Vizinhos

18 Lockwood


“But thy eternal summer shall not fade

Nor lose possession of that fair thou owest;

Nor shall Death brag thou wander’st in his shade…”

— Sonnet XVIII, William Shakespeare.


Thy eternal summer shall not fade… — como poderia, se ela carrega nos olhos o ouro que até o sol inveja? O tempo não toca Clarissa.

Mas eu? Eu sou feito de estações que morrem. Sou inverno tentando repousar num corpo que arde.


CAPÍTULO XVII

Lockwood


Eu não estava em casa quando ela viu tudo.

Quando cheguei do hospital, com a mente cansada e o corpo implorando por um mínimo de alívio, tudo que eu queria — tudo que me mantinha em pé — era a esperança de encontrá-la ali. Talvez sentada na poltrona que ela gostava, ou deitada na minha cama, com aquele livro antigo nas mãos e as pernas nuas cruzadas de um jeito displicente. Talvez com aquele olhar curioso, desconfiado, mas sempre presente. Esperando por mim.

Mas não.

A casa estava vazia.

O computador no canto da escrivaninha piscava como um aviso. A tela iluminava o escuro do quarto como se me mostrasse, sem pudor algum, aquilo que eu havia tentado esconder por tanto tempo.

Estava tudo ali.

Aberto.

Escancarado.

Exposto.

Eu soube na hora. Nem precisei procurar por muito.

Clarissa havia descoberto.

De algum jeito, ela descobriu.

E o mais devastador foi o modo como ela deixou tudo: não trancou, não escondeu, não destruiu nada. Apenas… saiu. Como se dissesse, sem palavras, que já tinha visto o suficiente. Que não precisava de explicações.

Nem uma mensagem.

Nem um bilhete.

Nada.

A ausência de um simples “por quê?” foi o que mais doeu.

Porque isso não era só fuga. Era decisão.

Ela não me deu espaço para explicar, nem a chance de mentir. E, pior: nem a chance de dizer a verdade. Quando percebi o que havia acontecido, já era tarde. A porta estava fechada. O vazio, instalado.

E o silêncio…

O silêncio começou a se enraizar dentro de mim como uma doença.

Tentei ligar.

Dezenas de vezes.

Escrevi mensagens que nunca tiveram resposta. Algumas longas, outras desesperadas. Apaguei a maioria antes de enviar. As que mandei… ficaram no vácuo.

Será que ela está apenas tentando evitar o confronto?

Ou será que… já desistiu de mim?

O jeito como deixou o computador, as pastas abertas, como se não tivesse forças nem para confrontar — como se eu já não fosse mais digno de confronto — isso foi o que me destruiu. A falta de palavras. A ausência de uma reação violenta. Eu teria preferido gritos, socos, qualquer coisa. Mas ela escolheu o silêncio. E isso… isso é o que está me matando.

Cada vez que a tela do celular acende, meu coração dispara, como se fosse um reflexo involuntário. Como se houvesse esperança, ainda que mínima, de que ela tivesse mudado de ideia.

Mas não.

Sempre é engano.

Sempre é nada.

E eu fico ali, olhando a tela. O nome dela não aparece. A voz dela não vem. Só a caixa postal, automática, fria, impessoal, me lembrando que ela se foi. Que talvez nunca volte.

Eu tento me controlar, tento não surtar de vez, mas não consigo. Ando de um lado para o outro, sem saber o que fazer com as mãos, com os pensamentos. Eles vão e voltam, me atormentando, trazendo as piores possibilidades. Fecho os olhos, mas as imagens dela — dos nossos momentos — invadem minha mente e, ao mesmo tempo, me corroem por dentro. O cheiro dela ainda está nos meus lençóis, as lembranças da madrugada juntos, os seus suspiros de prazer…

E se ela nunca mais quiser me ver?

O silêncio da casa é ensurdecedor. O relógio, antes tão monótono, agora é uma tortura. Tenho vontade de arrancá-lo da parede e arremessá-lo longe. Cada segundo parece mais longo que o anterior. Já não sei se estou enlouquecendo ou apenas esperando por algo que não vai acontecer.

