Vizinhos
15 Lockwood
“Sometime all full with feasting on your sight,
And by and by clean starved for a look.”
— Sonnet LXXV, William Shakespeare.
Há momentos em que um só olhar dela me basta — como um banquete servido à alma. Mas então ela desvia, e tudo em mim volta a ser ausência. Um vazio que ecoa. Uma fome que só ela conhece como silenciar.
Lockwood
Dizer que amo Clarissa foi a coisa mais fácil — e mais certa — que fiz nos últimos tempos. Talvez, até na minha vida inteira.
“Rwy’n dy garu di.”
As palavras simplesmente escaparam, como se meu coração finalmente tivesse encontrado o caminho para se expressar. Cansado de negar a si mesmo. Cansado de se torturar em silêncio.
Não fui capaz de impedi-las — e nem precisei pensar antes que saíssem dos meus lábios. A verdade me atravessou como um vento que não pode ser contido.
Mesmo sem esperar uma resposta, aquela frase dita na minha língua antiga, sussurrada no escuro da madrugada, pareceu uma libertação. Ou, ao menos, parte dela.
Me sinto mais leve. Como se um peso enorme tivesse sido retirado dos meus ombros. Como se minha alma, antes sufocada por dúvidas, agora respirasse com mais facilidade.
Pode até ter sido um alívio silencioso — já que Clary sequer me entendeu —, mas, ainda assim, foi imenso.
Acho que aquela declaração, de certa forma, também foi para mim mesmo. Uma confirmação do que eu já sabia, mas ainda tentava negar: que, em cada parte de mim, agora há um eco dela.
Dos olhos dourados que parecem refletir o universo. Das sardas mais brilhantes que qualquer constelação. Dos cabelos como o pôr do sol nos dias quentes de verão.
Minha Clary.
Antes de deixá-la, fiquei observando-a deitada. Serena. Os fios ruivos espalhados pelo travesseiro como chamas suaves sob a luz pálida da manhã. As sardas, delicadas, espalhadas pelo rosto, davam-lhe um ar ainda mais jovem — como uma pintura antiga, pura e natural.
Enquanto Clary respirava suavemente, me perdi nas linhas do seu rosto. Cada traço parecia esculpido com precisão absurda, como se o tempo tivesse parado só para que ela existisse.
Meu coração batia calmo, tomado por uma paz que só sua presença é capaz de me dar. Mas não me atrevi a tocá-la. Nem mesmo a sussurrar seu nome.
Tudo o que queria era guardar aquele instante. Gravar cada detalhe. Os movimentos sutis dos seus lábios, a forma como os cílios tremiam quando ela sonhava, as mãos pequenas procurando por mim…
Nem parecia a bêbada tarada de algumas horas antes.
Mas é pensando nela — no seu cheiro, no seu gosto, nos seus beijos — que me alivio no chuveiro mais uma vez.
Meus músculos estão tensos, doloridos desde a briga de alguns dias atrás. Já não consigo mais raciocinar.
Me toco no banho, desejando que a minha mão machucada fosse a boca macia de Clary.
Me recosto contra a parede, tentando reviver a sensação de estar dentro dela: quente, apertada, molhada.
Lembro de como ela me agarrava, tremendo nos meus braços, pedindo que eu fosse mais fundo, mais forte. Gemendo meu nome sem parar.
De como estava deliciosa mais cedo, querendo montar em mim, me provocando como a safada que é… por trás da máscara de timidez.
Porra, tive que me controlar muito para não meter nela até perder o controle.
Parte de mim queria provar que ainda conseguia resistir à tentação.
Mas a outra parte… só queria evitar tornar tudo ainda mais complicado.
Afinal, dormir com outra foi minha jogada suja para destruir o que existia entre nós.
E agora, eu estava prestes a jogar todo esse esforço no lixo… por meia hora de sexo que não nos levaria a lugar algum.
Valeria a pena?
Tenho certeza de que sim.
Mas não sei se ela concordaria comigo ao acordar sóbria.
Ao sair do banho, encaro meu reflexo no espelho com a convicção de que poderia ser facilmente confundido com um dos pacientes do hospital psiquiátrico.
