Vizinhos
17 Clarissa
“No longer mourn for me when I am dead
Than you shall hear the surly sullen bell
Give warning to the world that I am fled”
— Sonnet LXXI, William Shakespeare.
Se eu sumisse, talvez o mundo nem cambaleasse. Nenhum sino, nenhum suspiro. Só o eco do que fui se dissolvendo no ar, como fumaça. Às vezes, penso que nasci para desaparecer — delicadamente, como quem nunca esteve de verdade.
Clary
Ao me ver na porta, depois de uma ligação breve, algo em Nick se parte — e dessa vez, ele não tenta esconder.
Os olhos, geralmente calmos, se fixam nas marcas que carrego no rosto, nos braços. Hematomas. Cicatrizes ainda recentes.
A raiva se ergue nele como uma labareda, descontrolada. Seu rosto se distorce num misto de desespero e fúria. Ele avança na minha direção com tanta rapidez que dou um passo para trás.
Não só pela raiva. Mas por tudo que está ali com ela: a dor. O luto. A impotência.
– O que ele fez com você? – a pergunta rasga o ar como um estalo.
A dor na voz de Nick é um soco no peito.
Me deixo envolver pelo abraço, mas ele me esmaga. Não fisicamente — emocionalmente. Me sufoca com o que carrega, e com tudo que eu escondi.
– Eu devia ter te escutado – murmuro. – Fui estúpida.
Nick me segura mais forte, como se quisesse impedir o mundo de chegar até mim.
Ele está tentando respirar. Está tentando não explodir.
Mas falha.
Seu rosto está vermelho. O olhar… como se eu fosse um enigma sangrando. Como se ele quisesse consertar tudo, mas não tivesse ideia por onde começar.
Há algo nele que me assusta. Não por mim. Por ele. Pela ideia que está crescendo nos olhos dele. A vontade de ir até nosso pai. De fazer justiça. De fazer algo.
– Não me peça pra não fazer nada – ele diz, com a voz baixa, mas carregada. – Eu não consigo só olhar isso. Não vou ficar parado. Eu juro por Deus que não vou…
– Nick – interrompo, um passo à frente. – Você não vai fazer nada. Eu já decidi. Não volto pra lá. Por favor, não piore as coisas.
Minha voz vacila. Eu queria acreditar no que digo. Mas nem eu sei se consigo.
Ele me encara. Uma guerra travada por trás dos olhos. Até que suspira. Concorda com a cabeça.
A frustração pinga dos ombros dele. Mas cede. Pega minha mala e seguimos em silêncio até o apartamento.
O apartamento de Nick é um refúgio. Piso escuro, iluminação baixa, poucos móveis — tudo tem a cara dele. Acolhedor, moderno, discreto.
Afundo no sofá. Meus ossos imploram por descanso. Ele se senta na poltrona à frente, os olhos grudados em mim, como se buscasse respostas que eu não sei dar.
– Por que ele surtou dessa vez? – pergunta enfim, voz carregada de raiva e cansaço.
Fecho os olhos. Como se isso me ajudasse a organizar o caos.
– Tem muita coisa. Nem sei por onde começar – digo. Minha voz sai rouca. Fraca. – Os últimos dias foram… um inferno.
O silêncio entre nós pesa. Até que ele diz, direto:
– Apenas começa.
Respiro fundo. Ainda evito encará-lo.
– Ontem à noite, quando voltei do trabalho… encontrei o Robert. Morto. Em cima da minha cama. Dentro de um saco. O pescoço cortado.
Nick não reage de imediato. Nem resmunga. Nem respira.
– A polícia apareceu. Reviraram a casa. Disseram que o invasor entrou pela janela quebrada. Que talvez tenha escalado a árvore. Mas… nada foi roubado. Só o gato morto.
Engulo em seco. Deixo de fora o que não sei explicar. A sensação de perseguição. O computador. O nome dele.
