Vizinhos
16 Clarissa
“For then my thoughts — from far where I abide —
Intend a zealous pilgrimage to thee.”
— Sonnet XXVII, William Shakespeare.
Ele vem antes do sono, antes da lógica. Como se minha mente o chamasse sem querer, como se meus pensamentos fizessem o caminho até ele no escuro. Um tipo estranho de fé — inquieta, íntima, silenciosa.
Clary
Depois de acordar enrolada nos braços de Sam, os acontecimentos macabros do dia anterior parecem quase um pesadelo distante e sem sentido. Nada daquilo parece real. É como se tudo tivesse sido apenas uma grande brincadeira de mau gosto, e Robert estivesse, como sempre, me esperando chegar em casa — pronto para miar assim que me visse entrar pela porta, ansioso pela sua próxima refeição, como se estivesse há dias sem comer.
Não acredito que ele se foi.
Assim, do nada.
Dessa maneira tão bizarra.
Ver o seu corpinho dentro de um saco foi um choque tão grande, que sequer consegui gritar na hora. Meu cérebro não processou aquela imagem.
O choro só veio quando liguei para a polícia, minutos depois, ainda sem saber o que fazer.
Quem faria uma coisa dessas? Quem seria capaz de entrar na minha casa só para isso? Por quê?
Durante o dia inteiro, essas perguntas rodopiaram sem resposta. Quando os policiais finalmente foram embora, depois de horas e horas no meu quarto, a única coisa capaz de aliviar, ainda que minimamente, a angústia, tristeza e medo dentro de mim foram os comprimidos do armário do meu pai.
Chamei alguém para consertar a tranca da janela, e os policiais me alertaram para tomar cuidado, apesar das promessas de fiscalização mais intensa no bairro.
Pouco tempo depois, Lockwood apareceu na cozinha.
Ele me abraçou.
Enxugou as minhas lágrimas.
Me acolheu.
Cozinhou o jantar.
Seus olhos escuros estavam sempre atentos — preocupados, vigilantes — toda vez que eu o pegava me observando de relance.
E, naquela sala, naquele sofá, não havia nada que eu desejasse mais do que esquecer de tudo.
Eu queria esquecer o que aconteceu com Robert.
As brigas entre Sam e eu.
Os surtos do meu pai.
A morte da minha mãe.
As traições de Peter.
Tudo.
Eu queria me libertar da correnteza de desastres que parece decidida a me afogar.
E, por uma noite, Lockwood me puxou para fora dela.
Não houve pressa. Não houve desejo descontrolado. Apenas sua mão segurando a minha enquanto o filme rodava esquecido na tela. Apenas seus braços me envolvendo como se meu corpo não precisasse ter forma, só abrigo.
Dormimos ali, enroscados, com a respiração entrelaçada. E isso foi tudo o que eu precisava.
No fundo, eu sei que essa paz é efêmera, mas aquele instante — aquele silêncio compartilhado — foi uma fuga real para a minha alma cansada.
Cansada de perder, de ser impotente, de ser abusada.
Porque, se eu desistir, mesmo que só um pouco, posso não ter forças para levantar. E então sigo me arrastando por aí, agarrada a qualquer sopro de humanidade que me faça acreditar que ainda vale a pena.
Agora, a respiração suave de Sam nos meus cabelos, o calor do seu corpo forte e a maneira protetora com que me abraça mesmo dormindo fazem meu coração apertar.
De gratidão.
De medo de que acabe.
De vontade de viver essa fantasia por mais um pouco.
Viro de frente para ele, que ainda dorme, exausto. Tiro os cabelos escuros da sua testa, preenchida por um sentimento novo ao vê-lo assim, vulnerável. Mesmo com seus quase dois metros de altura e o tronco definido exposto pela falta de camisa, Lockwood dorme como um bebê.
Tão lindo.
Sam poderia facilmente ser uma criatura mística — um anjo daqueles de livros de romance, que descem até a terra e acabam vivendo entre os mortais.