Os hematomas no rosto e as olheiras fundas não chegam nem perto da mancha arroxeada que sobe pelas minhas costelas — cortesia do chute daquele desgraçado no pub.
Suspiro, passo a toalha nos cabelos e me preparo para mais um dia de atendimentos.
É basicamente a única coisa que tenho feito.
Meu pouco tempo livre é consumido pelas aulas de literatura que dei um jeito de frequentar… só para estar perto de Clary.
Achei que conseguiria levar numa boa. Que, com tantas médicas e enfermeiras novas circulando, eu me distrairia.
Mas nenhuma delas, mesmo tentando me agradar, conseguiu chegar aos pés de Clarissa — que, ironicamente, não faz a menor questão de me agradar.
Poderia culpar os hormônios. A química cerebral. As incertezas que tornam tudo ainda mais perigoso.
Poderia usar a ciência para justificar meus sentimentos.
Mas nada disso explica o fascínio absurdo que sinto por ela.
Mesmo estudando o cérebro humano e racionalizando cada passo, o que sinto por Clary foge de qualquer lógica.
Escovo os dentes, passo os dedos pelos cabelos — que já estão passando da hora de cortar —, visto um suéter escuro e tomo uma xícara de café.
Antes de sair, resisto à vontade de mandar uma mensagem. Repito para mim mesmo que é melhor deixar para lá.
O dia passa mais rápido do que eu esperava.
Depois de uma reunião com a equipe de psiquiatria, visitas aos pacientes internados e dezenas de consultas, mal percebo o tempo passar.
Na cafeteria, durante o almoço, tento revisar algumas leituras. Rezo mentalmente para que nenhuma médica puxe conversa — como sempre fazem quando estou sozinho.
Mas minhas preces não são atendidas.
Uma morena sorridente senta à minha frente, falando sobre o dia atarefado dela e soltando comentários desinteressantes. Claramente esperando que eu a convide para sair.
Geralmente, é sempre igual.
E tão sem graça quanto parece.
Felizmente, não engajo.
Ela percebe e desiste. Sai batendo os pés como uma criança contrariada.
Continuo lendo, aliviado com o silêncio desconfortável que fez o trabalho por mim.
À tarde, fico na urgência, atendendo pacientes em crise. Quando a noite finalmente chega, encerro os prontuários e estou pronto para ir para casa — algo que venho evitando, para não encarar meus próprios demônios.
Mas hoje… acho que não tenho escolha.
Pego o celular. Mesmo sabendo que Clary não me mandaria mensagem.
Ela é orgulhosa demais.
Mas algo me faz parar.
“Está em casa? É Emily.”
A mensagem foi enviada há dez minutos. Ela ainda está online.
“Responde, otário. É urgente.”
Sem nem ter tempo de pensar no que responder, leio outra.
“Como conseguiu meu número?” pergunto, entrando no carro.
“Não é da sua conta. Está em casa ou não???”
“Indo. O que você quer?”
“Estou em outra cidade, na sede da empresa, e — por mais que eu deteste isso — preciso que veja se Clary está bem.”
Bufo, tirando os olhos do trânsito por um segundo. Uma pontada de preocupação começa a me corroer.
“Nota: pedi para VÊ-LA, não TOCÁ-LA!!!”
Estalo a língua, irritado.
“Aconteceu alguma coisa?”
A demora dela para digitar me deixa puto.
Quando finalmente recebo a resposta, sinto os batimentos acelerarem como se algo tivesse me atravessado.
Quando Emily finalmente termina de escrever, mal consigo controlar os batimentos cardíacos ao ler a mensagem:
“Alguém entrou na casa dela e matou Robert, o gato. A polícia já foi dar uma olhada, passaram o dia lá, mas não encontraram nada. Aparentemente, a pessoa entrou pela janela quebrada do quarto de Clary, mas não roubou nada. Apenas… decapitou o gato, eu acho. E o deixou em cima da cama, em um saco. Vou tentar voltar o quanto antes, mas preciso que veja como ela está, sei que deve estar péssima, isso é muito bizarro.”