O tempo passa e eu continuo esperando uma chance — qualquer mínima oportunidade — para poder olhar nos olhos de Clary e, mesmo que fosse apenas para pedir perdão, para explicar o que realmente aconteceu, já valeria a pena.

Mas nada.

A cada dia sem resposta, sem o som da sua voz, a sensação de que a perdi de vez só se intensifica.

Ela não vai voltar.

Eu sei disso. E é isso que mais dói.

Estou vivendo um pesadelo.

Aaron também simplesmente desapareceu, e eu tenho medo de procurar. Medo de encontrar algo que não quero ver. Por mais que eu tente me convencer de que está tudo bem, eu sei que não está. E isso me destrói, porque sei que ele pode estar por aí, em algum lugar, fazendo algo que eu não consigo controlar — algo que não posso evitar.

Puta que pariu.

Tudo o que eu tentei impedir até agora está, de fato, se tornando realidade.

Da última vez que liguei, o psiquiatra de Aaron disse que ele havia deixado de comparecer às consultas. Isso me deixou em um estado de pânico ainda maior. Como ele pôde abandonar o tratamento, quando ambos sabemos que ele precisa de ajuda para não fazer merda?

Aaron tem esses momentos de delírio, de não entender direito o que está fazendo. E, nessas horas, ele pode se tornar imprevisível.

E tenho quase certeza de que o gato de Clary foi um aviso. Não pode ter sido coincidência. Acho que subestimei a inteligência do meu irmão, e ele resolveu brincar comigo… descontar de alguma forma.

Sinto que ele está me testando, me desafiando. Talvez esteja jogando um jogo que eu ainda não consegui entender. Me pego pensando nas coisas estranhas que tem acontecido — como se ele estivesse me observando de longe ou, pior, me manipulando.

Já não sei mais se estou fazendo o suficiente. Se devo ir atrás de Aaron ou se é melhor esperar que ele venha até mim. Eu não sei o que esperar. Não sei onde ele está. Não sei o que está pensando.

Esses dias parecem intermináveis.

Apesar de estar cercado de pessoas que precisam da minha atenção, a verdade é que só consigo pensar nos meus próprios problemas. Minha mente, que deveria estar focada em ajudar meus pacientes, não para de voltar para tudo o que está acontecendo comigo fora do hospital. E, cada vez mais, parece um esforço impossível separar uma coisa da outra.

Ao entrar no quarto do próximo paciente do dia, empurro a porta devagar, sem fazer barulho. Michael está sentado no chão, encostado na parede, os joelhos dobrados, os olhos fixos em algum ponto do nada. Não levanta a cabeça quando entro. Ele já sabe que sou eu. Sempre sabe.

Fecho a porta atrás de mim e me sento no chão também, a poucos passos dele. Ficar de pé nesses momentos parece um gesto autoritário, e eu detesto a sensação de ser mais alto do que alguém que já está afundado demais.

— Te procurei ontem — digo, num tom tranquilo, como se estivéssemos apenas retomando uma conversa comum. — Você não apareceu.

Michael não responde. Pisca devagar. Os ombros dele parecem mais pesados do que deviam ser.

— Você não precisa falar nada — continuo. — Só queria te ouvir respirar por alguns minutos. É suficiente.

Ele finalmente vira o rosto na minha direção. Os olhos estão vermelhos.

— Respirar não é o mesmo que estar vivo.

Sinto o peso da frase se espalhar no peito. Ele está certo, claro. E o que me assusta é saber o quanto eu mesmo já pensei isso.

— Não é — concordo. — Mas, às vezes, respirar é o que a gente faz quando não sabe como continuar vivendo.

Ele me observa por um tempo.

— É isso que você está fazendo?

Demoro a responder. A pergunta é simples, mas me atravessa de um jeito que ele não tem como entender completamente.

— Talvez. — Olho para as próprias mãos. — Ou talvez eu só esteja tentando evitar que alguém cometa os mesmos erros que eu.

