada. A música está cada vez mais alta e eu sinto meu corpo começar a responder. Pegamos nossos drinks e voltamos em direção à pista de dança.

– Ali! O Colton e os nerds – Emy aponta, animada.

O cabelo loiro e desgrenhado de Colton, versão universitária do Kurt Cobain, é fácil de identificar mesmo de longe. Ele fala empolgado com dois garotos orientais que parecem desconfortáveis demais com o ambiente, como se estivessem ali por engano. Mantêm as mãos nos bolsos como escudos, os olhos atentos a tudo, como se calculassem as rotas de fuga.

– Agora me sinto um mendigo – Colton grita, quando nos aproximamos, dando uma olhada exagerada na minha roupa.

– Amor, você sempre parece um mendigo – Emy retruca, melosa, e o beija como se não o visse há meses. – Mas eu te amo, tá?

– Ainda bem. Porque amor é a única coisa que tenho pra oferecer. O dinheiro ficou todo com a companhia aérea.

– Ele odiou Berlim – Emy me explica, tentando conter o riso.

– Perdi o Halloween do ano. – Colton suspira, teatral, jogando o cabelo pra trás como se estivesse num clipe do Nirvana. – Mas pelo menos comprei uma cerveja com gosto de café e trauma emocional. Isso compensa.

Os “nerds” riem discretamente. Ambos vestem preto dos pés à cabeça, com camisetas estampadas com bandas japonesas que eu nunca ouvi falar. Um deles tem olheiras fundas, o outro usa anéis demais para alguém tão tímido.

– Esses são os nerds – Colton gesticula, como se apresentasse personagens de um filme.

– Eles não têm nome? – pergunto, dando mais um gole no meu drink.

– Sou Ronin. Ele é o Kenji – responde um deles, com a voz baixa. Fofo. Tímido. Claramente desconfortável por ter sido notado.

– Gêmeos – acrescenta o outro, levantando um dedo como se isso explicasse tudo. Talvez explique.

– Clary – sorrio, tentando parecer mais acessível do que me sinto. Um deles desvia o olhar, corando. O outro apenas assente com a cabeça, como se registrar minha existência já fosse suficiente.

Conversas paralelas se formam entre eles, leves, sobre alguma exposição de arte digital que querem ver no centro. Fico ali por alguns segundos, mas algo em mim se desconecta.

Meus olhos traem meu corpo e buscam o lounge onde Sam estava.

O sofá está vazio.

Foi embora?

Com quem?

A pergunta me envenena.

Termino meu drink e aviso Emy que vou ao bar. Ela só acena, concentrada em cantar Sweet Dispositionagarrada ao namorado.

– Dois shots. E uma gin tônica – peço, apoiando os braços no balcão, já sentindo o calor do álcool nas bochechas.

O bartender — o mesmo de antes, com barba malfeita e olhos de quem já viu muito nessa vida — sorri largo pra mim.

– Você tem um daqueles sorrisos que pedem uma rodada por conta da casa, ruivinha – ele diz, já virando os shots e começando a preparar o drink. – Te trouxe azar ou sorte hoje?

Dou uma risada.

– Ainda não decidi.

– Então bebe. E depois me conta.

Aceno com a cabeça, sem saber muito bem como reagir ao elogio. Mas antes que eu consiga virar o primeiro shot, sinto a presença dele.

Lockwood.

A sombra dele recai sobre o balcão. Só percebo quando sua voz baixa, carregada de veneno contido, quebra o momento:

– Uma cerveja. E cobre tudo no meu cartão.

Congelo. O copo quase escapa da minha mão.

Ele está ali. De novo. Como uma assombração atrás de mim. Como se não conseguisse suportar me ver existir longe da órbita dele.

– Achei que tivesse sumido – digo, a voz mais firme do que esperava.

Sam não responde. Apenas observa. Seus olhos escuros me devoram com raiva silenciosa. A tensão dele é quase física. Maxilar travado, punhos cerrados. O olhar salta entre o bartender e eu, como se calcular as intenções do outro fosse mais importante do que as minhas vontades.