Aaron.
Ele a encontrou.
A palavra vem antes mesmo do meu cérebro processar a frase inteira. É como um estalo, uma fagulha que acende por dentro. Uma certeza. Um instinto.
Impossível. Como?
Tento afastar o pensamento, mas ele se infiltra por todos os cantos. Ele não faria isso… faria? Dirijo com a sensação de que o mundo ao redor está se desintegrando em uma série de pedaços desconexos. As ruas parecem distantes, borradas, como se a minha visão estivesse embaçada por algo que não posso ver. A notícia se repete incansavelmente na minha cabeça. Tento encontrar algum sentido, alguma lógica para isso tudo — falho completamente.
Cada palavra, cada frase de Emily, agora se torna uma espécie de eco persistente.
“Entrou pela janela quebrada… matou o gato… deixou em um saco…”
Minha garganta aperta, o maxilar se contrai.
Aperto as mãos no volante como se isso pudesse, de alguma forma, fazer a realidade desacelerar. Até o som do rádio, agora, parece uma distração irritante. Desligo-o abruptamente, querendo silêncio.
Quando finalmente viro na minha rua, sinto o peso da ansiedade se intensificar.
Ela vai precisar de mim.
Mas…
Isso não pode ter nada a ver com ele.
Não pode ter sido Aaron.
Paro o carro em frente à mansão dos Blackwell.
O som do motor some no ar gelado.
Fico parado, por um momento, as mãos no volante, olhando a casa à minha frente.
A mansão é bela e imponente, mas há algo nela que sempre pareceu… errado.
Com as janelas altas e escuras, as pedras envelhecidas e a varanda adornada por sombras, a casa mais parece uma guardiã de segredos antigos.
As árvores ao redor estão quase nuas, as ramagens secas esticadas contra o céu cinzento — idênticas às aquarelas de Clary.
Com passos rápidos, subo os degraus.
A porta está entreaberta, uma faixa fina de luz escapando por ela.
Empurro. Meu coração martelando no peito.
Por algum motivo, preferiria lidar com qualquer um dos meus pacientes em crise do que com a tristeza de Clarissa.
— Cherry? — chamo, sem resposta.
Avanço pelos corredores escuros e silenciosos da casa.
O cheiro da madeira antiga e das cortinas pesadas me envolve.
Mal posso ouvir minha própria respiração.
Quero acreditar que isso tudo é um engano.
Mas sei que não é.
E, no fundo, uma voz sussurra que só existe uma pessoa capaz de algo assim.
Finalmente, chego à cozinha. As luzes estão acesas, mas o ambiente carrega um silêncio estranho, quase pesado. Clary está sentada à ilha de mármore, imóvel. Os ombros caídos, os braços soltos sobre o colo, como se o corpo não aguentasse mais sustentar o que quer que esteja acontecendo dentro dela. O rosto, tão lindo mesmo assim, está molhado por lágrimas antigas. Os olhos vermelhos, vazios, perdidos num ponto qualquer do chão.
É como ver uma pintura desbotada. Uma versão sem cor da garota que costumava se perder nos corredores de um museu, encantada por quadros que ninguém mais notava.
Paro na porta, sem saber o que dizer. O nó na garganta me prende.
Quero correr até ela, abraçá-la, fazer alguma coisa — qualquer coisa.
Mas o que se faz quando o mundo de alguém desmorona?
Porra. Eu devia saber. Eu deveria saber o que fazer.
Sou eu, afinal. Sou aquele que estudou isso. Que entendeu o luto, o trauma, o colapso humano.
Na teoria.
Mas ver Clarissa assim… é diferente.
Dói de um jeito que nenhuma tese explicaria.
É pessoal. Cruel. Injusto.
O som da respiração dela, ainda irregular, é a única coisa que escuto além do tique-taque irritante do relógio de parede.
— Cherry… — minha voz sai baixa, falha.
Ela não reage de imediato. Só pisca devagar. Como se estivesse lutando para continuar aqui.
Quando enfim se vira para me olhar, é como levar um soco.
Aquele olhar — partido, desprotegido — me acerta no estômago.