– Dormi fora. Hoje voltei pra casa. E nosso pai já estava fora de si. Revirando o escritório. Gritando por causa de uns documentos que desapareceram. Me acusou. Gritou que a mesma pessoa que matou o gato levou os papéis. Que eu fui idiota por deixar a janela aberta.
Paro. Encaro Nick.
– Não faço ideia do que ele estava procurando. Mas acho que é mais sério do que eu pensava.
Nick ainda está imóvel. Os olhos fixos em algum ponto entre nós. A mente dele está longe, mas o corpo carrega tensão demais para fingir calma.
– Você não pode voltar – ele diz, enfim.
– Eu não vou. Mas queria voltar só pra pegar minhas coisas. Quando ele estiver de plantão. Você pode ir comigo?
Ele concorda com a cabeça.
– Ele fez alguma merda. Disso eu tenho certeza. Estão se vingando. E você tem que sair disso o quanto antes, Clary.
Faz sentido. Mas não consigo parar de pensar em outra coisa.
O computador de Sam.
A pasta com tudo sobre mim.
Como se ele soubesse cada pedaço da minha vida. Cada vulnerabilidade.
– Posso ficar aqui uns dias?
– Óbvio – responde de imediato. – Vou fazer um chá. Fica à vontade.
Ouço Nick na cozinha. Ele mexe nos armários com familiaridade, tentando, eu sei, fingir normalidade.
Meu celular vibra.
Um arrepio percorre meu corpo antes mesmo de ler.
“Clary, precisamos conversar.”
Meu coração acelera.
“Por favor. Onde você está?”
É o Lockwood.
As palavras dele me atingem como um soco.
Apago a tela quando ouço Nick se aproximar com as canecas fumegantes. Pego a minha com as mãos trêmulas.
– Obrigada – murmuro, quase sem voz.
Mais uma vibração.
“Clarissa. Não faz isso. Preciso te explicar. Me deixa ir até você.”
Guardo o celular. Não agora.
– Você falou com a Emy? – Nick pergunta, atento.
– Ainda não. Estou cansada. Só quero… sumir por uns dias.
– Pode dormir no meu quarto. Fico bem no sofá – diz, com um sorriso cansado. – Não tenho teus trocentos produtos de cabelo nem teus esfoliantes caros, mas vai ter que servir.
Dou uma risada fraca.
– Vou ficar com o cabelo ressecado.
– Vai combinar com o resto do visual – ele brinca, apontando para meus hematomas.
– Desgraçado. – Balanço a cabeça. Mas sorrio. Pela primeira vez em dias, sorrio de verdade.
– Qualquer coisa, é só gritar.
– Sempre é. Boa noite, irmão.
Me retiro.
Enquanto me afasto para o quarto, meu coração ainda bate acelerado, o celular na mão como uma maldição que me impede de seguir em frente. Sei que, em algum momento, vou ter que lidar com aquilo, com ele, mas não agora.
(...)
Quando finalmente me deito, exausta, os meus ombros estão pesados e o corpo marcado pelo cansaço de um dia longo e caótico. Me afasto das cobertas, tentando me acomodar na cama, mas os pensamentos ainda me perseguem. O travesseiro de Nick, normalmente confortável, parece estranho contra minha cabeça, e o colchão não consegue aliviar totalmente o peso que carrego.
Suspiro profundamente, fechando os olhos, tentando encontrar algum descanso, mas a minha mente ainda está em um turbilhão de emoções e memórias que não me deixam em paz.
Começo a adormecer, mas logo os pesadelos se iniciam. Imagens confusas e distorcidas surgem, como sombras que se arrastam na escuridão, e me vejo novamente no meio de um caos, revivendo momentos de angústia que não consigo dissipar. O suor começa a se acumular na minha testa, nas minhas costas doloridas, e meu corpo se contorce involuntariamente sob os lençóis.
A cada pesadelo, acordo brevemente, ofegante, o coração acelerado, como se tivesse corrido uma maratona. Mas, ao fechar os olhos novamente, a sensação de insegurança e a pressão do dia anterior me mantém cativa em um ciclo de descanso interrompido.