— Você se arrepende?

Essa, eu não esperava. Pisco, devagar, como se isso me desse tempo.

— De algumas coisas, sim. De outras… não sei. Tem partes da minha história que me parecem justas, mesmo quando machucaram. Outras, eu daria tudo pra voltar e desfazer.

Michael abaixa os olhos. Por um momento, ele parece mais novo. Mais humano.

— Você tem alguém lá fora?

O silêncio volta, mas agora ele não incomoda. Penso em Clary. No som da respiração dela quando dormia. No jeito como ela segurou meu rosto como se quisesse decifrar quem eu era por dentro. Penso em tudo que perdi. Ou que ainda posso perder.

— Tenho — respondo. — Mas ela não sabe se pode confiar em mim. E eu também não sei se posso prometer que vou merecer isso.

Michael respira fundo, o som curto, instável.

— Então por que ainda tenta?

— Porque… quando a gente ama alguém de verdade, tenta. Mesmo quando não sabe como.

Ele fecha os olhos, encosta a cabeça na parede.

— Às vezes, eu acho que amar é só uma forma mais bonita de se destruir.

Eu sorrio de leve, sem humor.

— Talvez seja. Mas também pode ser a única coisa que nos impede de desabar de vez.

Por um momento, ficamos os dois em silêncio. Duas presenças quebradas, tentando encontrar algo que faça sentido. Eu não vim aqui só por ele. Nunca venho.

Vim porque, de alguma maneira, escutar Michael me faz lembrar quem eu era — e quem ainda posso tentar ser.

Michael não diz mais nada por um tempo, mas também não me expulsa. E isso, pra mim, já é um sinal. O primeiro passo, às vezes, é só aguentar alguém por perto.

Ficamos sentindo o tic-tac distante do relógio na enfermaria. Acho que foi isso que aprendi cedo demais: a maioria das pessoas não precisa de respostas — só de alguém que não vá embora quando tudo parece sem sentido.

— Você sempre foi assim? — ele pergunta de repente. A voz é baixa, quase engolida pelas paredes. — Sempre… calmo?

Sorrio, encarando o chão.

— Não. Nem um pouco, na verdade.

Ele franze a testa.

— Então por que escolheu isso? Ficar ouvindo os problemas dos outros, carregar a bagunça de todo mundo?

A pergunta me acerta num lugar que nem sempre gosto de visitar.

— Porque eu cresci ao lado de alguém que ninguém soube escutar. — As palavras saem mais fáceis do que eu esperava. — E eu jurei que, se um dia tivesse escolha, faria diferente.

Michael me observa com mais atenção agora. Como se, pela primeira vez, ele também estivesse tentando me entender.

— Você fala do seu irmão?

Demoro a responder, mas não desvio o olhar.

— Sim. Ele era o mais inteligente, o mais sensível. Mas era como se tudo nele fosse… alto demais. Intenso demais. E ninguém sabia o que fazer com aquilo. Nem eu.

— Você se culpa?

Solto o ar pela boca.

— Todos os dias.

Michael vira o rosto de volta para a parede. O silêncio agora é mais espesso, mas não desconfortável. A culpa, o arrependimento, o medo — tudo isso é uma língua que ele também entende.

— A psiquiatria não me salvou”, digo, mais pra mim do que pra ele. — Mas me deu alguma coisa pra fazer com a dor. Me deu uma função. Um lugar onde eu pudesse transformar em cuidado aquilo que quase virou ruína.

Michael me olha de novo.

— E funciona?

Sorrio, com um cansaço manso nos olhos.

— Alguns dias, sim. Outros, eu só tento não afundar junto.

Ele encosta a cabeça no joelho e fecha os olhos. Não diz mais nada. Mas sei que me ouviu. E sei que, em algum lugar dentro dele, algo se deslocou.

Me levanto devagar, sem pressa. Não há nada que eu possa forçar. Nada que eu queira forçar.

— Te vejo em breve, meu amigo. — Antes de sair, paro na porta. Olho mais uma vez para ele. — Você não está sozinho, Michael. Nem mesmo nos piores dias.