Ela está quebrada. E talvez, só talvez, isso tenha começado por minha culpa.
Me aproximo devagar. Ela continua sentada, e quando a abraço, o rosto dela afunda na curva do meu pescoço como se estivesse voltando pra casa.
Os soluços vêm logo em seguida. Um som curto, dolorido, quase infantil.
E eu só aperto mais os braços ao redor do seu corpo miúdo, tentando ser abrigo.
Ficamos assim por um tempo — não sei quanto. O suficiente para o chão deixar de parecer fixo.
— Não faz sentido… — ela murmura, ainda com o rosto colado ao meu. Sua voz é rouca, pequena. — Não roubaram nada. Só fizeram aquilo com o Robert.
Meu peito se contrai.
— O meu pai disse que ele devia ter incomodado algum vizinho. Mas… quem faria isso? — ela solta um riso curto, sem graça, quase histérico. — Foi a coisa mais horrível que já vi na vida, Sam. Eu saí pra trabalhar… e quando voltei… — os olhos dela se enchem de novo — ele estava na minha cama. Dentro de um saco. Com o pescoço cortado.
O ódio que sinto do pai dela me toma com força. Como alguém pode ser tão frio? Como alguém escuta isso e ainda consegue culpar um gato?
Mas nada disso faz sentido.
Nada mesmo.
— Ele ainda… tá lá? — pergunto, deslizando os dedos pelos cabelos úmidos dela, do mesmo jeito que fiz na noite passada. Só que agora, tudo parece mais longe. Mais frio.
— Não. Um dos policiais me ajudou a enterrar — ela responde num sussurro, quase inaudível.
Engulo em seco.
— Por que não me ligou?
Ela dá de ombros, os olhos fixos no meu peito, como se não quisesse que eu visse a dor inteira.
— Liguei pra Emy. Mas ela tá viajando. E os policiais ligaram pro meu pai, ele também tá fora da cidade… — ela suspira. — Não quis preocupar o Nick. E… não queria te atrapalhar.
Isso me desmonta.
Mesmo agora, ela ainda pensa em não ser incômodo.
— Clary… você nunca vai me atrapalhar. Nunca — digo, afastando o rosto dela do meu pescoço e segurando o seu queixo com cuidado. — Eu queria ter estado aqui. Mesmo que você não soubesse o que dizer. Mesmo que nem quisesse falar nada.
Ela hesita, depois assente com a cabeça, com um cansaço tão resignado que me parte ao meio.
— Vem dormir lá em casa hoje — peço, ajeitando as mechas molhadas que caem pelo seu rosto. — Por favor.
Ela não responde de imediato. Só me olha. E aquilo já é resposta suficiente.
Não é concordância. É rendição.
Subimos até o quarto dela. Enquanto ela pega uma mochila, fico perto da porta, observando cada gesto dela. Seus movimentos são lentos, quase autômatos. A dor parece ter esvaziado qualquer impulso de existir.
Atravessamos a rua em silêncio. E quando ela entra na minha casa, parece encolher ainda mais.
Como se estivesse com medo de ocupar espaço.
— Vai tomar um banho quente — digo suavemente, tirando a mochila do ombro dela. — Eu preparo alguma coisa pra gente comer.
— Não tô com fome… — ela murmura, franzindo o cenho.
— Eu também não. Mas comer ajuda. E eu sei cozinhar. Mais ou menos. Às vezes.
Ela me lança um olhar desconfiado, que quase parece um sorriso.
— Desde quando você sabe cozinhar?
— Desde sempre. Você só não prestava atenção. Vai lá, Cherry.
Ela sobe, e eu vou direto pra cozinha. Abro a geladeira. Legumes, carne. Faço tudo no automático, como se cortar cenouras e cebolas fosse um jeito de não pensar em nada.
A água do chuveiro corre lá em cima, abafada pelas paredes, mas presente o bastante pra me lembrar que ela está ali. Viva. Intacta. Por enquanto.
Reviro a panela com mais força do que o necessário. O cheiro do ensopado sobe junto com o calor, mas não me acalma.
Tudo em mim pulsa como se estivesse alerta a algo invisível. Ou quase invisível.