– Não tem nada melhor pra fazer hoje? – ele pergunta, o tom seco, carregado de desprezo.

– Tenho. Tô fazendo – respondo, virando o primeiro shot de uma vez. – Me divertindo.

– Isso aqui é diversão pra você? – Ele ri, mas é um som áspero, sem humor. – Enfiada num buraco com desconhecidos bêbados e gente te oferecendo bebida só pra te ver tropeçar?

Hipócrita do caralho.

– O que você quer, Lockwood?

– Que você vá pra casa.

– Engraçado – solto um riso curto – se esse lugar de desagrada tanto, porque está aqui? Não acho que seja eu quem deve ir pra casa.

– Eu posso lidar com esse tipo de lugar – ele rebate, se aproximando mais. Sua voz agora é um sussurro áspero contra minha orelha. – Você não. Isso aqui não é pra você, Clarissa.

Sinto minha espinha gelar. Não sei se é raiva ou se é só a maldita forma como ele diz meu nome.

Filho do puta.

– Eu tô aqui. E eu não vou pra casa só porque você mandou.

– Você vai – ele rosna. – Nem que eu tenha que te carregar.

A ameaça paira no ar, sem tom de brincadeira.

O bartender retorna com os drinks, sem entender a tensão entre nós. Sam apenas paga, sem tirar os olhos de mim.

– Bebe isso. Depois a gente conversa direito.

– Conversar com você é como gritar com uma porta – rebato.

Mas pego o copo mesmo assim.

Ele está mais perto do que deveria. O rosto machucado, lindo de um jeito que irrita. Cabelo bagunçado. Camisa preta. Os braços definidos, visíveis. Os braços que já me seguraram de tantas formas.

Sam ri. Mas é uma risada amarga, vazia.

– Detesto admitir, mas aquele idiota tem razão. Vai com calma na bebida.

– Não é da sua conta – sibilo, tentando me afastar. Mas ele não deixa.

Sam avança. Seu corpo próximo ao meu, sufocante. Os olhos escuros, possessivos, cruelmente lindos.

– Não?

Ele me examina de novo, devagar, depois sorri. Um sorriso ruim.

– Vaza, Sam – digo, a raiva latejando no fundo da garganta. – Se não gosta de me ver aqui, então sai você.

Ele segura meu braço, firme, e me força a encará-lo.

– Só depois de você – rosna, entre dentes.

Filho da puta gostoso.

Estou tão cansada de fingir que não o quero.

De fingir controle.

Agarro sua camisa pelo peito, puxando-o pra perto. A respiração dele roça minha orelha. Sam não recua. Mas também não faz nada.

– Que porra você quer? – sussurro, perigosamente perto dos lábios dele.

Ele ajeita meu cabelo com uma lentidão quase maldosa. Os dedos passando pelas mechas como se pudessem marcar território.

Fica me olhando. Firme. Silencioso. O desejo está ali. Vivo. Mas ele ainda se segura.

– Acha que pode me controlar assim? – sua voz é um rosnado baixo, íntimo. Sua mão pousa na minha cintura com força contida.

Minha pele implora por mais. Mas ele não cede. Ainda não.

– Sim – murmuro, agarrando sua nuca. Minha voz falha um pouco, mas não recuo.

Os olhos dele escurecem com o desafio. Ele solta um riso abafado, descrente.

Então, sem aviso, Sam beija meu maxilar. Desce para o pescoço. Para o decote. Seus lábios me queimam.

Está cedendo.

Como um gato arisco que finalmente se rende à fome.

– Sim? – ele sussurra, rouco.

– Eu quero você – confesso, num sopro. Ele me puxa com força, as mãos apertando minha bunda.

Sinto o desejo dele contra mim, através da calça jeans. Lockwood Geme algo contra minha pele, incompreensível.

– Você ainda vai me matar, Clarissa – sibila, entre dentes.