Ele está deitado, olhos fechados, respiração ritmada, com a mandíbula ligeiramente relaxada, sugerindo um sono profundo e tranquilo, como se estivesse imune ao caos dos dias anteriores. Os hematomas discretos ainda marcam sua pele pálida e seus lábios entreabertos são a coisa mais adorável que já vi.
— Vai ficar aí me olhando dormir, esquisita? — ele resmunga, ainda de olhos fechados, tentando cobrir a cara com o edredom.
— É o único momento em que você fica calado o suficiente para ser encantador — retruco, vendo-o me encarar com aquele olhar preguiçoso e quente, através da penumbra da sala. — Agora entendo o que quis dizer quando falou que gosta de me observar dormindo, apesar de ainda não fazer a mínima ideia de como faz para entrar no meu quarto escondido. — Franzo o cenho. — Pela janela?
— Claro que não. Não sou nenhum tipo de maníaco do parque, Blackwell. — Sam estala a língua em reprovação, espreguiçando o corpo maciço. — Fiz uma cópia da sua chave.
Arqueio as sobrancelhas, lentamente.
— Ah, claro. Porque isso é normal. — retruco — Você é inacreditável.
Mas a verdade é que nem estou tão surpresa assim.
A luz fraca do inverno invade pela janela com cortinas de veludo, iluminando o ambiente com delicadeza, projetando sombras nas paredes antigas. A casa parece respirar devagar ao nosso redor, me embalando de volta ao sono.
Lockwood encosta os lábios na minha bochecha com uma ternura que quase dói, como se estivesse marcando aquele instante na pele. Seus dedos afundam devagar nos meus cabelos, se demorando ali — como se, ao me tocar assim, pudesse me prender a ele, mesmo que por mais um minuto.
Estamos enroscados no sofá como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. As pernas entrelaçadas, os corpos tão próximos que é difícil saber onde termina o dele e começa o meu. O peito de Sam encosta nas minhas costas, firme e quente, e um dos seus braços repousa pesado sobre minha cintura, como se fosse uma promessa silenciosa de que ele não vai me deixar ir. Seu corpo grande abriga o meu com naturalidade, como se sempre tivesse sido o meu lugar.
Sinto quando ele se levanta.
O calor do seu corpo se afasta devagar, mas não o bastante para me fazer abrir os olhos do cochilo. Ainda estou cansada. Exausta, na verdade — da noite, das confissões, de tudo.
Escuto o leve arrastar dos pés dele no chão de madeira, o som abafado da torneira, o tilintar das xícaras.
O cheiro de café logo preenche a sala.
Adormeço de novo, envolvida por aquela calma incomum que ele deixou para trás.
Quando acordo, a casa está silenciosa.
Na mesa de centro, um prato com torradas, uma caneca fumegante e um bilhete com sua caligrafia apressada.
“Tive que ir pro hospital. Volto assim que puder. O café tá forte como você gosta.”
Ele nunca assina os bilhetes.
E mesmo ausente, Sam ainda parece estar por perto.
(...)
A antiga mansão, alugada por Lockwood vários meses atrás, é uma construção imponente, cheia de segredos e histórias, com suas paredes gastas e madeiras rangendo a cada movimento.
Ao entrar no quarto dele, a primeira impressão é a de um espaço vasto, com janelas altas que deixam a luz do dia entrar suavemente, criando sombras misteriosas no piso de madeira escura. O teto, coberto por um papel de parede desgastado, exibe molduras ornamentadas, embora o tempo tenha tomado sua cor original.
A cama é grande, mas sem muitos enfeites – apenas um colchão firme e lençóis escuros. O quarto dá uma sensação de isolamento. Ao mesmo tempo que é funcional e austero, há algo enigmático e introspectivo no ambiente, como se o próprio espaço estivesse imerso em um estado constante de reflexão e silêncio.