O gato. Ela pensa que foi um acidente. Um ataque qualquer. Mas eu conheço Aaron. Conheço a forma suja e silenciosa com que ele age quando quer mandar um recado. Foi uma assinatura. Uma provocação.
Não sei como ele chegou até Clary. Não sei se foi sorte, se foi algum detalhe que deixei escapar, ou se Aaron sempre soube. Talvez ele só estivesse esperando o momento certo pra se aproximar — do jeito que ele faz. Silencioso. Meticuloso. Cruel.
Pego o celular do bolso, os dedos manchados de tempero. Escrevo devagar, porque cada palavra carrega mais do que parece.
“Onde você tá?”
“Foi você, não foi?”
Apago a segunda antes de enviar. Troco por algo mais neutro, mais contido.
“O que você anda fazendo?”
Mando. Seguro o celular na mão por alguns segundos, observando a tela em branco. Sem resposta. Ainda.
Ele precisa saber que tô vendo. Que, se ele chegar perto dela de novo, não vai sair ileso.
Faço cawl. Um ensopado simples, meio galês, meio inventado, que minha tia fazia nos dias ruins. O cheiro começa a preencher o ambiente.
Alguns minutos depois, Clary aparece na porta.
— Por favor, não se ofenda se eu não comer muito. Só não estou… bem.
Ela está usando um pijama grande, o cabelo ainda pingando. A camisa grudada nos ombros, transparente nas mangas. Tão vulnerável, e ainda assim tão bonita que me dói.
— Tudo bem. Só quero que você se sinta melhor — respondo, desligando o fogo. — É cawl. Um tipo de caldo que eu comia quando era criança. Funciona. Quase como mágica.
Ela se aproxima, olhando pra panela.
— Não parece tão horrível.
— O que quer dizer “não parece horrível”? Isso devia ser um elogio?
— Estou tentando manter o seu ego sob controle, Dr. Lockwood — ela murmura, arqueando uma sobrancelha.
Eu sorrio. Pela primeira vez, sorrio de verdade desde que entrei nessa cozinha.
— Quer comer no sofá? — ela pergunta, baixinho. — Não quero… mesa, cadeiras, essas coisas.
— Claro. Acho que prefiro assim também.
Nos servimos em silêncio. A sala está aquecida, a lareira crepita baixo, e o mundo lá fora parece distante.
Aqui dentro, pelo menos por alguns instantes, existe algum tipo de abrigo.
Não felicidade. Mas abrigo.
E é o suficiente — por enquanto.
Clary se senta em uma ponta do sofá, segurando sua tigela de ensopado fumegante. O aroma rico e espesso preenche o ar, e a cada colherada que ela dá, a fumaça sobe delicadamente, criando uma espécie de neblina cálida entre nós. Seu sorriso brando, quase tímido, surge com naturalidade. As bochechas coradas pelo calor da comida lhe dão um ar doce, caseiro. Algo dentro de mim se dissolve, embora eu lute para ignorar o peso desse sentimento.
Sentado na outra ponta do sofá, me deixo envolver pela tranquilidade rara do momento, como se a noite tivesse se dobrado sobre si mesma para nos proteger. Um cobertor grosso de lã está embolado entre nós. Clary o puxa com uma mão distraída, como se precisasse de um pouco mais de abrigo – ou de mim.
– Até que não estava péssimo. – ela diz, com aquele sorriso sacana que me tira do sério. – Acho que subestimei seus dotes culinários.
– Você sempre me subestima, Blackwell. – dou de ombros, fingindo despreocupação. – Já devia saber que sou bom em tudo que faço.
Ela estala a língua, mas não discorda. O sofá é grande, mas o espaço entre nós parece cada vez menor.
– Disseram que vão me avisar se algo aparecer. E prometeram vigiar a rua. – ela comenta, depois de um silêncio longo.
– Vai me mantendo informado. – peço, me levantando para recolher os pratos. – Quer subir ou me esperar aqui? Preciso de um banho… depois a gente pode ver algo, se quiser.