Quando fecho a porta atrás de mim, o corredor parece menos frio.

E eu também.

O turno acaba. Por um instante, fico parado no corredor vazio, os olhos fixos na madeira pálida da porta. É estranho o silêncio depois de tanto barulho — vozes, alarmes, passos, delírios. Agora só resta o som da minha respiração.

Eu deveria ir embora. Tomar um café. Dormir. Fazer qualquer coisa que médicos normais fariam depois de doze horas de plantão. Mas meu corpo não se move. Meus pés parecem presos ao chão. Minha cabeça ainda está com Michael… ou talvez nem seja ele. Talvez eu esteja preso em mim.

Caminho pelos corredores vazios até a sala dos médicos. A luz está baixa. Jogo meu jaleco na cadeira e afundo na poltrona, exausto. Passo as mãos pelo rosto. Sinto o cansaço entre os dedos, acumulado nos ossos.

Fico pensando em tudo que Michael disse. E no que ele me falou um dia sobre o peso de se importar. Sobre como, às vezes, a gente finge que está tudo bem só pra não desmontar. Ele tem razão. E eu também finjo. Faço isso todos os dias. Com meus pacientes. Com meu irmão. Com ela.

Clary.

Não digo o nome dela em voz alta, mas ele vibra no fundo da garganta como um sussurro fantasma. Clary. Sempre ela. Sempre o rosto dela no limite da minha visão, como uma febre que não passa. Às vezes acho que me tornei médico tentando compensar algo que nunca consegui evitar. Outras, penso que escolhi psiquiatria porque a minha própria cabeça sempre foi barulhenta demais, e era mais fácil mergulhar na dos outros.

O sofrimento humano tem cheiro, cor, textura. Mas também tem camadas invisíveis. Pensamentos que ninguém diz. Vontades que machucam. Segredos que deformam. Eu aprendi a escutar o que não é dito. A enxergar o que ninguém quer mostrar. A cuidar das rachaduras que não sangram — mas matam.

Talvez eu tenha me apaixonado por essas rachaduras. Ou talvez eu seja uma.

A verdade é que eu sou melhor nisso do que em qualquer outra coisa. Entender a dor. Conter o caos. Eu sei quando a mente está prestes a desabar. Sei quando o silêncio é mais perigoso do que o grito. Sei como guiar alguém para fora do escuro.

Só não sei como sair do meu.

Porque com ela… não há protocolo. Não há conduta. Não há distância segura. Clary entra e bagunça tudo. E eu deixo. Porque, no fundo, eu quero isso. Eu quero sentir o que não sei nomear. Quero tocar o que não posso ter. Quero que ela me enxergue além da mentira, da fachada, do médico. Mesmo que isso me destrua.

Mesmo que ela vá embora.

Encosto a cabeça no encosto e fecho os olhos. Tento respirar devagar. Contar até dez. Tática de ancoragem. Técnica de sobrevivência.

Mas tudo o que vejo é o olhar dela.

E percebo, com uma dor calma e dilacerante, que entender o abismo dos outros não me salvou do meu.

Meus dedos tocam algo dentro do bolso do jaleco, algo leve e esquecido. Papel.

Puxo devagar. Um pedaço de aquarela dobrado ao meio, amassado nas pontas.

Congelo.

A tinta desbotou um pouco com o tempo — ou talvez com o calor do meu corpo, com o peso dos dias que se repetem — mas a imagem continua ali. Suave. E cruel.

É uma das pinturas de Clary.

A que eu peguei do quarto dela, numa noite em que entrei só para sentir o cheiro que ela deixava no ar. Nem sei por que levei comigo. Impulso, talvez. Um tipo de memória tátil, como alguém que pega um botão de camisa ou um bilhete antigo. Algo pequeno o suficiente para passar despercebido. Mas forte o bastante para doer.

A imagem é de um pássaro. Um pequeno rouxinol, preso em meio a galhos secos. Mas não há sangue. Nem grito. Só olhos abertos, atentos, e a sugestão de que ele poderia voar — mas não voou.