Encostada na parede, ao lado da cama, há uma escrivaninha de madeira antiga, com papéis espalhados, canetas e anotações sobre casos recentes que Sam tem atendido no hospital psiquiátrico. Uma lâmpada de mesa, de luz amarelada e suave, ilumina a área de trabalho dele. Em cima da escrivaninha, um relógio antigo de pêndulo marca o tempo com uma cadência lenta e quase monótona, ecoando pela mansão silenciosa.
Nas paredes do quarto, há alguns quadros clássicos, cujas molduras douradas já perderam o brilho original, e algumas velhas prateleiras repletas de livros médicos, que parecem contar histórias de tempos passados, em tons escuros que dão uma sensação de melancolia ao ambiente. Na janela, há uma cortina pesada, de veludo, em tons de verde profundo.
Estou prestes a me deitar novamente na cama, desejando apenas descansar um pouco até ter que encarar a realidade, quando o meu telefone vibra.
Olho para a tela.
Uma mensagem de um número bloqueado.
“Olhe o computador dele.”
Uma pontada de desconforto atravessa meu estômago. Uma onda gélida, como se o calor tivesse abandonado meu corpo de repente.
Levanto o olhar, instintivamente.
Olho ao redor do quarto, como se pudesse encontrar ali, entre as sombras ou atrás das cortinas pesadas, alguém escondido.
Meu corpo enrijece.
A mansão está silenciosa, mas o silêncio parece espesso, desconfiado.
Tenho a sensação absurda — e incontrolável — de estar sendo observada.
Quem enviou isso? E como essa pessoa sabe que estou aqui?
Como sabe sobre Sam?
Fico encarando o celular por longos segundos, esperando — sem saber exatamente o quê. Talvez alguma revelação. Alguma resposta invisível nas entrelinhas.
Lembro da sensação de me sentir observada, enquanto corria, no dia seguinte a festa de Halloween, e um arrepio sobe pela minha nuca.
Meu dedo hesita sobre a tela.
Estou refletindo se devo responder, quando a próxima mensagem aparece:
“Senha: 1983”
Meu coração acelera de imediato. O olhar é puxado, quase por instinto, para o laptop repousando sobre a escrivaninha, a poucos passos de onde estou.
O impulso vem antes da razão.
Abro o laptop, a tela acendendo suavemente. Assim que digito a senha, o meu coração para, quando identifico uma pasta com o meu nome completo na área de trabalho.
Clarissa Blackwell
Não hesito em abrir.
No início, parece um simples arquivo, mas quando começo a vasculhar, tudo muda. Informações começam a surgir na tela, uma após a outra, um fluxo constante de detalhes da minha vida que eu nunca imaginaria estarem aqui.
Sinto a bile subir pela garganta.
Que merda é essa?
Fotos minhas aparecem, algumas antigas, outras mais recentes. Vejo imagens com amigos e familiares – até a minha mãe está nelas. Emy e eu, anos atrás; Nick brincando comigo no jardim quando éramos menores; o nosso antigo cachorro; registros dos meus aniversários; fotos com o meu ex, Peter; uma coleção de mídias minhas durante o meu estágio na Itália; informações praticamente completas e infinitas de décadas da minha vida.
Coisas que nunca publiquei.
Coisas que nem mesmo lembrava que existiam.
Coisas que ele não deveria ter.
E não é só isso. Lockwood tem o meu histórico universitário, com todas as notas e trabalhos detalhados, meus artigos – dos mais recentes aos mais antigos –, tudo aqui, acessado sem meu conhecimento. Tudo guardado. Endereços, números de contato, uma lista de livros que aluguei na biblioteca...
O que Sam quer com isso tudo?
O medo cresce à medida que percebo que Lockwood pode ter estado acompanhando a minha vida de uma forma que nunca imaginei. De uma forma doentia.
Sinto uma mistura de confusão e traição. Angústia me aperta o peito.
Porque?
O silêncio ao meu redor parece aumentar, como se a casa estivesse se tornando mais opressiva, mais distante. Tento encontrar uma explicação lógica, mas a dúvida continua a me assombrar. Quem está por trás da mensagem? Se Lockwood está escondendo algo de mim, não pode ter sido ele.