– Vou esperar aqui. – ela responde, com um sorriso cansado. – E obrigada pelo jantar, Dr. Lockwood.
Seu celular vibra. O nome “Atlas” aparece na tela.
Quem é esse merda?
A raiva me aperta o maxilar, amarga e quente. Tento ignorar. Foda-se Atlas. Ela está na minha casa. Comendo meu ensopado.
No banho, apoio as mãos contra o azulejo e deixo a água escorrer. Tento pensar em qualquer coisa que não seja o jeito como os olhos dela me seguiram até a escada. O modo como ela mordeu o lábio quando meu quadril roçou o braço do sofá. Mas é inútil. A pele dela está colada na minha memória. O cheiro. O som. O gosto que ainda não tive.
Visto a primeira coisa que encontro: calça de moletom e uma camiseta ridícula, rosa choque, estampada com um Ken acenando de um carro azul. “Wanna go for a ride?” brilha em letras de glitter. Uma parte de mim acha que é um desastre. A outra quer fazer Clary rir.
Quando desço, o riso dela explode na sala.
– Ai, meu Deus. – ela cobre o rosto com as mãos. – Eu nunca pensei que fosse ver algo assim na minha vida, Sam.
A gargalhada dela é tão leve que parece curar o ar entre nós. Pela primeira vez em dias, não há sombras pairando.
– Gostou? Ganhei de uns amigos da faculdade.
– Eu adorei. Deita aqui, Ken.
Ela abre espaço, e eu me encaixo atrás dela. A lareira lança sombras douradas pelas paredes. O mundo lá fora se apaga. Aqui, tudo é silêncio e calor. Nossos corpos se moldam, nossas pernas se entrelaçam sem esforço.
– Sinto muito pelo que aconteceu. – murmuro no topo da cabeça dela, sentindo os fios macios sob meus lábios.
– Obrigada. Por ontem também. – ela segura minha mão e a leva até os lábios. Um gesto pequeno, íntimo, devastador. Meu peito aperta.
Por um tempo, conversamos pouco. Rimos baixo. A respiração dela é suave. A minha, um pouco mais tensa. Mas há paz. Uma trégua silenciosa. Como se ambos soubéssemos que a calmaria não vai durar.
A madeira estala devagar na lareira, preenchendo o silêncio que ficou entre a gente depois da conversa. Mas não é um silêncio ruim. É… confortável, de um jeito estranho. Como se nenhuma palavra fosse urgente agora.
Clary se levanta devagar. Caminha pelo tapete como se estivesse flutuando — ou talvez seja só o jeito que ela se move quando não tá tentando fugir de nada.
Quando ela passa pela mesa de centro, para. Sinto o movimento dela antes de ouvir a voz.
— Você tá lendo isso?
Levanto os olhos devagar. Ela segura o livro com uma expressão curiosa, surpresa. Mas não debochada. Só… genuinamente interessada.
— Tô — respondo.
— Desde quando você lê esse tipo de coisa?
Dou um meio sorriso e dou de ombros, sem tirar os olhos dela.
— Desde que comecei a conviver com você.
Ela levanta uma sobrancelha, meio provocando.
— Não sabia que eu era tão influente assim.
— Você é — respondo, mais baixo. — Mais do que devia.
Ela sorri de leve, mas é o tipo de sorriso que mexe comigo. Um canto de boca, os olhos brilhando como se soubessem de mais do que dizem.
Ela se aproxima devagar, como quem sabe que pode. Não diz nada — só deita ao meu lado, o corpo se encaixando no meu como se já soubesse o caminho. Minha mão vai naturalmente até a cintura dela, e o mundo parece mais silencioso com ela assim, tão perto. Tão real.
A cabeça dela repousa abaixo do meu queixo. Consigo sentir o cheiro do cabelo dela. Um cheiro limpo, leve, como chuva recém-caída em alguma cidade onde eu nunca estive, mas que sempre procurei.
Clary abre o livro devagar, como se fosse sagrado. E eu assisto em silêncio, com o peito apertado de um jeito que não sei explicar.
— Sabe… — ela diz, com a voz morna e baixa, — da primeira vez que li isso, eu fiquei com raiva da Catherine.