Fico olhando para a aquarela por longos segundos.

Ela pintou isso quando? Antes de mim? Durante? Será que ela já sabia, de alguma forma, o que estava por vir?

Me sento no banco do vestiário, ainda com o jaleco sobre os ombros. O silêncio da sala é denso, cortado apenas pelo barulho de uma gota teimosa em alguma pia mal fechada.

Essa pintura me lembra de por que comecei tudo isso. Por que escolhi a psiquiatria. Não foi para curar os outros. Ou não só. Foi para entender. Para tentar decifrar esses pássaros invisíveis que vivem dentro da gente, batendo as asas contra o que é indizível.

Eu quis entender a dor. A culpa. O silêncio.

Quis entender Aaron.

Quis entender a mim mesmo.

Mas Clary… ela me desmonta. Porque ela é o tipo de dor que não se deixa analisar. Que não se acomoda nos livros. Que não tem diagnóstico. Ela é arte — e arte nunca se deixa fechar em caixas.

Guardo a aquarela de volta, com mais cuidado desta vez. Dobro devagar, como quem fecha um segredo antigo. E percebo, no mesmo instante, que nunca consegui esquecê-la. Que ela continua aqui, debaixo da pele. Pintando meus dias, mesmo que com mãos invisíveis.

Talvez seja por isso que ainda estou tentando.

Talvez seja por isso que ainda não desisti.

Porque eu a desejo mais do que tudo – e é esse desejo que me mantém de pé. Não é só físico. É o desejo de tê-la de volta, de olhar nos olhos dourados dela e dizer a verdade. Pedir desculpas. Explicar tudo — cada erro, cada silêncio, cada escolha maldita. É o desejo de poder ser honesto, de segurá-la nos braços e prometer que, dessa vez, vai ficar tudo bem. Que eu vou protegê-la. Que as coisas vão parar de dar errado. Que eu posso fazê-la feliz.

Por Deus, a única coisa que eu realmente quero é vê-la feliz.

Ouvir aquela risada perfeita. Ver os olhos dela brilharem de novo. Aquela expressão de satisfação tranquila, como quando ela termina um quadro e não precisa dizer mais nada. Eu viveria o resto da minha vida só assistindo isso.

Clary é a coisa mais preciosa que já me aconteceu.

E eu não posso perdê-la.

Por isso, mesmo completamente exausto, decido ir até a universidade.

— Emily! — grito, a voz rasgando o corredor enquanto acelero o passo.

Não estou ali por causa da maldita aula de literatura. Não dou a mínima pro Dolce Stil Novo ou pra qualquer outro renascentista fodido. Sem Clarissa, nada disso faz o menor sentido.

— Não estou autorizada a compartilhar nenhum tipo de informação com você — diz a melhor amiga dela, passando por mim apressada, como se quisesse atravessar a cena sem ser notada.

Estalo a língua. Sinto a irritação subir. Emily parece ter o dom de me tirar do sério. Mas me esforço. Me seguro. Porque eu sei o que preciso. Sei que só ela pode me levar até Clary.

— Só quero saber se ela está bem — rebato, firme, tentando manter o tom sob controle.

Ela nem sequer me olha. Apenas segue, passos rápidos no piso frio, como se a distância entre nós fosse capaz de protegê-la da verdade.

O som dos nossos passos ecoa ao redor, misturado ao farfalhar de páginas e portas que se fecham. O cheiro de café morno e livros antigos me dá náuseas. Tudo aqui me lembra ela. O espaço entre nós me fere.

— Está — Emily responde por fim, o tom impaciente. — Só está precisando espairecer, depois de toda aquela coisa com o Robert.

Ela acena como se quisesse me dispensar.

— Onde? — insisto. — Emily, só quero saber onde ela está…

— Você devia deixá-la em paz.

Ela para. Se vira. Me encara. E pela primeira vez me olha de verdade. O olhar dela me atravessa como um espelho. Não tem raiva ali. Tem medo.