Nada encaixa.
Ou talvez… tudo comece, enfim, a se encaixar de um jeito assustador.
A luz da tela do computador reflete nos meus olhos, mas não consigo mais olhar para a tela. A sensação de que algo está profundamente errado toma conta de tudo, se intensificando pela frustração de não ser capaz de compreender que porra está acontecendo.
Eu não o conheço.
Nunca conheci.
De fato, não conheço Sam e suas motivações. Já havia constatado isso antes, mas as coisas estão fora dos limites de uma maneira que eu nunca imaginaria.
A imagem mental que criei de Sam Lockwood — o médico bonito, calado, vizinho reservado com quem eu mantinha algo casual — desmorona diante dos meus olhos.
Agora, tudo o que vejo é o vulto de alguém que manteve as próprias intenções escondidas de mim o tempo inteiro.
E o pior de tudo não é o que encontrei.
É não saber o que mais pode existir além disso. Sobre o que mais ele mentiu para mim?
O meu coração bate descompassado. Sinto a bile subir e sei que preciso sair daqui.
A percepção de que Lockwood talvez tenha se mostrado mais distante e inacessível do que eu imaginava, ocultando propositalmente partes importantes de si mesmo, é enjoativa.
O que ele quer comigo?
Começo a me questionar se Sam nunca me deixou conhecer a sua verdadeira essência, agora, me sentindo uma estranha ao pensar nele e no que mais pode estar escondendo de mim.
Por que ele teria uma pasta minha no computador?
Começo a ficar desesperada, e não quero mais ver nada, apenas dar o fora daqui o quanto antes. Não consigo pensar em uma explicação plausível para isso tudo.
Estou ficando louca, me sinto prestes a surtar.
Não faço questão de fechar o computador ao enfiar todas as minhas coisas na mochila e sair apressadamente do quarto. Desço as escadas praticamente correndo, os degraus de madeira rangendo sob os meus pés. De repente, essa casa me dá mais medo do que qualquer outra coisa.
Não faz sentido. Nada faz sentido.
Bato a porta da frente ao sair, o ar frio atingindo o meu rosto com força.
As árvores da rua, ainda com folhas secas, estão cobertas de geada, criando um manto branco cintilante que reflete a luz suave do sol de inverno. O chão está camuflado por uma fina camada de neve, com as sombras das árvores se projetando longas e nítidas.
As fachadas das mansões, algumas de tijolos vermelhos e outras de pedra clara, parecem ainda mais majestosas sob o céu cinza, com detalhes ornamentais nas janelas e portas. Ao fundo, é possível ouvir o som suave de um vento frio que move os galhos das árvores
Atravesso correndo para casa.
Entro apressada pela porta da frente, ofegante, como se tivesse sido perseguida por algo que não consigo sequer entender. Meus passos rápidos ecoam no hall de entrada, e mal consigo controlar minha respiração. Paro, com o peito arfando, olhando ao redor, como se estivesse esperando que algo me alcançasse.
Do fundo da sala, o som de passos vindo das escadas quebra o silêncio como uma rachadura no vidro. Meu pai surge com os cabelos grisalhos desalinhados, a expressão marcada pela urgência e algo mais — algo sombrio.
Seus olhos azuis carregam uma tempestade à beira do colapso.
Reconheço esse olhar. Já vi antes. Já senti na pele. Mas ele não me dá tempo para reagir.
– Você mexeu no meu escritório? – dispara, sem sequer me olhar nos olhos, sem um cumprimento, nada. Só a fúria bruta contida, aquela velha conhecida.
– Não. Faz meses que não entro lá. – minha voz sai mais firme do que eu esperava, mas a respiração ainda vem em um arfar nervoso. Meu peito sobe e desce como se o ar me escapasse pelas costuras.
Tento parecer calma, mas meus dedos tremem. Tento manter o foco, mas estou à beira de explodir.
A tensão em seu rosto se funde à raiva crescente, os músculos do maxilar pulando sob a pele. Ele parece prestes a perder o controle.
