Vizinhos

14 Clarissa


“In our two loves there is but one respect,

Though in our lives a separable spite,

Which though it alter not love’s sole effect,

Yet doth it steal sweet hours from love’s delight.”

— Sonnet XXXVI, William Shakespeare.


Há coisas que só se sustentam no escuro.

E eu aprendi a amar no silêncio — porque dizer seria arriscar perder.



Clary


Sam espera por mim, depois de me obrigar a tomar banho sozinha, bisbilhotando sem pudor algum as coisas na minha escrivaninha. Em sua maioria, rascunhos de artigos, algumas aquarelas mal feitas e uma porção de livros velhos. Vê-lo no meu quarto chega a ser quase cômico — sua figura alta, os ombros largos e as roupas escuras contrastando com o ambiente aconchegantemente feminino.

Robert, meu gato, se esfrega, contente, por entre as pernas do meu vizinho.

Bichano falso.

– Terminou de fuxicar? – pergunto ao sair do banheiro, a toalha ainda enrolada no corpo.

Apesar do banho frio, ainda sinto o álcool me impedindo de relaxar. É como se o mundo estivesse girando ao meu redor em uma dança lenta e suave, mas ao mesmo tempo, uma energia incômoda parece fluir de dentro para fora, latejando sob minha pele.

– Bukowski – Lockwood se vira na minha direção, segurando uma aquarela escura, um retrato sombrio da floresta que se estende no final da nossa rua.

A pintura transmite uma sensação de quietude melancólica, como se o tempo tivesse parado para contemplar o fim do outono. As árvores, desnudas, erguem-se de maneira tortuosa, seus troncos grisalhos pintados com pinceladas suaves de cinza e marrom. O céu, espesso de nuvens, está tingido de azul desbotado e sombras que anunciam o inverno.

No canto da folha, uma frase em caneta prateada.

“Find what you love and let it kill you. For all things will kill you, both slowly and fastly, but it’s much better to be killed by a lover.”

– Intrometido – sibilo, arrancando a folha da sua mão e enfiando-a de volta na gaveta.

– Você realmente acredita nisso? Que o amor deve matar?

– Acredito que… certas coisas são inevitáveis. Algumas beiram o suicídio, mas mesmo assim, a gente escolhe. – fecho a gaveta com força. – O que foi? Vai me dar uma palestra sobre escolhas ruins?

Sam sorri de canto, mas há algo sombrio em seus olhos.

– Não. Acho que entendo melhor do que gostaria. Bukowski era um canalha, mas sabia escrever. Tem algo de belo em se render por completo… mesmo que seja autodestrutivo. – ele passa o polegar pela borda da folha antes de soltá-la. – A floresta parece estar implorando pra ser esquecida. Ou enterrada.

– Talvez seja. Ou talvez só esteja cansada de ser observada.

– Como você.

– Exatamente como eu.

O silêncio que se segue não é desconfortável. É cheio. Denso. Algo entre nós vibra no ar.

– Vá se vestir – Sam diz, finalmente, com a voz mais áspera, notando que ainda estou de toalha.

Um sorrisinho se forma nos meus lábios.

– Está com medo de uma mulherzinha pelada? – provoco, jogando a toalha sobre a cadeira.

Ele estala a língua, irritado com o trabalho que estou lhe dando, mas não desvia o olhar. Meus cabelos estão presos em um coque alto. A pele ainda úmida, exposta. E ele… me devora em silêncio.

Seus olhos ardem com algo que vai além do desejo. Uma saudade antiga. Uma lembrança carnal.

– Onde ficam os seus pijamas, cria satânica de Lilith? – resmunga, caminhando até o closet. – Sinceramente. Isso só pode ser castigo.

– Tem esse… – levanto uma calcinha vermelha minúscula. – Ou esse… – agora um sutiã transparente, rendado.

Sam arranca as peças da minha mão com um palavrão sufocado, entregando-me um short velho e uma camiseta larga.

– Coloque isso. E não me teste. Não hoje.

Ele se afasta como se fugir de mim fosse a única chance de manter o controle.

Sento na cama, lenta, provocativa.

– Se eu soubesse que você não estaria a fim, teria aproveitado mais o meu encontro.

A frase o atinge como uma bala. Sam vira o rosto para mim tão rápido que quase ouço seu pescoço estalar.

– Encontro?

Levanto-me e caminho até ele nua, deliberada, passo a passo, até que paro em sua frente. Subo no sofá, uma perna de cada lado, sentando sobre seu colo sem cerimônia.

– Sim – sussurro, meu rosto perigosamente próximo ao dele.

Sam fecha os olhos, como se precisasse de força para não me beijar. Sinto-o endurecer sob mim, o tecido da calça traindo qualquer resistência que ele tente manter.

Rebolo devagar. Um frisson me percorre inteira.

Ele geme baixo. Um som contido, mas animalesco.