— Eu não sou implicante só por ser — diz, agora mais calma. — Eu conheço a Clary há anos. Ela é minha melhor amiga. Me preocupo com ela. E… eu vejo o quanto vocês dois se gostam. Mesmo que seja de um jeito torto, esquisito, quase bonito — ela pausa, respira fundo — mas não é o suficiente. Não quando tudo isso machuca tanto.

Emily desvia o olhar, visivelmente desconfortável.

— Ela precisa de alguém mais leve. Mais estável. Alguém que traga paz. E você… você só acentua o que há de mais sombrio nela. Porque, no fundo, vocês são iguais. Caóticos. Intensos demais. E é isso que fere.

Eu a escuto. Mesmo que tudo em mim queira gritar contra. Meu maxilar começa a doer de tanto apertar os dentes.

Talvez eu seja mesmo egoísta. Um idiota. Mas isso não muda o que eu sinto. E o que eu sinto… é certeza.

Emily, com toda sua boa intenção, não vai me impedir.

— Onde Clary está? — pergunto mais uma vez, agora me colocando à frente dela, bloqueando o caminho.

— Quer saber? Foda-se — ela solta, com desprezo. — Ela tá em Londres. Na casa do irmão. Agora sai da minha frente e para de me encher o saco.

Londres.

A palavra me acerta como uma pancada no peito.

Nem ouço o que vem depois. Emily se afasta batendo os pés, mas já não importa. Meu corpo gira na direção contrária, automático.

O resto? O resto que se exploda. Os conselhos da Emily. A lógica. A moral. As linhas que não se deve cruzar.

Tudo o que eu sei é que eu preciso vê-la.

Preciso tocar nela. Sentir que ainda é real.

Eu só… preciso de Clary.


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A cidade fede a concreto úmido e fumaça.

O céu, cinza como uma advertência, pesa sobre meus ombros, mas não tanto quanto o nome que martela dentro do meu crânio desde o momento em que Emily abriu a boca. Clarissa está em Londres. Na casa do irmão.

Nicholas.

Cada passo até minha casa é uma descarga elétrica de urgência. Estou exausto — plantão inteiro no hospital, depois mais horas naquele maldito campus tentando arrancar da Emily alguma informação, qualquer pista. E quando ela finalmente cede, quando finalmente diz onde Clary está, sinto algo quebrar por dentro. Um alívio amargo, como se a resposta fosse só o começo do problema. Porque saber onde ela está não é o mesmo que saber como ela está. E eu sinto, com uma certeza que me queima, que algo mais aconteceu.

Quando viro a esquina da nossa rua, meu corpo ainda em modo automático, uma imagem me paralisa.

A senhora Chapman, nossa vizinha.

Ela está parada na calçada, como uma maldita aparição saída de um filme antigo. Casaco marrom puído, as mãos finas cruzadas à frente do corpo, olhos fundos que nunca sorriem. Sempre achei que tinha algo de sinistro naquela mulher — mas agora, ela não parece sinistra. Parece… grave.

— Você precisa ir atrás dela, garoto. — A voz dela sai baixa, como se tivesse medo que alguém escutasse. Ou como se tivesse certeza de que só eu poderia escutar.

Fico em silêncio. Apenas encaro. Porque algo naquela frase me faz congelar. Ela sabe.

— Você precisa ir atrás da menina Clarissa. Ela saiu daqui machucada. O rosto inchado, o braço tremendo. Ela tentava esconder… mas eu vi. Eu sempre vi.

Engulo seco. Meus punhos cerram por reflexo.

— Eu sempre observei aquela menina — continua a velha. — Desde pequena. Tão calada. Tão triste. Às vezes, ficava horas no jardim, sentada no mesmo canto, com os olhos parados como se o tempo tivesse esquecido dela. E ele… o pai dela… sempre com aquele olhar frio. Sempre voltando tarde. Sempre com a voz alta demais.

A Sra. Chapman faz uma pausa. O olhar dela crava no meu, como se estivesse me medindo por dentro. Como se soubesse da raiva que começa a subir, da lembrança que invade como uma avalanche: meu pai, deitado naquele caixão frio. Minha mãe aos prantos ao receber o laudo assinado por ele — o mesmo desgraçado que agora bate em Clary.