— Raiva? — pergunto, e minha boca quase toca a pele dela.
— Achei ela egoísta. Meio cruel. Mas… agora eu não sei. Talvez ela só estivesse perdida demais pra ser outra coisa.
Eu encosto o rosto no ombro dela. Fecho os olhos por um segundo.
— Você se identificou com ela?
Ela não responde de imediato.
— Talvez. Ela tem esse jeito de se dividir entre o que quer e o que acha que precisa. E sempre acaba escolhendo errado. Como se tivesse medo de ser feliz, sabe?
— Eu acho que ela não sabia como ser feliz — digo. — Nem com ele, nem sem ele.
Ela se vira um pouco, o suficiente pra que eu veja de relance os olhos dela, dourados e atentos mesmo sob a luz baixa da lareira.
— E você? — ela pergunta. — Qual parte mais te pegou?
Eu encaro o teto por um segundo, mas a resposta já estava em mim.
— Quando ele diz que ela é mais ele do que ele mesmo. Que eles são feitos da mesma coisa. Eu entendi o que ele quis dizer.
— Porque você sente isso também?
— Porque tem gente que entra na sua vida e muda tudo. E de repente você não sabe mais onde termina… e onde o outro começa.
Ela fica em silêncio, mas não se afasta. Se encaixa ainda mais em mim. E por um instante, tudo fica quieto. Como se o mundo estivesse exatamente onde deveria estar. Como se a fome que me consome todos os dias tivesse encontrado descanso.
Com ela. Ali.
— Hoje eu quem vou ler pra você — Clary diz, com a voz calma e firme, ajeitando o corpo mais uma vez entre os meus braços, como se sempre tivesse pertencido ali.
Ela segura o livro com delicadeza. Abre em uma página já marcada e começa a ler. A voz dela preenche a sala devagar, como uma onda que cobre tudo e não deixa nenhum espaço vazio.
“Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria a existir; e se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria um completo estranho para mim.”
Fecho os olhos.
A voz dela entra por cada fresta, por cada ruído dentro de mim. Me acalma como nada mais consegue. Como ninguém nunca conseguiu. É como se ela soubesse exatamente onde encostar pra acalmar o caos. E, ao mesmo tempo, não soubesse de nada.
E isso me destrói.
Porque ela está cuidando de mim sem perceber. Está me oferecendo o que eu procurei a vida inteira.
O calor do corpo dela encostado no meu, o som da respiração entre as palavras, o jeito como ela lê como se acreditasse em cada frase… É demais. É tudo.
“Eu sou Heathcliff!”, ela lê, com um brilho estranho na voz.
“Ele está sempre, sempre na minha mente. Não como prazer, como eu mesma. Não mais separado de mim do que o meu próprio ser.”
Sempre desejei alguém que me visse desse jeito. Que ficasse. Que escolhesse estar perto mesmo quando eu não sou fácil de amar.
E ela tá aqui.
Nem precisa me prometer nada. Só o fato dela estar lendo pra mim já me desmonta. Porque não tem defesa contra esse tipo de ternura. Contra essa forma tão sutil e devastadora de amar alguém sem dizer a palavra.
Eu encosto o rosto no cabelo dela, inalando o cheiro que agora já conheço de cor. Quente, limpo, familiar. E penso que, se existir alguma salvação pra mim, talvez esteja exatamente aqui. Nesse instante. Nessa voz.
Clary continua lendo.
E eu continuo queimando em silêncio, grato por finalmente estar onde sempre quis: nos braços de alguém que, sem nem saber, está me salvando.
Mesmo que por uma noite.
A voz dela desacelera. As palavras vão ficando mais espaçadas, mais suaves. Quase como se estivesse lendo pra si mesma agora. Como se o som da própria voz também a acalmasse.
Sinto o corpo dela relaxar contra o meu, os ombros perdendo a tensão de antes, os músculos afundando no calor do sofá, no meu peito. A respiração fica mais ritmada. Quieta.
Eu abaixo o rosto, encostando devagar minha boca perto da nuca dela.