– Me leva pra casa – peço. Cada palavra carregada de promessas. – Faço o que você quiser. Mas só hoje.

Mordo sua orelha.

Sam joga a cabeça pra trás e ri. Um riso desesperado, quase dolorido. Como se eu tivesse acabado de dizer a pior — ou a melhor — coisa da noite.

Ele me encara como se estivesse à beira de algo. Algo feio. Algo perigoso. O olhar dele varre meu rosto com uma raiva muda, crua, antes de parar na minha boca. E por um segundo, eu juro que ele vai me beijar.

Mas não beija.

– Você não imagina as coisas que estão passando pela minha cabeça agora – ele diz, entredentes. Como se odiasse isso. Como se me odiasse por isso.

O silêncio pesa entre nós. A música da festa é só ruído abafado agora. Minha garganta fecha. Meu corpo inteiro queima, esperando um toque, uma rendição.

Mas ele não se move.

– E daí? – eu sussurro, tentando entender o que ele quer com isso. Por que dizer, se não vai fazer?

Sam solta um meio sorriso, sem humor nenhum.

– Nada. Não muda porra nenhuma.

Ele se afasta meio passo. Depois mais um. E é como se algo dentro de mim fosse arrancado à força.

– Te encontro no fim da festa. – diz, já virando as costas. – Eu te levo pra casa.

E vai embora.

Sem olhar pra trás. Sem me dar nem o alívio de um toque, nem o castigo de um beijo.

Só me deixa ali. Trêmula. Cheia. Vazia.

E com ódio de mim por ter acreditado, mesmo por um segundo, que ele ficaria.

Não vou ser a garota deixada para trás com cara de tragédia. Não vou ser a menina rejeitada com os olhos marejados e o coração partido enquanto ele vai embora com a pose de quem venceu. Eu me recuso a ser essa versão patética de mim mesma.

Engulo o nó na garganta com a ajuda de mais um gole do drink quente, e respiro fundo, sentindo o gosto doce-amargo se dissolver na língua. A pista ainda pulsa em volta, hipnótica, vibrante. Me misturo às luzes, à fumaça, ao cheiro de suor e perfume barato. Meu coração ainda martela, mas agora é por escolha. Por impulso.

Me afasto alguns passos, o suficiente para que Lockwood me perca de vista entre os corpos dançantes — embora eu saiba, com uma certeza quase cruel, que ele não vai conseguir parar de olhar.

– Ei, ruivinha! – ouço uma voz feminina arrastada, calorosa. – Você tá com uma cara de quem precisa esquecer um idiota.

Viro o rosto e vejo duas garota bêbadas e lindas, com olhos esfumados e vestidos colados, dançando como se não houvesse amanhã. Uma delas, loira de cabelo cortado em blunt bob e uma taça na mão, se aproxima cambaleando, rindo.

– Me descreve ele – pede a outra, de franja mal cortada e vestido vermelho, puxando minha mão para que eu entre no círculo improvisado. – Vamos odiar ele juntas, vai ser terapêutico.

Dou uma risada seca, me permitindo cair naquele delírio embriagado e libertador.

– Alto, misterioso, irritantemente bonito. Um daqueles que te faz querer terapia intensiva depois de cinco minutos.

– Um destruidor de almas, então – diz a loira, batendo sua taça na minha com força exagerada. – Brindemos a eles. Que se fodam!

– Que morram de tesão acumulado – completa a do vestido vermelho, dançando com os braços erguidos, girando em volta de nós.

A música muda para algo mais tribal, com batidas profundas, quase animalescas. Sinto meu corpo responder, sem filtros, livre. As duas garotas dançam próximas a mim, uma delas deslizando as mãos pela minha cintura como se fôssemos amigas de infância ou amantes improvisadas. Sinto a pele vibrar com a energia. Me permito rir, me soltar, fechar os olhos por um instante e esquecer a dor.

Mas não esqueço dele.