– Alguns documentos muito importantes simplesmente sumiram. Sumiram, Clarissa! – meu pai rosna, descendo os últimos degraus com violência e parando diante de mim, rosto a rosto.
Balanço a cabeça. Minhas mãos estão geladas.
– Eu não mexi em nada. – repito, e quando tento sair dali, contornar o caos antes que ele me engula, seu braço me segura com força. Meu coração dispara como um alarme preso no peito.
Ele está inquieto. Alucinado.
– Você não faz ideia do inferno que estou vivendo, Clarissa! Do que já fiz, do que continuo fazendo por essa família! – seu aperto se intensifica. – Esses papéis não sumiram por mágica! Estavam guardados. Guardados! Você pode até ser, mas eu não sou estúpido!
Seu rosto está deformado pela fúria, os olhos azuis em chamas.
– É óbvio que a mesma pessoa que invadiu essa casa pela maldita janela do seu quarto, mexeu nas minhas gavetas! Menina burra! – Ele me empurra com um gesto tão rápido que tropeço para trás.
O ar entre nós se torna denso, cortante. Estou paralisada, tentando entender se é real — mas meu corpo já sabe que é.
– Por que alguém faria isso…?
– Você não sabe de nada, porra nenhuma! – ele berra, cuspindo as palavras. – E ainda consegue piorar tudo! Você sabia da janela! Sabia! E deixou aquilo assim, exposto. Estúpida! Não foi só o maldito gato! Foi alguém que roubou o que pode nos destruir!
– Eu não entendo…
De repente, ele me agarra pela camisa com brutalidade. Sinto meu corpo se erguer alguns centímetros do chão. Seu rosto tão próximo do meu que posso sentir o cheiro amargo de café e raiva.
– Sempre com essa cara de vítima, Clarissa. Sempre pelos cantos, se lamentando. Você acha que sua vida é difícil? Você não tem ideia do que é o inferno. É fraca. Patética! – seus gritos me atravessam como cacos de vidro. – Eu achei… eu jurei que, a essa altura, você já teria se matado!
Algo dentro de mim se parte com essa frase.
– Me larga! Agora! – grito, e minha própria voz me assusta. Não por ser alta, mas por estar impregnada de ódio.
O ódio me aquece como nada mais consegue.
Mas ele não recua. Ao contrário.
Me joga no chão como se eu fosse ninguém. Como se eu fosse um erro ambulante.
– Você não é nada aqui! Nada! – ele brada, com a respiração descompassada, o olhar ensandecido. – Você não faz ideia do que eles estão fazendo comigo! E você entregou tudo de bandeja, sua… sua…
Eu não ouço mais.
Tudo vira um zumbido.
Quando tento me levantar, ele me puxa pelos cabelos. O mundo gira, e a dor rasga meu couro cabeludo como se estivesse arrancando algo mais que só fios.
– Me solta! – grito, cravando as unhas no seu braço. Mas é como arranhar uma parede. Ele não sente. Não ouve. Só reage.
A fúria dele cresce sem limites.
– Você está completamente maluco! – exclamo, sem conseguir sair do seu aperto.
O meu pai, antes de me empurrar para o chão novamente, acerta o meu rosto com toda a foça, seu tapa me deixando zonza por alguns segundos.
– Maluca deve estar você para falar comigo desse jeito, menina estúpida! – vocifera, vindo para cima de mim como um touro furioso, a indignação estampada em seus olhos azuis.
Me levanto rapidamente, tentando correr para as escadas. Ele agarra a minha mochila, presa nas costas, me puxando para si.
Quando esbarro contra o seu corpo, ele começa a desferir murros desajeitados contra a minha cabeça, incontrolável de cólera. Caio sentada no primeiro degrau, tentando proteger o rosto com as mãos, e ele avança, bradando xingamentos que sequer consigo processar devido ao pânico.
Grito, na esperança de ser ouvida por alguém, quem quer que seja, mas nada adianta.