A minha mente não consegue desligar.
O dia da biblioteca vem à tona. A sensação quase palpável de perseguição que me levou a entrar correndo no prédio, a forma como achei que estivesse surtando ao sentir que havia algo errado, mesmo sem saber exatamente o que.
Alguém estava me seguindo, agora tenho certeza disso.
Sam? A pessoa da mensagem? Quem quer que tenha roubado os documentos?
Não sei responder.
Acordo com um solavanco, sentando na cama com o corpo suado e o coração aos pulos. Levo alguns segundos para entender onde estou. As paredes do quarto de Nick me parecem irreais, como se ainda fizessem parte do delírio. O lençol embolado em volta das pernas, o travesseiro no chão. Meus dedos tremem levemente enquanto passo as mãos pelo rosto, tentando afastar a sensação de estar presa em algo que não consigo explicar.
Fico presa entre o sono e o medo, lutando para encontrar algum alívio que nunca chega.
Até que, como se estivesse ouvindo os meus pensamentos, sinto o meu celular vibrar na escuridão da madrugada.
"Clary, me diz onde você está. Vou te buscar."
Mais uma mensagem de Sam. Me pergunto se ele também está com dificuldades para dormir.
Queria conversar, mas não tenho energia para lidar com isso agora.
O que quer que seja isso.
Não tenho energia para lidar com mais nada.
Estou machucada, cansada e magoada.
E parte disso também é culpa dele.
Estou prestes a jogar o celular longe, quando Lockwood me envia um texto. A segunda carta do livro que me deu. Do livro que começou a ler para mim, naquele dia, no escuro do meu quarto, sentado ao meu lado na cama – a luz do abajur iluminando o seu rosto bonito, sua voz suave, suas carícias gentis nos meus cabelos.
Não faz muito tempo, mas me parece uma época tão distante.
"Segunda carta de Werther a Wilhelm
[23 de maio]
Meu querido Wilhelm,
Estou aqui, em um belo campo. A paisagem é maravilhosa; meus olhos se perdem nela. O que eu disse sobre o lugar é verdade: um quadro pintado pela natureza e que me proporciona um prazer indescritível. Vejo montanhas e vales, rios e prados; o ambiente tem algo de tocante e simples que me agrada profundamente. O ar fresco e suave parece comtemplar minha alma. As pessoas aqui, tão calmas e simples, parecem viver com prazer. Eu, que sou tão sensível, fico emocionado com as pequenas coisas. Como é possível para um homem com meus sentimentos não se perder na grandeza dessa natureza?
Ontem, encontrei-me com uma jovem encantadora. Seu nome é Charlotte, filha do meu anfitrião, e a impressão que ela causou em mim é indescritível. Como se um sol se tivesse aceso em meu coração, como se a vida tivesse de repente se tornado mais brilhante e intensa. Ela é uma das pessoas mais formosas que já vi. De repente, todo o meu ser está absorvido por ela. Eu estive com ela e seu comportamento… tão natural, tão grato… realmente me fez perder a razão. Não sei como explicar isso a você. Ela tem uma beleza simples, que não é ostentada, mas ainda assim me tocou profundamente. O som da sua voz, os seus gestos, tudo nela me pareceu perfeito.
O que mais me marcou foi quando ela começou a falar de suas ocupações, da família, das tarefas cotidianas. Como ela se entrega a tudo com uma tal paixão e seriedade! Mesmo sua maneira de fazer pequenas coisas a torna admirável. E, oh, Wilhelm, quando ela falou sobre seus irmãos, como ela os ama! A sinceridade e a ternura com que a vi falar me tocaram de maneira que jamais senti antes.
De modo geral, sinto-me tão em paz aqui, mas o mundo à minha volta também me apavora. Como posso me encontrar em harmonia com uma existência tão simples e ao mesmo tempo não cair nas armadilhas do desejo e da dor? Você não pode imaginar como este lugar é ao mesmo tempo maravilhoso e cheio de dores silenciosas.