Sei exatamente onde ele está. Sei que os olhos de Lockwood me procuram entre as luzes, sei que está me observando dançar com aquelas mulheres como se estivesse prestes a explodir. É uma provocação. Um lembrete. Eu não sou só dele. Nunca fui realmente.

Me aproximo de uma delas e sussurro algo no ouvido só para vê-lo contorcer a mandíbula. Não importa o que digo — o efeito está lá. Quando abro os olhos e o procuro entre a multidão, encontro Lockwood encostado na parede, braços cruzados, os olhos cravados em mim como facas. O maxilar marcado, a boca entreaberta. Ele parece tenso. Furioso. Desesperado.

Perfeito.

Passo a língua nos lábios lentamente, não por sedução, mas por poder. A sensação de retomar as rédeas da minha própria vontade. Ele me quer. E isso o deixa miserável. Em ruínas.

A loira se aproxima e sussurra:

– Ele tá babando em você, amiga. Se fosse comigo, eu já teria feito ele se arrastar.

– Ele vai. — é a minha única resposta.

Ela dá uma gargalhada embriagada e me gira, me empurrando de volta para o centro da pista. Me deixo levar pela dança, pelas mãos que me tocam de leve, pelo calor da música. E quando passo por Lockwood, de propósito, como se não o tivesse visto, posso sentir seu olhar queimando minhas costas.

Lockwood não volta para perto dos amigos. Não retorna para aquelas mulheres que minutos antes tentavam roubar sua atenção com sorrisos entediados e mãos impacientes. Ele não parece mais fazer parte da festa. Não dança, não fala, não sorri. Apenas observa.

Fica encostado na mesma parede, imóvel, como se fosse parte da arquitetura do lugar. Só os olhos se movem — e se movem comigo, famintos, e isso me faz sorrir. Reconheço esse olhar. Reconheço o poder. E gosto disso.

Sam me segue com precisão hipnótica. Seu olhar crava em mim como uma lâmina quente. E eu retribuo com um jogo sutil, provocante. Não é só a dança, é tudo que carregamos por trás dela. É uma guerra silenciosa travada com os quadris, com os olhos, com a respiração.

Me movo como se a música tivesse me possuído — os quadris marcando o ritmo, os olhos semicerrados, o coração tão acelerado quanto a batida grave que faz o chão vibrar sob meus pés. Sinto o calor subir pelas minhas pernas, escorrer pela curva da minha espinha, prender na pele como se fosse parte da roupa. O vestido está colando no meu corpo, e eu o puxo com os dedos, erguendo-o lentamente por cima das coxas até sentir o ar frio morder minha pele.

Risos me cercam. Uma das garotas — a do vestido vermelho, eu acho — passa a mão nos meus cabelos, embaraçando os fios com carinho bêbado, enquanto a outra me segura pela cintura e canta alguma coisa errada no meu ouvido. Estou suada, ofegante, completamente entregue ao jogo. Mas não estou dançando pra elas.

Eu sei que ele está olhando. Não preciso confirmar. Não preciso virar o rosto ou buscar o reflexo em alguma superfície espelhada. Eu simplesmente sei.

Porque eu o conheço. Porque eu aprendi a sentir os olhos dele como se fossem mãos. E agora? Agora eles estão cravados em mim.

Cada movimento meu é uma provocação. Cada rebolado, cada sorriso exagerado, cada toque fingidamente íntimo com as meninas é um lembrete: Você me deixou ali, Sam Lockwood. Agora me assista dançar.

Eu danço como se estivesse livre, como se nada importasse — mas é mentira. Cada passo, cada movimento, cada risada exagerada foi colocada ali por mim. Um teatro. Um golpe. Um recado.

A música está alta, os corpos ao redor colidem em alegria bêbada e bagunçada, e eu me deixo envolver. Uma das garotas — a de vestido vermelho — me puxa pela mão e gira comigo como se fôssemos velhas amigas. Eu rio alto, exagerando, encostando a testa na dela como se aquilo fosse íntimo. E é. Porque eu quero que pareça íntimo. Quero que pareça demais.