Seus dedos cravam minha cintura, e ele me empurra com mais força contra sua rigidez, como se dissesse já que está aqui, me destrua.

Por um momento, acho que ele vai me tomar ali mesmo.

Mas Sam se levanta comigo no colo, me jogando com força sobre a cama. Um calor ferve entre as minhas pernas.

– Bêbada safada – ele arfa, os olhos selvagens. – Não vou cair nesse joguinho.

– Se não vai fazer nada comigo, então me deixe fazer com você – sussurro, puxando-o pela camiseta, beijando seu abdome rígido, descendo mais…

Ele segura minha nuca, a respiração descompassada. Encosta o membro duro na minha boca, ainda por cima da calça. Um gemido rouco escapa dele.

– Acredite, Clarissa – diz com a voz rouca –, eu daria um pulmão e um rim pra enfiar meu pau nessa boca maldita agora mesmo.

Mas então me solta. Puxa o edredom com raiva e joga por cima de mim, como se me apagasse.

– Se enrola. Fecha esses olhos. E para de me tentar.

O desejo ainda pulsa entre nós, pesado, inacabado.

Ele continua ali, parado ao lado da cama, respirando fundo, lutando contra o que sente – contra o que quer. E eu entendo. Porque sinto o mesmo.

– Pelo menos… não vá embora – peço, a voz mais suave.

Sam não responde de imediato. Seus olhos me percorrem como se precisassem memorizar minha forma, caso nunca mais a vissem.

– Não vou.

Ouço-o tirar os sapatos, a cama afunda ao seu lado. Viro para observá-lo. Ele abre o livro em suas mãos, a luz do abajur esculpindo seu rosto de maneira quase irreal.

– Disse que leria pra você. Devia me levar mais a sério, Cherry.

" 1ª carta – 4 de maio

Querido Wilhelm,

Como te encontraste após a minha partida? Penso que deves estar mais tranquilo agora, pois se o destino me conceder a oportunidade de te ver em breve, poderei te contar tudo o que aconteceu. Nunca houve tanta felicidade em minha vida como agora, e, se alguém me tivesse dito o que aconteceria, teria dito que era impossível."

Sua voz é serena ao ler a primeira parte, o sotaque galês tornando a situação ainda mais adorável. Não posso evitar o sorriso que brota nos meus lábios.

Lockwood está mesmo lendo para eu dormir.

"Mas deixe-me começar desde o princípio: cheguei à cidade e, quando fui à casa do meu amigo, já lá estava a charmosa Charlotte. Eu sabia, é claro, que seria um choque, mas você deve entender como a coisa me afetou. Ela se parecia exatamente como eu imaginava, como se fosse uma visão de uma imagem que nunca pude concretizar na minha mente. É difícil te descrever. Não te posso dizer o que é a sua presença. Ela é como a luz dourada que aparece ao amanhecer. Ah! A serenidade que ela traz com sua beleza, e como seus olhos, que brilham com um encanto natural, têm o poder de tornar qualquer cena ainda mais intensa e cativante."

Sam pausa para me observar por alguns segundos, suas palavras soando um pouco distantes, enquanto os meus olhos começam a se fechar. As coisas parecem estar girando um pouco por causa do álcool, e ainda posso sentir a batida da música de mais cedo zumbindo nos meus ouvidos.

Mas não quero que ele pare de ler, não quero que esse momento acabe tão cedo. Na verdade, acho que poderia ficar aqui para sempre. O receio do dia seguinte me atinge, e alcanço a mão livre dele, entrelaçando os nossos dedos, enquanto Lockwood continua:

"Agora me encontro com o coração em tumulto, e toda minha razão se perdeu. Tu bem sabes o que significa isso, mas creio que nunca soube, até então, como um homem pode se perder assim, completamente, num abismo de sentimentos contraditórios.

Espero, querido Wilhelm, que um dia possas entender o meu tormento e, quem sabe, ainda possas me ajudar, pois mesmo que o destino me seja favorável, o que está se passando aqui em minha alma talvez seja demais para suportar.

Tua sincera amizade, Werther."

Ele coloca o livro na cabeceira após terminar a primeira carta, suspirando quase imperceptivelmente. Lockwood se vira para mim, acariciando os meus cabelos com delicadeza, os nós de seus dedos completamente machucados.

Sinto vontade de beijá-los, mas fico quieta.

A leitura termina. Ele fecha o livro e acaricia meu cabelo. As mãos machucadas deslizando com uma delicadeza que me desmonta.

Queria beijar cada ferida. Queria entender cada sombra.

Penso em perguntar por que ele me deu esse livro, mas, por algum motivo, as palavras também não saem.

Tenho medo da resposta, seja ela qual for.

Porque não se trata só dele.

É mais fundo que isso.

Tenho medo do que pode nascer da clareza, do que pode vir quando as certezas mudam de forma.

Minha vida sempre foi feita de ruídos abafados, silêncios pesados, ausências que nunca se explicam.