Eu desejo tanto compreender tudo isso, mas talvez minha alma seja muito pequena para tamanha grandiosidade.
O que fazer quando meu coração deseja algo que parece tão distante e irreal? Quando tudo ao meu redor me fala de uma felicidade que parece ser para os outros e não para mim?
Com afeto,
Werther."
A manhã invade o quarto com uma luz cinzenta, típica dos dias nublados em Londres. Tudo parece suspenso, como se o mundo estivesse esperando eu me recompor antes de continuar girando.
Levanto devagar, os músculos doloridos pela tensão da noite. No banheiro, a água quente do chuveiro me oferece um breve alívio, mas não lava os pensamentos. Meus olhos encaram o espelho por longos segundos. Há um corte discreto na minha sobrancelha, já começando a cicatrizar, mas o inchaço ao redor ainda está visível. Os hematomas no braço também. Por um momento, encaro meu reflexo e me pergunto em que momento comecei a desaparecer dentro de mim mesma.
Tento me concentrar no básico: escovar os dentes, prender o cabelo, vestir uma roupa limpa do fundo da mala. A rotina me dá uma falsa sensação de controle. Quando saio do quarto, Nick já está de pé, mexendo em algo na cozinha com o olhar preso ao celular. Ele me nota, ergue o queixo em um cumprimento silencioso.
– Dormiu mal? – pergunta sem me encarar diretamente.
Assinto, puxando a cadeira da mesa para me sentar. O chá ainda está quente na caneca ao lado, como se ele tivesse acabado de prepará-lo para mim.
– Pesadelos. – murmuro, e ele solta um suspiro cansado.
– Não é surpresa. Depois do que aconteceu…
– Eu sei. – corto, antes que ele continue. Não quero repassar tudo logo cedo. Só quero silêncio. E chá.
Nick me observa por alguns segundos. Há algo no seu olhar que mistura cuidado com frustração. Ele quer fazer mais, mas não sabe como. E talvez nem possa.
– Liguei pra Emy. – diz por fim. – Ela ficou preocupada, mas entendeu. Disse que vai dar um jeito de te encontrar durante a semana, se você quiser.
Eu apenas balanço a cabeça. Ainda não sei o que quero. Talvez nada. Talvez fugir.
– Obrigada por me deixar ficar. – falo, olhando para a janela, onde a chuva começa a marcar o vidro com suas linhas tortas.
– Você é minha irmã, Clary. – responde, como se isso fosse resposta suficiente para tudo.
E talvez seja.
Por um tempo, ficamos em silêncio. Nick termina seu café, ajeita a gravata diante do espelho da sala e se despede com um aceno. A porta bate suavemente, e eu me vejo sozinha no apartamento. Comigo mesma. Com a lembrança do corpo do gato. Com os gritos do meu pai. Com as mensagens de Lockwood queimando na tela do celular que ainda evito desbloquear.
Mas, claro, não resisto.
Pego o telefone. Uma nova notificação. Uma só palavra:
“Clary.”
Nada mais.
Simples. Direta. E ainda assim, carregada de tudo.
Encosto o aparelho sobre a mesa e respiro fundo, tentando conter a vontade insana de responder. De pedir explicações. De entender o que, no fundo, eu já sei que não tem explicação. Lockwood é um vício do qual eu ainda não consegui me desintoxicar. Uma ferida que se abre cada vez que tento ignorá-lo. E, no entanto, aqui estou eu. Sangrando por dentro. Em silêncio.
Fecho os olhos e apoio a cabeça sobre os braços cruzados. A cidade respira do lado de fora, mas dentro de mim, tudo parece suspenso. Um compasso de espera. Um fio prestes a romper.
Não sei o que vem depois.
Só sei que ele vai me encontrar.
E, quando isso acontecer, nada mais será igual.
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