— Você é linda demais, garota. Felina! — ela grita no meu ouvido, rindo. — E dança como quem tem um coração partido.

Eu olho para ela. Sorrio devagar.

Ela me abraça e gira comigo. E eu deixo. Deixo que me envolvam, que me puxem, que me tirem de mim mesma. Deixo que o álcool dissolva os contornos da minha dor até que ela vaze na forma certa: corpo, música, provocação.

Eu jogo o cabelo para o lado e rio de novo. Ergo o copo para alguém — não importa quem — e brindo a nada. Porque tudo o que importa está a poucos metros de distância, parado, inerte, com um copo intocado na mão e o inferno crescendo dentro dos olhos.

Ele não volta para os amigos. Não volta para as mulheres que tentaram se sentar no colo dele mais cedo.

Ele só me observa. E isso é tudo o que eu queria.

Me aproximo de Sam.

Quando me viro de costas para continuar dançando, sinto seu corpo se alinhar ao meu, o braço dele envolvendo meu pescoço num gesto possessivo. E o volume duro entre nós me faz fechar os olhos por um instante. O mundo parece pequeno demais.

— Você é uma desgraçada, sabia? — Lockwood sussurra, e me escapa uma risada abafada.

Sinto falta dele.

Não só do toque, do sexo. Mas da leveza rara que ele trazia pra minha vida. Do jeito desajeitado como me fazia rir, das conversas que pareciam fugir do tempo, das idiotices que, sem motivo algum, me arrancavam sorrisos verdadeiros. Era como se ele… desligasse o ruído da minha cabeça.

Mas essa paz nunca durava.

— Deve ser por isso que estou te sentindo bem duro aqui atrás — retruco, me esfregando contra ele, que retribui com um aperto firme e um grunhido baixo, animal.

— Clarissa… — meu nome sai rasgado da garganta dele, como se fosse errado dizê-lo. Como se queimasse.

— Fala — provoco, virando de leve o rosto, só o bastante pra encostar a boca perto da orelha dele. — O que você quer?

A resposta não vem de imediato. O corpo dele vibra contra o meu, tenso como uma armadilha prestes a se soltar. Ele segura minha cintura com uma força que beira o descontrole, mas não passa disso. Não me vira, não me beija, não cede.

Eu quase rio. Porque é isso o que ele quer evitar. Me dar poder.

— Eu quero… — Ele para. Solta o ar como se odiasse o que vai dizer. — Eu quero que pare.

— Pare? — Viro de vez, agora frente a frente com ele. — Mas a gente nunca começou, Sam.

O olhar dele mergulha no meu. Não tem mais música, não tem festa, não tem ninguém em volta. Só nós dois, presos nesse jogo que ninguém vai ganhar.

— Você me deixa maluco — ele confessa, baixo. — Isso aqui, você… Eu não tenho mais controle nenhum.

— Que pena — rebato, com um sorriso perigoso. — Porque eu estou começando a gostar de perder o meu.

Ele cerra o maxilar. Olha minha boca como se quisesse fazer um estrago. Mas não faz. Não toca. Só passa uma das mãos pelo cabelo, frustrado, como se estivesse à beira de um colapso.

— Te encontro lá fora no fim da festa — ele diz, a voz áspera. — Pra te levar pra casa.

— Vai me deixar sozinha com todas essas más influências? — brinco, arqueando uma sobrancelha. – Vai fugir, Sammy?

— Não quero ver — ele retruca. — Porque se eu continuar olhando… não respondo por mim.

E então ele vai. Me deixa ali, com o corpo quente e o coração um pouco mais machucado do que deveria estar. Eu assisto ele se afastar. Cada passo, cada escolha que ele faz pra não me tocar, pra se conter.

Ele acha que venceu. Que resistir é força. Mas ele não percebe…

Eu nunca quis que ele me beijasse. Só queria que implorasse.

E ele está quase lá.