Aprendi a existir nesse lugar — entre estilhaços.

É estranho imaginar outra coisa. Mais ainda, desejar outra coisa.

Talvez por isso o caos não me assuste tanto.

Talvez por isso eu o reconheça com tanta facilidade.

Querer Sam é confundir a dor com companhia.

É repetir a mesma pergunta muda esperando uma resposta que nunca vem.

E mesmo assim, continuar esperando.

Porque não sei o que duas pessoas normais fariam com sentimentos assim.

Porque não sei o que seria amar fora da ruína.

E, no fundo, não sei se quero descobrir.

Queria que o tempo parasse, que essa sensação de estar completa e em paz nunca acabasse. E, enquanto uma parte de mim se entrega completamente, outra parte me adverte em silêncio, com uma consciência dolorosa de que o bom nunca dura o suficiente. Não para mim.

Esse pensamento faz eu me agarrar ainda mais ao momento, saboreando cada segundo como se fosse o último, com a esperança silenciosa de que o tempo, pelo menos uma vez, seja gentil comigo.

Ficamos em silêncio por uma eternidade, apenas as carícias suaves de Sam nos meus cabelos.

— Você leu mesmo esse livro todo? — pergunto, meio incrédula por Lockwood ter apreciado um clássico meloso desses.

— Três vezes — ele responde, sem hesitar.

Ergo uma sobrancelha, virando o rosto na direção dele.

— Três?

— Uhum — ele dá de ombros, encostado na cabeceira da cama como se estivesse em casa. — Gosto de voltar nas partes que me fizeram sentir alguma coisa. Só pra ver se ainda doem do mesmo jeito.

— E doem?

— Algumas mais. Outras menos.

O silêncio entre nós não é desconfortável dessa vez. É um intervalo raro. Como se o tempo tivesse afrouxado a corda só por um momento.

— Qual é a sua parte favorita? — pergunto, sem encará-lo.

Sam vira o rosto pra mim e responde com a voz mais baixa:

— Tem uma frase no início. “Talvez a solidão não seja um lugar vazio, mas uma casa velha, onde a gente aprende a andar no escuro.”

Eu suspiro, fechando os olhos por um instante. Aquilo bate fundo. Porque é isso. Não é só Sam. É tudo.

— Isso soa bem com você também — ele diz, como se estivesse ouvindo o que não falei.

Assinto com um gesto quase imperceptível, puxando o cobertor até o queixo.

— Pare de me olhar assim — resmungo, mas minha voz sai mole, cansada.

— Assim como?

— Como se estivesse me lendo.

Ele sorri, mas é um sorriso torto, silencioso. E então ele diz:

— Eu gosto de te ver dormir.

A frase flutua no ar por alguns segundos. E eu não sei bem o que fazer com ela. Me viro devagar na cama, sem encará-lo.

— Isso soa esquisito, sabia?

— Eu sei — Lockwood responde, sem tentar se justificar. — Mas é verdade.

Espero que ele diga algo bobo depois disso, alguma piada pra quebrar o clima, mas ele continua:

— Quando você dorme… é como se o mundo não te tocasse. Como se, por algumas horas, tudo dentro de você se calasse. O medo, a raiva, a lembrança… tudo fica em silêncio. E tem algo tão bonito nisso. Tão frágil. Como se eu estivesse vendo uma parte sua que ninguém mais vê. Nem você.

Engulo em seco. Sinto algo quente subir pela garganta, mas disfarço no travesseiro. Ele não devia falar essas coisas. Não assim. Não com essa calma. Não com essa sinceridade que me desarma inteira.

— Parece que você me idealiza — murmuro. — Como se eu fosse alguma coisa delicada. Mas eu não sou.

Sam se inclina só um pouco, sem me tocar, e diz:

— Eu sei. Eu não acho que você seja frágil, longe disso, na verdade. Mas tem momentos em que você parece… livre. E quando dorme é um deles.

Fico quieta. Não sei responder. Talvez porque uma parte de mim deseje ser exatamente isso: livre. Ainda que só por umas poucas horas.

— Você fica bonita quando dorme — Sam diz por fim, e não há malícia nenhuma em sua voz. Só uma melancolia suave. Um tipo de ternura que queima mais do que desejo.

— Você é estranho, Lockwood — sussurro, me rendendo ao cansaço.

— Eu sei.

Fecho os olhos, com o peito ainda apertado por tudo o que ele disse. Mas, pela primeira vez em muito tempo, me deixo adormecer sabendo que tem alguém ali. Alguém que me viu inteira — ou quase — e escolheu ficar.

Já estou quase caindo no sono, quando sussurro o que esteve na minha mente a noite toda:

– Sinto a sua falta.

A respiração de Sam esquenta o meu rosto, quando ele se abaixa para depositar um beijo afetuoso na minha bochecha, sussurrando de volta algo em galês que acho que nunca serei capaz de decifrar.

Quem sabe, um dia, me lembre perguntar.