Dr. Charles Blackwell.

— Você sabe o que ele faz, não sabe? — A Sra. Chapman sussurra, mais para si do que para mim.

— Sei. Sei tudo. — respondo, a voz saindo mais grave do que deveria.

Ela assente lentamente, como se já esperasse.

A senhora Chapman respira fundo, os olhos fixos em mim com aquela expressão de quem sabe mais do que deveria. Como se conseguisse me ver por dentro.

— Eu achei… — ela começa, devagar, a voz rouca como papel antigo sendo rasgado. — Achei que você fosse uma coisa boa na vida dela. Que, depois de tanto silêncio, depois de tanta dor… a Clarissa finalmente tivesse encontrado um pouco de paz. Um respiro.

Eu fecho os olhos por um segundo. Só um. Mas é tempo suficiente pra tudo me atingir de novo. O rosto dela naquele dia. O corte na bochecha. Os olhos que antes me procuravam e agora me evitam. A voz embargada dizendo que eu não era quem ela pensava.

Merda.

Eu devia ter contado a verdade. Desde o começo.

— Ela sempre foi uma menina tão quieta, tão delicada… Mas não fraca. Nunca fraca — continua a senhora Chapman, me puxando de volta. — Ela só aprendeu a se calar cedo demais. E eu pensei… — ela hesita, o olhar perdido por um instante. — Pensei que você fosse diferente. Que fosse ficar. Que fosse cuidar.

Cuidar.

Essa palavra me destrói. Porque foi isso que eu prometi a mim mesmo — cuidar dela. Mesmo sem merecer. Mesmo quebrado.

E eu falhei.

— Mas você também machucou ela, não foi? — pergunta, sem ironia, sem julgamento. Só uma constatação.

A garganta fecha. Não respondo. Porque o silêncio é a única coisa honesta que tenho agora.

Eu queria dizer que não. Queria dizer que não era minha intenção. Que tudo que fiz foi por ela. Mas seria só mais uma desculpa.

E ela não precisa de desculpas. Precisa de alguém que não a quebre mais.

Engulo seco. Os pulmões queimam.

Tudo em mim grita pra voltar no tempo. Pra refazer cada passo. Pra ter ficado longe no dia em que me aproximei dela pela primeira vez. Eu queria ter feito diferente. Queria não ter mentido. Não ter escondido partes de mim como se ela fosse frágil demais pra aguentar, quando na verdade… era eu quem estava apodrecendo por dentro.

Mas eu não posso voltar.

E o pior de tudo — o que realmente me quebra — é o medo. O medo de ter estragado tudo de vez. De que talvez não haja mais conserto. Porque Clarissa é mais do que uma obsessão, mais do que esse desejo sujo que me arranca do eixo. Ela é o centro. O único lugar onde eu ainda consigo respirar. E se ela não me quiser mais? Se não quiser me ver? Se não suportar olhar pra mim nunca mais?

Eu não sei o que faço.

Porque não tem plano B. Não tem vida depois dela.

Ela é a única coisa que eu já amei, mesmo sem saber amar.

E talvez eu tenha destruído isso..

Eu não digo nada. Só viro as costas, atravesso a rua como um vulto empurro o velho portão de ferro da mansão onde Clary costumava viver. A casa está em silêncio. Portas fechadas. Cortinas puxadas. Mas eu sei que ele está lá. Sei que aquele desgraçado está lá dentro como se nada tivesse acontecido.

Bato a porta com força. Não há tempo para cortesia. Quando o pai de Clarissa abre, com o rosto inexpressivo e o olhar clínico, sinto o sangue ferver.

— O que quer, garoto?

O soco vem antes do meu próximo pensamento. Rápido, direto, com toda a força acumulada de anos. Ele cambaleia para trás, surpreso, mas não grita. Não geme. Só limpa o sangue da boca com as costas da mão e cospe no chão.