Ninguém nunca me ouviu.
A minha garganta dói devido aos berros e a vontade de desabar em choro, mas me nego a fazer isso.
Filho da puta, eu vou matá-lo.
Eu o odeio.
Odeio esse desgraçado.
Trincando os dentes e fechando os olhos a cada golpe, tento me proteger com os braços, sem muito sucesso. Sinto o gosto de sangue na boca e estou completamente descabelada e ofegante, quando, finalmente, consigo empurrá-lo de cima de mim, usando as pernas para chutá-lo para longe.
Engatinho alguns degraus, até conseguir me levantar e disparar escadaria a cima, me apoiando nos corrimões, a visão completamente turva. Entro correndo no quarto, batendo a porta e trancando-a o mais rápido que consigo.
Estou em estado de choque, meus batimentos cardíacos acelerados, o coração pulsando no peito como se quisesse escapar. O ar ao meu redor parece pesado, difícil de respirar, e estou ofegante, tentando não vomitar.
O meu corpo inteiro treme por conta da adrenalina, e os músculos estão tensos, como se eu estivesse à beira de um colapso.
Tenho certeza que estou.
Meu estômago se revira, e a sensação de náusea é forte, misturando-se com o medo e a confusão.
Me sinto fisicamente machucada; sinto a dor espalhar-se pelos braços, pelo rosto e pela parte inferior das costas. O meu pescoço arde.
Mas, a humilhação que me consome é a pior parte.
Talvez eu seja realmente patética.
No entanto, as lágrimas que rolam pelo meu rosto não são mais de tristeza, são de pura raiva.
Dele.
Dessa situação toda.
De mim, por ser tão permissiva. Tão burra.
Preciso sair daqui.
Mas, o eco das palavras do meu pai ainda reverbera na minha cabeça, enquanto tento processar o que acabou de acontecer.
“Achei que, a essa altura, você já teria se matado.”
Ele me viu.
O tempo todo.
Eu achava que era invisível. Que meu sofrimento passava despercebido. Que o meu pai era apenas descuidado.
Mas não. Ele via.
E ignorava.
Talvez porque, no fundo, torcesse pelo meu silêncio definitivo.
Talvez porque, se eu desaparecesse, a vida dele se tornaria mais fácil.
Menos incômoda.
Mais conveniente.
Ele estava só esperando o desfecho.
Como quem observa algo ruir devagar.
Como quem espera o inevitável acontecer.
E isso…
Isso é pior do que ter sido esquecida.
Ouço-o socar a porta pesada por um tempo, até finalmente desistir e se trancar no seu quarto também.
Só depois do que me parece uma eternidade em silêncio, sentada na mesma posição, tentando me acalmar, finalmente me levanto do chão.
Não sei que porra está acontecendo. Não sei o que tem nesses documentos. Não sei o que pensar sobre Sam, sobre a pasta no computador, sobre todos os sinais que resolvi ignorar.
A única coisa que sei agora, é que não posso mais ficar aqui.
Com pressa e as mãos tremendo, enfio o máximo de roupas que consigo em uma mala, socando tudo desorganizadamente – de uma forma que faria a Clarissa de algumas semanas atrás, que estava sempre ocupada demais se auto sabotando com a falsa sensação de controle sobre as coisas, surtar.
Antes de sair, decido tomar um banho e ajeitar, o máximo que consigo, os estragos no meu rosto. Esfrego o corpo com uma esponja, com força, como se pudesse esfregar também toda a mágoa e frustração de mim ao fazer isso.
Ao me encarar no espelho, estou exatamente como me sinto por dentro: uma tragédia.
Cabelos molhados, lábios partidos, um olho começando a ficar roxo – assim como meus braços e costas, o pescoço marcado por mãos agressivas e uma dor de cabeça que sei que não irá embora tão cedo.
Enfio dois comprimidos na boca antes de sair, em silêncio, sem saber exatamente para onde, mas com a certeza de que nada pode ser pior do que ficar nesse inferno.
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