— Tá se sentindo melhor? — murmuro, com cuidado, sem querer quebrar o que quer que seja que a gente construiu nesses minutos.
Ela não responde de imediato. Vira um pouco o rosto, os olhos ainda presos na página aberta.
— Um pouco — sussurra. — É como se… o barulho diminuísse aqui dentro.
Se eu soubesse que só isso já ajudaria, teria feito antes. Teria trazido todos os livros do mundo pra ela. Teria decorado cada um, só pra ouvir a voz dela lendo de novo.
— O que mais posso fazer pra diminuir o barulho? — pergunto, e não tô brincando. Nem tentando ser romântico. Eu realmente quero saber. Porque se tem alguma coisa que eu posso fazer por ela, eu faço. Sem pensar. Sem cobrar.
Ela sorri, mas é um sorriso pequeno, cansado.
— Já tá fazendo.
Fecho os olhos por um segundo, deixando aquela frase bater com força. Como tudo o que ela diz. Porque ela tem esse poder: dizer as coisas mais simples como se fossem confissões. Como se estivesse abrindo uma parte de si só pra mim.
Passo a mão devagar pelo braço dela, num gesto que é mais sobre pedir permissão do que sobre tocar. E ela deixa. Não se afasta.
— Você é linda, Clary — digo, sem pensar, e ela solta um riso abafado.
— Você já me disse isso hoje.
— É que às vezes eu esqueço de como é verdade… até olhar de novo.
Ela não responde, mas vira o rosto o suficiente pra me olhar por cima do ombro. O olhar dela é tão cheio de camadas que eu poderia me perder ali por dias. Coragem, tristeza, inteligência. Uma força que ela mesma parece esquecer que tem.
— Você é forte, sabia?
Ela franze a testa, desconfiada. Como se não acreditasse nisso.
— Forte? Eu?
— É. Forte. E brilhante. Você pensa em mil coisas ao mesmo tempo e ainda assim encontra beleza no meio do caos. Isso não é fraqueza, Clary. Isso é sobreviver. Isso é lutar.
Ela vira o rosto de volta, deitando a cabeça no meu braço.
— Às vezes eu só queria que tudo fosse mais simples.
— Eu sei — respondo. — Mas se fosse simples, talvez eu nunca tivesse te encontrado
O silêncio que se segue não é desconfortável. É cheio de significado. Um silêncio que fala por nós. Que diz tudo que ainda não conseguimos
Ela fecha o livro com delicadeza, apoiando no peito, entre os nossos corpos. E a única coisa que escuto agora é a respiração dela, o som do fogo crepitando, e o que quer que esteja nascendo entre nós — esse laço feito de silêncio, de palavras emprestadas, e de uma entrega que acontece mesmo quando a gente tenta se proteger.
E por um segundo — só um segundo — eu acredito que talvez, só talvez… eu possa ficar.
A cabeça dela pesa um pouco mais no meu braço. A respiração desacelera. Os olhos, que ainda há pouco seguiam cada linha do livro, agora piscam devagar, vencidos pelo cansaço.
E eu entendo. Eu sinto também.
É como se todo o peso da semana, do mês, da vida inteira… estivesse desabando agora. Aqui, nesse sofá, nesse calor. Nela. Em mim. Na gente.
Eu a puxo só um pouco mais pra perto, encaixando melhor meu corpo no dela, como se quisesse proteger, cercar, abrigar — e talvez queira mesmo. Porque há algo tão frágil e tão certo em tê-la assim, aninhada em mim, que eu quase esqueço de respirar.
Ela não protesta. Só se acomoda. Como se já soubesse que o lugar dela é aqui.
E a verdade é que… talvez sempre tenha sido.
Meus olhos começam a pesar também. O som da lareira vira uma espécie de embalo, o calor nos envolve feito um cobertor invisível, e a última coisa que penso, antes de tudo escurecer, é que eu nunca soube o que era paz até agora. Nunca senti isso — essa quietude inteira, essa rendição sem medo.
Dormimos assim mesmo. No sofá, do jeito mais improvável e mais certo do mundo. Um no outro. Um do outro. Exaustos de tudo… menos disso.
De nós.
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