Charles tenta se recompor, mas eu o pego pela camisa, empurro contra a parede do hall de entrada. Os quadros balançam. Um vaso cai e estilhaça no chão. Ele tenta reagir, mas é velho. Frio, sim. Perigoso, talvez. Mas já passou da idade de vencer alguém com tanta raiva guardada quanto eu.

— Você pode não saber quem eu sou… — murmuro contra o rosto dele — Mas eu sei exatamente o filho da puta que você é. Eu estudei você. Eu sei cada certificado falso que você assinou. Sei de cada nome enterrado com mentira. Sei o que você fez com meu pai. E agora… agora você continua passando dos limites.

Outro soco. O som da carne contra carne. O pai de Clary escorrega até o chão, mas ainda sorri com desdém.

— Gostaria de dizer que sei quem é o seu pai, garoto. — A voz dele escapa fria, arrastada. Os olhos, azuis e secos como cacos de vidro, me atravessam com aquele desprezo calculado. — Mas ele era, provavelmente, tão insignificante quanto você. Não consigo recordar.

A fúria começa a ferver, mas não deixo transbordar. Em vez disso, rio. Uma risada baixa, sem humor. Ácida como fel.

— É mesmo? — inclino a cabeça, sentindo a tensão estalar nos ossos do pescoço. — Talvez isso te ajude a refrescar a memória — digo, antes de desferir um chute preciso no abdômen dele.

O som que escapa da garganta dele é um gemido abafado, algo entre o orgulho engolido e a dor mal contida. Charles cai, escorregando até o chão frio da sala, os joelhos dobrados como se procurasse ar. Mas não vou deixá-lo encontrar nenhum.

Dou outro chute — mais forte, mais fundo. Bem no estômago. Sinto o impacto reverberar pela sola da bota.

— Não pense que isso é sobre heroísmo — murmuro, ofegante, o coração batendo como um tambor furioso. — Eu não sou o cara que salva ninguém. Eu só cansei de ver você sair impune das suas merdas.

Ele ri. Uma risada rouca, quase sem dentes, suja de sangue e ironia.

— Ela fugiu de você também, não foi?

Minhas mãos se fecham em punhos. Só por um segundo. Um segundo longo o suficiente pra ele ver que acertou.

— Antes ou depois de descobrir que você só estava com ela pra se vingar de mim, garoto?

— Isso não é verdade — disparo, com a voz mais afetada do que gostaria.

Ele cospe sangue no chão. Um filete escuro escorre pelo canto da boca enquanto ele continua sorrindo.

— Boa sorte tentando provar. Ela gostava daquele gato, sabia? Chorou por ele como se fosse da família.

Silêncio. Meu maxilar se contrai.

— Eu não matei o gato — digo, devagar. — E, pra ser bem honesto, eu não me importo com o que você acha que sabe. Na verdade… não é comigo que você tem que se preocupar, doutor.

Ele me encara, com um dos olhos já começando a inchar.

— O meu irmão está por aí — continuo. — E ele não quer justiça. Ele quer vingança. Você arruinou as nossas vidas.

Charles solta um suspiro rascante. Não sei se é dor, deboche ou cansaço. Mas ele não diz nada.

— Eu não vou acabar com você hoje, sabe por quê? Porque eu tô tentando encontrar paz. Mesmo que seja muito difícil não mata-lo de porrada nesse exato momento.

Dou um passo pra trás. A respiração ainda pesada. A visão embaçada de tanta raiva.

— Clarissa… Clary tem um coração melhor que o meu. Melhor que o seu, com certeza. E por mais que ela finja que não se importa, ela se importa. Até mesmo com um merda como você. E eu sei que ela não me perdoaria por isso.

Viro as costas.

— Mas se você encostar nela de novo, Charles… — olho por cima do ombro, a voz firme. — Eu juro que você não sai vivo dessa casa.

E então saio. Sem olhar pra trás. Porque talvez, em algum nível podre dessa história, ele esteja certo. Mas isso não muda o que ele é. Nem o que eu ainda preciso fazer.

Eu vou até Londres.